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Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em março 03, 2008 às
abismo.jpg

“Sei muito pouco a respeito de abismos: desconheço, por exemplo, se eles eventualmente se atraem ou não, na razão direta das grandes catástrofes, ou coisa parecida...

Mas sei que é impossível não ceder à tentação de acreditar que as coisas tendem sempre a piorar quando já estão bem ruins.

Talvez isto não seja uma regra geral (certamente não é!), mas devo confessar que eu me sentia assim (indo de mal a pior) naqueles tempos em que sorrir para uma garçonete bonita, num restaurante barato, era o máximo que eu me permitia, em matéria de emoções.

(Mesmo cumprimentar o porteiro bonachão do meu prédio não ia além do protocolar e do automático.)

Só. Muito só.

Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett."

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre o clima de esterilidade e fim de linha que o universo de Beckett representa para a arte contemporânea. O trecho acima é mais um exemplo disso. A vítima, no caso, acabei sendo eu mesmo. O trecho acima pretendia ser o começo de um conto ou uma novela - mas empacou definitivamente quando ousei escrever o nome do famigerado autor do Godot...

Para não perder inteiramente a viagem, publico-o aqui como uma espécie de desafio ou gincana aos meus fiéis leitores: alguém se habilita a escrever uma... continuação?

O melhor texto terá direito a um brinde-surpresa.

Arregacem as mangas. Mãos à obra!


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Comentários

Concurso cultural? Sabe que, se o ganhador não retirar o prêmio no prazo, você vai ter de entregá-lo para a Caixa Federal? hehehehe Esse espírito de burocrata ainda me mata!

"[...]Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett. Naquela tarde quente de julho, ia lento; evitei como pude o porteiro... Ah, sinto um Raskolnikov aqui. Não só por ter evitado o porteiro, mas porque tinha de passar por uma ponte, numa tarde quente. Mas a presença espectral do Ródia fica por aqui: tenho consciência do meu vazio, já lhe disse, e meu porteiro, ao contrário da senhoria daquele moço, deve ser evitado por outros motivos. Um deles é nunca entender que quando o cumprimento, com um silente abano de cabeça, seria saudável que seguisse a etiqueta e fosse ao menos taciturno. “Bom dia, seu Borges!” – me agride o infeliz. Um sorriso de momo na cara, uma mão coçando o eterno nono mês. Sigo, pensando que som faria jogar o maldito num precipício."

Inseri 120 palavras, pra manter a sua média.

Lições de Abismo não era um romance do Gustavo Corção?

RESP.: EXATAMENTE! UM EXCELENTE ROMANCE, POR SINAL...

Sei muito pouco a respeito de abismos: desconheço, por exemplo, se eles eventualmente se atraem ou não, na razão direta das grandes catástrofes, ou coisa parecida...
Mas sei que é impossível não ceder à tentação de acreditar que as coisas tendem sempre a piorar quando já estão bem ruins.
Talvez isto não seja uma regra geral (certamente não é!), mas devo confessar que eu me sentia assim (indo de mal a pior) naqueles tempos em que sorrir para uma garçonete bonita, num restaurante barato, era o máximo que eu me permitia, em matéria de emoções.
(Mesmo cumprimentar o porteiro bonachão do meu prédio não ia além do protocolar e do automático.)
Só. Muito só.
Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett."
De repente, a esta minha fase depressiva, sucedeu a maníaca. É, sofro de uma moléstia, sou maníaco-depressivo. Hoje os psiquiatras a chamam com o nome insosso de transtorno bipolar. Mas prefiro que me chamam de maníaco-depressivo, ainda mais quando estou maníaco. É mais forte, mais maníaco. Transtorno bipolar é para efeminados e depressivos. Parênteses: o politicamente correto está invadindo todos os setores. Odeio o Novo Código Civil: substituiu a expressão loucos de todo gênero por portadores de doença mental. Então, como estava dizendo, ia com aqueles pensamentos lúgubres quando bateu aquele impulso maníaco. Foi quando me ocorreu a célebre frase de Augusto Matraga: “ pro céu eu vou nem que seja a porret!” Pois é, decidi que eu seria feliz nem que fosse na base do cacete. E que as coisas tinham que melhorar nem que fosse necessário usar da força física. E que diabo de falta de sentido! Pro inferno com o ennui, com la nauseé! Mesmo que todo o universo não tivesse sentido transcendental nenhum, que tudo não passasse de um conto de fadas que nada significa narrado por um idiota cheio de voz e fúria, a minha Vontade ainda mais furiosa e revoltada criaria este sentido, nem que fosse a porrete! E que Becket vá para o inferno.

Sei muito pouco a respeito de abismos: desconheço, por exemplo, se eles eventualmente se atraem ou não, na razão direta das grandes catástrofes, ou coisa parecida... Mas sei que é impossível não ceder à tentação de acreditar que as coisas tendem sempre a piorar quando já estão bem ruins.Talvez isto não seja uma regra geral (certamente não é!), mas devo confessar que eu me sentia assim (indo de mal a pior) naqueles tempos em que sorrir para uma garçonete bonita, num restaurante barato, era o máximo que eu me permitia, em matéria de emoções. (Mesmo cumprimentar o porteiro bonachão do meu prédio não ia além do protocolar e do automático.) Só. Muito só. Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett.

Naquela tarde quente de julho, ia lento; evitei como pude o porteiro... Ah, sinto um Raskolnikov aqui. Não só por ter evitado o porteiro, mas porque tinha de passar por uma ponte, numa tarde quente. Mas a presença espectral do Ródia fica por aqui: tenho consciência do meu vazio, já lhe disse, e meu porteiro, ao contrário da senhoria daquele moço, deve ser evitado por outros motivos. Um deles é nunca entender que quando o cumprimento, com um silente abano de cabeça, seria saudável que seguisse a etiqueta e fosse ao menos taciturno. “Bom dia, seu Borges!” – me agride o infeliz. Um sorriso de momo na cara, uma mão coçando o eterno nono mês. Sigo, pensando que som faria jogar o porteiro num precipício.

A garçonete é um tipo. Onde eu estivesse, e era contumaz nos restaurantes chinfrins, a garçonete é a mesma. É tudo garçonete. Que ninguém me ouça, mas se eram loiras, morenas, feias, muito feias, não me importava. Eram uma mão, um braço que me trazia o cardápio e me servia o pedido. E eu sorria, num chocho “Obrigado”, sentindo a obscura emoção de uma amostra de regozijo. Era meu risinho, nada natural, a única coisa que queria ver. Se nele houvesse uma ponta de à-vontade era porque a garçonete tinha lá sua beleza. Mas essa dedução vinha depois, já fora do restaurante, quando andava pra casa. Hoje, lembrando desse período, prefiro atribuir beleza a todas elas – por algo a ver com cavalheirismo, apenas.

Essa generosidade adjetiva não posso conceder ao porteiro. Chegava e saía, de dia ou à noite, e ele, o onipresente-de-portaria: “Bom dia, seu Borges”, com os dentes cavalares em descaro. Sempre ali, de olho na rua, de olho nos monitores; sempre ali, coçando a pança, palitando os dentes; sempre ali. Hoje ainda deve ser assim. Foi assim naquela tarde de julho, na última vez que o vi. Ia à ponte, esta imagem de tantas simbologias surradas; justamente, ia lá atrás de um clichê que me revelasse algo de abismos. Qualquer coisa. A ponte... Caminho entre dois mundos, passagem sobre o precipício, conexão entre diferentes e essa coisa toda que a simplória ponte oferece aos delirantes.

Na ponte, só pensei no porteiro. Embaixo corria um fio d’água lamacento, se era um metro profundo era muito. Jogar o porteiro ali seria péssimo: a água lodosa voltaria em mim, toda. Imagino até ele, o momo, todo enlameado, olhando pra cima: “Bom dia, seu Borges”. A cena não é o pior. O pior é que penso nele. Rosto, gestos, o diabo – estão em mim, contra minha vontade. Digo, estavam em mim, pensava nele.

Há seis meses não saio do quarto. Assim é melhor. Posso ser simpático à garçonete inexistente e evito o encontro com o hipopótamo de portaria.

Naquele dia, quando ia muito só em direção à ponte, nada de abismos me ocorreu. Voltei, tão vazio e descrente quanto fui. Algo, não sei o quê até hoje, me compeliu a olhar nos olhos frágeis do porteiro e perguntar, quando mais uma vez, a despeito do horário, ele me ofereceu seu desgraçado “Bom dia, seu Borges”. O infeliz me disse: “O senhor nunca me respondeu. Esse ainda é o primeiro ‘Bom dia’. Aquele, do meu primeiro dia de trabalho aqui. No dia que o senhor responder, aí eu passo ao ‘Boa tarde’, ‘Boa noite’, sempre na ordem dos que foram respondidos”.

Ouvi calado, calado entrei no elevador e calado fui agredido mais uma vez pelo porco, que fechou a porta do elevador, insolitamente risonho: “Bom dia, seu Borges”.

Dois personagens estúpidos, insípidos e esdrúxulos de Beckett.

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