"Memórias do Subterrâneo"-1

Descobri que pertenço, afinal, a uma minoria: a dos homens brancos, heterossexuais, que não dirigem nem se interessam por automóveis. Como confraria, não é grande coisa, admito - sem falar que, ao longo da juventude, esse franciscanismo me impôs grandes limitações em termos, digamos, erótico-afetivos...
(Se os homens preferem as louras, as louras preferem sempre homens motorizados.)
Em compensação, levei sempre enorme vantagem sobre meus dessemelhantes: poder desfrutar de horas e horas de leituras durante os engarrafamentos. Como até as crianças um dia acabam aprendendo, não se pode ter tudo na vida...
Algumas vezes, é verdade, sinto-me quase como um (argh!) "excluído": é quando o interlocutor não consegue conter seu espanto diante de alguém tão extravagante ("Você não dirige? Nem liga para carros?").
Já vivi situações em que a interlocutora chegou a pôr em dúvida minha efetiva virilidade:
"Todo homem gosta de dirigir! E adora um automóvel!".
Foi quando comecei a elaborar minha tese, que partilho com vocês: são as mulheres que adoram automóvel. Os homens investem em carros irresistíveis e turbinados simplesmente... para ter acesso a elas!
Confiram na Literatura: os homens (maioria esmagadora entre os escritores) sempre escreveram extensamente sobre as mulheres - e nunca (ou quase nunca) sobre veículos individuais de transporte.
Muito amor, nenhuma gasolina.
Pensando bem: se o "recorte" for ainda mais específico (homem branco, heterossexual, que não dirige e escreve livros), quantos, afinal, seremos?
"Cartas para a redação", como se dizia no tempo em que havia cartas e redações de jornal...




Comentários
Certamente nem todo homem gosta de dirigir. Mas com mais certeza ainda todo homem brasileiro acompanha a seleção brasileira, a pátria de chuteiras, em tempo de Copa do Mundo. E se você disser que não estará mentindo. Eu não vou acreditar.
Enviado por: Jorge Nobre | abril 10, 2008 02:05 PM
Caro amigo, compartilho contigo a opinião, e digo que sou da mesma "confraria": embora saiba dirigir, não tenho carro e pouco estou ligando para isso. Outra coisa, nós os brancos heterosexuais estamos ficando cada vez mais raros, e digo às minhas amigas: um dia (daqui a pouco) vocês estarão fazendo fila a minha frente, pegando senha para sentir o gosto de um carinho hetero e branco. Salve nós!
RESP.: Salve nós, Leonardo! Embora imagine que o segmento dos "homens brancos homossexuais que não dirigem nem ligam para automóveis (e escrevem ou não)" também devem sofrer suas agruras, nesse universo onde o carro é uma espécie de prolongamento das nádegas e das pernas...
Enviado por: Leonardo Valverde | abril 10, 2008 02:22 PM
Eu faço, então, parte da (ainda menor) minoria das baixinhas, hetero, brancas, MORENAS, que não dirigem, não gostam e não têm carro. Infelizmente, a necessidade acaba com qualquer confraria, daí que daqui a pouquinho tô com um na garagem (poisé, garagem eu sempre tive! :-P). Mas acho melhor essa seleta trupe de homens-hetero-brancos-que não dirigem se unir mais, pq realmente o grupo das mulheres-louras-hetero-marias gasolina parece que não se acaba nem fica pouco... Enfim!
A pergunta que fica, fica pro Leonardo: já começou a distribuição de senhas??? :-D
Enviado por: Shi | abril 10, 2008 03:41 PM
Não tenho carro, não sei dirigir e não tenho vontade de aprendê-lo. Não estivesse oculto pelo anonimato da internet, jamais admitiria tais coisas! Parabéns, Antonio, você é corajoso!
Enviado por: william 2 | abril 10, 2008 03:44 PM
Olha só, eu sei dirigir e entendo tudo de motor de carro -sou engenheira mecânica, portanto nunca liguei se algum homem dirigia ou não (comprovo sua tese?). A vantagem que todo homem tem comigo é que jamais será enganado por um mecânico inescrupuloso e com as mãos (argh!) cheias de graxa. Eu sempre uso luvas, tá? Ainda bem que temos vocês, homens maravilhosos, para escrever sobre nós, mulheres, né?
Enviado por: marie tourvel | abril 10, 2008 04:04 PM
Tou com a Marie Tourvel, é adorável que os homens escrevam sobre mulheres. Meus autores preferidos são os que o fazem, apesar de eu geralmente não concordar com o que eles dizem (às vezes até acho que há certo rancor de amores não correspondidos, de diferenças latentes etc e tal). Quanto a carros, caro Antônio, digo-lhe que nunca é tarde para aprender a dirigir (se alguma vez lhe apeteceu isso) e que é uma delícia, esteja certo.
Enviado por: Carla Cristina | abril 10, 2008 10:13 PM