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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 30, 2007 às

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Capítulo Seis

Desanimado e confuso, sem ânimo de voltar para casa: nesse estado de espírito, vaguei pelas ruas do Centro, distraído e infeliz.

Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo, também andava por aquela mesma área e, à falta de um consolo maior, fez com que eu dobrasse determinada esquina mais desatento do que de costume, e esbarrasse em cheio num desconhecido – que, para meu espanto, não era tão desconhecido assim.

(Você não precisa acreditar, meu caro Editor – mas, se você preferir, acredite: era Ortega. Tomás Ortega. Em pessoa.)

Foi uma dessas malditas coincidências que a maioria dos mortais pensa serem exclusivas da literatura, quando na verdade elas acontecem apenas na vida real. O mal da literatura (alguém já disse) é que ela faz sentido demais, ao passo que a realidade nunca faz sentido.

Por conta disso, eu nunca poderia incluir numa estória – a estória que você me pediu, por exemplo – a cena absurda de meu reencontro com Ortega e a igualmente absurda explicação que ele me deu.

O rapaz já não era um rapaz: estava previsivelmente mais velho duas décadas, e mancava da perna direita – detalhe que despertou em mim uma culpa estranha, maior do que a de ter provocado sua morte, como se aquele defeito físico pudesse ser um fardo ainda mais pesado do que o de ter morrido.

Mas o mais absurdo de tudo – e que tornava tudo aquilo estranhamente mais real – é que ele tinha perdido qualquer vestígio de sotaque. Por sinal, foi a primeira coisa que eu notei, assim que ele tratou de quebrar o silêncio que se seguiu ao nosso encontrão.

E o que ele disse, por irreal que pareça, foi:

– Você... é aquele moço que salvou minha vida!

Deus do céu! Ele falou aquilo sem nenhuma ironia, sem vestígios de qualquer inflexão mais ferina. A frase soou tão sem nexo que cheguei a pensar: se aquele homem era realmente Ortega, a queda do teleférico tinha – no mínimo – danificado seu juízo.

Mas não: foi um homem lúcido e bem mais tranqüilo do que o jovem de vinte anos atrás (e que agora já não se chamava Tomás Ortega) quem me deu as devidas explicações, reencaixando as peças de uma charada que eu supunha resolvida em Campos de Jordão.


CONTINUA...


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Comentários

O típico e belo folhetim, que delícia! :-)

Meu caro, me sinto na época de Machado, só que agora o folhetim é na rede... maravilha!

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