“A filosofia da miséria”

Um ex-vizinho niteroiense, desses que vivem nas sombras, acusa-me de ser "inconclusivo" em meu post recente sobre a esquizofrenia arrogante da filosofia moderna. Incapaz de acompanhar o que ele chama de minhas "abstrações", pede-me um exemplo concreto...
Dou-lhe um bem simples, mas bastante demonstrativo de como o assassinato da lógica promovido pela estrambótica teoria da causalidade de David Hume desobrigou a maioria das pessoas de... pensar!
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O caso aconteceu recentemente comigo, durante mesa-redonda sobre Tradução Literária, na Casa de Espanha, no segundo sábado de dezembro (tantos detalhes concretos são para agradar meu ex-vizinho, fraco nas abstrações...).
A certa altura do debate, enquanto eu comentava a baixa qualidade de boa parte das traduções do espanhol que circulam no país, uma jovem me interrompeu para alertar:
"Também pudera! Do jeito como são mal pagas!"
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Tentei mostrar à moça (parecia bem-intencionada) que nenhuma tradução é necessariamente ruim por ser mal paga -- mas por ser, justamente, mal feita! Em outras palavras, não havia uma relação de necessidade (i.e., de causalidade) entre o preço e a qualidade da tradução.
(E fiz questão de exemplificar: mesmo mal pago, um profissional consciente, maduro, generoso, costuma optar por realizar um bom trabalho.)
Impacientou-se comigo, acusando-me de ser insensível às "condições adversas de exercício da profissão".
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Porca miséria! Precisaria dizer mais alguma coisa? Na verdade, o tipo de raciocínio da jovem aluna de tradução do espanhol vem se tornando o modelo (cada vez mais) recorrente do raciocínio no Brasil...
Hélas!
E depois nossos intelequituais ainda têm a cara-de-pau de investigar as "origens" de nossa miséria (material, mental, moral).
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Bastaria lembrar, com o grande mestre conservador Richard Weaver: idéias têm conseqüências!




Comentários
De fato, parece que as pessoas deixaram de raciocinar com clareza. Ganhar pouco é a causa da miséria das traduções ?
Se todos ganhássemos bem,ou ganhássemos o suficiente não haveria mais problemas no mundo? Ótimo. Vamos tentar.
Enviado por: Djabal | janeiro 14, 2008 08:16 AM
Não sei como você suporta participar dessas mesas-redondas, Antônio. A vulgaridade intelectual (e espiritual também) do Brasil não tem fim. Uma tristeza só.
RESPOSTA: Noblesse oblige, meu caro!
Enviado por: Fernando Antonio | janeiro 14, 2008 03:42 PM
Dizer que alguém faz um mau trabalho porque ganha mal é de uma desonestidade tamanha. Impressionante como isso impera no Brasil.
Não entendo de traduções, mas tenho tradutores preferidos. O fato é que para eu saber se são bons tradutoes, deveria ler os originais. Vejo como bom tradutor o que consegue transmitir o espírito e a idéia do escritor.Por exemplo, só leio Rousseau e Montaigne traduzidos por Sérgio Milliet. Adoraria somente ler Conan Doyle traduzido por Hamilcar de Garcia. "O sofrimento do jovem Werther", de Goethe, só leio na tradução de Erlon José Paschoal, meu amigo."D.Juan, o convidado de pedra" só se for traduzido por Millor, que adoro. "As mil e uma noites" só me interesso quando na tradução de Alberto Diniz. E, por fim, acho o Modesto Carone também bom tradutor.
Enviado por: Carla Cristina | janeiro 15, 2008 11:36 AM