Em vez de ‘era uma vez…’: a tragédia

Capítulo Quatro
Até que no quarto dia (era uma quinta-feira) uma mudança nunca inteiramente explicada na programação transferiu nossa apresentação para o horário da noite, deixando-nos com a tarde livre para descansar, ensaiar ou praticar esse lazer tedioso chamado turismo.
Meus companheiros de quarteto optaram por descansar na piscina aquecida do Hotel, mas eu – ai de mim! – preferi arriscar um passeio pela cidade e, vagando sem planos, cedi à tentação de “tirar os pés do chão”, como convidava o cartaz em frente ao Terminal Teleférico, que levava do Capivari ao topo do Morro do Elefante – “de onde o visitante poderá apreciar a cidade a 1.700 metros de altitude”.
Não é engraçado que eu ainda me lembre de tantas minúcias, depois de ter passado vinte anos tentando esquecer? Pois é: a memória também é uma vizinha velha e traiçoeira, comadre de “Dona Inspiração” – só que (ao contrário da outra) costuma tocar a campainha nas horas mais impróprias, e quase sempre sem ter sido convidada.
É “Dona Memória”, por certo, quem mantém a cena viva até hoje: a longa fila de turistas, a lentidão dos funcionários das bilheterias, a pequena multidão que ia se aglomerando na plataforma, um punhado de turistas ansiosos para se instalarem numa das cadeiras individuais e começar a subida.
Lembro-me (voltei a me lembrar) de tudo isso, mas me lembro principalmente da conversa que mantive com aquele rapaz de sotaque e sobrenome espanhóis que foi logo se apresentando: Tomás Ortega.
Parecia inquieto, talvez aflito para conhecer a cidade do alto do morro, porque tentou alterar várias vezes a ordem de subida. Pela ordem das senhas distribuídas, ele “ganharia sua cadeira” logo depois de mim – ou pelo menos foi o que prometeu o mal-humorado funcionário que tentava organizar aquele empurra-empurra.
Talvez imbuído pelo dever da hospitalidade, cedi minha vez ao agitado Ortega, que aceitou agradecido minha oferta simpática, mas efetivamente inútil: afinal, ele viria logo atrás. Na prática, trocamos apenas de cadeira, embora aquela mudança tenha sido fatal para Tomás Ortega.
Quando atingíamos a altura de uns quinhentos metros, passando por cima do Bosque dos Pinheirais do Capivari (foi o que os jornais de São Paulo disseram, no dia seguinte), aconteceu: meus olhos incrédulos viram a cadeira do jovem de sotaque e sobrenome espanhóis – e que, pela ordem natural, teria sido a minha cadeira – começar a se desprender do cabo de aço que ia conduzindo os turistas para o topo do Morro do Elefante, e despencar num abismo de árvores, lá embaixo. Quando o mecanismo que movimentava o cabo de aço finalmente parou e começou a dar marcha a ré, eu já estava de olhos fechados e agarrado à cadeira.
O acaso é um deus e um diabo ao mesmo tempo – mas é, de qualquer forma, a deliberação de alguma vontade insondável.
Minha gentileza fortuita, ao ceder a vez, tinha se transformado bruscamente em sentença de morte para o moço de sobrenome e sotaque espanhóis. O alívio de ter escapado do acidente não reduzia minha parcela de culpa em sua desgraça – que, apesar de involuntária, nem por isso era menos real. Saí dali às pressas, torcendo para não ser abordado por nenhuma autoridade ou repórter interessado no meu testemunho.
Quando cheguei ao hotel, tranquei-me no quarto e me atirei na cama, definitivamente confuso e deprimido.
Não contei nada a meus companheiros de quarteto. Mas fiz muito pior: não consegui tocar naquela noite, nem nas tardes que ainda faltavam para concluir a temporada.
Na verdade, não consegui tocar nunca mais: desconhecedores felizes daquele monstruoso sentimento de culpa que me instalou em mim, meus implacáveis companheiros de quarteto me voltaram as costas ali mesmo, a ponto de anunciarem que eu seria facilmente substituído, para as temporadas seguintes.

Retornei a São Paulo sozinho, na noite seguinte, abrindo mão de minha parte nos cachês e reprimindo a curiosidade de conhecer os detalhes da tragédia que tinha arrastado aquele pobre-diabo em meu lugar. Passei duas semanas sem folhear jornais ou ligar a TV, para não cair na tentação de conhecer qualquer detalhe sobre o acidente.
Tratei de esquecer (mas em vão, é claro) o nome, o rosto e até o sotaque de Tomás Ortega!
CONTINUA...




Comentários
AUTHOR: Anônimo
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DATE: 08/28/2007 16:31:36
Enviado por: Anônimo | agosto 28, 2007 04:31 PM
Muito bom! Vou jogar seu blog na Papyrus, qdo for publicado eu aviso!
Enviado por: Marcus Veras | agosto 30, 2007 11:08 PM