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Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 20, 2007 às

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Se houvesse mais justiça, mais sensatez e menos igualitarismos no mundo, é claro que tudo estaria acontecendo de outra forma. Eu (um simples humano) teria sido tratado com mais respeito e mais consideração do que, por exemplo, a velha amendoeira condenada que há meses ameaça tombar sobre os transeuntes, na esquina da minha rua.

Infelizmente, nestes tempos de relativismo moral, eu não teria tido mesmo muitas chances diante daquele vegetal vetusto – cercado por belas moçoilas devotas, naquela manhã de quarta-feira.


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De mãos dadas, obedientes e decididas, parecia que as garotas estavam brincando de roda em torno da árvore-anciã. Mas o olhar de má-fé da maioria delas dava conta de que a inocência da infância já deveria estar longe...

Em coro, elas iam repetindo as palavras de ordem de algum Manual nefasto da nova tirania ecológica, com seu rosário de mentiras convenientes: salvem o planeta, respeitem as árvores, chega de opressão dos humanos...

(Fosse outro o mundo, e outros os tempos, o espetáculo interessaria apenas a antropólogos desocupados ou a algum psiquiatra de plantão. Mas a pajelança das meninas já atraía gente demais para aquela hora matinal. E a maioria, pelo visto, apoiava o ritual insensato.)

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Atrasado para meu compromisso, imaginei que seria fácil atravessar a cena despercebido – eu era, afinal, apenas mais um ser humano. Mas minha vizinha de andar me reconheceu e, com voz de ultimato, soltou-se da roda e veio até mim. Cobrou minha participação de morador da rua e habitante do planeta.

(Pensando melhor: desde que ficou sabendo que eu era escritor, um "consumidor de árvores", a moça passou a me olhar diferente.)

Com o semblante sempre em riste, o dedo acusatório apontado em várias direções, a bela me informou: elas estavam ali para evitar uma tragédia. Aliás, "a pior de todas": o corte da velha amendoeira pela Prefeitura!

“Os malditos homens da serra elétrica vão chegar a qualquer momento. Você vai permitir que façam isso?”

As muito feias que me perdoem – mas nem aquelas lindas ambientalistas conseguiram evitar que eu aplaudisse: até que enfim, tomavam alguma medida contra aquele tronco apodrecido que a qualquer momento poderia cair sobre a cabeça das pessoas. "Seres humanos", argumentei... Nossos irmãos, nossos semelhantes...

Em vão.

“O que são meras pessoas, diante da dignidade e grandeza de uma árvore centenária?!”

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Àquela altura, o atirei-o-pau-no-gato já tinha sido interrompido, e todas aquelas beldades se acercavam de sua líder (minha vizinha de andar), que parecia estar sendo ameaçada por um monstro: eu. Um macho opressor, capaz de argumentar ainda em favor da superioridade de humanos sobre os vegetais oprimidos.

“Você não tem sentimentos? Nenhuma religiosidade? Não acredita em nenhum deus?”

Tratei de explicar que acreditava, não “num deus”, mas em Deus – e até caprichei nos gestos, para realçar a maiúscula. E ainda acrescentei: “Que eu saiba, Deus não nasce em árvores!...”

Mas tanto o humor quanto os argumentos razoáveis só costumam funcionar com seres racionais – e, sobretudo, bem-humorados. Tive que me afastar dali às pressas, debaixo de uma vaia das mais vexaminosas.

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(E como doeu! Foi duro, Deus do céu!, sentir na pele o desprezo de moças tão bonitas...)

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Passei o resto do dia às voltas com assuntos profissionais, editores e livros – estes objetos nefastos, responsáveis pelo abate de tantas árvores...

Quando voltei para casa, à noite, o susto: a amendoeira ainda estava lá! E continua lá, até agora.

Dormi mal naquela noite (praticamente, não dormi), e ainda não tive coragem de perguntar a um vizinho ou ao porteiro por que “os homens da serra elétrica” não cumpriram sua louvável missão.

Ainda não recuperei a calma, e agora só saio de casa com o coração sobressaltado. Olho para os lados, quando atravesso a rua. Suo frio nas mãos. Temo pelo pior.


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Comentários

Excelente retrato da eco-religião.

O fato é que este “consumidor de árvores” está a fazer um belo serviço com suas leves crônicas! :-)
Não seria uma das personagens a lutar por troncos apodrecidos (Tudo tem fim!), mas que sofro quando árvores são cortadas por nada, como sofro!

É... às vezes moças bonitas podem ser perigosas!

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