“Ninguém o viu desembarcar na noite unânime…”

Numa de suas últimas entrevistas, concedida a um jornal europeu pouco antes de morrer, Jorge Luís Borges foi surpreendentemente implacável com seu passado – e sobretudo, com suas primeiras aventuras nas letras.
* * *
Confessou, por exemplo, que na juventude evitava sempre dizer “a Lua”, procurando sempre um adjetivo – ou um epíteto – para o satélite da Terra. O “jovem Borges” jamais diria – de jeito nenhum! – “Fulano de Tal abriu a porta e saiu”. Não: a ação banal teria de ser escrita de maneira extravagante.
“Quando um escritor é jovem” – lamentou-se Borges na entrevista –, “tenta de algum modo esconder o que é óbvio e tolo sob uma ornamentação barroca, por trás de palavras de escritores do século 17”.
* * *
Segundo Borges, só com o amadurecimento e a passagem dos anos o escritor compreende que as idéias devem ter uma expressão clara e precisa, de modo a criar as emoções e atmosferas desejadas na mente do leitor. Para ele, um escritor sempre começa complicado demais, só para mostrar aos leitores que “decorou um dicionário de sinônimos”.
* * *
Não foi à toa que, na maturidade, Borges tratava de evitar em seus textos todas as palavras que parecessem deslocadas – fossem termos clássicos espanhóis ou gírias das favelas de Buenos Aires.
Escrever uma palavra rude, estranha ou arcaica (dizia ele) serve apenas para distrair a atenção do leitor. E concluía: “As pessoas devem ler um texto fluentemente, mesmo que ele trate de metafísica ou filosofia”.




Comentários
Mas pensemos bem, se ele não passasse pela fase de "decorador de sinônimos" dificilmente ele teria um repertório verbal tão vasto. Bem depois é que ele aprendeu o que usar e o que não usar. Pode-se considerar essa fase da juventude uma estupidez, mas, sem querer, armou-o bem para a maturidade. Ele talhou seus escritos com substância, e só se pode eliminar saliências quando as há.
Têm jovens que já partem para a "literatura urbana", cheia da clareza dos chavões. O que serão eles depois de vinte anos de mesmice?
Acho que Borges tomou outro caminho quando adulto; sem, no entanto, ter desprezado algo do antigo.
Enviado por: IT | agosto 15, 2007 10:03 AM
É um dos grandes mesmo! Muito bom o post...
Enviado por: Leonardo Valverde | agosto 15, 2007 10:46 AM
Esse texto prova que Borges era, além de um brilhante escritor, um péssimo crítico literário.
Enviado por: Paulo | agosto 15, 2007 01:20 PM
isso é sensacional. se bem que IT tem um bom ponto. a gente sempre precisa construir para depois aprender a desconstruir. alguns escritores jovens começando chutando o balde e quebrando o que nem tinham montado. haha.
mas ah!
Enviado por: Olivia | agosto 15, 2007 07:24 PM
OLá, Antônio.
Achei legal dar de cara com a primeira frase de "As ruínas circulares" de Borges ("NInguém o viu desembarcar na unânime noite"), quando visitei seu blog pela primeira vez. Para mim, é um ótimo sinal de boas-vindas: este conto é um dos meus favoritos, porque é nele que há trechos (artifícios?) como "No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou." E é neste conto que ele também pratica magistralmente a gradação: "Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando." Não consigo ver o Borges (nem o jovem) como um colecionador de sinônimos. Vejo-o como alguém que sabia que não há sinônimos perfeitos e que, mesmo não se preocupando com as repetições que a tantos assustam, procurava ser o mais preciso possível no uso das palavras. Sobre o tema, lembro de outro texto dele e sugiro a leitura: "A supersticiosa ética do leitor". Não acredito, como Paulo demonstra em seu comentário, que além de um grande escritor, Borges era um péssimo crítico literário. Seus ensaios e, sobretudo, seu "Livro de prólogos com um prólogo dos prólogos" o provam. Aliás, desconfio que, quando ele escreveu que os "os bons leitores são cisnes ainda mais negros que os bons escritores" referia-se a si próprio.
Adepto da auto-irrisão, Borges simulava a esperança de ter escrito pelo menos ter escrito uma página digna em meio a tantos livros de sua lavra publicados. Neste aspecto, ele se superou numa das entrevistas que concedeu, quando, perguntado se tinha medo da morte. Responde que seu único medo era de que, após a sua morte, descobrissem que ele não passou de um embuste.
Enviado por: Alvanísio Damasceno | agosto 15, 2007 09:47 PM