“Darkness at noon”-2

O capitalismo no Brasil é tão episódico e eventual que, quando ele acontece, vira logo notícia e dá muito que falar.
A disputa entre as operadoras de telefonia celular, por exemplo: procedimento rotineiro em qualquer economia madura, chega a gerar matérias extensas, com direito a suítes e artigos analíticos.
É só ver também (outro exemplo) a forma “crítica”, quase acusatória, com que as manchetes de sites e publicações impressas costumam noticiar o lucro anual de determinada empresa – não muito diferente do tom com que se denunciam os grandes "escândalos”.
Para essa turma, (de)formada pela ótica da sociologia anticapitalista, o lucro é sempre escandaloso, e não a missão (obrigatória, afinal) de todo empreendimento econômico digno deste nome.
(Ainda me lembro de ter lido, tempos atrás, a “pérola” de um colunista denunciando que, em determinada feira-livre, uma barraca vendia o pepino 50 % mais caro do que a barraca ao lado. E ele ainda arrematava, brincando, mas com ares de sábio: “É o pepino da inflação de volta!” – desconhecendo completamente que o verdadeiro pepino, no caso, era sua ignorância a respeito das leis elementares da livre concorrência, este sistema “escandaloso” em que cada um vende seus produtos pelo preço que quiser, arcando com o ônus desta decisão.)
A razão de tudo isso, no fundo, é bem simples – quer dizer, é clara, mas bem grave e “complicada”. Formados segundo o credo re-vo-lu-cio-ná-rio, nossa imprensa e nossos intelequituais ignoram as regras e engrenagens do sistema capitalista – quer dizer, do mundo real, não dos tais “outros mundos possíveis”.
Em terra de capitalismo tão precário e mal praticado, o mercado editorial não poderia sair incólume – e um dos sintomas recentes deste drama é a questão do preço fixo do livro: não têm faltado editores e livreiros apontando a “injustiça criminosa” das grandes editoras e redes de livrarias que conseguem vender com desconto seus produtos (no caso, livros).
Seria o equivalente a achar absurdo que um supermercado consiga vender seus produtos (no caso, ovos, arroz e feijão) mais baratos do que a quitanda da esquina. Segundo esta ótica (sempre deformada), justiça seria sinônimo de "tabelamento". E tabelamento, caro leitor, todos nós sabemos aonde leva: escassez de oferta, mercado negro, etc.
As “sociedades justas”, por sinal (os tais “outros mundos possíveis”), costumam mesmo ser assim: mundos com poucos ovos, arroz e feijão escassos, carne quase nenhuma. E, em geral, bem poucos livros.




Comentários
Esse 'medo' do capitalismo que a patota de esquerda tem sempre me pareceu infantil, um modo de fugir da realidade. E é por isso, entre outras coisas, que estamos ainda tão atrasados.
Enviado por: Leonardo Valverde | outubro 25, 2007 02:26 PM