Cacos para um (im)possível romance

Digamos que eu sentisse raiva, frio, fome, e uma vontade férrea de sofrer, como os grandes penitentes. Digamos que eu não estava pronto para continuar a viver – mas (ai de mim!) estava a ponto de escrever um livro.
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Eram tempos difíceis para a escrita, tempos difíceis para o amor. Qualquer um que se lançasse de peito aberto sobre a brancura do papel, ou cedesse aos braços abertos da mais profunda beleza era um homem marcado.
Eram tempos difíceis, ninguém se engane – mas que hoje, em face de todas as coisas passadas, parecem só verdor e pastorinhas.
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A felicidade é uma massa viscosa, que logo se deteriora se não a tratamos com salmoura e baixas temperaturas.
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A Filosofia tem um balcão sujo, velho de décadas, que atrai todos os dias uma multidão de insetos, de bêbados e até alguns apressados e indiferentes, em busca de bebida, comida barata, alguma informação, ou simplesmente de cigarros.
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Mas de nada valeria tamanho zelo com as coisas alheias se não fosse em proveito de um valor maior, e a que nas locações do espírito chamamos em geral de sentido da vida, amor à verdade e adjacências.
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Todas estas páginas estão mortas. Mesmo que pulsem, ainda, alguém sempre notará, e dirá: estão mortas!
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Nele se via o menino virando velho, direto – sem passar pelo adulto.
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A tirania dos pobres sobre nós rouba-nos os restos de compaixão que poderíamos ter, e que representam, justo, aquilo que nos faz humanos.
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