De Karpfen a Carpeaux, e de Carpeaux ao silêncio

Quase três décadas depois de sua morte, a memória de Otto Maria Carpeaux (1900-1978), um dos grandes expoentes de nossa cultura, continua a merecer entre nós a mais estranha das modalidades de homenagem: o silêncio.
Sobre o silêncio, San Juan de La Cruz disse um dia, numa definição comovente, que ele é um dos nomes de Deus. Mas no ruidoso panorama brasileiro, onde a cultura cada vez mais se confunde com o show business, a ausência de uma fortuna crítica, de estudos regulares ou mesmo de “herdeiros” de Carpeaux deve significar alguma coisa (de ruim, é claro).
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Não tendo sido propriamente um teórico, mas sem se limitar à erudição estéril de uma “enciclopédia ambulante”, Carpeaux era na verdade um rigoroso crítico e historiador de arte, filiado a uma determinada tradição teórica em que se cruzam os nomes dos alemães Wilhelm Dilthey e Max Weber e do italiano Benedetto Croce.
Trocando em miúdos, poderíamos dizer que seu principal instrumental era o método compreensivo de Dilthey, base de sua “ciência do espírito” (Geisteswissenschaft), corrente bem diferente das ciências humanas e sociais da escola francesa. Para Dilthey, o importante era compreender (mais do que explicar) os fenômenos humanos e sociais, buscando-se para isso não as causas, mas a intenção e o sentido subjacentes a eles.
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Em sua aplicação do método compreensivo de Dilthey, no entanto, Carpeaux procurou levar também em conta as restrições feitas por Weber: o estudo das sociedades e da História não pode se restringir a compreender, mas deve procurar investigar conjuntamente a causa e o sentido oculto de cada acontecimento.
Tanto na História da Literatura quanto nos ensaios e artigos, encontramos então em Carpeaux uma preocupação com referências sociológicas – a nações, classes sociais ou grupos de opinião.
Sua análise tende a considerar cada obra como expressão de determinada corrente de opinião e sentimento, mas sem deixar de incorporar um elemento essencial da filosofia croceana: a irredutibilidade de toda obra de arte.
Para Carpeaux (via Croce), nenhuma arte se esgota ou se limita à corrente ou classe social que a produziu.
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Mesmo num resumo apressado como este, não há como negar a complexidade e a sofisticação do pensamento de Carpeaux, que durante algum tempo transformou o jornalismo cultural brasileiro em coisa séria.




Comentários
O que acontece é que o Brasil está muito, muito aquém do Carpeaux. É por isso que ele está abandonado. Melhor assim, senão o que estariam dizendo de bobagem sobre ele...
Enviado por: osrevni | agosto 2, 2007 01:08 PM