Rede de intrigas

Nunca me canso de repetir esta história exemplar:
Uma noite, numa festa em casa de amigos, discutia-se a escalada da pornografia na internet, e a urgência de se estabelecer “políticas públicas de controle”. Claro que, por questão de princípio, manifestei-me totalmente contra a interferência absurda interferência do Estado em assunto de âmbito particular.
Argumentei que não é justo que as pessoas de bem sejam vigiadas, por causa de “uma meia-dúzia de tarados”. Impacientaram-se comigo, não foram poucos os que me perguntaram, com desdém:
“Mas o que você quer dizer com pessoas de bem? Não acha isso muito vago?...”
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O comentário parece dizer muito sobre nossa época, marcada por altos índices de tecnologia e baixíssimos níveis de consciência moral.
Décadas atrás, quem ousaria demonstrar todo esse espanto diante de uma expressão tão simples, tão clara e tão essencial: “pessoas de bem”?
Hoje, graças à influência diuturna das famigeradas ciências sociais, as pessoas se acostumaram a encarar a moral (essência das pessoas de bem) como um suspeitíssimo “sintoma ideológico”, e a liberdade individual como uma circunstância sujeita, não a padrões de responsabilidade e autodisciplina, mas a vigilâncias e regulamentações públicas.
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Mesmo sem ter um núcleo central gerador, não sendo administrada por ninguém (e sendo apenas um formidável conjunto de redes de computadores interligadas, que utilizam a mesma tecnologia para enviar e receber informações), nem assim a internet escapa dos inimigos das pessoas de bem e da liberdade.
Segundo a agência Reuters, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) apresentou estudos denunciando a censura crescente à rede em países como Cazaquistão e na Geórgia, e "apontou para conclusões semelhantes com respeito a países como China, Irã, Sudão e Belarus".
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A liberdade sempre teve (graças a Deus!) grandes admiradores. Mas também conta com uma vasta legião de inimigos. De Platão a Karl Marx, do Iluminismo a Durkheim, muitos pensadores se dedicaram a imaginar a sociedade perfeita, com base na fórmula obsessiva: o sacrifício da esfera individual, em nome de um suposto bem-estar coletivo.
Hoje essa luta estende seus tentáculos até a web, ameaçando transformá-la numa nova trincheira. Logo ela, que nasceu sob o signo da liberdade e da mais completa desregulamentação.
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Em geral, modelos de “gestão” (leia-se: de censura) são muito mais nocivos do que a qualquer pornografia – à qual, aliás, só tem acesso quem quer.
Para dar conta de tantos inimigos, a liberdade conta apenas com um guardião: o exército-de-um-homem-só de cada pessoa de bem. Só ela
pode ajudar a defender a liberdade – a sua e a do próximo.
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O resto é silêncio – ou conversa-fiada de festa.




Comentários
Primeiramente, parabéns pelo blog. Todos sabem o quanto é difícil manter um blog atualizado na internet. Espero que você continue sempre e não desanime diante dessas dificuldades.
Com relação a este post, concordo com o que você disse. A liberdade individual não consiste em uma total falta de regras, mas na construção de regras pessoais, de auto-disciplina, fundamentadas nas necessidades de cada um. Por isso, as regras criadas por mim, para regerem a minha vida não se igualam às suas, adequadas à sua vida. Qualquer ingerência Estatal nesse âmbito seria absurda. Seria uma modulação de condutas totalmente inadequada às especificidades da vida de cada sujeito. É isso que falta as pessoas compreenderem. Não haveria necessidade de uma "censura" da internet se cada um aplicasse tal filosofia, e vivesse sua vida tal qual "uma pessoa de bem".
Forte Abraço!
Enviado por: Ricardo Amado | julho 31, 2007 01:52 PM