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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em julho 31, 2007 às

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Leia n'O Indivíduo por que "debate público" é coisa que não existe - nem no Brasil, onde tudo é possível.
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No Estadão de hoje:

Sarkozy na lista dos mais bem vestidos

AFP

O nome do presidente francês Nicolas Sarkozy figura na lista dos homens mais bem vestidos do mundo, pela primeira vez, relação publicada anualmente pela revista Vanity Fair. O jogador de futebol David Beckham e sua mulher Victoria também engrossam a lista que traz nomes de outros casais famosos como Brad Pitt e Angelina Jolie e Ashton Kutcher e Demi Moore. Sarkozy entrou para o ranking da revista sozinho - sua mulher Cecilia não figura entre as mais bem vestidas. Entre as mulheres os destaques ficam para a atriz francesa Charlotte Gainsbourg, e as princesas Alexandra da Grécia e Mafalda de Hesse.

Sorry, periferia:

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Na turbulenta Europa dos anos 40, o escritor Italo Calvino (1923-1985) achava que a realidade era um enredo mal escrito que precisava ser urgentemente mudado – e que a literatura era um instrumento para isso.

Na dúvida entre arte e política, Calvino optou pelas duas, passando a militar tanto nos quadros do Partido Comunista italiano quanto através de livros ëngajados"como Il sentiero dei nidi di ragno (O atalho dos ninhos de aranha, 1947) e Ultimo viene il corvo (Por último vem o corvo, 1949), sua estréia na ficção.

Mas Calvino não demorou muito a descobrir que o mundo não era aquela equação exata que alguns filósofos teimavam em transformar, mais do que em entender.

Para o homem e para o artista, isso representou um ritual da “perda da inocência”: o militante que queria mudar o mundo acabou mudado. Calvino trocou a ingenuidade da política pelas sutilezas do verbo, e seu realismo à italiana pela literatura universal.

Deixou de lado a arrogância de pretender forjar um mundo perfeito, e acabou preferindo a sabedoria de tentar aperfeiçoar a literatura – que é, no fim das contas, parte tão essencial deste pobre mundo.



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Deu na Folha de S. Paulo (assinantes):

FILOSOFIA

Debate no CCBB relaciona David Hume e moda

DA REPORTAGEM LOCAL

"David Hume e o Estilista" é o tema do debate que o Centro Cultural Banco do Brasil (...) promove hoje, às 19h30, com a presença do estilista Jum Nakao e do filósofo Pedro Paulo Pimenta. O evento acontece no cinema e tem mediação do psicólogo e arteterapeuta Claudio Bergamo. Entrada franca.

Aguardemos: "Aristóteles e o rock", "Futebol à luz da mônada de Leibniz"... Como dizia um velho amigo na época do referendo sobre armas de fogo:

"E dá para andar desarmado?!"



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Nunca me canso de repetir esta história exemplar:

Uma noite, numa festa em casa de amigos, discutia-se a escalada da pornografia na internet, e a urgência de se estabelecer “políticas públicas de controle”. Claro que, por questão de princípio, manifestei-me totalmente contra a interferência absurda interferência do Estado em assunto de âmbito particular.

Argumentei que não é justo que as pessoas de bem sejam vigiadas, por causa de “uma meia-dúzia de tarados”. Impacientaram-se comigo, não foram poucos os que me perguntaram, com desdém:

“Mas o que você quer dizer com pessoas de bem? Não acha isso muito vago?...”

* * *

O comentário parece dizer muito sobre nossa época, marcada por altos índices de tecnologia e baixíssimos níveis de consciência moral.

Décadas atrás, quem ousaria demonstrar todo esse espanto diante de uma expressão tão simples, tão clara e tão essencial: “pessoas de bem”?

Hoje, graças à influência diuturna das famigeradas ciências sociais, as pessoas se acostumaram a encarar a moral (essência das pessoas de bem) como um suspeitíssimo “sintoma ideológico”, e a liberdade individual como uma circunstância sujeita, não a padrões de responsabilidade e autodisciplina, mas a vigilâncias e regulamentações públicas.

* * *

Mesmo sem ter um núcleo central gerador, não sendo administrada por ninguém (e sendo apenas um formidável conjunto de redes de computadores interligadas, que utilizam a mesma tecnologia para enviar e receber informações), nem assim a internet escapa dos inimigos das pessoas de bem e da liberdade.

Segundo a agência Reuters, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) apresentou estudos denunciando a censura crescente à rede em países como Cazaquistão e na Geórgia, e "apontou para conclusões semelhantes com respeito a países como China, Irã, Sudão e Belarus".


* * *

A liberdade sempre teve (graças a Deus!) grandes admiradores. Mas também conta com uma vasta legião de inimigos. De Platão a Karl Marx, do Iluminismo a Durkheim, muitos pensadores se dedicaram a imaginar a sociedade perfeita, com base na fórmula obsessiva: o sacrifício da esfera individual, em nome de um suposto bem-estar coletivo.

Hoje essa luta estende seus tentáculos até a web, ameaçando transformá-la numa nova trincheira. Logo ela, que nasceu sob o signo da liberdade e da mais completa desregulamentação.

* * *

Em geral, modelos de “gestão” (leia-se: de censura) são muito mais nocivos do que a qualquer pornografia – à qual, aliás, só tem acesso quem quer.

Para dar conta de tantos inimigos, a liberdade conta apenas com um guardião: o exército-de-um-homem-só de cada pessoa de bem. Só ela
pode ajudar a defender a liberdade – a sua e a do próximo.

* * *

O resto é silêncio – ou conversa-fiada de festa.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em julho 30, 2007 às

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"Qualquer filosofia ou teoria científica que se arrogue o direito de mudar de significado quando bem lhe interesse adquire o delicioso privilégio de não poder ser jamais contraditada pelos fatos. Que uma parcela significativa da classe intelectual e de seus acólitos na mídia se dedique à produção dessas transmutações, é a prova incontestável de que a 'cultura superior' está se transformando cada vez mais numa modalidade socialmente aceita de crime organizado."

Olavo de Carvalho, no Diário do Comércio
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Faz tempo que não (re)vejo um filme de Ingmar Bergman, o sueco nascido em 1918 e morto nesta segunda-feira.

Certamente, vou aproveitar a incontornável efeméride para rever alguns.

Por sinal, nem de longe mereço ser incluído entre os que realmente conhecem - no sentido pleno da palavra - sua obra tão extensa quanto (dizem) desigual.

Mas guardo ainda a memória viva da experiência de assistir a, pelo menos, quatro obras-primas suas: O sétimo selo, Morangos silvestres, Persona e Fanny e Alexander. Foram momentos de fruição, mais do que estética, espiritual. Cada um desses filmes expressa aqueles três atributos que os grandes filósofos consideram indispensáveis a tudo quanto existe: exatidão, verdade e beleza.

Bergman andava meio fora de moda por aqui, sobretudo entre as gerações acostumadas ao blockbuster do cinemão internacional e ao miserê do cineminha brasileiro.

Mas seu legado continua circulando não apenas em locadoras de DVDs, mas principalmente na obra de um de seus "herdeiros" ilustres, não por acaso um dos melhores cineastas em atividade: Woody Allen (que já o "citou" em imagens e enredos tantas vezes).

Maiores detalhes (datas, depoimentos, filmografia), com os redatores de obituários. Por mim, em vez dos gritos e sussuros de praxe, acho que Bergman merece principalmente, num mundo tão barulhento, um minuto do mais límpido silêncio - como nos tempos áureos do cinema mudo.



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"Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranqüilidade da força. Nenhum gesto seu revelava o amor-próprio geralmente inseparável das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razão de harmonia e de ordem nas coisas terrestres. Enfear as suas graças parecia-lhe um crime; tirar orgulho delas, frivolidade."

Machado de Assis, sempre.
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Do sempre arguto Nelson Ascher, hoje na Folha de S. Paulo (assinantes):

"O vínculo entre intenção, concepção e resultado que até um vaso grego do período arcaico ou a escrivaninha de um aristocrata francês do século 18 exibem é o que reassegura aos freqüentadores de museus que o que chamamos de civilização não é conseqüência nem do acaso, nem da magia negra, mas, sim, de inteligência, talento e suor. E há, para completar ou coroar essa experiência ou constatação, a dimensão temporal. A perspectiva criada pela justaposição de obras e objetos provenientes de distintas culturas e épocas é o que, inconscientemente, às vezes, permite que nos situemos em relação a tudo que nos cerca. A profundidade resultante não é uma ilusão de ótica, mas a autêntica materialização epifânica da história viva que somos."
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A história da Humanidade tem sido marcada pela luta permanente da mentalidade coletivista contra a existência individual.

Desde os gregos, somos chamados de “animais políticos”. E, desde pelo menos o complexado Rousseau e o malicioso Durkheim, vem-se tentando reduzir o homem a um fruto amargo da realidade circundante, matriz de nossos méritos, raiz de nossos pecados.

Quando elegeu a própria História como Sujeito do mundo e condenou os sujeitos de carne-e-osso a serem meras abstrações, Hegel não fez mais do que somar outro tijolo a essa edificação já em curso.

Depois, um outro alemão, com a barba cheirando a charuto barato e ressentimento, pôs a viga-mestra.

(E a minha garrucha, Tia Anastácia?! Traz de uma vez!)



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Ao contrário do que se pensa vulgarmente, Humanismo não significa a valorização generosa do indivíduo, mas o seu fechamento dentro de um horizonte histórico sem transcendência.

* * *

A perspectiva humanista, longe de qualquer efetiva generosidade, como em geral se supõe, considera o homem e outros objetos terrenos inteiramente em si mesmos, como se nada houvesse por trás - e acima - deles.

* * *

Na civilização humanista, reino da Ciência e da Quantidade, as artes passaram a ser ditadas pela perspectiva limitada do homem, e não mais por suas autoridades espirituais – como antes acontecia, por exemplo, com o canto gregoriano, o antigo teatro grego, o teatro Nô japonês e a poesia de Dante Alighieri.

* * *

Se uma pintura como a do Renascimento, digamos, padece da falta de transcendência (por mais que seus pintores copiem Madonas e Santas Ceias), é justamente porque sua perspectiva é... humanista.



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Nada mata mais um escritor do que reduzi-lo a representante de uma época, uma escola literária, um país.

Depois de ter escolhido a morte voluntária (vulgo suicídio) aos 42 anos, o italiano Cesare Pavese (1908-1950) continuou sendo assassinado à revelia por leitores e críticos – que insistem em vê-lo apenas como um representante da literatura européia do entreguerras (e, mais tarde, do pós-guerra), ou como exemplo de arte com preocupações sociais.

Militante do PCI a partir de 1945, e autor de uns tantos romances de indiscutíveis intenções sociais, Pavese era tudo isso, sem dúvida. Mas também era muito mais do que isso. Ou, pelo menos, poderia ter sido, se não tivesse se enredado na própria armadilha ou provado, tão precocemente, do mesmo veneno que ajudou a destilar.

Em princípio, qualquer vida é irredutível às circunstâncias em que se desenvolve. Mas alguns (fracos e delicados) acabam sucumbindo a ela. Foi o caso de Pavese: filho das colinas brutas do Baixo Piemonte, couberam-lhe (como costuma acontecer aos homens) tempos difíceis para viver. Uma Europa arrasada por duas grandes Guerras e – desgraça maior! – excessivamente politizada.

Aos desafios da política, Pavese respondeu com um interesse pelo destino do homem comum italiano, e com o engajamento consciente numa geração de intelectuais em que brilharam também nomes como Alberto Moravia, Carlo Emilio Gadda e Primo Levi.

Em 27 de agosto de 1950, Pavese acabou saindo da vida para se instalar definitivamente na incompreensão reducionista da posteridade.
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Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em julho 29, 2007 às

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De uma vez por todas: comentários ofensivos e maliciosos não serão publicados. O que eu escrevi no post inaugural continua valendo:

Aceitam-se: provocações, críticas, contribuições e até comentários.

Exatamente. Mas ofensas, não.

Afinal de contas, aqui nesta birosca, simples mas limpinha, quem manda sou eu!



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E a feiúra? Seria por acaso a burrice das mulheres?
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"Mas o que não é banal debaixo do sol, desde o amor até o empréstimo?"

Machado de Assis, o Bruxo.
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Quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1976, o escritor Saul Bellow (1915-2005) deixou a Academia Sueca perplexa, ao dizer que uma distinção como aquela servia apenas para colocá-lo na desconfortável posição de servidor público dessa entidade grandiloqüente e suspeita: a cultura mundial.

Para alguém que se manteve fiel à idéia de consciência individual até o fim, na defesa dos valores mais elevados, não poderia haver pior “castigo”.

Certa vez, um repórter perguntou a Bellow como ele se sentia “como judeu”. O escritor ironizou: isso era o mesmo que perguntar a um peixe como ele se sentia em relação à água! Bellow habitava o judaísmo com essa natural intimidade, sem nenhum proselitismo. E, se cantou repetidamente sua aldeia (Chicago), foi para se manter fiel à lição de Tolstoi e atingir assim a universalidade.

Quem tiver olhos de ler, leia.



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Sem a edição dominical d'O Globo, (ver post abaixo), também poderíamos tomar café em paz, sem sustos assim:


Um verdadeiro tesouro literário foi encontrado no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos: uma coleção com cerca de 500 poemas inéditos, meio milhão de cartas, fotos e documentos desconhecidos da poetisa chilena Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura de 1945.

Que os mortos (sobretudo os poetas menores!) descansem em paz, please! Prometo fazer a minha parte: parar de ler jornal aos domingos...
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Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Durante as primeiras cinco décadas, O Globo não circulava aos domingos - coisa que só passou a fazer, e com estardalhaço, no começo da década de 1970, quando o jornal já era um cinqüentão meio sisudo.

Nossos domingos nunca mais foram os mesmos. Para bem e para mal - o leitor escolhe...

A edição de hoje, por exemplo, pode provocar frêmitos de susto nos mais sensíveis. A começar pela matéria de capa do Segundo Caderno: o lançamento de um livro e um filme em homenagem aos 70 anos da União Nacional dos Estudantes é pretexto, mais uma vez, para se fazer a apologia da revolução socialista. Desta vez, os moleques do calcanhar sujo aparecem como heróis de proa:

No livro "Memórias estudantis 1937-2007"(...) a historiadora Maria Paula de Araújo examina 70 anos de militância e revê o papel dos estudantes. - Quando se fala em história política, ainda se privilegiam sindicatos, partidos, imprensa, eleições, organizações de esquerda, associações políticas (...). Os estudantes aparecem como coadjuvantes. O livro faz uma inversão e joga o foco nos jovens, que passam a ser os atores principais da narrativa.

Relembrando a recente baderna orquestrada promovida na USP, a gente se vê tentado a lamentar: bons tempos em que os jornais eram mais críticos, e O Globo não circulava aos domingos!
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Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em julho 28, 2007 às

A beleza é a inteligência das mulheres:

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A inteligência é a beleza dos homens:

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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Mais um sinal dos tempos? Pois não:

O melhor livro de crônicas do Brasil nos últimos tempos foi escrito e editado em Portugal.

Trata-se de Avenida Paulista, do jornalista e escritor português João Pereira Coutinho, reunindo os textos que ele publica regularmente na Folha de S. Paulo.

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Um pouco de tudo, em textos curtos e divinamente certeiros. Não dá para perder. Você vai chorar de inveja e repetir a já velha pergunta: "Cadê nossos grandes cronistas de antanho?!".
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Ainda sobre o fenômeno Harry Potter:

Vendo meu proverbial desprezo por esta literatura estratosfericamente pequena, amigos se apressam em dizer: "Mas se tanta gente está lendo! Alguma coisa de bom deve ter!".

Eis a questão!

* * *

A razão estatística - que reina absoluta nas votações e dá suporte às democracias - não tem muita validade fora do terreno da política. Nem a Verdade nem as grandes Virtudes, por exemplo, dependem da opinião das “maiorias”.

* * *

Mas se a distorção acontece às vezes até nas cabeças mais esclarecidas, é porque a Ditadura do Consenso já se instalou – em nome da suposta autoridade dos números.

A “golpes de maioria” (a expressão, uma delícia!, é de Rui Barbosa), a tirania se apresenta como Liberdade, e a insanidade como Razão.

* * *

(Será que eles não estão percebendo isto, Tia Anastácia?!!)

* * *

Isso diz muito sobre nosso tempo. Em épocas normais, dizia Aldous Huxley, nenhum indivíduo sadio pode admitir a idéia de que os homens são iguais.
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Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Ninguém é livre se é escravo de seu corpo."

Sêneca (4 a.C-65 d.C), o estóico.
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Tuberculoso, filho de família pequeno-burguesa de incerta nacionalidade germano-tcheca, funcionário modesto, judeu, Franz Kafka (1883-1924) conheceu de perto o impasse e a derrota – mas extraordinariamente as compensou, urdindo em palavras e imagens uma obra feita de grandes obras-primas e um pequeno personagem: ele próprio.

Do grande mistério construído minuciosamente em torno de Kafka, um dos aspectos sem dúvida mais misteriosos é seu papel de paradigma (e fundador) de uma modernidade com a qual ele se identificava tão pouco.

Numa época – a nossa – marcada pela herança romântica da dissolução da Arte na vida e pelo coletivismo triunfante, o grande escritor tcheco nos legou uma obra que, no fim das contas, é um ato de fé na superioridade do indivíduo, engendrado num magnífico (ainda que sombrio) edifício de palavras.

E – anacronismo dos anacronismos – nestes tempos marcados pelo “desencantamento do mundo”, Kafka escrevia como quem rezava.
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Mais terrível ainda do que renegar o passado em nome da mudança (pretensão das vanguardas artísticas) é o empenho de nossos contemporâneos em reescrevê-lo. O socialismo volta a cena, apontando para um horizonte de esperanças... como se nada houvesse acontecido!

* * *

Desde que Nietzsche, delirante e romântico, tratou de passar uma borracha na realidade – “Não há fatos, só interpretações”, diz seu célebre aforismo –, o que não falta é gente tentando distorcer o acontecido em favor do apenas desejado.

* * *

Essa cruzada voluntarista, mais do que um brinquedo perigoso nas mãos de historiadores, pesquisadores, políticos e demais aprendizes de revolucionários, já invadiu também o terreno da Literatura, que por sinal sempre prescindiu dos fatos.

* * *

É só conferir nas livrarias: cada vez mais, as questões metafísicas e estéticas que sempre tiveram na arte seu habitat ideal vão cedendo terreno ao imediatismo das “questões político-sociais”. Nossa Literatura põe a máscara do denuncismo naturalista e os escritores vão se tornando intelectuais preguiçosos, ressentidos e “colecionadores de injustiças”.

* * *

Cada vez se produzem mais panfletos e menos obras literárias. E, a pretexto de se “dar voz aos excluídos”, eleva-se à condição de Literatura o discurso de rappers e funkeiros, malandros e contraventores da periferia das grandes cidades.

* * *

O território antes livre da criação literária ganha assim uma geografia delimitada – quer dizer, limitada –, enquanto a Arte vai virando literalmente um caso de polícia.



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em julho 27, 2007 às

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Incrível a maneira leviana com que as pessoas confundem opinião com fato concreto, quase sempre em detrimento do segundo. Saber esta diferença é um dos pressupostos mais elementares da lógica. "Está chovendo" é um fato; "Não gosto da chuva!" é uma opinião. Simples assim.

* * *

A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do badalado romance Um defeito de cor, parece ter faltado a esta aula: promovendo seu livro, que gira em torno da surrada questão do "racismo no Brasil", sai-se com a seguinte pérola de ressentimento em entrevista ao Estadão: “O homem cordial de Buarque de Holanda nunca existiu, é uma desculpa para o racismo velado”.

* * *

Quem conhece a famosa tese exposta em Raízes do Brasil sabe que Madame Gonçalves atirou no que não viu tentando acertar no que imagina ter visto: o "homem cordial", cuja existência ela nega, é justamente um dos retratos mais fiéis do Homo Brasiliensis - e, junto com o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, constitui uma das pragas nacionais! Madame Gonçalves, no entanto, acha que o pai da Miúcha estava fazendo um elogio...

Pior: acha que basta ela decretar a não-existência de uma coisa para que a coisa, pluft!, desapareça.

* * *

Com este prontuário de equívocos, as chances de que Um defeito de cor seja bom diminuem a cada minuto...

* * *

O jornalista Bruno Garschagen dá mais detalhes sobre todo este imbroglio em seu blog, cada vez mais afiado.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Somos nós que fazemos nossos amigos e nossos inimigos - mas é Deus quem escolhe nosso vizinho do lado."

G. K. Chesterton, o grande.
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Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Em momentos críticos da nossa História – e o caos aéreo é um deles – o coro de indignados retorna, com sua cantilena acusatória: as empresas dão prioridade ao lucro, não à satisfação do cliente. Além de injustas, todas essas acusações são exemplares, sintomáticas: revelam o absoluto desconhecimento dos mecanismos econômicos, lógicos e éticos do sistema capitalista, também conhecido por “mundo real”.

A idéia de que a busca do lucro, mais do que ilegítima, vai na contramão da oferta de bons produtos e serviços é um triste sintoma de que, no Brasil, o capitalismo “fica-nos curto nas mangas”, pois que se esqueceu de disseminar – além de um punhado de cifras – sua sofisticada cultura.

Parte da culpa cabe aos economistas. Suas elucubrações sumamente numéricas costumam passar ao largo da própria idéia de "cultura" – talvez porque essa idéia não funcione a contento no mecanismo-de-busca da turma, sempre ávida de definições simples e unívocas. (Em miúdos: não serve para ninguém criar um modelo definitivo para o comportamento humano.)

Em vez disso, economistas tratam pessoas concretas (aquelas que fazem e vivem o mundo real, i.e., o capitalismo) como “maximizadores da utilidade racional”, e até por outras equações ainda mais ofensivas. Todo esse abismo só faz disseminar essa visão estreita do capitalismo como mero... “sistema econômico”.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Nos idos de 70, a escola de Frankfurt ditava o prêt-a-porter mental nas faculdades de jornalismo – com destaque para a proverbial discussão sobre a “reprodutibilidade técnica” das obras de arte. Lembro-me de uma colega de turma argumentar, na flor linda e sincera de seus dezoito anos:

“Mas isso não é pirataria, professor?!...”

Olhares impiedosos (inclusive o meu, ai!...) fuzilaram a “burguesa”, enquanto o mestre tratava de corromper a discípula:

“E o que é um mero atentado à propriedade privada diante do fenômeno de levar a Arte para todos?”

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Hoje a pirataria atravanca impune as ruas do planeta, e o último Harry Potter circula por Pequim em cópias vagabundas mas “fiéis ao original” em inglês. ("O livro está vendendo muito bem, especialmente junto a estrangeiros", disse um camelô perto da feira de Xiushui.)

Já a Arte-para-todos deve andar por casa, abandonada e indisposta...



Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em às

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As portas do casarão batiam pela força do vento, ao fundo, e nunca nenhum de nós foi capaz de pensar: Elas batem por mim. Menos, ainda, de supor que um dia, afinal, elas seriam fechadas. O mundo era ainda um amontoado verde e confuso, feito de alguns alqueires de terra e muito trabalho duro. O trabalho era tudo. Até para o pai, que não precisava e (desde a morte da mãe) já nem tinha tanta saúde. Até ele, a seu modo, trabalhava duro, envolvido sempre com leituras, encontros, escritas.

Caminhando naquela manhã, entre Ralf e Lup, ao encontro do pai, eu não via ainda assim tão claro tudo isso. No fundo, não distinguia mais do que dois pontos, e nem tão exatos: o capim mal cortado, e a grande dúvida que nos cortava tanto ou mais do que o arame das cercas. Nossas roupas, simples e honestas, eram fruto da terra, lembrava sempre o pai, como eram da terra também o ensino e o alimento. Então, arrisquei ali, serão também da terra as nossas dúvidas?

É incrível lembrar que, mesmo com tantas coisas vivas ao redor, viver era então para nós pouco mais do que um punhado de palavras escrupulosamente estáticas, aprendidas, e com elas nossa infância fazia força para traduzir a realidade do mundo. Pouco acertávamos, claro, mas contávamos também com o auxílio generoso dos números. Graças a eles, sabíamos quase tudo, mas, acima de tudo, que éramos três (Ralf, Lup e eu), e que o par e o ímpar se alternavam sempre, naquela confusão de igualdades e diferenças de que o mundo era feito. Números trazem conforto, afinal. Conhecedor dos números, àquela altura, e de alguns fiapos de afeto, sentia-me então seguro de estar regularmente ali, de estarmos os três ali, sempre: Ralf, Lup e eu. E feliz, também, destilando a certeza de que pouco importaria a ordem em que outros nos enumerassem: fosse Lup, Ralf e eu, ou mesmo eu, Ralf e Lup, nada (quase nada) mudaria no nosso pequeno reino, hoje para sempre perdido.

Com as palavras, era diferente. Talvez agora, quando tudo no mundo se inclina para a indiferença e a igualdade, pareça mais fácil narrar o episódio – mas como custava, naquele tempo! Nomear o que nossa astúcia mirim precisava intuir, mais do que ver, foi sempre tarefa para deuses, não para garotos comuns. Exemplo? Aquela questão básica e sem fim a respeito da verdade.

A primeira vez que li a maldita palavra, aliás, foi apontando-a para o pai como um erro, impresso em garrafais na capa de um livro. Alguém pôs uma sílaba a mais no meio de 'verde', eu disse, conhecedor precoce das cores, senhor do verde ao redor, para receber então do pai a lição de que o sentimento ligado àquele nome valia muito mais do que o nome em si, e sua defesa pelos homens livres valia ainda mais do que o sentimento...

A Verdade é bela e perigosa, dizia o pai, acentuando a maiúscula, e então no meu Panteão particular, onde eu ia amontoando os seres de abstração que ele por dever me ensinava, ergui para o nome aprendido a mais bonita e sensual das estátuas. Nesse dia, a inocência se foi mais um pouco, em dose maior que a habitual, e sobretudo mais cedo, para os meus pequenos anos. Desde esse dia, a verdade vem sendo para mim, entre as virtudes maiores, a mais fêmea, com manhas e segredos. Desde esse dia, nunca mais fui o mesmo, em especial naquela manhã de vento, caminhando em busca do pai, rumo ao casarão.

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Ouvíamos as portas batendo e se aproximando de nós, embora a bem da sinistra (quer dizer, da Verdade) nós é que nos aproximávamos, mais e mais, do velho casarão. Ah, o tormento, naquele tempo como agora, de medir, azeitar e até maquiar as palavras – em nome dela, sempre, a palavra mais severa. Mas não pretendo impressionar ninguém fazendo crer que eu tinha, na época, tanta lucidez assim, e menos ainda que a tenho agora. Na época, tudo se passava entre alqueires de verde, puxões de orelha, suores noturnos, garranchos em cadernos pautados. Um casarão resistindo ao vento, e nós (Ralf, Lup e eu) tendo que resistir à tentação de fechar os olhos, mudar o sentido do mundo – numa palavra: mentir.

Que metro haverá de medir a distância entre a opinião e a mentira, entre a verdade e o fato? Certo é aquilo que coincide com a realidade, ou tudo nasce apenas da força de uma aspiração pessoal que se impõe, mais poderosa do que as outras? Não são perguntas de um trio de garotos, claro: são as de um homem que um dia (hoje) se lembraria delas, muitos anos mais tarde. Naquela manhã, em busca dos conselhos do pai, as dúvidas se resumiam a uma pergunta mal feita e a um fato gerado às custas de um jogo infantil, horas antes. Deitados no chão, os olhos atentos vasculhando as chances do céu, brincávamos de ver repetidas nas nuvens as formas simples que o mundo real produzia.

Hoje, qual de nós se arriscaria a dizer que o mundo é real? Naquelas manhãs de verde e azul, no entanto, o céu nos dava de presente a verdade quase exata de um cão, um carro de bois, dois perfis de mulher, um casal se abraçando. Ganhava o jogo aquele que, às custas de rapidez e da voz mais alta, apontasse primeiro um contorno preciso, visível aos olhos de todos. Mas um dia o brinquedo cedeu lugar ao pesadelo (quer dizer, a todo o resto) quando Lup apontou na matéria incerta lá no alto um carneiro que nem eu nem Ralf éramos capazes de enxergar.

Como não enxergam?!, indignava-se o caçula, e havia sincera verdade na voz: Como?! Vejam, ali. É um carneiro!! Deveria ser, ou por certo era, de fato. Mas o fato é que o ovino se negava a ser visto, ou talvez não estivéssemos investindo, dessa vez, o empenho de sempre. Brigamos, pela primeira vez naquele jogo, e a dúvida se fez desconfiança, na nossa imaginação inocente. O que era certo, afinal: aquilo que coincide com a realidade, ou o que nasce de um esforço pessoal mais forte do que o dos outros? Hoje, quando são outras as perguntas, e bem mais terríveis as respostas, sei que nada disso importa – mas naquela manhã a urgência da questão era o que nos movia, aflitos, na direção do casarão, cujas portas batiam e batiam, com a força do vento.

Havia um movimento inédito na sala da frente, e janelas e portas fechadas em excesso, mais do que as de costume. Vozes estranhas, masculinas, tentavam abafar a voz do pai, que falava como alguém que se defendia. Não era (hoje sei) para ficarmos sabendo, mas uma das portas laterais estava aberta e, por ela, pude ver aquilo.

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Era uma discussão incomum, parecida com a nossa, de pouco antes, só que sinistramente conduzida de outro modo. Nossos argumentos infantis ao menos tentavam ser racionais e sinceros, mas aqueles sete homens (de novo, a certeza dos números: eram sete) tratavam apenas de impor algo que todos apelidavam de Verdade, mas hoje sei que não passava de uma estátua mais falsa do que as deusas: a Opinião.

Era assim, ao menos, que o pai tentava nomear as coisas que o acuavam ali, no canto às escuras da sala, como um monstro de muitas garras e línguas maliciosas. Que importa essa tua resistência, Bert, se a verdade está conosco. Aceite: somos a maioria!, diziam os visitantes, de um modo maldoso e quase automático. A verdade confere com os fatos, gritava o pai, ela não é a mera soma de algumas opiniões. Nunca mais!, gritou alguém então, como um corvo, ou mais alto ainda, e acrescentou: Se tem sido assim, ou se foi assim algum dia, não vai ser mais, daqui pra frente.

Mas como é que vocês... Santo Deus!... A Verdade..., três vezes o pai tentou falar, com um pouco de filósofo e político, mas contra ele já se levantava a vontade violenta dos outros: A Verdade, Bert, é aquilo que expressa o desejo da maioria. Uma coisa mais prática e palpável, e quem sabe até mesmo mais justa. Só você insiste em não aceitar ainda, pobre Bert, e vai pagar caro por isso!

A certa altura, o medo pôde mais do que a curiosidade, e para continuar vivo (se é que alguém vive...) tratei de me distrair e, mesmo insistindo em olhar, tentei não entender profundamente a seqüência de gestos, que nem sei afinal quanto durou, mas lembro que incluiu o desconcerto do mundo, o sumiço do pai, além de uma busca imediata nas gavetas e a queima de papéis, muitos papéis, cadernos, documentos talvez, no fogo sempre aceso da lareira.

Tentei ainda aplacar meu desespero incerto, afastei Lup e Ralf, e fomos os três recuando para algum canto seguro e impossível. Então me lembrei de que tantas vezes o pai costumou animar a incerteza da nossa família dizendo que um dia, no fim dos tempos, a verdade seria afinal proclamada do alto dos telhados. Em vão. Estávamos, mais uma vez, no fim dos tempos, mas da chaminé da lareira, no alto do velho telhado, saía apenas a fumaça habitual, indiferente ao destino violento de umas tantas verdades queimadas.

Distraídos do Universo como sempre (numa palavra: mais felizes do que eu), Lup e Ralf pareciam não compreender direito o que se passava. Assim como não entenderam quando eu lhes disse, sem ânimo, com os olhos no céu e o indicador direito apontado na direção da fumaça: Lá se vão as velhas brincadeiras!, e até acrescentei: Lá se vai ela, a Verdade!...

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Metáfora triste, talvez, e concreta também, pelo menos ali: era Ela, afinal, era ela em pessoa. Uma Verdade àquela altura mais mulher do que nunca, perigosa e impudica, já sem a parte de cima da roupa, levada de vez pelo vento.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Todas as teorias deterministas colocadas à disposição do homem contemporâneo (das classes sociais de Marx-Lênin ao Inconsciente freudiano, passando pelos jogos de linguagem de Wittgenstein) trazem a “doce seqüela” de tirar de seus ombros a responsabilidade moral pelos próprios atos. Hoje, é fácil atribuir o mais grave dos erros a alguma entidade abstrata: a “desigualdade econômica”, a “injustiça social”... Pouco importa que, para isso, nosso homem coletivista precise abrir mão de alguns “detalhes” – seu livre arbítrio, por exemplo.
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em julho 26, 2007 às

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No início dos anos 70, num pré-vestibular no velho centro do Rio de Janeiro, entrei em contato imediato e explícito com o Mal. Eu tinha uns 16 anos, e os “anos de chumbo” não deviam ser assim tão pesados a ponto de impedir que as aulas de História (do Brasil e Geral) daquele curso preparatório ficassem a cargo de três doutrinadores marxistas, de cujos nomes “no quiero acordarme”.

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Com aquele trio maligno, aprendi então que o mundo era movido pela luta de classes; que todas as atitudes e idéias humanas eram determinadas (“em última instância”) pela infra-estrutura econômica; que Deus (e as religiões) eram uma invenção ideológica para manipular as massas; que a grande herança filosófica do Ocidente (com a qual eu mal havia entrado em contato no segundo grau ou através de umas poucas leituras autodidatas) não tinha feito mais do que interpretar o mundo de diversas maneiras. O importante era "transformá-lo"!

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Uma observação nostálgica dessa natureza, velha de três décadas, não parece muito apropriada ao espírito de atualidade de um blog. Mas elas são inevitáveis, quando leio certos comentários como este (link livre).

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É a História se repetindo – não como farsa – mas como uma tragédia dissimulada. Pois o que era uma ousada exceção naquele tempo – aula de “materialismo histórico”, ou “ciência da História” (triste eufemismo) ministrada num ou noutro cursinho de pré-vestibular – tornou-se hoje a regra gloriosa.

Vitória das trevas, fim do indivíduo.

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Tenho pena dessa garotada. E me lembro das palavras de Goethe, que há alguns anos usei como epígrafe num livro:

“Agradeço a Deus por não ser jovem, num mundo tão inteiramente liquidado”.



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“A palavra é a sombra da ação”. Da frase um tanto enigmática do atomista Demócrito de Abdera, ecoa até hoje uma vaga (e ambígua) impressão de pioneirismo e atualidade – aliás presente em quase todo o legado dos pré-socráticos. Pois é justamente aí que mora o perigo, como dizia minha avó sobre seus libidinosos vizinhos de frente...

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Refletindo sobre a relação entre as palavras e as coisas, entre o homem e sua linguagem, Demócrito resume nesse fragmento famoso a enraizada vocação humana para manter o pensamento (e, por extensão, a fala e a escrita) sempre a reboque de seus atos. Como se o ato de falar (e, por extensão, também os de pensar e criar) fosse no máximo um reflexo do mundo, sem nenhum independência ou criatividade.

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O mais grave não é sua estreiteza, mas de que ele se mantenha em pleno vigor: no mecanicismo das teorias sociológicas, no mimetismo do cinema, na pintura figurativa, na passividade da literatura realista – e, diariamente, no descritivismo neutral da prosa jornalística.
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Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Leitores me advertem e me puxam a orelha para a primeira mancada feia deste velho blogueiro: atribuí ao alemão Thomas Mann uma frase de T. S Eliot. Uma frase que eu tanto aprecio e que costumo citar direito, com o autor correto e tudo (juro!). Que tenha errado justamente agora... não sei se dá para atribuir a nervosismos de estreante... nem as virgens apelam mais para isso! Já corrigi in loco, e mas repito o reparo aqui...

Consola-me, ao menos, saber que tenho leitores - cultos o bastante para me puxarem devidamente a orelha. Obrigado, e não sumam, viu? O blog continua honesto e trabalhador...
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Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Mais uma da série Perseguições Contemporâneas:

Cientistas "descobriram" que a obesidade é... contagiosa! Um estudo, publicado no New England Journal of Medicine, garante estar provado por a+b que, quando uma pessoa engorda, seus amigos próximos também tendem a ganhar peso.

Impossível não pensar, mais uma vez, na conhecida frase que o fascista Ezra Pound nos legou, e que vale mais do que seus Cantos:

"Devemos ser gratos à burrice, porque ela ao menos dá uma idéia aproximada do que seja o infinito".
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Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Leio na Folha de S. Paulo que os Estúdios Disney vão proibir cenas com cigarros em seus filmes adultos. O presidente da companhia, Robert Iger, garante que a Disney adotará o mesmo padrão contrário ao tabaco nas produções que adquirir para sua distribuição, "desencorajando" o cigarro em títulos dos selos Touchstone e Miramax.

No mesmo jornal, sou informado de que Cristina Fernández de Kirchner, primeira-dama e candidata à Presidência da Argentina, encerrou ontem sua visita à Espanha com uma defesa calorosa do troglodita Hugo Chávez, a quem se diz grata "pelo papel que ele cumpriu em momentos muito difíceis para a Argentina".

Sinal triste dos tempos: antigamente, os comunistas eram perseguidos e os fumantes acendiam seus cigarros em paz. Hoje, perseguem, atacam e ofendem os fumantes como se fossem o Mal encarnado, enquanto os comunistas...



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em julho 25, 2007 às

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Com mil ampulhetas, Batman!

Não se pode elogiar uma coisa que funciona neste país e... catapimba! A sopa esfria ou vai pelo ralo. Por alguma "falha técnica", o blog do Reinaldo Azevedo viajou no tempo, retornando ao dia 18 de julho, dando aos leitores a estranha sensação de reviver as notícias e comentários sobre o desastre de Congonhas!

É a História se repetindo como falha...



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Em 1969, o extravagante escritor francês Georges Pérec (1936-1982) escreveu um romance inteiro (La Disparition) sem utilizar a vogal e - justamente a mais comum na língua francesa. Lembrei-me disso ao acompanhar o esforço do jornalista Reinaldo Azevedo em seu blog para contornar a ausência do sinal gráfico til num teclado capenga onde ele escreve durante as férias. O resultado é impressionante: centenas de palavras, plenas de sentido e de senso crítico, e sem que nenhuma delas utilize... o til, "tão" abundante na língua do Bananão.

Pérec inventava dificuldades só para depois poder demonstrar seu virtuosismo literário. "Tio Rei" faz mais bonito: contorna dificuldades reais, numa demonstração de determinação de quem enfrenta a malta com um sonoro NÃO!

Vão conferir. Mas voltem, ok?
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em às

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De todos os equívocos do Iluminismo, talvez o mais grave tenha sido o de esconder sob o manto transparente de sua novidade a nudez da mais antiga violência contra o indivíduo: a reforma da sociedade, dessa vez com o aval “irrefutável” da ciência. No famoso "Discurso Preliminar" da Encyclopédie, nos idos de 1759, Diderot e d’Alembert pregavam a esperança no pensamento científico, com sua missão de recuperação da humanidade. Falando em nome do Homem, maiúsculo e universal, o discurso dos philosophes iluministas acabou por desencadear a mais brutal investida contra a consciência individual: a ascensão das massas, o império despótico do Coletivo a que hoje assistimos, apavorados.

Coube ao romance – que já teve que ser tantas coisas – funcionar durante algum tempo como importante espaço de resistência do indivíduo, contra esses ataques. Espécie de laboratório imaginário da experiência humana, ou equivalente moderno dos diálogos socráticos, o gênero narrativo ganhou especial relevância depois da formidável peripécia filosófica de Hegel, que transformou a História em sujeito de si mesma e condenou o indivíduo a ser mera abstração, face à "realidade absoluta" do Estado. Mas, tragicamente, parece que ele não saiu ileso das experiências formais do início do século 20 – que, à maneira hegeliana, acabaram por fazer do "romance sobre o próprio romance" o modelo supremo da ficção.

Pelos frutos, conhecereis a árvore. A herança social mais sinistra da Revolução Francesa – fruto político do Iluminismo – foi, como se sabe, o pesadelo comunista, responsável pelo enorme ranço igualitarista que permeia a vida atual, anos e anos depois de derrubado a Cortina de Ferro vergonhosa.

Com o romance, não aconteceu melhor. Sob o pretexto de que lhe atribuíam uma “nobre missão”, roubava-se a ele o direito de continuar sendo o gerador de um conhecimento único, irredutível a qualquer outro discurso. Hoje, salvo um punhado modesto de honrosas exceções, o que se vê circulando em texto impresso e encadernado é uma literatura desfibrada, ambígua, acanhadamente alegórica ou descaradamente engajada.

Ou é mentira, Terta?
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Vou mexer em casa de abelhas, coisa que não fazia desde a infância remota. Mas, se me ponho a tocar em matéria perigosa, não é por malícia ou prazer, mas por me sentir “picado” (metaforicamente, é verdade) pela indignação.

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De fato, é duro permanecer impassível enquanto se assiste ao sagrado chamamento – “Deixai vir a mim as criancinhas” – ser transformado em ardilosa cantilena, porque não ecoa mais dos Evangelhos, e sim de um coro de vozes públicas vorazmente interessado na formação de nossas crianças e jovens. O problema é justamente constatar: que tipo de “formação”?!

Já faz tempo que as crianças e os jovens são mais e mais atraídos pelas promessas fáceis de uma cidadania feita só de direitos e exigências, para serem supostamente atendidas por um mundo inteiro posto a seus pés. Rigores escolares são afrouxados, a autoridade familiar é destronada em nome da supremacia do grupo – e do conjunto hierarquizado de valores morais, sociais e artísticos que constituíam a Ordem indispensável, sobrou o quê? Só estilhaços.

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Os maus frutos dessa seara daninha começam a se multiplicar por todos os lados: são bailarinos pobres da Rocinha, batedores de lata miseráveis de Vigário Geral, ou grafiteiros carentes do Pelourinho – todos absurdamente convencidos, por juízes da infância e por milionárias ONGs internacionais, de que seu trabalho vale tanto quanto o de Balanchine, Beethoven e Leonardo da Vinci. Debruçar-se sobre o estudo da verdadeira Arte para afinal aprender? Nem pensar! Trabalhar, para o auto-sustento ou para auxílio da família? É crime!, ou pelo menos assim prevê o Estatuto da Criança e