« fevereiro 2008 | Página Principal | abril 2008 »

Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em março 31, 2008 às
erra_em_transe.jpg


Uma leitora sociopata (dessas de que nenhum blogue precisa) invadiu o espaço de comentário com um punhado de acusações agressivas que (óbvio!) não serão publicadas. Seu nome também não -- até porque o nome de pessoas assim costuma ser "Legião".

Começou questionando a pertinência de uma ilustração. Depois, atirou slogans mordazes. Finalmente, num comentário maior, mostrou sua verdadeira face, dizendo-se chocada (quase... "indignada"!) com minhas posições conservadoras e... "direitistas". Criticou meus livros, mesmo admitindo que não tinha lido nenhum! E o pior: deixava claro, nas entrelinhas, que se tivesse tal poder trataria de me impedir de dizer o que penso.

Deus do céu!

Parece que o meu "clubinho", inaugurado para dialogar e confraternizar com meus pares, anda incomodando o "lado de lá". Mas o mais preocupante é que comportamentos assim vão se tornando mais e mais freqüentes. Na verdade, parece constituir a ponta do enorme iceberg que ainda há de afundar o Titanic da civilização ocidental -- aquela que muita gente acreditava que não afundaria nunca...

Pois é: pelo visto, já começou a afundar. Haja vista o episódio recente em que o humorista Marcelo Madureira quase foi caçado a pauladas porque ousou afirmar o que achava do "gênio da raça" Glauber Rocha. O tom intimidatório foi (mais uma vez) explícito: se depender dessa gente, em breve ninguém vai poder discordar da opinião dominante.

Se isso não é sinal de uma escalada totalitária, vou deletar meu Houaiss eletrônico. E adotar de uma vez a Novilíngua do Orwell.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 27, 2008 às


rachel+weisz+-+estonteante.jpg

"Nunca acenda um fogo que você não possa apagar."

Provérbio chinês.


lliu.jpg

A verdade nos leva a todos os lugares. Inclusive à prisão."

Provérbio polonês.


golino.1193780655.jpg

"Nunca diga que as estrelas morreram só porque o céu está nublado."

Provérbio árabe.



Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em às
7877788_e0916b510e.jpg

Aconteceu há algum tempo, mas só anteontem meu amigo me contou a pequena parábola.

Naqueles dias, ele andava sempre de cabeça baixa, catando os frutos amargos de uma temporada difícil. Pior do que o saldo bancário (à beira do vermelho) eram a fuga dos clientes e a falta de horizontes para sua empresa modesta. Ladeira abaixo, e sem freio: assim meu amigo definia a própria situação, sua humana condição naqueles dias.

Era exatamente assim (cabisbaixo, depressivo) que ele caminhava naquela manhã de domingo. E, graças à cabeça baixa, pôde ver à sua esquerda, num cantinho esquecido da calçada, a cena clássica da jovem pedinte, com a proverbial criança no colo, à espera da atenção e da misericórdia dos que passavam.

(Em outros tempos, a cena o teria irritado – pela poluição urbana, pela chantagem emocional... Mas, do jeito que ia, como sentir raiva de alguém tão parecido com ele?)

Quando passou pela moça, e a encarou, teve a primeira surpresa do dia, ao perceber a diferença nos olhos: eram mansos, sem a arrogância ressentida da maioria dos pedintes de rua. E pareciam (e certamente estavam) menos assustados do que os dele.

A segunda surpresa: a moça olhou para ele, mas nada pediu. Talvez por vê-lo triste, o fato é que abriu um sorriso tímido. Não apelou para o sentimentalismo habitual. Nem mesmo estendeu a mão.

Meu pobre amigo (cabisbaixo, triste), sentindo-se ali tão pobre e desamparado quanto ela, parou, tirou do bolso um punhado magro de moedas e notas miúdas e estendeu para a moça. Justificou-se, comovido:

“Desculpe se é pouco, irmã. Mas as coisas andam muito difíceis para mim também. Fique com Deus!”

Já ia se afastando quando ouviu a jovem falar, numa voz firme, agradecida e mais confiante do que a dele:

“Vai melhorar, senhor! Se Deus quiser. Tenha fé!”

O comentário generoso o pegou se surpresa: meu amigo não sabia o que fazer. Ficar? Conversar com a moça? Tentar “ajudá-la” de algum modo?

(Ela, de algum modo, já o estava ajudando!)

Não conseguiu fazer nada. Sorriu e se afastou. Mas sentiu uma pequena alegria, uma esperança gotejando dentro dele, ainda que bem miúda.

(Uma vontade, ainda que vaga, de não desistir.)

Por isso, não achou coincidência que, nas semanas seguintes, sua situação dramática começasse a mudar. Os pedidos e encomendas foram aparecendo: era a clientela voltando.

Meu amigo se lembrou, imediatamente, da jovem pedinte. Tornou a passar (e não poucas vezes) pelo mesmo local – mas nunca mais a encontrou ali, nem nas redondezas.

Até hoje se lembra dela. Mesmo sem crer em milagres, ele sabe que a vida é cheia de pequenos sinais, e que é preciso saber decifrá-los. E agradecer.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 25, 2008 às
ambulancia-~-SCM_154.jpg

De todos os pesadelos que marcaram o século 20, o automóvel perde apenas – em número de vítimas – para o coletivismo.

Nem Hitler nem Pinochet (figurinhas-fáceis na pauta dos indignados da hora) levaram seu flagelo tão longe. No entanto, nem a “máquina letal” nem a construção da “sociedade perfeita” costumam ser tratadas com o mesmo rigor crítico...

A explicação parece clara: nos dois casos, há um anonimato que se esconde atrás da idéia confortável de engrenagem, nutrindo-se dela. Como se forças eletromecânicas e sociais pudessem agir por vontade própria, sem qualquer interferência da ação intencional dos homens.

Intelequituais acreditam em cada coisa! Condenam o "consumo"; exaltam as "forças da História".

Pior: desprezam a lógica e as estatísticas, quando elas desmentem seus “preceitos morais”.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 23, 2008 às


046_resurrection.jpg

"Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora."
Georges Bernanos, o gênio francês.


FELIZ PÁSCOA!!!



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 21, 2008 às

08052198.jpg
"A prova mais clara de sabedoria é uma alegria constante."
Michel de Montaigne, constante e alegre.


Scarlett_Johansson - 1 - Scoop.jpg

"Ser feliz sem motivo: eis a forma mais autêntica de felicidade."

Carlos Drummond de Andrade, autêntico e infeliz.


ap_refaeli_071002_ms.jpg

"Felicidade é: muita saúde e pouca memória."

Ingrid Bergman, bela e saudável.



Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em março 20, 2008 às
false_happiness-755560.jpg,

Perdidos o bule e a paciência, Ela parece outra por trás do balcão do velho salão de chá. Sabe que existem fregueses discretos, que por certo dispensam ser incomodados por comentários inconvenientes a respeito do tempo, da natureza dos erros, do sentido do mundo. Tudo que querem é um pouco de silêncio, café duplo com creme e alguns torrões possíveis de açúcar.

Mas Ela sabe também que há outros com quem de nada valerá ter cuidado. São os mais difíceis: sofrem com a falta definitiva do sol, são raros e exigentes, e inconfundivelmente tristes. É fácil reconhecê-los, pelo cigarro meio acesso no canto da boca e pelo sobretudo cáqui, quase um uniforme. Não chego portanto a me sentir disfarçado, de sobretudo, cigarro e sentado na mesa mais afastada do balcão, próximo à entrada e saída, longe das mesas lotadas por essa gente tola, sobrevivente dos tempos de desordem. Tudo apenas para que Ela tenha o máximo de trabalho quando vier me servir pessoalmente, como faz com todos os clientes difíceis.

mvc-080f.jpg

Posso vê-La anotar com surpresa meu pedido, raro para os tempos que correm. Chá completo, legítimo e inglês, com creme espesso e biscoitos amanteigados de cacau. E, sobretudo, no fino bule de prata que integra a tradição indispensável da Casa: quem nele beber chá quente, diz a lenda publicitária nutrida pelos antigos donos, estará mais perto da Verdade e da Causa Certa — e a salvo, portanto, dos tribunais do Partido. Não creio em lendas, claro, mas tive outros motivos para fazer sumir o maldito bule. Um, sobretudo: fazê-La sofrer.

Já sem o bule e quase sem paciência, Ela retorna à minha mesa e inicia seu teatro amargo de explicações, pontuadas por "são tempos difíceis" e "o senhor sabe como andam as coisas". Claro que sei, e até já havia ensaiado de cabeça cada minuto da cena, ainda na presença do Mestre. E a reação me sai irretocável, e sua soberba e recém comprada casa de chá acaba reduzida a uma simplória espelunca freqüentada por vermes e desertores, que o meu indicador direito vai apontando, como detestáveis exemplos. A voz rascante, pouco disfarçada, trabalha para amplificar n’Ela a tensão. Porque é preciso que Ela "se vá" (um eufemismo do Mestre) sem nenhuma chance de repouso.

É preciso ser duro, mas sobretudo ser rápido, nesses tempos difíceis. Quando o Mestre decidiu que destino Ela teria, e que caberia a mim (logo a mim!) completá-lo, exigiu com sua firmeza tão típica que a ação fosse rápida, exata, inadiável: hoje, agora. Amanhã talvez já saiam jornais, mas ainda há uma longa faxina a promover para dar um pouco de ordem aos acontecimentos, à pouca luz de um sol que quase já não brilha há muitos meses. Tem que ser hoje, agora, senão os dias de sobretudo e cigarros também acabarão. O método de execução não varia: que o castigo seja para a vítima como um extremo cansaço, como o esgotamento que nasce de uma jornada estúpida de trabalho. São palavras e idéias do Mestre, mas poderiam ser minhas. Mas nunca iria tão longe, em crueldade e ironia: escolher logo a mim, para tamanho desconcerto.

mvc-080f.jpg

Sem o bule, e já com pouquíssima paciência, Ela começa a pressentir que o equilíbrio que quase supôs possível está para se partir. Mas não sabe (é tola demais, sei que não sabe) da tragédia iminente. Parece outra, a cada vez que se distancia e retorna, ou some e reaparece por trás do balcão central, mas não há dúvida: é Ela, que pouco mudou nesses anos. A mesma dificuldade antiga de controlar o pânico, a fraqueza, enquanto procura o lendário bule, que um ganancioso Gómez da cozinha se encarregou de fazer sumir desde ontem, a um comando meu. Ferida em seu orgulho maior — a eficiência burguesa — ela parece outra, como uma fêmea comum em frangalhos, potranca ferida a suspirar por alguma eutanásia.

Mas há também simetria e requintes nas exigências do Mestre. Quer que tudo se passe de algum modo belo e notável, sem prosaísmo, de um jeito em que haja menos sangue que metáforas, como nos nossos clássicos. Por isso recrutou a mim, logo a mim, para vir romancear as horas finais Daquela que já não merece manchar, com sua existência, a sombra de tantos mortos. Detrás do balcão, já não parece apenas mudada: é mesmo outra, tão diferente dos tempos em que guerreamos do mesmo lado, antes que se transformasse em mais uma inimiga. Hoje é incapaz de perceber que tudo está por tão pouco. No que vier a sair amanhã nos jornais (se houver jornais, amanhã) há de faltar por certo o melhor: o romantismo da cena, seus olhos de assombro, seu medo. Será um texto sóbrio, didático, como há de convir para todo o sempre.

Passado tanto tempo, em lados tão opostos, é difícil lembrar-se de quem por fim arrastou o outro para suas armadilhas de idéias. Só lembro que nas horas de acasalamento, nas folgas entre as lutas, Ela era no fundo a mesma doce aristocrata que nunca mudaria, tentando polir meus gestos de guerreiro rude e apressado. E para que esse luxo, eu dizia, se estávamos ali (e estou aqui até hoje) para que o luxo justamente acabasse. Hoje os tempos ficaram mais difíceis, e chove sempre, e o alimento é escasso e suado.

mvc-080f.jpg

Que outro momento seria mais adequadamente literário, como exigiu o Mestre? É agora: Ela se aproxima lenta e nervosa, trazendo pessoalmente a bandeja como uma linda trabalhadora qualquer. Sei que o chá virá ralo num bule plebeu, e os biscoitos serão poucos, e o creme precário e rançoso. Já estava previsto, não pela lenda, mas no estilo do Mestre. Ela continua se aproximando, sem nenhuma chance de descanso: tensíssima. Como merecem ser as castigadas, como quer o Partido, como mandam os nossos clássicos. Por que demorar-me mais no disparo único, cercado de metáforas? Olá, digo então, e forço a mesma voz antiga. Sei que passaram anos, envelheci — mas quem muda tanto, afinal, em tempos difíceis?

Ainda posso vê-La parada, com a bandeja na mão, para sempre sem atitude. Um único tiro, e tudo afinal desaba, numa mistura de corpo, caco, ruínas, bandeja. O resto é sair andando, sem pressa e sem piedade, como também está determinado pelo Mestre que comanda o nosso mundo sem saídas. Mas que acharia ele ao me ver distraído no trânsito vago, pelas ruas quase desertas, lamentando a certeza de que tudo esteja sempre por tão pouco? Amanhã talvez já não saiam os jornais, nem jamais alguém voltará a fazer biscoitos amanteigados de cacau como Ela, tão ótimos...

(Para ler mais contos do autor, clique aqui.)



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em março 19, 2008 às
Mage-Design-Pigs-715853.jpg


Nos pesadelos em que minha infância tantas vezes ardeu, havia monstros indizíveis, paisagens absurdas, desejos que não ousavam dizer seu nome. Mas certamente nenhum desses sonhos maus causava maior pavor do que a cena, assustadora e recorrente, da “síndrome da igualdade progressiva”.

Era assim: em sua versão mais banal (se é que a banalidade habita os sonhos), eu me via sentado à mesa de jantar, junto com a família. Mas aqueles estranhos não eram meus parentes: pareciam visitas desconhecidas se divertindo numa sala que se abrisse pouco.

Mas nem era essa a parte mais sombria dos sonhos: o pior começava quando afinal serviam o jantar e, à medida que davam as primeiras e gulosas garfadas, aqueles meus supostos parentes iam ficando absurdamente iguais entre si.

Todos passavam – horror! horror! – a ter o mesmo rosto.

Não era nenhum rosto especialmente monstruoso. Na verdade, demorei algum tempo até perceber que o que de fato me assustava era aquela crescente semelhança facial, aquele igualitarismo opressor que transformava a variedade de expressões numa única e mesma caraça inexpressiva.

Desde então, passei a olhar com desconfiança para todos os que apregoassem a igualdade como sinal de graça ou de justiça. Pela vida afora, em face desses “justiceiros”, lembrava-me sempre da minha assombrosa “síndrome” e sua “igualdade progressiva”.

(Certamente, um nome assim tão pomposo não brotou da idéia de um guri assustado, em nenhuma daquelas manhãs em que despertava encharcado de suor, sem entender ainda como a matéria de um sonho podia parecer tão real.)

Mas seria exagero dizer que, por conta dessa desconfiança, mostrei-me sempre arredio ao consenso humano e às multidões. Fui, inevitavelmente, jovem como qualquer um. E, quanto mais juvenil, mais horrivelmente gregário e coletivo é o ser humano.

Hoje, olhando a tendência igualitarista do mundo, já não sei se estou definitivamente sonhando ou se meus pesadelos viraram matéria-corrente, em plena luz do dia.



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 17, 2008 às
6a00d8341eaf0a53ef00e54f4b481e8834-800pi.jpg
“A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto dos homens.”
Victor Hugo, o gênio risível.

1.jpg
"A única coisa sem mistério é a felicidade, porque se justifica em si mesma."
Jorge Luis Borges, o triste.


sofia_vergara.jpg

"O silêncio é o mensageiro mais eloqüente da alegria."
William Shakespeare, o discreto.


Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 15, 2008 às
the-messengers2-7.jpg
"Quem teme o sofrimento já está sofrendo."

Apud Michel de Montaigne, sereno.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 14, 2008 às
3.jpg

Idéias têm conseqüências: as palavras certeiras do grande educador Richard Weaver sempre me impressionaram, desde o início da minha aventura de leitor, pela gravidade de seu chamamento à responsabilidade moral. Pena que pouca gente dê alguma atenção a isso.

Pergunte, por exemplo, a qualquer psicanalista se ele tem consciência de que as teorias de seu guru estão na origem dessa grande compulsão erótica que sacode a civilização ocidental, com uma série de encrencas que vão desde o envolvimento de homens públicos com o baixo-clero do sexo até a disseminação de doenças fatais como a Aids.

Da mesma forma, faça o teste com algum sociólogo de plantão: até que ponto ele concorda que a defesa sociológica (e marxista, em particular) dos proverbiais “excluídos” é responsável pela escalada da arrogância entre os pobres e – pior! – pelo aumento da criminalidade no Brasil?

Provavelmente, tanto um quanto o outro vão fazer uma cara de espanto ou indignação e exagerar no gestual (franzindo a testa, tensionando os músculos ou arregalando os olhos) para afinal responder com um vago: “Mas que absurdo!”

Parece que nossos intelequituais (e não apenas os psicanalistas ou sociólogos de plantão) acreditam que o “outro mundo possível” que sempre apregoaram nada tem a ver com este cenário de terror que eles estão ajudando a construir sobre as ruínas do Ocidente civilizado. E que, apesar de terem as mãos sujas de sangue, mantêm ainda o coração tão branco quanto o de Lady Macbeth.

Idéias têm conseqüências: ali nascem, afinal, as matrizes de crenças e comportamentos que, aos poucos, vão sendo espalhadas pelo mundo (que nossos intelequituais preferem chamar de sociedade).

Por trás do mendigo que estende a mão com fingida humildade ou da vizinha insinuante que sorri com a boca em forma de isca – ah, são muitas décadas de sociologia e psicanálise que nos contemplam!

Os bárbaros invadiram a cidade. A turma da "geral" comanda o espetáculo. Mas nossos intelequituais (que não acreditam na Bíblia) lavam as mãos. Como Pôncio Pilatos...



Arquivado em: oops! — postado por Antonio Fernando Borges em março 10, 2008 às
TheSadClown2.jpg


* Amar sem ser amado.

* Sentir-se o 'homem errado'.

* Estar desempregado.

* Ser sonhador e azarado.

(Não ria do ridículo: podia ser com você.)



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 07, 2008 às
039_68791~Sandra-Bullock-Posters.jpg
"A esperança é uma planta daninha, que come o lugar de outras plantas melhores."
Apud Machado de Assis, o desencantado.


Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 06, 2008 às
cidade.jpg

(Acontece sempre, toda vez que volto de uma livraria...)

A literatura brasileira contemporânea (carente de boa sintaxe, boa-fé e às vezes até de bons modos) carece acima de tudo de grandeza.

Não é preciso mais do que puxar pela memória, ou fazer uma busca rápida na estante mais próxima: entre os romances recentes, que protagonistas poderiam ser caracterizados como... heróis?

* * *

(Falo de heróis no sentido clássico: criaturas míticas, exemplares – pessoas capazes de sacrifício e da busca de redenção, em nome de um conjunto de valores elevados, postos acima do egoísmo e da vaidade. Que minhas palavras soem antiquadas é mais um sintoma dessa carência essencial de heroísmo.)

* * *

Nem estou cobrando que todo escritor venha a tratar destes tipos excepcionais e elevados que chamamos, justamente, de heróis. Mas onde estão (pelo menos!) aqueles seres humanos à “moda antiga”, capazes de enfrentar com grandeza os desafios e conflitos que, mesmo na vidinha mais comum, estão sempre nos obrigando a contrapor e harmonizar o sensível e o inteligível, a alma e o corpo, o espírito e a matéria, o bem e o mal...?

Hoje, se querem um monumento, basta olhar em volta:

Quase sempre, os protagonistas de nossa literatura atual são criaturas simplórias,violentas, ressentidas, seres invejosos e miúdos atrás de alguma vantagem material ou mesmo da simples e pura vingança.

Com as honrosas exceções de sempre, são fracassados, vagabundos, miúdos e maliciosos – numa palavra, “excluídos”, para usar o termo-chave do vitimismo vigente.

* * *

Quem não se lembra? Além de divertir, a ficção sempre operou como uma espécie de “laboratório das emoções humanas”.

Hoje, tudo isso parece perdido – tendo cedido lugar a um mesquinho papel de propaganda de alguma bandeira esfarrapada: socialismo, liberação sexual e outras cartas marcadas do mesmo baralho "viciado".

(Façam suas apostas, senhores! Como se diz na Bahia; não lhe custa nada, só lhe custa a vida!)



Arquivado em: um par de aspas — postado por Antonio Fernando Borges em março 05, 2008 às
Sad_Woman-300507.jpg
"A vida é curta, mas os dias são longos."

Apud Carlos Drummond de Andrade, o breve.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 04, 2008 às
chaves2ey.jpg


Este blogue não costuma fazer proselitismo político. Mas acata com bons olhos a sugestão do jornalista Reinaldo Azevedo, em seu corajoso blogue:

Envie o seu protesto ao Itamaraty contra a posição do governo brasileiro em face da agressão de que é vítima o povo colombiano. Envie os e-mails para os seguintes departamentos:

- Assessoria de Imprensa do Gabinete do ministro Celso Amorim
imprensa@mre.gov.br
- DEA - Divisão da Organização dos Estados Americanos
dea@mre.gov.br
- DHS - Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais
dhs@mre.gov.br

Depois, envie uma cópia de seu protesto para a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Não é preciso mandar cópia a todos os membros. Basta que ela chegue ao senador Heráclito Fortes (DEM-PI), o presidente: heraclito.fortes@senador.gov.br

Não deixe que nos façam de palhaços!



Arquivado em: 3 x 4 — postado por Antonio Fernando Borges em às
Mc_070405115050634_wideweb__300x375.jpg


Sentado diante da imponente lareira de sua casa em Fitzroy Square, Londres, o escritor inglês Ian (Reparação) McEwan deu uma ótima entrevista ao Babelia, suplemento literário do jornal espanhol El País.

McEwan trata de muitos assuntos, mas o que me chamou a atenção foi um ponto de reflexão específico: até que ponto a liberação sexual (obsessão contemporânea) foi mesmo uma conquista civilizatória.

Notório por usar as tensões sexuais como leitmotiv de alguns de seus romances mais famosos (Reparação e Na Praia, por exemplo), McEwan se mostra desiludido com o "freudianismo" reinante entre os intelequituais modernos: "Sexo não é tudo. Não é suficiente, de fato".

Bingo! Em nossa triste época tão obcecada pela liberação sexual sem limites, é sempre animador quando um grande escritor vem lembrar: "É perfeitamente possível desfrutar de muito sexo e ser completamente infeliz."

McEwan vai ainda mais longe e arrisca perguntar (coisa incomum em nossos tempos) se, com a chamada "evolução dos costumes", não perdemos alguma coisa...

Perdemos, sem dúvida -- e muito!

Junto com a liberalidade sexual, nossa civilização judaico-cristã se viu invadida por um relativismo moral que nos fez retroceder aos tempos da amoralidade decadente do Império Romano. Ou seja, a um passo da barbárie.

Nossos intelequituais estão aí mesmo para mostrar: a apologia da sexualidade desenfreada, a defesa das drogas e o elogio de guerrilheiros homicidas e ditadores sanguinários -- tudo isso faz parte do mesmo pacote de "um outro mundo possível".



Arquivado em: provocações — postado por Antonio Fernando Borges em às
10f.jpg
"Se a mulher já perdoou seu homem, não deve ficar requentando os pecados dele no café da manhã."
Marlene Dietrich, a imperdoável.

**********

jessica_biel_3.jpg
"Há pessoas que retiram tranqüilamente uma ofensa que acabaram de proferir, como quem retira um punhal do ventre do adversário."
Jules Renard, incomparável.

**********


nastassja-kinski02.jpg

"Não se apresse em perdoar: a misericórdia também corrompe."

Nelson Rodrigues, implacável.



Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em março 03, 2008 às
abismo.jpg

“Sei muito pouco a respeito de abismos: desconheço, por exemplo, se eles eventualmente se atraem ou não, na razão direta das grandes catástrofes, ou coisa parecida...

Mas sei que é impossível não ceder à tentação de acreditar que as coisas tendem sempre a piorar quando já estão bem ruins.

Talvez isto não seja uma regra geral (certamente não é!), mas devo confessar que eu me sentia assim (indo de mal a pior) naqueles tempos em que sorrir para uma garçonete bonita, num restaurante barato, era o máximo que eu me permitia, em matéria de emoções.

(Mesmo cumprimentar o porteiro bonachão do meu prédio não ia além do protocolar e do automático.)

Só. Muito só.

Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett."

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre o clima de esterilidade e fim de linha que o universo de Beckett representa para a arte contemporânea. O trecho acima é mais um exemplo disso. A vítima, no caso, acabei sendo eu mesmo. O trecho acima pretendia ser o começo de um conto ou uma novela - mas empacou definitivamente quando ousei escrever o nome do famigerado autor do Godot...

Para não perder inteiramente a viagem, publico-o aqui como uma espécie de desafio ou gincana aos meus fiéis leitores: alguém se habilita a escrever uma... continuação?

O melhor texto terá direito a um brinde-surpresa.

Arregacem as mangas. Mãos à obra!