“Relíquias de casa velha”*

Das impropriedades ditas e escritas em torno da obra de Machado de Assis (1839-1908), muitas (e talvez sejam as piores) tratam do embate entre Bentinho e Capitu, no imbatível romance Dom Casmurro.
Na média, tais opiniões costumam acusar Machado de não ser conclusivo quanto à infidelidade de Capitu. Mas muitos vão ao extremo de criticar no autor a própria insinuação do adultério – que considerariam uma... “acusação machista e injusta”!
(Deus do céu!)
Embora falsa, a celeuma tem se mostrado fértil, interminável – com direito até a umas inusitadas “memórias póstumas”, que a pretexto de dialogar com o texto machadiano só fazem rebaixar o debate a um nível desanimadoramente baixo.
Como a tolice humana não tem mesmo fronteiras, a controvérsia chegou aos Estados Unidos, onde a ensaísta protofeminista Helen Caldwell (1904-1987) escreveu The Brazilian Othello of Machado de Assis, defendendo... a inocência de Capitu!
(“Tanto barulho por nada”, diria outro gigante. Para uma controvérsia inexistente, até que história foi longe demais...)
Ao fazerem da inocência presumida de Capitu um item obrigatório da agenda de nossas Letras, todos estes críticos, mestres e leitores estão apenas confundindo realidade e ficção, à maneira esquizóide dos fãs de telenovelas. Mas o que admira e consterna, de fato, é a suspeita de que as pessoas parecem estar perdendo, definitivamente, a capacidade de leitura – vale dizer, de compreensão.
(E a compreensão, no entanto, esteve e permanece todo o tempo ali, na letra de Machado, ao alcance de todos...)
Toda esta cortina de fogos de artifício não deixa muita gente enxergar um ponto óbvio e (hélas!) essencial: é Bento Santiago – e não Capitu – o real protagonista de Dom Casmurro. Da mesma forma, temos, como corolário, que a impossibilidade de confiar (e não o mero ciúme conjugal) constitui todo o inferno do protagonista.
Isso não impede que, graças à genialidade de Machado, este mesmo e incrédulo Bentinho consiga estabelecer com o leitor o pacto essencial da ficção (a suspensão da incredulidade) e o romance flua e aconteça.
Certamente, o assunto renderia monografias, dissertações de mestrado e teses de doutoramento, além de um bom punhado de artigos em suplementos literários – ainda mais agora que se aproxima o centenário de morte de Machado.
Mas eu prefiro “ir mais longe” e sugerir aos interessados uma ousadia muito maior: debruçar-se sobre o texto de Dom Casmurro, e usufruir do benefício insubstituível de sua leitura sem intermediários.
Quem se habilita?
(*Dedicado especialmente a uma simpática turma do curso de Letras da PUC-RJ.)




Comentários
Nunca consegui entender muito bem essa guerra "traiu" X "não traiu". Pra mim o mistério e o sabor da coisa, a sua beleza (uma de tantas), é justamente não procurar saber. Manter o mistério, quando é perfeitamente possível dizer que há, dentro do texto, elementos que podem corroborar ambas as hipóteses (ah, a malícia do querido Machado!)...
Enviado por: Saint-Clair Stockler | novembro 27, 2007 07:51 PM
Sr. Borges,
Domício, Josué ou ambos?
Me ajude a evitar livros inusitados.
Grato.
RES.: ambos, meu caro!
Enviado por: João | novembro 28, 2007 07:50 AM
Lembrei-me do pega-pra-capá com um professor quando fazia Letras justamente por causa disso, dessas 'leituras' muitas vezes desnecessárias, foi até bom porque determinou a forma como eu daria aula de literatura. As pessoas deveriam se prender mais ao texto original ao invés de teses sobre ele...
Enviado por: Leonardo Valverde | novembro 28, 2007 09:01 AM
Tenho o tal ensaio numa revista de filosofia cá da UFMG. Bah.
Enviado por: Edson | novembro 28, 2007 11:59 AM
Esse é o fim da literatura. Essas discuções não acrescentam nada. Lembro que comecei a apreciar a literatura quando terminei o 2º grau. A partir daí "soltei as amarras" e pude apreciar a verdadeira beleza da literatura que é, obviamente, ler. Antes ficava preocupado com classificações sem sentido, sabia das características de cada autor que estudei mas nunca lia um livro com gosto. "Pra que saber se Capitu é inocente ou culpada se a beleza é a dúvida?" (pegando a idéia do Stockler)
Enviado por: Pires | novembro 28, 2007 11:42 PM