A condição humana

Duas coisas inspiram pouca confiança nas noites de autógrafos: os elogios ao autor e a bebida servida aos convidados. Se no caso de S*** a falsidade era inerente aos aplausos, não demorei muito a perceber que os organizadores capricharam na coerência: o vinho branco estava à altura do livro lançado, que era apenas mais uma variação em torno do mau gosto, vocação sincera e verdadeira de S***. Mas, justiça se faça: pelo menos o vinho estava na temperatura adequada, e a cargo de três esmerados garçons, desconhecedores felizes dos efeitos nefastos da má literatura.Era, ainda assim, um vinho ácido, rascante, para paladares menos exigentes e estômagos pouco sensíveis. Não sei em qual dessas categorias me incluir, mas servi-me sem culpa de duas taças. Melhor a cirrose do que o tédio, muitos já disseram. Estava justamente apanhando a terceira dose na bandeja, depois de oferecer a Maria Inês, quando uma altiva senhora se aproximou do garçom. Condicionado aos detalhes da etiqueta, imediatamente estendi o copo à desconhecida, que sorriu sem agradecer. Parecia sedenta, ou no mínimo disposta a sofrer, pois antes mesmo que o garçom se afastasse levou a bebida à boca e sorveu um gole generoso, enquanto a outra mão segurava o livro recém-autografado, como uma jóia preciosa.
Aquela devia ser sua primeira dose, pois parecia não saber o que a aguardava. Mas logo descobriu, e reagiu com uma careta de repulsa, quase cuspindo o que ainda havia na boca. Não chegou a fazer isso, é claro: tratou de engolir com sacrifício e educação, e até parecia inclusive disposta a contornar o incidente com elegância. No entanto, fez bem pior: quando me aproximei para socorrê-la, a aparentemente sensata senhora me recebeu com uma expressão de rancor, acompanhada de palavras ainda mais descabidas. O tom de voz não era dos mais altos, mas o conteúdo me causou (e causa ainda, ao relembrar) medo, horror e espanto:
“Meu Deus! O senhor já provou deste vinho?”
“Perdão, senhora. Está falando comigo?”
Como o absurdo costuma se repetir, ela fez de novo a pergunta:
“O vinho que me ofereceu: por acaso o senhor já provou?”
Àquela altura, já havia bebido duas taças – por que iria mentir? Mas a reação da desconhecida superou o horror e o imprevisível:
“Então, como tem coragem de oferecê-lo a mim, impunemente?!”
O diálogo que travamos eu não teria coragem de incluir em nenhum dos oito livros com que, ao longo dos anos, procurei fazer frente aos caprichos da vocação nacional para o naturalismo. A cena a seguir é transcrição de algo real, embora mais terrível do que meus pesadelos:
“Como o senhor tem coragem de me servir um vinho desses?!”, repetiu várias vezes a implacável mulher, dando a sinistra impressão de que o tempo havia congelado.
“Sorry”, arrisquei em inglês, para o caso de precisar ganhar tempo: “Se não sou o dono da livraria e, menos ainda, o responsável pelo livro que está sendo lançado, como pode a senhora...”
Interrompeu-me, com a pressa daqueles que julgam terem a razão a seu lado:
“Todos aqui são adultos e vieram de livre e espontânea vontade”, ela prosseguia, para horror de meus ouvidos fatigados. “Como algum de nós poderia, então, querer se isentar de responsabilidade por qualquer dos detalhes do evento?!”
Xenófrates, o cético de Atenas, dizia que um grão de areia deslocado da ordem implacável do mundo seria suficiente para nos mergulhar no caos. Exageros helênicos à parte, o fato é que senti a estranha sensação do desastre à nossa espreita, vinda do fundo daquela noite fútil.
“Prezada senhora”, ainda arrisquei, “imagino que cada indivíduo...”
“Ora, o indivíduo!” — e seu tom era de escárnio evidente. “O indivíduo é uma ilusão! A culpa pela má qualidade deste vinho é de todos! Então, é sua também!” E atirou o restante do conteúdo do copo contra mim, enquanto se afastava.
Mais tarde, no táxi, depois de deixar Maria Inês em casa, senti o cheiro forte da bebida na manga do paletó ainda úmida. Tive, então, a oportunidade de concluir que as mágoas mais profundas também são como vinho branco na roupa: quase invisíveis, mas deixam um rastro desagradável no ar.
(Do romance Braz, Quincas & Cia., de 2002. Leia mais aqui.)




Comentários
O pior é que quando tais mágoas se mostram por vezes tal rastro dá numa catástrofe..:-) Belo escrito!
Enviado por: Carla Cristina | agosto 18, 2007 09:29 AM