Em vez de ‘era uma vez…’: o retorno

Capítulo Cinco
Tratei de esquecer (mas em vão) o nome, o rosto e até o sotaque de Tomás Ortega! Mas o esquecimento levou junto também a música e todo o resto.
Bloqueio psicológico: foi este o nome e a explicação que as pessoas encontraram para o meu inexplicável divórcio da carreira que estava ainda em ascensão.
Francamente! Passados mais de vinte anos, pouco importam as explicações e os nomes, ou mesmo a ordem dos fatores: tudo somado, o fato é que abandonei não apenas a música, mas também a cidade de São Paulo, e vim para o Rio de Janeiro, onde me haviam acenado com a chance de um emprego como redator num grande jornal.
Tirei o diploma da gaveta, fiz as malas, desisti de ser “artista”... e o resto da estória você conhece, porque fez e faz parte dela. Mesmo detestando o trabalho cinzento, e sobretudo a companhia ruidosa e prosaica de tantos “coleguinhas” insensíveis, acabei tomando gosto pelas palavras e até arrisquei alguns textos literários, ganhando aos poucos na redação a fama de literato e a alcunha levemente pejorativa de Poetinha.
Ao prosaísmo da imprensa, no entanto, nunca me adaptei – e, logo que pude, abandonei o ofício a tal ponto que passei os últimos anos (e não têm sido poucos) sem sequer ler jornais. Para escrever textos, discursos e monografias que outros assinam, já não careço de atualizações jornalísticas e assim fui passando muito bem, obrigado.
Agora, por certo, você vai entender por que eu não demonstrei grandes entusiasmos diante de seu convite para participar da Antologia de estórias que tivessem “alguma coisa a ver com jornalismo e jornal”, como você disse.
Mais do que um chamado à literatura, um “empurrãozinho na carreira de escritor” (como você também disse), aquilo era um amargo bilhete para uma viagem de volta ao passado. Mas, por alguma outra “inexplicável razão”, não consegui recusar – mais uma vez, o dedo do destino...
Resumo da ópera: folheando temerariamente o nosso antigo jornal, em busca do paradeiro de Dona Inspiração, deparei-me com a foto, e com aquela suspeita crucial de que Tomás Ortega afinal não tinha chegado a morrer no acidente – ou, no mínimo, teria um sósia ou um parente bem parecido com ele.
Fingir que não houve nada? Atribuir a semelhança ao cansaço ou a um resquício possível de culpa? Ir atrás de “explicações urgentes”, mesmo que com vinte anos de atraso? Não sei o que você faria, meu caro Editor. Sei o que eu fiz: apelando para antigos contatos na redação do jornal, localizei o repórter e o fotógrafo da matéria.
Minha esperança era que, entre o material não usado na edição final, houvesse outras fotos onde eu pudesse verificar, com mais clareza, se aquele era, ou não, o fantasma de Ortega em carne e osso.
Por sorte, as fotos existiam: ontem à tarde, sentado na mesa dos fundos do velho botequim que nossa geração chamava de Sucursal (controle a nostalgia: ninguém mais parece se lembrar deste apelido), explorei cada centímetro das duas ampliações que o fotógrafo da matéria me cedeu, meio desconfiado.
Pouco a pouco, uma certeza tomou conta de mim, junto com o cansaço: aquele era realmente o homem que eu tinha gentilmente condenado a morrer em meu lugar. Imagino que nenhum ser humano vá esquecer o rosto de alguém que acidentalmente matou.
Mas, na base dessa convicção, vinha instalada uma dúvida: para quê eu iria remexer num passado enterrado mais de vinte anos atrás? Afinal, se Ortega permanecia insepulto, minha carreira de músico já tinha – biblicamente – retornado ao pó.
Se esta fosse uma estória de mistério – como você devia estar esperando que eu escrevesse –, eu bem poderia dizer que decidi mergulhar nesse enigma para o decifrar antes que ele me devorasse. Pena que isto não seja literatura – ai de mim! –, mas a história de minha vida, ou pelo menos o que sobrou dela.
O máximo que posso dizer é que saí do bar desanimado e confuso, sem ânimo de voltar para casa. As imagens do acidente de Ortega (a cadeira do teleférico dando cambalhotas, o Bosque do Capivari engolindo seu corpo e os gritos e o choro dos outros passageiros, ao voltarem de marcha a ré para a estação) retornaram com uma nitidez que os últimos anos tinham cuidado de apagar.
CONTINUA...
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