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Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 08, 2008 às
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Um amigo-leitor dos mais inocentes (desses cujos "desafios" afinal me ajudam a ir tocando o barco e o blog) pergunta-me por que bato tanto na tecla de que a propaganda política sistemática dos intelequituais provocou estragos criminosos na cabecinha das gerações mais jovens -- e pede que eu lhe "explique melhor".

Explico: ao longo das últimas décadas, professores de ensino médio, pré-vestibulares e Universidades não têm feito outra coisa além de ensinar a seus incautos alunos que: a luta de classes é o motor da História; a Economia explica tudo; o homem pensa e age de acordo com sua origem social; ricos são cruéis e gananciosos; pobres são puros, ingênuos e coitadinhos; os EUA são o demônio do mundo - e por aí vai.

* * *

Quem ainda não sabe que tem sido assim?

Todo mundo, é claro -- menos (ao que parece) meu amigo-leitor tolo ou inocente. Insatisfeito (incomodado?) com minha explicação, pede-me exemplos "concretos".

Basta-me um, que aconteceu durante uma Oficina Literária recente, ministrada no interior do RJ.

* * *

Depois da ler um punhado indigesto de esboços de enredos e personagens (empresários malvados e/ou madames cruéis que exploravam pobres funcionários e empregadas domésticas, argh!), sugeri à turma que fizesse o esforço sobre-humano de deixar de lado todo o lixo sociológico sedimentado ao longo dos anos.

("Não é fácil", arrisquei. "Mas também não é impossível.")

Pedi então que tentassem construir um personagem (Deus do céu!) cuja ação não fosse motivada por "razões de classe social ou de dinheiro" -- mesmo porque a maioria dos seres humanos normais não age assim. Como incentivo, arrisquei uma sugestão:

"Pensem, por exemplo, num homem muito rico, bom, generoso, ou seja, simplesmente um homem com muito dinheiro, mas que não liga para isso."

* * *

Todos se animaram e, na aula seguinte, os "personagens" criados se multiplicaram na minha mesa.

* * *

Mas quem desanimou, definitivamente, fui eu: tudo que aqueles brainwashed tinham conseguido, com pouquíssimas variações, foi:

Depois de ter cometido muitas crueldades na vida (gerar empregos e riqueza, incrementar a economia do país, essas "maldades"), um empresário se arrepende e resolve distribuir seu dinheiro entre os pobres!!

Juro! Pobre São Francisco de Assis...

* * *

(Como dizia aquele velho anúncio de conhaque: "Que dureza!")

* * *

Todo homem tem o dever sagrado da esperança. Por isso, tenho certeza de que a experiência paulista, que começa neste sábado (dia 10), será bem diferente.


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Comentários

E quando haverá uma experiência recifense?

Não tenha tanta esperança, Antonio. Anda sempre comigo o pensamento de que com medo somos mais vigilantes.;) Um beijo.

Ah, a geração Foucault.

Ah, a geração Gramsci...

Fernando, talvez você encontre um quadro um pouco melhor aqui. Não que a situação geral seja muito diferente, mas pelo fato de o IICS ser uma instituição diferenciada. Bem ou mal, de alguma maneira, ninguém chega aos cursos de humanidades que eles oferecem sem saber que há ali uma idéia de resistência cultural. As chances são boas, mas saiba que seus alunos serão um grupo seleto, que não chega sequer a ser uma amostra representativa do ambiente cultural paulista.

Se estes te decepcionarem, meu caro, então seu dever sagrado de ter esperança estará fortemente abalado!

Abraço.

Ah, a geração Maquiavel...

Vai daí a pior. Na última vez que falei, em sala de aula, sobre a doutrinação marxista nos livros didáticos, alguns alunos levantaram a voz para tomar partido dos propagandistas. Os outros ficaram calados.

Tenho lido com muito proveito este blog, sempre. Até comprei (mas ainda não li) "Braz, Quincas e Cia."

Um abraço,

Ah, a geração doutrinada por esse malígno J.Deus e Silva. Maldito J.Deus e Silva! Se eu te pego, miserável, te dou um chute no olho...

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