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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 26, 2007 às

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Capítulo Dois

Ortega. Tomás Ortega. Você nunca me ouviu pronunciar este nome. Pudera: quando eu e você nos conhecemos, em meados dos oitenta, na redação do jornal, fazia menos de um ano que eu tinha chegado à cidade, trazendo na mala a culpa de estar vivo, enquanto um pobre-diabo tinha morrido em meu lugar.

Ou, pelo menos, era isso o que eu pensava que tinha acontecido durante naquela maldita temporada em Campos de Jordão, cerca de vinte anos atrás. E agora aquela foto recentíssima no jornal de anteontem trouxe tudo de volta. Menos, é claro, a chance de tocar flauta outra vez.

Eis outra coisa que você nunca chegou a saber a meu respeito: eu era músico – e, até um ano antes de me mudar para esta cidade, tinha feito carreira como flautista de um conjunto de câmara, com esforçado sucesso e algum reconhecimento da crítica. Um jovem de talento, o menino-prodígio dos metais que desde os 21 anos tinha aposentado o diploma inútil de Comunicação para se dedicar a uma profissão que, em termos de rendimentos, conseguia ser ainda mais precária do que a de jornalista.

No entanto, foi tocando em teatros, estúdios e festivais de inverno pelo continente a fora que eu consegui me afinar – literalmente – com um estado de espírito bastante parecido com a satisfação: um sentimento, por sinal, que jamais consegui sentir no trabalho estafante de “pentear” matérias de repórteres iletrados e lhes arranjar um título ao mesmo tempo atraente e discreto e, acima de tudo, que coubesse no espaço determinado tiranicamente pelo diagramador.

Para quem já tinha encantado platéias seletas, aquilo era a ante-sala do inferno, levando-me a desconfiar vagamente de que, no fundo, quem tinha morrido mesmo era eu.

Agora você há de entender, mas naquela época você estranhava meu comportamento, tão diferente da euforia dos coleguinhas em volta, que pareciam se dividir entre o sentido militaresco do dever e a vaidade de estar exercendo uma profissão afinal glamourosa. De sua velha mesa tão próxima à minha, você devia se perguntar, de vez em quando, o que diabos eu estaria fazendo ali?

Pelo menos foi essa a impressão que eu tive quando você me convidou para um cafezinho, no intervalo entre o primeiro e o segundo clichê. Objetivo e sem maiores rodeios, você me estendeu os braços abertos da amizade, e ganhou minha confiança, quando fez aquela pergunta que – mais do que uma pergunta – era uma diagnose completa:

– Como é que você agüenta esta loucura, se está na cara que você não gosta?

Depois você ficou em silêncio (lembra?) e parecia instantaneamente arrependido de não ter conseguido conter a curiosidade. Sua cara constrangida só encontrava equivalente na minha própria expressão angustiada, que eu não conseguia esconder, por motivos que você vai entender agora: eu suportava aquela loucura para fugir de uma loucura ainda maior que carregava comigo.

Mas, naquela época, eu não podia contar. E não que eu não confiasse em você: é que contar quase sempre significa lembrar – e tudo o que eu queria era esquecer o pesadelo, ainda tão recente.

Um pesadelo que demorei muito a esquecer, e que acabei esquecendo, mas que agora (quer dizer, desde anteontem) retornou pelo avesso.

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CONTINUA...


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Comentários

Estou adorando esse folhetim.:-)

Minha opinião é a mesma da Carla...

... também continuo.

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