"Depois do Vendaval"

Aconteceu há algum tempo, mas só anteontem meu amigo me contou a pequena parábola.
Naqueles dias, ele andava sempre de cabeça baixa, catando os frutos amargos de uma temporada difícil. Pior do que o saldo bancário (à beira do vermelho) eram a fuga dos clientes e a falta de horizontes para sua empresa modesta. Ladeira abaixo, e sem freio: assim meu amigo definia a própria situação, sua humana condição naqueles dias.
Era exatamente assim (cabisbaixo, depressivo) que ele caminhava naquela manhã de domingo. E, graças à cabeça baixa, pôde ver à sua esquerda, num cantinho esquecido da calçada, a cena clássica da jovem pedinte, com a proverbial criança no colo, à espera da atenção e da misericórdia dos que passavam.
(Em outros tempos, a cena o teria irritado – pela poluição urbana, pela chantagem emocional... Mas, do jeito que ia, como sentir raiva de alguém tão parecido com ele?)
Quando passou pela moça, e a encarou, teve a primeira surpresa do dia, ao perceber a diferença nos olhos: eram mansos, sem a arrogância ressentida da maioria dos pedintes de rua. E pareciam (e certamente estavam) menos assustados do que os dele.
A segunda surpresa: a moça olhou para ele, mas nada pediu. Talvez por vê-lo triste, o fato é que abriu um sorriso tímido. Não apelou para o sentimentalismo habitual. Nem mesmo estendeu a mão.
Meu pobre amigo (cabisbaixo, triste), sentindo-se ali tão pobre e desamparado quanto ela, parou, tirou do bolso um punhado magro de moedas e notas miúdas e estendeu para a moça. Justificou-se, comovido:
“Desculpe se é pouco, irmã. Mas as coisas andam muito difíceis para mim também. Fique com Deus!”
Já ia se afastando quando ouviu a jovem falar, numa voz firme, agradecida e mais confiante do que a dele:
“Vai melhorar, senhor! Se Deus quiser. Tenha fé!”
O comentário generoso o pegou se surpresa: meu amigo não sabia o que fazer. Ficar? Conversar com a moça? Tentar “ajudá-la” de algum modo?
(Ela, de algum modo, já o estava ajudando!)
Não conseguiu fazer nada. Sorriu e se afastou. Mas sentiu uma pequena alegria, uma esperança gotejando dentro dele, ainda que bem miúda.
(Uma vontade, ainda que vaga, de não desistir.)
Por isso, não achou coincidência que, nas semanas seguintes, sua situação dramática começasse a mudar. Os pedidos e encomendas foram aparecendo: era a clientela voltando.
Meu amigo se lembrou, imediatamente, da jovem pedinte. Tornou a passar (e não poucas vezes) pelo mesmo local – mas nunca mais a encontrou ali, nem nas redondezas.
Até hoje se lembra dela. Mesmo sem crer em milagres, ele sabe que a vida é cheia de pequenos sinais, e que é preciso saber decifrá-los. E agradecer.




Comentários
Da Série:Obrigado por Escrever II
Da mesma forma temos que ler textos como esse como sinais para não desistirmos jamais.
Belíssimo texto, senti-me o próprio protagonista.
Enviado por: Carlos Eduardo | março 28, 2008 10:48 AM
Foi com alegria - e não surpresa - que li "a pequena parábola que meu amigo me contou"... Um belo presente de esperança para tantos de nós.
Enviado por: cristina ferraz | março 28, 2008 10:43 PM