Em vez de ‘era uma vez…’: o início (ou quase o fim?)

Capítulo Um
Meu caro editor: a inspiração é mesmo uma velha vizinha traiçoeira: parece estar sempre por perto, mas nunca – na hora H – podemos contar com ela.
Bastou você me pedir que escrevesse uma estória para a sua Antologia e a megera fez as malas e partiu, no silêncio de uma tarde quente de dezembro – e agora, já final de janeiro, ainda não mandou notícias, deixando-me assim, desamparado, a ponto de andar cometendo os atos mais imprudentes. Ler jornais, por exemplo.
E olhe que a velha bruxa andou falando tão alto, ultimamente, que eu cheguei a pensar que fosse comigo. Pelo visto, não era: estava apenas remoendo sozinha suas mágoas e moedas, como qualquer solteirona egoísta.
Não: nem pense que eu vá ficar pegando carona e abusando de uma pobre metáfora como esta, para afinal simular uma estória e – em vez do tradicional “era uma vez...” – preencher folhas a fio com meus conflitos de autor. Seria um truque fácil demais e, moralmente, a saída mais cínica para não ter que dar explicações. Mas, como a sinceridade prescinde desses arranjos, não tenho nenhum pudor em confessar: os dias foram passando, passaram-se – e cadê a estória?
Cheguei a me aferrar à desculpa de que o tema não ajudava (“Alguma coisa a ver com jornalismo e jornal”, você me disse). Faz tempo, afinal, que abandonei o jornalismo, e da antiga militância em redações guardo apenas lembranças quase traumáticas daqueles plantões extenuantes, meio histéricos – e tudo para quê? Para forrar gaiolas de passarinhos no dia seguinte, ou embrulhar robalos na feira livre, dois dias depois.
Foi justamente para me afastar de vez deste sentimento de inutilidade que tomei a medida (absurda para muitos, decisiva para mim) de nunca mais ler jornais: afinal, além de inúteis, eles roubam nossas melhores horas de leitura e ainda sujam os dedos – sem falar no péssimo hábito de irem amarelando empilhados num canto bem visível da sala.
Graças a essa medida profilática, tratei de manter o espírito a salvo, mergulhado nos clássicos. Posso lhe dizer que deu certo – e lá se vão uns bons anos! –, enquanto durou. Quer dizer: até anteontem.
Está na moda o expediente de começar uma estória dizendo que tudo aconteceu por acaso, à revelia da vontade de quem conta. Avesso a qualquer espécie de modismo, não posso no entanto negar: tudo me aconteceu assim mesmo, por acaso, e foi à revelia de minha vontade que folheei aquele jornal e acabei dando de cara com a foto implacável.
A legenda, protocolar, não identificava ninguém – na verdade, era apenas um instantâneo banal, ilustrando matéria sobre o tumulto na venda de ingressos para o show do U2, na semana passada. Ele sequer estava na fila: simplesmente passava por ali, na hora em que o fotógrafo disparou. Mas, apesar de estar quase de perfil, e num segundo plano, e a passagem dos anos, na hora eu não tive dúvida: era ele.
Era Ortega.
Só o que escapava à rotina do jornalismo era o detalhe de que (até prova em contrário) Ortega está morto há mais de vinte anos, e que (até prova em contrário, também) eu tinha sido o agente de sua morte!
CONTINUA...
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