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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 29, 2008 às
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Desde criança – e já na primeira ida a um circo – mostrou que não tinha medo da beleza violenta dos felinos, da ousadia voadora dos trapezistas ou da careta de determinados palhaços.

O que ela temia (desde criança) era o poder aparentemente irrestrito dos mágicos: objetos e pessoas flutuando, desaparecendo e ressurgindo em outro canto da cena; mulheres serradas ao meio, levitações – tudo aquilo assustava a menina, por mais que o pai a acalmasse: “É só um truque!”

Cresceu com este medo, que na verdade se cristalizou em crença materialista: na verdade, ela detestava tudo que lhe lembrasse a hipótese de uma dimensão sobrenatural. Para ela, a vida tinha que ser só o que saltasse aos olhos – a visível e irremediável matéria.

Não teve Papai Noel nos Natais, e a primeira-comunhão foi um sacrifício imposto pelos pais, sem qualquer epifania. Para sua segurança “mental” (recusava-se a dizer “espiritual”), criou para si mesma um mundo afastado de qualquer sinal do divino e do sagrado.

Por isso (enfatizava: “só por isso!), adorou O código Da Vinci e apoiava todas as crenças gnósticas de sua época. E, para reforçar sua fé na matéria, tornou-se cada vez mais pontual, empreendedora, infalível.

Um dia (mais exatamente, em 17 de julho do ano passado), a pontualidade falhou: ficou presa num engarrafamento em Porto Alegre, onde tinha passado uma semana a trabalho. Chegou atrasada ao aeroporto e perdeu o avião que (algumas horas depois) explodiria em Congonhas.

Numa surpreendente reação de raiva (e não de alívio!), gastou horas irritantes refazendo trajetos e remarcando passagem – incapaz de se dar conta do pequeno milagre, da explícita Graça recebida.

Só ontem pela manhã vim a saber de tudo isso – quando ela (velha amiga de Faculdade) me ligou assustada, incomodada, sem jeito. Tinha lido o horóscopo do jornal e ele aconselhava a não andar de avião naquele dia.

Pela primeira vez (admitiu, prendendo o choro) ela levou a coisa a sério, e sentiu medo. Tive vontade de rir e, afinal, espetá-la: “Você?! Lendo horóscopo?! E acreditando?!” Mas, acima de tudo, tive pena da moça: havia jogado fora todas as chances de crer no divino, no sobrenatural e no sagrado – ou que outros nomes tenha.

Agora, sem Deus à vista (seria irremediável?), estava começando a acreditar desesperadamente em "qualquer coisa"...


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Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 28, 2008 às
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Uma das passagens mais terríveis de 1984 (o doloroso romance-testamento de George Orwell) é, sem dúvida, a seqüência em que o inquisidor socialista O’Brien tortura o combalido protagonista Winston Smith.

Em meio ao flagelo (ao mesmo tempo físico, psicológico, moral), O’Brien pergunta a Winston se ele sabe por que o Partido se comporta daquela maneira implacável. E o pobre-diabo, num desesperado esforço de conciliação, insinua que é porque “vocês acham que isso é o melhor para nós”, ou algo do gênero (cito de cabeça, sorry!).

Risonho e sádico, o diabólico inquisidor aumenta a descarga, pisa no acelerador e atropela o que restava de auto-estima em Winston, chamando-o de imbecil e explicando o verdadeiro motivo: o poder pelo poder. Sempre foi esse o objetivo do “socialismo à inglesa” do livro (versão sintética do socialismo da vida real): o acúmulo incessante de poder.

Orwell entendia perfeitamente do riscado. Comunista arrependido (desconheço o grau de sinceridade), conheceu todo o inferno por dentro: contra o seu depoimento, ninguém poderá alegar que se trata de “calúnia do inimigo”. Orwell foi um camarada: quando fechou os olhos para morrer, em 1950, deve ter passado em revista muitos dos horrores que teve a oportunidade (sempre indigesta) de conferir.

Diante do prestígio de que as ideologias socialistas desfrutam até hoje – e apesar de tudo!! –, seria o caso de perguntar: será que essa meninada desfilando pelas ruas com a camiseta do “Che”, berrando que “um outro mundo é possível”, tem ainda algum resquício de inocência ou ingenuidade em seus espíritos?

Temo que não. Aliás, quase aposto que o que eles querem mesmo é trocar a mesada paterna por algum mensalão estatal, garantindo uma fatia deste bolo político que o assombroso O’Brien pinta em cores fortes e inconfundíveis (enfim, uma citação literal):

“Não haverá lealdade, a não ser lealdade ao partido. Não haverá amor, a não ser amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado. Não haverá arte, literatura ou ciência. Quando formos onipotentes, já não haverá mais necessidade de ciência. Não haverá distinção entre a beleza e a falta dela. Não haverá mais curiosidade, nem alegria no processo da vida. Todos os prazeres competitivos serão destruídos. Mas sempre – não se esqueça disso, Winston – sempre haverá a intoxicação do poder, sempre aumentando e sempre crescendo sutilmente. Sempre, a cada momento, haverá o tremor da vitória, a sensação de pisar num inimigo que já está sem esperança.”


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Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em às
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"O amor é a ilusão de que uma mulher é diferente das outras."

H.L. Mencken, jornalista e língua-de-trapo americano.


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"Quando duas pessoas se amam, não pode haver final feliz."

Ernest Hemingway, o pessimista vocacional.


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"São as mulheres que nos inspiram todas aquelas fantasias que elas mesmas nos impedem de realizar depois."

Alexandre Dumas, pai, escritor e blasé.


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"No amor, as mulheres são profissionais; os homens são uns amadores."

François Truffaut, o francês bem-amado.




Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em às
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Quando os cabelos do moço começaram a ficar bem compridos e as roupas coloridas e desalinhadas demais, a irmã caçula logo pressentiu que, cedo ou tarde, a porta da rua se abriria para ele, sem bilhete de volta.

E então, como se estranhasse ou condenasse tamanha ânsia de liberdade e independência, vivia decantando para o irmão, com poucas variantes, sua filosofia de menina:

“Se você quer ir atrás da liberdade, vai conseguir só liberdade, e mais nada.”

Na época, o moço achava graça da força com que ela parecia defender o aconchego de um lar, a família e todo o resto – mas não fez empenho em ouvir: fez as malas.

Os anos voaram, é claro – como autênticas pombas parnasianas que passam ligeiras, num leva-e-traz de lições, vitórias, fracassos, decepções, alegrias, e todo o resto. Mas, das lições aprendidas a "toque de porrete", uma das mais importantes que adquiriu negava o conselho prematuro da irmã caçula: mesmo que não consiga ser (para alguns, para muitos) mais importante até do que a comida, a Liberdade se tornou para ele um bem difícil de se negociar.

(Com o tempo, aprendeu também que ninguém precisa abandonar a família para ser livre. Pelo contrário: só ela parece capaz de garantir um nicho de liberdade contra o Estado, o mais frio dos monstros.)

Já o vôo da irmã caçula tomou, desde cedo, outros rumos. Intelequitual, com diploma de dotôra na França, ela nem precisou fazer força para adaptar seu “medo da liberdade” aos novos tempos. Hoje, se alguém ao seu redor ainda persiste em algum ponto inegociável (a falta de liberdade em Cuba e no socialismo, por exemplo), ela refuta, com cinismo crescente:

“Depende do que você entende como liberdade, meu caro!”.

Só na semana passada, ele a ouviu dizer tamanho absurdo três (três!) vezes. Então conseguiu entender, para sempre, que a menina dos anos ’70 não falava em defesa da família, do aconchego do lar e todo o resto: era, desde então (medonhamente, precocemente), uma liberticida... Um ovo a mais, da velha e proverbial serpente.

Na terceira vez em que ela repetiu a frase insensata, ele ainda ensaiou argumentar, quis fazer ver à irmã que liberdade qualquer passarinho entende o que é - e não só as pombas parnasianas... Etc. Etc.

Mas desistiu: à sua volta, tudo havia se tornado um pesadelo, e talvez fosse tarde demais para tentar acordar.

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Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 27, 2008 às
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Ooops! Por algum motivo, meus sonhos de verão (um post novo) vieram parar aqui...

Vão lá conferir, mas voltem, OK?

(A foto é para quem gostar também da outra....)



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 26, 2008 às
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"As mulheres detestam um homem ciumento que elas não amam; mas ficam furiosas se o homem que elas amam não for ciumento."

Ninon Lenclos, escritora francesa.


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"Os ciúmes de um amante são uma homenagem à mulher. Os de um marido são um insulto."

Carmen Sylva, pseudônimo da princesa Elisabeth Pauline Ottilie Luise zu Wied.

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"Toda mulher sabe que os ciumentos são sempre os primeiros a perdoar."

F. Dostoievski, o russo, em Os irmãos Karamazov.




Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 25, 2008 às
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...quem sabe não se realizam no outono?

Dos pequenos desejos recônditos, ouso revelar:


* Ser convidado por uma grande editora para dirigir uma coleção de clássicos...

* Ser contratado para escrever uma adaptação de Quincas Borba ou Esaú e Jacó para o cinema...

* Ser vizinho da Juliana Knust (adivinhem de quem é a foto!)...

* Ter a beleza do Tom Cruise, a elegância do Paulinho da Viola e a genialidade do G.K. Chesterton... Ah, eu seria irresistível!




Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em às
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Alguém aí já confirmou se o site português O Insurgente andou dando tiro no próprio pé?



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 24, 2008 às
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Alguém pode me explicar o que está acontecendo com o blogue português O Insurgente?

Tudo indica que Portugal está em chamas! Eu, hein?!

Bem que tinham me avisado que o mundo não ia acabar pelo fogo, mas numa grande onda vermelha!!

Melhor ir botando as barbas de molho...

(Eu disse "barbas"? Sorry, foi mal...)



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 22, 2008 às
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"Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la."

John Donne(1572-1631), poeta inglês (tradução de Augusto de Campos)


(P.S.: Em homenagem aos cientistas italianos que dizem que comprovaram a existência do lendário Ponto G...)



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 19, 2008 às
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Não conheço nenhuma pessoa normal que tenha lido e gostado dos romances de Alain Robbe-Grillet, falecido na noite do último domingo. Aliás, não conheço nenhuma pessoa normal que tenha sequer lido seus livros, todos dedicados a negar os princípios mais elementares da sintaxe e (sobretudo) da lógica, em nome da arrogância demiúrgica de estar inventando... um "Novo Romance".

Claro que, aqui e no exterior, escritores (e aprendizes de) já se debruçaram sobre a obra em questão -- e muitos até se deixaram influenciar por ela. Mas estes não contam. Escritores, afinal, não são pessoas "normais"...

A aridez da literatura de Robbe-Grillet & Cia. faz tanto mal à literatura quanto o concretismo à poesia e Samuel Beckett ao teatro. São obras que não abrem novas possibilidades, mas anunciam o impasse e o fim-da-linha.

(Para ter uma boa idéia desse "estrago", basta ler os romances do argentino Julio Cortázar, depois que ele se exilou na França: Rayuela, 62-Modelo para armar e Libro de Manuel -- todos escritos sob o impacto de "Papa" Robbe-Grillet.)

Descanse em paz, é claro... Mas, por favor: nada de fabricarem outro gênio post-mortem. O silêncio, muitas vezes, é a melhor crítica literária.



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 18, 2008 às

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Entrou na lanchonete mais próxima e fez o pedido habitual, a que seu estômago já estava acostumado:

"Por favor, um sanduíche de salaminho com queijo prato no pão francês. Com muita manteiga!"

Não tinha reparado ainda na bela moça sentada na outra ponta do curto balcão, bebericando de canudinho um suco esverdeado. O primeiro sinal perceptível da existência dela foi a voz, acusatória:

"Você não deveria comer estas coisas assim logo de manhã!"

Olhou para ela, com justificado espanto - mas preferiu se manter neutro, calado, para não atiçar o inimigo. Mas o inimigo insistia:

"Aliás, você não deveria comer estas coisas nunca!", e a voz, enfática, até parecia grifar o advérbio.

A bela conseguiu (bingo!) deixá-lo irritado, e ele enfim reagiu:

"Desculpe-me, mas não não me lembro de ter contratado seus serviços de nutricionista..."

Já meio esverdeada, como seu suco, ela olhou em volta, à procura de aliados:

"Viram só? A gente tenta ajudar e é tratada assim..."

Ele retomou a estratégia inicial de neutralidade, concentrando-se no sanduíche que tinha acabado de chegar. Mas, assim que deu a primeira mordida no ansiado banquete, a bela reiniciou o ataque:

"Por acaso você sabe quantas pessoas morrem todo ano de câncer ou de enfarte? E tudo por causa da comida?!"

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Foi demais! Ele perdeu a paciência, largou o sanduíche e se virou, pronto para a guerra:

"Não sei, não. E você: sabe?!"

Mas ficou apavorado com o que viu: a bela tinha ficado completamente verde, da cor do suco que tinha acabado de beber!

Então, deu um grito.

Acordou assustado, suando, incomodado com um barulho insistente: era o telefone.

Atendeu, ainda bocejando. Era sua irmã mais nova, dotôra em Ciências Sociais, que tinha o hábito insalubre de ligar sempre pela manhã, para provocá-lo. Dessa vez, não foi diferente:

"E então? Satisfeito com a vitória do seu filme fascista e preconceituoso?"

(Referia-se, claro, à performance de Tropa de Elite em Berlim....)

Disposto a evitar o cisma familiar, ele conciliou:

"Fascista eu sei que você acha... Mas... preconceituoso?!

Ela confirmou:

"Claro! Revi o filme ontem à noite, no DVD. É extremamente preconceituoso com os traficantes de droga. Ou você esqueceu como ele retrata o Baiano? Como se fosse um bandido! Chega a ser ofensivo!"

Assustado, ele se despediu às pressas da irmã, desligou o telefone e fechou os olhos, tentando dormir de novo.

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Àquela altura, a moça verde do pesadelo já não lhe parecia tão indigesta...



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 16, 2008 às

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"A experiência me ensinou: pessoas que não têm vícios têm pouquíssimas virtudes."

Abraham Lincoln, o próprio.



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 15, 2008 às
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Foi chamado de traidor pelo amigo, que devorava uma pizza diante dele, na mesa da lanchonete. A presença de uma terceira pessoa, testemunhando a cena em silêncio, tornou a situação ainda mais humilhante.

Traidor?! Ele?! A acusação lhe parecia insólita, descabida. Simplesmente, havia abandonado suas posições esquerdistas, dogmas e doenças juvenis, em troca do amadurecimento e da dor de aprender que o mundo não é o laboratório onde experimentamos nossas idéias.

Havia mudado de opinião, simplesmente. Mas nunca havia traído pessoas.

Achou melhor não discutir – e até preferiu relevar o “detalhe” de que o amigo que ali o acusava comungava com suas idéias atuais.

Será que o outro estaria falando em nome de alguma “coerência”, supostamente uma virtude maior? E os serial killers, que são a “coerência" em pessoa?...

Mas preferiu não brigar. Apenas sorriu, olhou o relógio e alegou algum compromisso. Cumprimentou os outros dois e saiu.

Sabia que estava levando um inferno com ele – e que o amigo era quem tinha acabado de acender a caldeira.

Atordoado, distraído, atravessou a avenida quase sem reparar no carro veloz...

O carro freou a tempo. Mas ele mal pôde se desculpar pela imprudência: quando pôs a cabeça para fora da janela, o motorista pronunciou uma única palavra (a mesma, acusatória):

"Traidor!"

Então deu um grito. A mulher o sacudiu, assustada - e ele finalmente acordou, suando...



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 14, 2008 às

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Mais uma vez, como acontece todo início de ano, a imprensa aponta seu dedo acusatório contra os maiores bancos do país, denunciando que eles (oh, santo horror!) tiveram grandes margens de lucro, no último exercício.

Segundo os especialistas, Itaú, Bradesco e Unibanco apresentaram, em 2007, os maiores resultados já obtidos por um banco nacional de capital aberto nos últimos 20 anos.

Segundo nossa imprensa, isto seria... imperdoável!

Pelo destaque dado nos jornais (sites incluídos), o fato é tratado como um escândalo, e não a realização plena do objetivo de um banco: ganhar dinheiro.

(No Brasil, quando o capitalismo acontece, vira logo notícia...)

À falta de uma argumentação mais consistente, a frase irresponsável de um dramaturgo idem parece constituir quase todo o aparato teórico com que nossos intelequituais (jornalistas incluídos) condenam o capitalismo em geral, e o sistema financeiro em particular: "O que é assaltar um banco, comparado a fundar um banco?".

Para a moral perversa destes detratores do capitalismo – melhor seria chamar: renegadores do mundo real – um Moreira Salles ou um Olavo Setúbal são criminosos mais perigosos para a sociedade do que qualquer delinqüente que, dentro ou fora da cadeia, rouba, estupra e mata para fazer justiça e promover sua própria redistribuição de renda.

Tudo isso, é claro, com a anuência de nossos intelequituais. E, se for menor, sob os auspícios do Estatuto da Criança e do Adolescente.



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"E quem disse que cigarro faz mal? Meu cardiologista fuma dois maços por dia, e nós dois vamos muito bem, obrigada!"

Anônimo, século 21 (de uma vizinha, hoje pela manhã, comprando cigarros na padaria do bairro).



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 13, 2008 às

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Meu querido amigo Bruno Garschagen, mistura fina de gentleman e jornalista, anda fazendo muita falta por aqui.

Auto-exilado em Lisboa, onde cursa o mestrado de ciência política na Universidade Católica, ele se tornou um claro exemplo daquilo que o Brasil-País-de-Todos tem a oferecer a quem deseja realmente estudar e aprender – e não simplesmente comprar a prestações um diploma de dotô.

A saída, no caso, tem sido uma só: o aeroporto internacional mais próximo.

A saudade de Bruno, que é constante, tornou-se mais aguda por estes dias. Ao me ouvir criticar, numa roda de amigos, o lamentável estado intelectual de nossas universidades, um rapaz simpático, amigo da anfitriã (nada de nomes!), se ofereceu para mudar minha opinião – para ele, “injusta e genérica demais".

Tentei declinar de tamanha "honraria" – mas, dias depois, eu recebia a maçaroca por e-mail: uma monografia de fim de curso, numa cadeira de Letras. Inacreditável! E, segundo informações, ele é um dos melhores alunos de sua Universidade. Se estivesse por aqui, meu caro Bruno me ajudaria a dar boas risadas.

Para poupar o leitor, reproduzo apenas o trecho final:


"Esse trabalho se propôs a estudar a peça Fim de Partida, de Samuel Beckett, a partir de uma perspectiva do corpo, descobrindo-o como um corpo indefinido em si mesmo, pelo mundo, pela linguagem e pela história.

O autor do trabalho reconhece que uma figura importantíssima de reconhecimento desses corpos ficou esquecida: o leitor e o espectador. Como únicos espelhos possíveis do mundo de Fim de Partida, cabe aos leitores (e aos futuros leitores) não encerrar esses corpos em uma lógica exata e em uma leitura fechada. Este trabalho tentou dar a sua contribuição nesse sentido.

Também cabe aos leitores não reconhecer esses corpos como ridículos ou risíveis, pois não é de outro mundo que Beckett está falando, senão este aqui. E, se os personagens e o mundo de Beckett são naturalmente debilitados, pior ainda seria este mundo, o qual na plenitude de suas capacidades e potencialidades insiste em se autodebilitar, se autocorroer e se autodestruir.”

Ual! Pensando bem: quando é que sai o próximo avião para Lisboa?



Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 12, 2008 às

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"Não me incomodo de viver no mundo dos homens -- desde que eu possa ser mulher nele."

Marilyn Monroe, atriz e primeira-amante americana.

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"Deus deu curvas às mulheres, mas os costureiros efeminados acabaram com elas."

Mae West, atriz e perua americana.

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"Não há mulher que se considere feia."

Ovídio, o poeta.

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"Beleza é poder!"

Naomi Wolfi, “feminista” americana.



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 11, 2008 às

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Se você reparar na janelinha do http, ali em cima, vai notar que o blogue mudou de endereço.

Mas, se olhar com atenção para o resto, vai constatar que pouca coisa mudou.

Aliás, é bem provável que você tenha chegado até aqui através do endereço antigo, por redirecionamento automático.

(Maravilhas da Ciência?...)

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A “pequena mudança” é decorrência de um convite simpático da brava turma aqui do Apostos – e na verdade tudo aconteceu “cientificamente”, mas sem que eu entendesse como funcionou (ou funciona).

Pediram-me apenas para “confiar”, pois tudo daria certo. Eu confiei – e deu certo, como você pode constatar.

Mas, durante todo o processo (na verdade, ainda agora), não pude deixar de refletir: a atitude de “confiar mesmo sem entender” é hoje comumente solicitada aos leigos em relação ao que se convencionou chamar de ciência – mas parece pouco tolerada ou compreendida quando o crer-sem-ver se refere, por exemplo, à religião.

* * *

Não vou retomar aqui o milenar e manjado conflito entre Fé e Razão, religião e ciência. Principalmente porque há muito tempo alguém muitíssimo mais brilhante do que eu dedicou a vida a superar – e superou – esta falsa oposição.

(E, pensando bem, teve que enfrentar os descrentes e intolerantes, hoje cada vez mais comuns...)

* * *

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Aconteceu no século XIII. Naquele tempo, o jovem Tomás, a fina-flor da nobre casa de Aquino, anunciou que não pretendia ser (e não seria) um monge ilustre ou um abade das congregações mais nobres: seria, isso sim, um simples frade dominicano.

Toda a família caiu sobre ele – metaforicamente, é claro. A tarefa literal de agarrá-lo e o impedir de envergonhar os parentes ficaria, um pouco mais tarde, a cargo de dois dos outros seis irmãos, suponho que os mais moços e audazes.

Foi assim: Tomás estava a caminho de Paris na companhia de outros frades quando, numa curva da estrada, ao pé de uma fonte, um pouco ao norte de Roma, sua viagem foi interrompida pela cavalgada louca. Eram seus próprios irmãos, que saltaram sobre ele, como ladrões de estrada.

* * *

Seqüestrado e reconduzido ao castelo da família, em Roccasecca, na Itália, Tomás aceitou a prisão com a calma costumeira, e ali se deixou ficar, empenhado em construir sua sólida filosofia. O resto é História, Religião, persistência e milagre.

Maiores detalhes, na imprescindível biografia (que é também hagiografia e apologética) Santo Tomás de Aquino, de G. K. Chesterton.

Imprescindível, sobretudo, nestes tempos em que abraçar uma grande religião é considerado menos digno do que abraçar, por exemplo, uma árvore velha e condenada – fetiche de nossos ecologistas...

* * *

Casa nova, velhas questões. Vão entrando, sintam-se à vontade!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 09, 2008 às

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Dizem (o que é bastante provável) que, quando o escritor e roteirista Frederic Raphael conheceu pessoalmente Marcelo Mastroianni, no fim dos anos 70, não resistiu à tentação de tirar uma dúvida que já o intrigava havia quase três anos.

Sentados (diz a história) num café ou restaurante de Roma, Raphael perguntou a Mastroianni se ele não tinha medo de que aquele recente papel de homossexual no filme Um dia muito especial (1977), de Ettore Scola, prejudicasse seu enorme prestígio entre as mulheres.

Consta (e aí, talvez, comece a lenda) que o ator italiano simplesmente deu de ombros e respondeu, com um muxoxo bem italiano: “Ah, cinema não é grande coisa...”.

* * *

O desdém do galã parece não ofender em nada a imagem dos milhões de profissionais que a indústria cinematográfica mobiliza em todo o mundo (Bolywood incluída): a maioria deles sabe, exatamente, o que está fazendo ali.

A idéia, em compensação, incomoda os intelequituais, que levam a sério demais o glamour do cinema: na contramão dos que assumem a atividade como trabalho ou como entretenimento, eles a encaram como um “discurso estético” e não se cansam de gerar reflequições a respeito.

Neste contexto, a anedota “mastroiânnica” serve como um excelente contrapeso (verdadeiro memento mori) para essas legiões de entusiasmados que acorrem às salas de cinema, ávidos para assistir às últimas adaptações de clássicos literários – No country for old men, dos irmãos Coen, por exemplo.

* * *

Buñuel costumava dizer que só os livros ruins podem render bons filmes – o que já diz muito sobre as limitações do cinema. Mas o comentário de Marcelo Mastroianni (perdoe-me, meu caro Paulo Ricardo) é definitivo: cinema não é mesmo lá essas coisas.

Se ando repetindo a frase do ator, como uma espécie de “mantra”, é na esperança de que ela amenize minha própria decepção diante do resultado final de Onde os fracos não têm vez (argh!).

* * *

Do romance original (na edição brasileira: Onde os velhos não têm vez), não sobrou sequer o título em português – para não ofender a terceira idade, o tradutor tirou uns fracotes do armário...

Pior: da instigante e seca aventura narrada pelo craque Cormac McCarthy, restou na tela uma perseguição caricata e inverossímil, embora caprichada em termos de fotografia, edição e outras bossas.

Infelizmente, um filme não é apenas visual: há que também dar conta de uma sintaxe e uma semântica – em suma, uma narrativa. E esta (essência, também, da literatura) acaba se perdendo na adaptação à tela.

Para quem (como eu) gosta dos filmes de Coen e dos livros de McCarthy, a experiência foi – numa palavra – decepcionante.

* * *

(Bem-feito! Quem mandou ter subestimado a frase do Mastroianni?...)



Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em às

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"Uma mulher bonita e fiel é tão rara quanto a tradução perfeita de um poema: geralmente, uma tradução não é bonita se é fiel e não é fiel se é bonita..."

William Somerset Maugham, (1874-1965), escritor britânico.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 01, 2008 às

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A chegada do Carnaval é sempre (ao menos para mim) fator de melancolia, diante da escalada grotesca de uma alegria histérica (e cronometrada no calendário, no relógio) que os "humanos" chamam de folia-momesca.

(Evoé, Momo!)

Mas este Carnaval que começa traz uma dose extra de desânimo: a proibição imposta pelo nazismo extemporâneo da comunidade judaica do Rio de Janeiro, a respeito de determinado carro alegórico de determinada escola de samba (danem-se os detalhes!). Tudo por conta de uma juíza que autorizou uma censura injustificável!

Insisto: dane-se o Carnaval! Danem-se as escolas de samba! Mas iniciativas autoritárias como esta só ajudam a estragar a festa (mesmo chinfrim) de qualquer um...

Até quarta-feira!!!

(P.S.: Perdoem a rabugice do post -- mas me recuso a desperdiçar humor e fazer brincadeira com Censura!)