"Naked Lunch"

Entrou na lanchonete mais próxima e fez o pedido habitual, a que seu estômago já estava acostumado:
"Por favor, um sanduíche de salaminho com queijo prato no pão francês. Com muita manteiga!"
Não tinha reparado ainda na bela moça sentada na outra ponta do curto balcão, bebericando de canudinho um suco esverdeado. O primeiro sinal perceptível da existência dela foi a voz, acusatória:
"Você não deveria comer estas coisas assim logo de manhã!"
Olhou para ela, com justificado espanto - mas preferiu se manter neutro, calado, para não atiçar o inimigo. Mas o inimigo insistia:
"Aliás, você não deveria comer estas coisas nunca!", e a voz, enfática, até parecia grifar o advérbio.
A bela conseguiu (bingo!) deixá-lo irritado, e ele enfim reagiu:
"Desculpe-me, mas não não me lembro de ter contratado seus serviços de nutricionista..."
Já meio esverdeada, como seu suco, ela olhou em volta, à procura de aliados:
"Viram só? A gente tenta ajudar e é tratada assim..."
Ele retomou a estratégia inicial de neutralidade, concentrando-se no sanduíche que tinha acabado de chegar. Mas, assim que deu a primeira mordida no ansiado banquete, a bela reiniciou o ataque:
"Por acaso você sabe quantas pessoas morrem todo ano de câncer ou de enfarte? E tudo por causa da comida?!"

Foi demais! Ele perdeu a paciência, largou o sanduíche e se virou, pronto para a guerra:
"Não sei, não. E você: sabe?!"
Mas ficou apavorado com o que viu: a bela tinha ficado completamente verde, da cor do suco que tinha acabado de beber!
Então, deu um grito.
Acordou assustado, suando, incomodado com um barulho insistente: era o telefone.
Atendeu, ainda bocejando. Era sua irmã mais nova, dotôra em Ciências Sociais, que tinha o hábito insalubre de ligar sempre pela manhã, para provocá-lo. Dessa vez, não foi diferente:
"E então? Satisfeito com a vitória do seu filme fascista e preconceituoso?"
(Referia-se, claro, à performance de Tropa de Elite em Berlim....)
Disposto a evitar o cisma familiar, ele conciliou:
"Fascista eu sei que você acha... Mas... preconceituoso?!
Ela confirmou:
"Claro! Revi o filme ontem à noite, no DVD. É extremamente preconceituoso com os traficantes de droga. Ou você esqueceu como ele retrata o Baiano? Como se fosse um bandido! Chega a ser ofensivo!"
Assustado, ele se despediu às pressas da irmã, desligou o telefone e fechou os olhos, tentando dormir de novo.

Àquela altura, a moça verde do pesadelo já não lhe parecia tão indigesta...




Comentários
haha! Inspiradíssimo.
Enviado por: Igor | fevereiro 18, 2008 12:31 PM
Após o telefone, algum funcionário da prefeitura poderia tocar a campainha para multar por ter saído com o carro em dia que o rodízio não permitia ;)
Enviado por: Ronald | fevereiro 18, 2008 03:14 PM
Não sei pq, mas detectei uma certa metáfora, fortemente irônica. Será a minha consciência berrando ou pura paranóia? Seja lá o que for, me fez rir um tanto... :-O Mas, desse post, o que me tocou em grande profundidade foi a vaquinha lá atrás da bela (?) moça, implorando pra gente não comer-lhes os parentes, no máximo os parentes das cenouras :-D
Enviado por: Shi | fevereiro 18, 2008 03:19 PM
Lembra dos Cretinos Fundamentais do Nelson Rodrigues? Ele era um oráculo. Abraços.
Enviado por: Djabal | fevereiro 20, 2008 08:11 AM
Conheço o cretino fundamental, Djabal. O próprio, de paletó e gravata. Seu nome é Humberto (nome de contínuo). Nelson Rodrigues deve tê-lo conhecido, também.
Abraços,
Márcio Guilherme.
Enviado por: Márcio Guilherme | fevereiro 20, 2008 10:02 AM