"A Traição dos Intelectuais"

Foi chamado de traidor pelo amigo, que devorava uma pizza diante dele, na mesa da lanchonete. A presença de uma terceira pessoa, testemunhando a cena em silêncio, tornou a situação ainda mais humilhante.
Traidor?! Ele?! A acusação lhe parecia insólita, descabida. Simplesmente, havia abandonado suas posições esquerdistas, dogmas e doenças juvenis, em troca do amadurecimento e da dor de aprender que o mundo não é o laboratório onde experimentamos nossas idéias.
Havia mudado de opinião, simplesmente. Mas nunca havia traído pessoas.
Achou melhor não discutir – e até preferiu relevar o “detalhe” de que o amigo que ali o acusava comungava com suas idéias atuais.
Será que o outro estaria falando em nome de alguma “coerência”, supostamente uma virtude maior? E os serial killers, que são a “coerência" em pessoa?...
Mas preferiu não brigar. Apenas sorriu, olhou o relógio e alegou algum compromisso. Cumprimentou os outros dois e saiu.
Sabia que estava levando um inferno com ele – e que o amigo era quem tinha acabado de acender a caldeira.
Atordoado, distraído, atravessou a avenida quase sem reparar no carro veloz...
O carro freou a tempo. Mas ele mal pôde se desculpar pela imprudência: quando pôs a cabeça para fora da janela, o motorista pronunciou uma única palavra (a mesma, acusatória):
"Traidor!"
Então deu um grito. A mulher o sacudiu, assustada - e ele finalmente acordou, suando...




Comentários
Tal texto representa bem os que têm dúvidas sobre suas posturas políticas e ecônomicas e estudam pouco para atenuá-las. Com conhecimento não há patrulhamento ideológico que gere pesadelos..
Enviado por: Carla Cristina | fevereiro 17, 2008 09:10 AM
Ótimo, ótimo.
Enviado por: Daniel Lourenço | fevereiro 17, 2008 07:54 PM
Realmente, queiramos ou não, sempre traíremos algo, ou alguém. Desde que sejamos saudáveis. As mudanças são grandes, rápidas; tudo isso diante da nossa incomensurável tendência à mumificação. Parabéns.
Enviado por: Djabal | fevereiro 18, 2008 10:58 AM