‘A Biblioteca de Babel’

A leitura é um dos últimos vícios solitários e, nesta era dos intermináveis apelos visuais, um bravo exercício de resistência.
Se escritores como Jorge Luis Borges e Machado de Assis foram leitores rigorosos e compulsivos – enquanto aventureiros como Artur Rimbaud não fizeram mais do que divagar sobre o que “viviam e sentiam” – não dá para fugir: a superioridade artística dos primeiros é um forte indício de que a leitura ainda faz toda a diferença.
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Muita gente reclama da falta de condições ideais de concentração e silêncio para “ler em paz”. Talvez não saibam, por exemplo, que até o século IX a maioria das pessoas lia movendo os lábios, como as crianças, e escandalosamente em voz alta.
Embora os letrados não fossem muitos, os locais públicos de leitura na Idade Média, como as universidades e bibliotecas, eram um verdadeiro pandemônio, com dezenas de pessoas repetindo (para si mesmo ou para terceiros) as palavras escritas nos códices e rolos – os livros da época.
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Longe de ser apenas um mau costume, a leitura em voz alta era, até certo ponto, imprescindível para a própria compreensão dos textos, que não dispunham de recursos hoje corriqueiros como os sinais de pontuação e os acentos. Na verdade, ainda não havia sequer a divisão em parágrafos...
Se hoje se diz que as pessoas lêem mal, imagine, caro leitor, naquela época.
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O aprimoramento gráfico da escrita e a disseminação do livro como objeto cotidiano não trouxeram apenas um pouco de silêncio ao meio ambiente: garantiu mais concentração e, conseqüentemente, maior capacidade de entendimento e aprendizado.
Aos poucos, o hábito da leitura foi-se tornando aquilo que Santo Agostinho um dia definiu como “a interrupção temporária e corajosa de toda a ligação com o mundo”. Para o ilustre filho de Santa Mônica, abrir um livro era, acima de tudo, recolher-se.
Aos poucos, ler foi se tornando fundamental para a individualização das pessoas, em contraponto ao reboliço de antes. A leitura silenciosa foi, sem dúvida, um grande salto civilizatório.

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