"Senhora"

Desde criança – e já na primeira ida a um circo – mostrou que não tinha medo da beleza violenta dos felinos, da ousadia voadora dos trapezistas ou da careta de determinados palhaços.
O que ela temia (desde criança) era o poder aparentemente irrestrito dos mágicos: objetos e pessoas flutuando, desaparecendo e ressurgindo em outro canto da cena; mulheres serradas ao meio, levitações – tudo aquilo assustava a menina, por mais que o pai a acalmasse: “É só um truque!”
Cresceu com este medo, que na verdade se cristalizou em crença materialista: na verdade, ela detestava tudo que lhe lembrasse a hipótese de uma dimensão sobrenatural. Para ela, a vida tinha que ser só o que saltasse aos olhos – a visível e irremediável matéria.
Não teve Papai Noel nos Natais, e a primeira-comunhão foi um sacrifício imposto pelos pais, sem qualquer epifania. Para sua segurança “mental” (recusava-se a dizer “espiritual”), criou para si mesma um mundo afastado de qualquer sinal do divino e do sagrado.
Por isso (enfatizava: “só por isso!), adorou O código Da Vinci e apoiava todas as crenças gnósticas de sua época. E, para reforçar sua fé na matéria, tornou-se cada vez mais pontual, empreendedora, infalível.
Um dia (mais exatamente, em 17 de julho do ano passado), a pontualidade falhou: ficou presa num engarrafamento em Porto Alegre, onde tinha passado uma semana a trabalho. Chegou atrasada ao aeroporto e perdeu o avião que (algumas horas depois) explodiria em Congonhas.
Numa surpreendente reação de raiva (e não de alívio!), gastou horas irritantes refazendo trajetos e remarcando passagem – incapaz de se dar conta do pequeno milagre, da explícita Graça recebida.
Só ontem pela manhã vim a saber de tudo isso – quando ela (velha amiga de Faculdade) me ligou assustada, incomodada, sem jeito. Tinha lido o horóscopo do jornal e ele aconselhava a não andar de avião naquele dia.
Pela primeira vez (admitiu, prendendo o choro) ela levou a coisa a sério, e sentiu medo. Tive vontade de rir e, afinal, espetá-la: “Você?! Lendo horóscopo?! E acreditando?!” Mas, acima de tudo, tive pena da moça: havia jogado fora todas as chances de crer no divino, no sobrenatural e no sagrado – ou que outros nomes tenha.
Agora, sem Deus à vista (seria irremediável?), estava começando a acreditar desesperadamente em "qualquer coisa"...





































