“Relíquias de casa velha”-2*

Numa época em que a Literatura ainda não tinha deixado de ser o “diálogo socrático de nosso tempo” para se tornar (à maneira da guerra em Clausewitz) uma continuação da política por outros meios, Machado de Assis lançou alguns desafios estéticos que contrariavam as regras do jogo literário de seu tempo.
(Fazia isso de olho, certamente, no horizonte do Absoluto e do Infinito em que pretendeu inscrever sua obra -- sem suspeitar que o fantasma da incompreensão rondava o núcleo-duro de sua obra madura.)
Escrevendo romances a partir da fórmula folhetinesca da época, Machado tratou de introduzir também uma série de “novidades” que ultrapassavam estes limites.
A mais conhecida é, sem dúvida, a estrutura formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas a mais sofisticada se refere à estrutura narrativa de sua obra menos compreendida: Dom Casmurro.
Personagens adúlteras, inconstantes e infiéis sempre povoaram a literatura folhetinesca: Luísa de Eça de Queiroz, Anna Karenina, de Leon Tolstoi, e Ema Bovary, de Gustave Flaubert, são apenas algumas das mais famosas.
Ao inserir sua cigana de olhos de ressaca nesta galeria “fingidas e dissimuladas”, o gênio de Machado já havia superado a receita-de-bolo do folhetim de jornal: embora partisse dessa mesma fórmula consagrada, já tinha outros planos estéticos em mente para seu Dom Casmurro.
Um dos principais sinais desta mudança se refere ao foco narrativo: ao colocar o discurso do livro na voz de Bento Santiago – o real protagonista do livro – Machado priva o leitor daquela visão onisciente (permitida pelo uso da terceira pessoa verbal) que costuma desnudar todos os personagens de um livro, desvendando-os até os mínimos detalhes.
Sabendo o que se passa na cabeça de Luísa, acompanhando, junto com o narrador sabe-tudo, o leitor de O primo Basílio não tem dúvidas quanto à infidelidade da moça. Mecanismos semelhantes desvendam os segredos das adúlteras de Tolstoi e Flaubert, e os de tantos outros.
Se Machado não faz isso em Dom Casmurro, certamente não é por nenhuma insuficiência narrativa ou limitação de talento: ele simplesmente já está tratando de outras coisas.
Em outras palavras: o adultério de Capitu é apenas mais um elemento que integra a questão maior do livro – a angústia de Bento Santiago por não conseguir confiar nas pessoas (que já abordei num post recente).
O resto é silêncio – ou pior: muita conversa fiada.
(Também especialmente dedicado à simpática turma da PUC-RJ.)
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