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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em março 19, 2008 às
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Nos pesadelos em que minha infância tantas vezes ardeu, havia monstros indizíveis, paisagens absurdas, desejos que não ousavam dizer seu nome. Mas certamente nenhum desses sonhos maus causava maior pavor do que a cena, assustadora e recorrente, da “síndrome da igualdade progressiva”.

Era assim: em sua versão mais banal (se é que a banalidade habita os sonhos), eu me via sentado à mesa de jantar, junto com a família. Mas aqueles estranhos não eram meus parentes: pareciam visitas desconhecidas se divertindo numa sala que se abrisse pouco.

Mas nem era essa a parte mais sombria dos sonhos: o pior começava quando afinal serviam o jantar e, à medida que davam as primeiras e gulosas garfadas, aqueles meus supostos parentes iam ficando absurdamente iguais entre si.

Todos passavam – horror! horror! – a ter o mesmo rosto.

Não era nenhum rosto especialmente monstruoso. Na verdade, demorei algum tempo até perceber que o que de fato me assustava era aquela crescente semelhança facial, aquele igualitarismo opressor que transformava a variedade de expressões numa única e mesma caraça inexpressiva.

Desde então, passei a olhar com desconfiança para todos os que apregoassem a igualdade como sinal de graça ou de justiça. Pela vida afora, em face desses “justiceiros”, lembrava-me sempre da minha assombrosa “síndrome” e sua “igualdade progressiva”.

(Certamente, um nome assim tão pomposo não brotou da idéia de um guri assustado, em nenhuma daquelas manhãs em que despertava encharcado de suor, sem entender ainda como a matéria de um sonho podia parecer tão real.)

Mas seria exagero dizer que, por conta dessa desconfiança, mostrei-me sempre arredio ao consenso humano e às multidões. Fui, inevitavelmente, jovem como qualquer um. E, quanto mais juvenil, mais horrivelmente gregário e coletivo é o ser humano.

Hoje, olhando a tendência igualitarista do mundo, já não sei se estou definitivamente sonhando ou se meus pesadelos viraram matéria-corrente, em plena luz do dia.


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Comentários

Uns sempre serão mais iguais que os outros...

Está muito bom. Passei algum tempo tentando elaborar um comentário inteligente, que misturasse, sei lá, o Selvagem ao ver aqueles gêmeos de Admirável Mundo Novo, o discurso de Fitafuso sobre o igualitarismo na Faculdade de Tentadores e mais algumas palavras sobre encerramento intramundano da comunidade política e decapitação do fundamento transcendente... mas não consegui organizar as idéias. E você conseguiu transmitir tudo isso com tanta facilidade, por isso vou repetir: está muito bom!

A cada dia percebo que, quanto mais juvenil, mais estúpido, e que a ignorância é de fato o mal (como diria Platão ou Aristóteles). Belo texto e feliz Páscoa, querido.

que texto! como muitos, ou alguns, cheguei aqui por intermédio dO indivíduo, que anda meio devagar; todo gênio da literatura alardeia menos do que pode narrar? vide o revide que cada um desenvolve quando é atacado, vide a explosão de borboletas quando as larvas se desfazem, em suma, que texto "o contrato social"...

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