“Coração, cabeça e estômago”

No famoso "Discurso Preliminar" da presunçosa Encyclopédie, livro emblemático do espírito cientificista moderno, Diderot e d’Alembert pareciam transbordar de esperança quanto ao futuro da ciência e sua missão de recuperação ética da humanidade.
Hoje, menos de três séculos depois, o aparato tecnológico banalizado em confortos cotidianos não deixa dúvidas: a ciência venceu. Falta apenas conferir se o homem, por conta disso, tornou-se moralmente melhor.
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Se olharmos pelo viés da Literatura – a prima pobre da ilustre família do pensamento contemporâneo, tão dominado pela “objetividade científica” –, as coisas não parecem ter progredido tanto assim.
Basta lembrar que o principal legado das Ciências ao continente das Letras foi o Realismo, que impôs como norma estética a tarefa de mimetizar a realidade com objetividade e rigor de cientista.
O resultado é o que já se conhece: o escritor foi rebaixado de seu papel de criador de mundos possíveis ao de modesto e fiel observador da sociedade.
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Pior: longe de ter moralizado o homem, a ciência só conseguiu desmoralizar um punhado de figuras e metáforas que sustentavam sua imaginação.
Uma dessas metáforas foi, sem dúvida, a da úlcera.
Desbancada no início da década de 1980, graças à descoberta da bactéria Helicobacter pylori, a úlcera sempre se destacou na história humana como a imagem por excelência da somatização do espírito que sofre. Na Literatura, sua presença sempre teve um eficiente rendimento dramático, de elevado conteúdo moral.
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Os exemplos são muitos: do obstinado Napoleão Bonaparte (indiscutível personagem de carne e osso, transformado em matéria literária nas páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi) até os tipos mais conflituosos de Nelson Rodrigues – para quem a úlcera era uma prova dolorosamente concreta da presença residual de caráter e dignidade, mesmo nos canalhas mais consumados.
O potencial dramático da úlcera para a Literatura é tão marcante que mesmo um personagem simples como o detetive Mattos (do romance Agosto, de Rubem Fonseca) acaba ganhando alguma densidade justamente por causa da ferida que acalenta no estômago.
De resto, o próprio Nelson Rodrigues adorava repetir que não existe ética sem insônia, e muito menos sem... úlcera.




Comentários
Vejo a literatura como uma antena conectada no homem. Antena que permite uma visão e uma sensação do que somos. As respostas continuarão vagas e imprecisas, diametralmente opostas a pergunta eterna, que é certa e única. Por que?
Enviado por: Djabal | setembro 5, 2007 08:09 AM
Sinceramente, nunca pensei que a ética alguma vez tivesse de ter sido "recuperada", efetivamente expressa talvez. E é ingênuo pensar que isso depende apenas da Ciência, que facilita cada dia mais tal exercício, haja vista, por exemplo,a possibilidade de aprendizado (inclusive moral) na Rede, mas não é só ela. Há também entre outros imperativos a Literatura, que não vejo como sua prima pobre, pelo contrário, apesar de ela ter sido "dominada" pelo viés científico durante determinada época em muito se manteve superior a ele, tanto na forma quanto no conteúdo, inclusive na observação da sociedade, do qual se pode originar um mundo possível, por que não? O fato é que não concordo que a Ciência prive o homem de sua criatividade, de jeito nenhum! é como dizer que a Gramática o faz. Balela. Quanto a úlcera, dou graças a Deus por a Ciência a ter desvendado, assim muitos neuróticos -maravilhosos- de plantão sobrevivem. Só um pessimista mesmo como Nelson Rodrigues para dizer que a ética depende de insônia e de úlcera pra sobreviver, fala sério...:-)
Enviado por: Carla Cristina | setembro 5, 2007 04:49 PM