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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 28, 2008 às
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Quando os cabelos do moço começaram a ficar bem compridos e as roupas coloridas e desalinhadas demais, a irmã caçula logo pressentiu que, cedo ou tarde, a porta da rua se abriria para ele, sem bilhete de volta.

E então, como se estranhasse ou condenasse tamanha ânsia de liberdade e independência, vivia decantando para o irmão, com poucas variantes, sua filosofia de menina:

“Se você quer ir atrás da liberdade, vai conseguir só liberdade, e mais nada.”

Na época, o moço achava graça da força com que ela parecia defender o aconchego de um lar, a família e todo o resto – mas não fez empenho em ouvir: fez as malas.

Os anos voaram, é claro – como autênticas pombas parnasianas que passam ligeiras, num leva-e-traz de lições, vitórias, fracassos, decepções, alegrias, e todo o resto. Mas, das lições aprendidas a "toque de porrete", uma das mais importantes que adquiriu negava o conselho prematuro da irmã caçula: mesmo que não consiga ser (para alguns, para muitos) mais importante até do que a comida, a Liberdade se tornou para ele um bem difícil de se negociar.

(Com o tempo, aprendeu também que ninguém precisa abandonar a família para ser livre. Pelo contrário: só ela parece capaz de garantir um nicho de liberdade contra o Estado, o mais frio dos monstros.)

Já o vôo da irmã caçula tomou, desde cedo, outros rumos. Intelequitual, com diploma de dotôra na França, ela nem precisou fazer força para adaptar seu “medo da liberdade” aos novos tempos. Hoje, se alguém ao seu redor ainda persiste em algum ponto inegociável (a falta de liberdade em Cuba e no socialismo, por exemplo), ela refuta, com cinismo crescente:

“Depende do que você entende como liberdade, meu caro!”.

Só na semana passada, ele a ouviu dizer tamanho absurdo três (três!) vezes. Então conseguiu entender, para sempre, que a menina dos anos ’70 não falava em defesa da família, do aconchego do lar e todo o resto: era, desde então (medonhamente, precocemente), uma liberticida... Um ovo a mais, da velha e proverbial serpente.

Na terceira vez em que ela repetiu a frase insensata, ele ainda ensaiou argumentar, quis fazer ver à irmã que liberdade qualquer passarinho entende o que é - e não só as pombas parnasianas... Etc. Etc.

Mas desistiu: à sua volta, tudo havia se tornado um pesadelo, e talvez fosse tarde demais para tentar acordar.

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Comentários

É realmente incrível o cinismo com que esse pessoal relativiza a liberdade!

Último domingo discuti com um discípulo de Foucault que afirmava que os americanos eram tão livres quanto os chineses. Segundo ele, os americanos estariam presos a uma “superestrutra” que tornaria sua democracia igualmente totalitária e as suas possibilidades e opções mera ilusão..

Como alguém pode honestamente acreditar nisso? Ele devia se considerar o único homem verdadeiramente livre e os outros apenas ignorantes manipulados. Haja arrogância!

“Depende do que você entende como liberdade, meu caro!”

Isso é triste! Semanas atrás fui comer uma pizza com um amigo, físico, e umas amigas dele. Ele tentava falar alguma coisa sobre as condições de pesquisa nos países desenvolvidos quando uma menina, bacharel em filosofia, interrompeu:

"Desenvolvidos em QUÊ? Desenvolvidos COMO?"

Gostei muito do mini-conto!

Paulo Serran

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