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Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em julho 27, 2007 às

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As portas do casarão batiam pela força do vento, ao fundo, e nunca nenhum de nós foi capaz de pensar: Elas batem por mim. Menos, ainda, de supor que um dia, afinal, elas seriam fechadas. O mundo era ainda um amontoado verde e confuso, feito de alguns alqueires de terra e muito trabalho duro. O trabalho era tudo. Até para o pai, que não precisava e (desde a morte da mãe) já nem tinha tanta saúde. Até ele, a seu modo, trabalhava duro, envolvido sempre com leituras, encontros, escritas.

Caminhando naquela manhã, entre Ralf e Lup, ao encontro do pai, eu não via ainda assim tão claro tudo isso. No fundo, não distinguia mais do que dois pontos, e nem tão exatos: o capim mal cortado, e a grande dúvida que nos cortava tanto ou mais do que o arame das cercas. Nossas roupas, simples e honestas, eram fruto da terra, lembrava sempre o pai, como eram da terra também o ensino e o alimento. Então, arrisquei ali, serão também da terra as nossas dúvidas?

É incrível lembrar que, mesmo com tantas coisas vivas ao redor, viver era então para nós pouco mais do que um punhado de palavras escrupulosamente estáticas, aprendidas, e com elas nossa infância fazia força para traduzir a realidade do mundo. Pouco acertávamos, claro, mas contávamos também com o auxílio generoso dos números. Graças a eles, sabíamos quase tudo, mas, acima de tudo, que éramos três (Ralf, Lup e eu), e que o par e o ímpar se alternavam sempre, naquela confusão de igualdades e diferenças de que o mundo era feito. Números trazem conforto, afinal. Conhecedor dos números, àquela altura, e de alguns fiapos de afeto, sentia-me então seguro de estar regularmente ali, de estarmos os três ali, sempre: Ralf, Lup e eu. E feliz, também, destilando a certeza de que pouco importaria a ordem em que outros nos enumerassem: fosse Lup, Ralf e eu, ou mesmo eu, Ralf e Lup, nada (quase nada) mudaria no nosso pequeno reino, hoje para sempre perdido.

Com as palavras, era diferente. Talvez agora, quando tudo no mundo se inclina para a indiferença e a igualdade, pareça mais fácil narrar o episódio – mas como custava, naquele tempo! Nomear o que nossa astúcia mirim precisava intuir, mais do que ver, foi sempre tarefa para deuses, não para garotos comuns. Exemplo? Aquela questão básica e sem fim a respeito da verdade.

A primeira vez que li a maldita palavra, aliás, foi apontando-a para o pai como um erro, impresso em garrafais na capa de um livro. Alguém pôs uma sílaba a mais no meio de 'verde', eu disse, conhecedor precoce das cores, senhor do verde ao redor, para receber então do pai a lição de que o sentimento ligado àquele nome valia muito mais do que o nome em si, e sua defesa pelos homens livres valia ainda mais do que o sentimento...

A Verdade é bela e perigosa, dizia o pai, acentuando a maiúscula, e então no meu Panteão particular, onde eu ia amontoando os seres de abstração que ele por dever me ensinava, ergui para o nome aprendido a mais bonita e sensual das estátuas. Nesse dia, a inocência se foi mais um pouco, em dose maior que a habitual, e sobretudo mais cedo, para os meus pequenos anos. Desde esse dia, a verdade vem sendo para mim, entre as virtudes maiores, a mais fêmea, com manhas e segredos. Desde esse dia, nunca mais fui o mesmo, em especial naquela manhã de vento, caminhando em busca do pai, rumo ao casarão.

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Ouvíamos as portas batendo e se aproximando de nós, embora a bem da sinistra (quer dizer, da Verdade) nós é que nos aproximávamos, mais e mais, do velho casarão. Ah, o tormento, naquele tempo como agora, de medir, azeitar e até maquiar as palavras – em nome dela, sempre, a palavra mais severa. Mas não pretendo impressionar ninguém fazendo crer que eu tinha, na época, tanta lucidez assim, e menos ainda que a tenho agora. Na época, tudo se passava entre alqueires de verde, puxões de orelha, suores noturnos, garranchos em cadernos pautados. Um casarão resistindo ao vento, e nós (Ralf, Lup e eu) tendo que resistir à tentação de fechar os olhos, mudar o sentido do mundo – numa palavra: mentir.

Que metro haverá de medir a distância entre a opinião e a mentira, entre a verdade e o fato? Certo é aquilo que coincide com a realidade, ou tudo nasce apenas da força de uma aspiração pessoal que se impõe, mais poderosa do que as outras? Não são perguntas de um trio de garotos, claro: são as de um homem que um dia (hoje) se lembraria delas, muitos anos mais tarde. Naquela manhã, em busca dos conselhos do pai, as dúvidas se resumiam a uma pergunta mal feita e a um fato gerado às custas de um jogo infantil, horas antes. Deitados no chão, os olhos atentos vasculhando as chances do céu, brincávamos de ver repetidas nas nuvens as formas simples que o mundo real produzia.

Hoje, qual de nós se arriscaria a dizer que o mundo é real? Naquelas manhãs de verde e azul, no entanto, o céu nos dava de presente a verdade quase exata de um cão, um carro de bois, dois perfis de mulher, um casal se abraçando. Ganhava o jogo aquele que, às custas de rapidez e da voz mais alta, apontasse primeiro um contorno preciso, visível aos olhos de todos. Mas um dia o brinquedo cedeu lugar ao pesadelo (quer dizer, a todo o resto) quando Lup apontou na matéria incerta lá no alto um carneiro que nem eu nem Ralf éramos capazes de enxergar.

Como não enxergam?!, indignava-se o caçula, e havia sincera verdade na voz: Como?! Vejam, ali. É um carneiro!! Deveria ser, ou por certo era, de fato. Mas o fato é que o ovino se negava a ser visto, ou talvez não estivéssemos investindo, dessa vez, o empenho de sempre. Brigamos, pela primeira vez naquele jogo, e a dúvida se fez desconfiança, na nossa imaginação inocente. O que era certo, afinal: aquilo que coincide com a realidade, ou o que nasce de um esforço pessoal mais forte do que o dos outros? Hoje, quando são outras as perguntas, e bem mais terríveis as respostas, sei que nada disso importa – mas naquela manhã a urgência da questão era o que nos movia, aflitos, na direção do casarão, cujas portas batiam e batiam, com a força do vento.

Havia um movimento inédito na sala da frente, e janelas e portas fechadas em excesso, mais do que as de costume. Vozes estranhas, masculinas, tentavam abafar a voz do pai, que falava como alguém que se defendia. Não era (hoje sei) para ficarmos sabendo, mas uma das portas laterais estava aberta e, por ela, pude ver aquilo.

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Era uma discussão incomum, parecida com a nossa, de pouco antes, só que sinistramente conduzida de outro modo. Nossos argumentos infantis ao menos tentavam ser racionais e sinceros, mas aqueles sete homens (de novo, a certeza dos números: eram sete) tratavam apenas de impor algo que todos apelidavam de Verdade, mas hoje sei que não passava de uma estátua mais falsa do que as deusas: a Opinião.

Era assim, ao menos, que o pai tentava nomear as coisas que o acuavam ali, no canto às escuras da sala, como um monstro de muitas garras e línguas maliciosas. Que importa essa tua resistência, Bert, se a verdade está conosco. Aceite: somos a maioria!, diziam os visitantes, de um modo maldoso e quase automático. A verdade confere com os fatos, gritava o pai, ela não é a mera soma de algumas opiniões. Nunca mais!, gritou alguém então, como um corvo, ou mais alto ainda, e acrescentou: Se tem sido assim, ou se foi assim algum dia, não vai ser mais, daqui pra frente.

Mas como é que vocês... Santo Deus!... A Verdade..., três vezes o pai tentou falar, com um pouco de filósofo e político, mas contra ele já se levantava a vontade violenta dos outros: A Verdade, Bert, é aquilo que expressa o desejo da maioria. Uma coisa mais prática e palpável, e quem sabe até mesmo mais justa. Só você insiste em não aceitar ainda, pobre Bert, e vai pagar caro por isso!

A certa altura, o medo pôde mais do que a curiosidade, e para continuar vivo (se é que alguém vive...) tratei de me distrair e, mesmo insistindo em olhar, tentei não entender profundamente a seqüência de gestos, que nem sei afinal quanto durou, mas lembro que incluiu o desconcerto do mundo, o sumiço do pai, além de uma busca imediata nas gavetas e a queima de papéis, muitos papéis, cadernos, documentos talvez, no fogo sempre aceso da lareira.

Tentei ainda aplacar meu desespero incerto, afastei Lup e Ralf, e fomos os três recuando para algum canto seguro e impossível. Então me lembrei de que tantas vezes o pai costumou animar a incerteza da nossa família dizendo que um dia, no fim dos tempos, a verdade seria afinal proclamada do alto dos telhados. Em vão. Estávamos, mais uma vez, no fim dos tempos, mas da chaminé da lareira, no alto do velho telhado, saía apenas a fumaça habitual, indiferente ao destino violento de umas tantas verdades queimadas.

Distraídos do Universo como sempre (numa palavra: mais felizes do que eu), Lup e Ralf pareciam não compreender direito o que se passava. Assim como não entenderam quando eu lhes disse, sem ânimo, com os olhos no céu e o indicador direito apontado na direção da fumaça: Lá se vão as velhas brincadeiras!, e até acrescentei: Lá se vai ela, a Verdade!...

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Metáfora triste, talvez, e concreta também, pelo menos ali: era Ela, afinal, era ela em pessoa. Uma Verdade àquela altura mais mulher do que nunca, perigosa e impudica, já sem a parte de cima da roupa, levada de vez pelo vento.


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Comentários

oi, antonio.
cheguei no seu blog através do bruno garschagen.
a maneira como escreveu esta história me encantou demais. por acaso estes personagens ou "porta aberta" estão em algum dos seus livros?

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