« “De Rerum Natura” | Main | Da inteligência dos homens »

Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 25, 2007 às

null

O anedotário consolidado ao longo dos anos atribui a Machado de Assis algumas lendárias namoradas de juventude – em geral, moças ligadas ao meio teatral, que ele freqüentava como crítico.

De efetivamente confirmado, no entanto, conhece-se apenas o atribulado namoro com a portuguesa Carolina Augusta – não aceito, a princípio, pelo irmão mais velho e tutor, o prosaico escritor Faustino Xavier.

(Daí a conclusão de alguns biógrafos, de que Carolina teria sido a única mulher com quem Machado manteve relações sexuais, ao longo da vida.)

* * *

A perda precoce da mãe e de uma irmã caçula talvez esteja por trás dessa proverbial dificuldade amorosa. Mas claro que isso pode ser também mero cacoete psicanalítico.

Pautados, por sinal, justamente em tais superstições inauguradas pelo Doutor Freud, muitos críticos costumam ver nesse detalhe a matriz das impressionantes criaturas femininas de Machado: Flora, Mariana, D. Paula e a mais fascinante de todas, Sofia (de Quincas Borba), cujo busto surgia das ancas como uma grande braçada de flores sai de dentro de um vaso.

* * *

Não faltam “especialistas” para dizer (e outros ainda hão de repetir) que Machado sublimou na Literatura a frustração amorosa a que sua timidez o condenou.

Quanto a mim, prefiro a tese – mais generosa – de que, além de temer a intimidade invasora, tão típica do casamento, o Bruxo desconfiava de que o amor roubaria o tempo e a atenção que ele preferiria concentrar nos projetos artísticos.

Ars longa, vita brevis...

Se jamais pressentiu em Carolina a chama candente das lendárias coristas e atrizes de sua juventude, Machado ao menos reconheceu nela a companheira capaz de lhe serenizar o espírito, para o exercício pleno de sua grande Arte.


TrackBack

TrackBack URL para este post:
http://www.apostos.com/mt/mt-tb.cgi/452

Comentários

Belo post. Mas há uma coisa: as personagens femininas de Machado são vistas em primeira pessoa, quase sempre por homens vagamente frustrados, que fabulam essas mulheres de modo meio melancólico. É impossível dizer se há identificação ou não entre o olhar do Machado autor e o do seus personagens homens.

Comente

(Os comentários só serão publicados após moderação do dono do blog)

Comentários: