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Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 29, 2007 às

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"A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa -- mas a estupidez dura para sempre."


Aristófanes, o dramaturgo que fazia rir.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 28, 2007 às

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Dizem (o que não é improvável) que, à força de muitas pesquisas, os entomólogos chegaram à assombrosa conclusão de que os besouros não podem voar: pelas leis da “aerodinâmica”, a relação entre peso, tamanho das asas e comprimento do corpo do inseto impossibilitaria o vôo.

No entanto, desconhecedores felizes de tão espantosa descoberta, os besouros insistem em continuar voando livremente...

(Quem ainda não viu?)

* * *

A historinha (hoje bastante difundida na internet) me acompanha desde a adolescência – por conta de um professor de Biologia, a quem a "desobediência" dos besouros devia incomodar como uma ofensa pessoal.

Autoritário acima da média da época, era comum vê-lo brandir a régua de madeira e apontar para a janela do laboratório de ciências da escola, lamentando:

“O maior desafio da Ciência é que, lá fora, a Natureza ainda é incontrolável! Felizmente, aqui dentro, nós damos as ordens!”

Minha fuga para a Literatura (meu surto precoce de escritor) deve muito a este espanto juvenil: como alguém podia desprezar a experiência direta dos próprios sentidos em nome de certa “verdade científica” – no fim das contas, apenas uma ficção, e das mais arrogantes?

* * *

Fugi, eu dizia – ou melhor, fujo até hoje. Evito as discussões literárias mediadas por teorias estéticas perversas (porque abstratas): ao se colocarem como intermediários e intérpretes da Literatura, Estruturalistas, Formalistas & Cia. acabam decretando a incapacidade da "pobre coitada" de falar por si mesma – afastando o leitor da experiência imediata de ler sem lentes ou filtros.

Lamentavelmente, as ciências humanas e sociais (que assediam a Literatura) não são menos daninhas do que as ciências exatas, em matéria de presunção.

E o que é pior: nascida na cabeça instável dos homens, a Literatura é – por sua própria natureza – bem mais “controlável” do que o mundo real.

* * *

Todo cuidado é pouco. Afinal, besouros voam – e a Literatura está aí para ser lida sem “atravessadores”...



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 27, 2007 às

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Das impropriedades ditas e escritas em torno da obra de Machado de Assis (1839-1908), muitas (e talvez sejam as piores) tratam do embate entre Bentinho e Capitu, no imbatível romance Dom Casmurro.

Na média, tais opiniões costumam acusar Machado de não ser conclusivo quanto à infidelidade de Capitu. Mas muitos vão ao extremo de criticar no autor a própria insinuação do adultério – que considerariam uma... “acusação machista e injusta”!

(Deus do céu!)

Embora falsa, a celeuma tem se mostrado fértil, interminável – com direito até a umas inusitadas “memórias póstumas”, que a pretexto de dialogar com o texto machadiano só fazem rebaixar o debate a um nível desanimadoramente baixo.

Como a tolice humana não tem mesmo fronteiras, a controvérsia chegou aos Estados Unidos, onde a ensaísta protofeminista Helen Caldwell (1904-1987) escreveu The Brazilian Othello of Machado de Assis, defendendo... a inocência de Capitu!

(“Tanto barulho por nada”, diria outro gigante. Para uma controvérsia inexistente, até que história foi longe demais...)

Ao fazerem da inocência presumida de Capitu um item obrigatório da agenda de nossas Letras, todos estes críticos, mestres e leitores estão apenas confundindo realidade e ficção, à maneira esquizóide dos fãs de telenovelas. Mas o que admira e consterna, de fato, é a suspeita de que as pessoas parecem estar perdendo, definitivamente, a capacidade de leitura – vale dizer, de compreensão.

(E a compreensão, no entanto, esteve e permanece todo o tempo ali, na letra de Machado, ao alcance de todos...)

Toda esta cortina de fogos de artifício não deixa muita gente enxergar um ponto óbvio e (hélas!) essencial: é Bento Santiago – e não Capitu – o real protagonista de Dom Casmurro. Da mesma forma, temos, como corolário, que a impossibilidade de confiar (e não o mero ciúme conjugal) constitui todo o inferno do protagonista.

Isso não impede que, graças à genialidade de Machado, este mesmo e incrédulo Bentinho consiga estabelecer com o leitor o pacto essencial da ficção (a suspensão da incredulidade) e o romance flua e aconteça.

Certamente, o assunto renderia monografias, dissertações de mestrado e teses de doutoramento, além de um bom punhado de artigos em suplementos literários – ainda mais agora que se aproxima o centenário de morte de Machado.

Mas eu prefiro “ir mais longe” e sugerir aos interessados uma ousadia muito maior: debruçar-se sobre o texto de Dom Casmurro, e usufruir do benefício insubstituível de sua leitura sem intermediários.

Quem se habilita?


(*Dedicado especialmente a uma simpática turma do curso de Letras da PUC-RJ.)



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 26, 2007 às

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"A maioria das mulheres se impressiona pouco com a amizade: elas a acham insípida, depois que provaram o amor."

La Rochefoucauld, o moralista francês.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Não diremos nada de essencial sobre uma catedral se falarmos apenas das pedras. Não diremos nada de essencial a respeito do Homem se tentarmos defini-lo pelas qualidades humanas."

Antoine de Saint-Exupéry, o francês que voava.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 25, 2007 às

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Minha amiga mais paulista (embora já não more por lá) ligou-me bem cedo, um dia, trêmula com a novidade:

"Eu o encontrei, Borges. Quando menos esperava, eu o encontrei. Tudo misterioso, coisa do acaso, como eu prefiro."

Contou-me, então: estava escolhendo livros num sebo da Cidade Velha quando o reconheceu (pela foto no site): ele mesmo!, ali, em pessoa! Seu blogueiro favorito. O autor daqueles textos exatos, tão cheios de informação e de estilo. Um modelo a seguir (repetiu três vezes), que ela ao menos tentaria seguir, assim que se animasse a entrar na grande festa virtual.

* * *

"Lá estava ele, Borges, fuçando as bandejas de ofertas, com seus olhos de lince -- mais triste do que na foto do blog, é verdade. Mas fotos são só fotos, não é mesmo? E ele era ele, para quê exigir mais?"

Nem pensou duas vezes: tentou imediatamente a abordagem.

* * *

Mas quem reconhece seu ídolo quando o encontra ao acaso, sem máscara? Do moço risonho e de olhar inteligente da foto do blog, havia muito pouco ali, na figura tímida, assustada e enfermiça que fuçava no meio da poeira com olhos gulosos e infantis.

"Quanta decepção, Borges! A tal de blogosfera é feita de miragens..."

E assim, de exagero em exagero, minha amiga mais paulista foi contando a prosa meio esquiva que teve com o moço.

"O conteúdo é ótimo, Borges. Mas a voz, a entonação e o sotaque... Quanta tolice! Um bolha!"

Rindo de sua própria gíria demodê, mandou-me um beijo e um até breve -- e então desligou.

* * *

Conhecedor do blog do rapaz (que tem estilo e idéias), pude avaliar a decepção da bela: por trás de textos tão enxutos, tão certeiros, tão cheios de informação (que pareciam atingir em cheio o ponto exato de equilíbrio entre a opinião e a beleza) "só poderia caber uma pessoa interessante e feliz, Borges".

(Cheguei a sentir pena de sua frivolidade, sempre otimista.)

Por conta do episódio, tornei-me um visitante assíduo (diário, admito) do blog -- que tinha ainda o atrativo de seu enorme vigor, com uma pletora diária de textos novos, sempre originais e inteligentes.

* * *

Até que, de repente, ele parou: passou da enxurrada ao silêncio.


* * *

Dias, semanas... três meses. Misteriosamente, sem aviso, o moço não postava uma linha sequer.

Para quem já estivesse "viciado" (como acontece com os blogs), restava o consolo de reler os textos antigos, aos bocados, já com a suspeita nostálgica de que a brincadeira, por ali, tinha acabado.

Conjecturas (todas depressivas) foram inevitáveis: doença grave, dor de amor ou suicídio? Minha amiga mais paulista (que nunca mais me ligou...) tinha ainda mais razões do que eu para pensar parecido.

* * *

Mas... bem-aventurados aqueles que aceitam o mistério, e afinal o esclarecem. Fui um desses.

* * *

Jantando em família, anteontem, numa pizzaria da moda, eu já nem pensava no assunto. Mas bastou olhar em volta, à procura do garçom e... Bingo! Lá estava ele: o moço do blog perfeito, desta vez "interessante" e sorrindo, como na foto. Ou melhor: mais simpático, e até mais charmoso.

A bela moça a seu lado (eram dois casais na mesa) parecia íntima, e -- quem sabe -- apaixonada.

Para não perder a viagem, fiquei observando de longe, e quando ele se dirigiu ao banheiro não resisti: fui atrás. No meio do caminho, abordei-o e (para surpresa do moço) saí rasgando elogios, citando trechos inteiros -- e, por fim, perguntei: "E então? Não vai escrever mais?"

Com uma displicência espontânea, que não tinha nada de afetado, o moço me agradeceu e então me explicou: "aquela fase tinha passado". Andara muito infeliz, sarando feridas amorosas, condenado à solidão, distante dos amigos. O jeito foi se atirar de peito aberto no blog, postando ali todas as frustrações e cicatrizes. "Ficou bacana, admito. Mas como doeu!"

* * *

Agora, não: tinha feito as pazes com o mundo, voltava à vida (e apontou na direção de sua mesa, onde a moça linda o aguardava), sentia-se outro.

* * *

Por que prendê-lo mais? Deixei que se afastasse, simpático e inteligente -- mais até do que a foto. Ainda arrisquei a pergunta, inútil: e o blog?

Ele virou-se e sorriu, mas não fez mais do que sacudir os ombros, informal, como se dissesse:

"Quem sabe?"



Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 16, 2007 às

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"Por que esta humildade? Você não é tão importante assim."

Golda Meir (1898-1978), política israelense.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Não importa quanto dinheiro você tenha: gaste menos."


Samuel Johnson (1709-1784), polígrafo inglês.
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Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 15, 2007 às

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A cena foi rápida, quase irreal -- e poderia ter acontecido em qualquer lugar do país, onde a arrogância e as trevas já tenham invadido a alma de nossos meninos.

Por conta do acaso, aconteceu uns dez dias atrás, numa lanchonete de esquina, aqui perto de casa. E então, também por conta do acaso, eu a testemunhei.

* * *

O moço e a moça (embora alguma coisa que não vinha do tempo pesasse sobre eles) comiam sanduíches e tomavam refrigerantes numa ponta do balcão.

Conversavam num tom mais ou menos solene, como se repassassem funestas lições recém-absorvidas: Hugo Chávez, os males da democracia burguesa, o aquecimento global, o capitalismo selvagem e tudo o mais que pudesse fazer dois jovens tolos se zangarem.

Assistindo a certa distância, eu ainda me decidia entre a repulsa e a piedade ("Perdoai-os! Eles não sabem o que fazem...") quando o improvisado tribunal bolivariano foi interrompido bruscamente: no outro extremo do balcão, uma discussão que nada tinha de ideológica falou -- literalmente -- mais alto.

* * *

Um senhor de boa parência e olhar cínico (o dono da lanchonete) enxotava com os olhos e as palavras um mulato mal vestido, mas de olhar igualmente malandro.

(Nesta terra, afinal, a esperteza é matéria bem distribuída entre as classes.)

Discutiam (foi o que deduzi) sobre o pagamento de algumas caixas de legumes e frutas que o malandro pobre tinha fornecido ao escroque rico. Divergiam em torno de uma cifra ínfima: cinco reais.

Venceu o malandro mais velho, com PhD e alvará, que expulsou o fornecedor mal-vestido da lanchonete, com cinco reais a menos do que ele se achava merecedor.

* * *

Atento àquela fabulazinha barata, sem moral digna de um Esopo, já tinha me esquecido dos jovens salvadores do mundo que comiam na outra ponta do balcão.

"A conta, por favor!"-- disse o moço bolivariano. E, com um gesto, notificou à companheira-de-milícia que aquela despesa era com ele.

Mas (eu deveria ter desconfiado...) havia mais (quer dizer: menos) do que gentileza na atitude do moço, que estendeu apressadamente algumas notas sobre o balcão e ficou encarando, ostensivo, enquanto o velho dono da lanchonete as contava.

"Desculpe-me, jovem, mas você se enganou: estão faltando cinco reais!"

E o moço, arrogante, convicto, como quem praticasse afinal a justiça:

"Não houve engano algum, meu velho. São os cinco reais que o senhor deixou de entregar àquele trabalhador. Estou apenas reparando uma injustiça!"

* * *

Olhei-o, irresistivelmente. Ele parecia não se dar conta de que estava agindo (no máximo) como um ladrão-roubando-outro-ladrão. Ao contrário: fez um gesto estudado para a moça e os dois foram se afastando, quase marciais.

Ele ainda se voltou uma vez e arriscou um remate:

"Isso é para o senhor aprender!" -- e, como um autêntico "justiceiro de birosca", afastou-se, arrastando a moça (menos convicta) pelo braço.

Por dentro, devia ir tramando outros pequenos golpes que contrabalançassem seu miserável orçamento de estudante.

Mas, por fora, o semblante se empenhava em retratar um moço romântico, sonhando com um "outro mundo possível".



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 14, 2007 às

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"Os ricos não pagam imposto, e por isso o Brasil é tão desigual. Os ricos têm que pagar, para distribuir renda".


Dr. Adib Jatene, em conversa com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 12, 2007 às

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"Não penso no público quando estou escrevendo".

Margarida Rebelo Pinto, escritora portuguesa.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Dentre as ações corporais da misericórdia, Miguel (o santo Miguel Rodríguez) obedecia à risca o preceito principal: dar de comer a quem tem fome.

Católico fiel, comerciante próspero e generoso, mandava distribuir todas as noites os excedentes de comida de seu restaurante entre os moradores de rua das redondezas. Desafiando as leis que proibiam (e ameaçavam punir) esta ação piedosa, Miguel não dava ouvidos nem ao conselho dos fregueses cativos, nem às preocupações da mulher: “Contrario a lei dos homens, sigo fiel à de Deus.” E prosseguia.

* * *

Não havia, em geral, nenhum sinal de gratidão, na expressão dos humildes – nem ele contava com isso. Leitor de Dostoievski, sabia que já ia longe o tempo em que os humildes tinham humildade. Hoje (sabia o santo Miguel) o demônio da arrogância é quem distribui as cartas e, sempre que pode, esconde um coringa na manga.

O que Miguel Rodríguez não sabia é que, na manga encardida de um dos moradores de rua da região, uma carta sinistra escondida aguardava a hora de virar o jogo.

Era véspera de Natal.

Não haveria “sobras” ou “excessos” naquela tarde. Miguel mandou preparar uma comida especial, para ser especialmente distribuída entre os moradores de rua da região – a mesma comida que ele e sua família iriam comer à noite. Sua mulher rezou, intuindo o pior. Mas Miguel dormiu sereno, como todas as noites.

* * *

Mas o demônio que fustiga a carne dos miseráveis não dorme nunca.

No dia 27 de dezembro (ainda não eram onze horas), um oficial de justiça o aguardava na porta do restaurante com a acusação sumaríssima: um dos moradores de rua da região, por sinal o mais velho de todos (Miguel por acaso o conhecia: era o mais arrogante de todos) tinha dado entrada no Hospital, com suspeitas de intoxicação alimentar.

Mesmo sem provas conclusivas, uma entidade não governamental que “cuidava dos interesses” dos moradores de rua daquela região estava entrando com uma queixa-crime contra Miguel, pela irresponsabilidade de servir restos estragados de comida àqueles “pobres coitados”.

* * *

Em vão, Miguel tentou explicar que não se tratava de sobras: era a mesma comida que ele e sua família tiveram à mesa, na noite de Natal. Quis saber mais sobre o estado de saúde da “vítima” (como o arrogante morador de rua estava sendo tratado), ofereceu-se para visitá-lo. A resposta do oficial de justiça veio cheia de evasivas, e temperada de novas ameaças.

(Aquela tinha sido uma notificação informal: assim que o recesso natalino terminasse, ele receberia a intimação oficial.)

* * *

Naquela mesma tarde, Miguel recebeu a visita de uma nutricionista e dois sociólogos, “responsáveis pelos interesses dos moradores de rua daquela região”. Compreendeu, enfim, o mecanismo diabólico daquela operação: chantagem. Queriam uma “quantia razoável e justa” em troca da retirada da queixa.

Miguel ficou de pensar. Mas, desta vez, cedeu aos apelos da mulher – não à chantagem monstruosa. Que o enfrentassem na justiça, foi seu último recado aos onguistas.

Isso aconteceu no Natal do ano passado, e o caso ainda se arrasta nos tribunais. O morador de rua, o mais velho e arrogante, retornou às ruas, e às vezes passeava diante do restaurante, desafiador. A nutricionista e os dois sociólogos tornaram a visitá-lo, em busca de um “acordo que fossem bom para as duas partes”.

* * *

Quase nada mudou na rotina de Miguel, ou na sua misericórdia – a não ser pela presença infalível dos dois oficiais que, toda noite, aguardam na porta dos fundos de seu restaurante, burocráticos, orgulhosos. Sua missão (que eles parecem cumprir com um brilho prazeroso nos olhos) é se certificarem de que os funcionários de Miguel vão jogar no lixo os “excedentes” de comida não comercializados naquela noite.

Mas, para o santo Miguel, eles são o lembrete vivo (o memento mais triste) de que, nos dias e noites que correm, dar de comer a quem tem fome é um crime previsto na lei dos homens. Ou melhor: na lei das ONGs. O que, diga-se de passagem, hoje é quase a mesma coisa...



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 09, 2007 às

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* Precisar ver para crer.

* Não ter tato para dizer não.

* Viver fazendo ouvidos moucos.

* Ansiar pelo sabor da vingança.

* Passar pela vida sem deixar cheiro...


Inferno: que sentido tem o seu?



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 08, 2007 às

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Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Eu não escrevo aquilo que eu quero: escrevo aquilo que eu sou."

Clarice Lispector (1920-1977), a inigualável.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 05, 2007 às

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Os detratores do capitalismo cometem um erro indesculpável: julgar e condenar sem conhecimento de causa. Apressam-se em rotular de "capitalismo selvagem" mazelas brasileiras que padecem, justamente, da ausência de capitalismo.

(Traindo a verdade, mantêm-se no entanto fiel ao enunciado de seu Mestre alemão, para quem transformar o mundo é tarefa mais urgente do que conhecê-lo.)

* * *

Desconhecedores (in)felizes de qualquer transcendência, os detratores do capitalismo não vão além do que a visão vulgar lhes oferece.

Assim, não conseguem "enxergar" que, ao conjunto de regras econômicas de produção, distribuição, circulação e consumo da sociedade, corresponde um sistema complexo de valores lógicos e éticos -- e é sobre eles que se assenta nosso processo civilizatório.

As leis que regem o livre comércio são um ótimo exemplo disso, na medida em que operam atribuindo aos dois lados (vendedores e compradores) as responsabilidades de uma relação marcada pela isonomia.

Não satisfeitos em acusarem o livre mercado de injusto, os detratores do capitalismo fazem ainda pior: costumam atribuir pesos diferentes a um dos lados desta operação (vendedor ou comprador), sempre de acordo com os meandros turvos de sua moral “peculiar".

* * *

No terreno da contravenção (que os detratores do capitalismo costumam avaliar com especial tolerância), o fenômeno chega a atingir nuances curiosas. Afinal, de negar e transgredir as leis, os detratores do capitalismo entendem...

Para estes sempre surpreendentes senhores, a prostituição não pode ser vista como uma simples, ainda que espúria, relação comercial entre um comprador (o cliente, à procura de prazer) e um vendedor (a prostituta, negociando seu corpo em troca de determinada quantia de dinheiro): sua ótica específica vê a operação como a "exploração dos filhos da classe trabalhadora pela elite dominante", ou algum outro clichê equivalente.

Já em relação ao tráfico de drogas, os detratores do capitalismo refazem as contas à sua maneira e reivindicam para o comprador (o usuário) um julgamento leniente e paternalista, negado ao vendedor (o traficante). Liberdade para o primeiro, cadeia apenas para o segundo -- mas sem exagero, claro, já que o traficante também é, no fim das contas (quer dizer, das contas sinuosas dos detratores do capitalismo), uma vítima das circunstâncias.

* * *

Onde o capitalismo distribui responsabilidades, seus detratores agem embaralhando as cartas e trapaceando no jogo. Afinal, não sendo adultos para assumirem sua parcela no rateio das culpas, eles são também incapazes de conviver ou aprender com a frustração e a derrota.

Atacando e sabotando o capitalismo, estes peculiares senhores estão, na verdade, ajudando a destruir esta sofisticada combinação de regras econômicas e valores morais que é a civilização. A vida real. O mundo dos adultos.



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 03, 2007 às

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Meu caro colega de ofício (escritor e blogueiro) Sérgio Rodrigues brinda-me com uma referência em seu concorrido Todoprosa, num post recente a propósito do novo livro de Leyla Perrone-Moysés. Honra-me, e não é de hoje, tê-lo como leitor.

Mas como, neste mundo de Deus, todas as bênçãos costumam vir misturadas, o caríssimo Sérgio me nocauteia com o tiro acusatório de sempre: minha suposta “obsessão” por Machado de Assis e Jorge Luis Borges -- autores, como todos sabem, recorrentes no chamado núcleo-duro de minha obra.

Corri, mais uma vez, ao dicionário – e conferi: obsessão = “motivação irresistível para realizar um ato irracional”, “apego exagerado a uma idéia desarrazoada” ou simplesmente “compulsão”.

Na verdade, Borges e Machado não representam nada disso para mim. Sempre foram, desde o início, a forma que encontrei para expressar minha paixão pela leitura. Os dois, afinal, pertenciam à categoria dos grandes leitores.

Antes de me arriscar a ser escritor, fui também leitor assíduo e voraz – e, quando me lancei na aventura da escrita, vi o tamanho do "estrago": estava impregnado de leituras, com alguns “cacoetes de estilo” de Machado e Borges.

(Nenhuma surpresa: são autores de obras marcantes, que ninguém consegue ler impunemente.)

Dialogar com Machado e Borges – em vez de imitá-los, conscientemente ou não – foi um jeito de de pagar o tributo devido aos dois. Foi assim com Que fim levou Brodie? (1996), Braz, Quincas & Cia. (2002) e Memorial de Buenos Aires (2006).

Naturalmente, já expliquei tudo isso (tentei, ao menos) em algumas entrevistas, perdidas no tempo-espaço da blogosfera – mas, pelo visto, não ficou muito claro. Volta e meia o assunto é retomado, levando-me a repetir que já virei a página, e estou investindo em novos caminhos na ficção.

No momento, trabalho num romance que -- surpresa! -- nem sequer menciona o Bruxo ou o Brujo.

Em miúdos: mesmo que tenha sido (vá lá...) uma “obsessão”, o fato é que já estou curado. Juro!



Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 01, 2007 às

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Neste dia de Finados, façamos um minuto de silêncio em memória da Literatura Brasileira, que já morreu e não sabe.

Que a terra lhe seja leve! (Vamos à História dos Subúrbios?...)



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Escrevo porque preciso ganhar dinheiro para viver".

Rachel de Queiroz (1910-2003), escritora brasileira.
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Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Quem passa horas conversando sobre literatura em mesa de bar são os chatos. Escritores de verdade falam mesmo é de dinheiro e de mulher."

Marconi Leal, o sábio blogueiro.
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