"O Silêncio"
Para alguns (os piores, sempre) há de parecer absurdo ou contraditório. Mas este blogue interrompe seu silêncio involuntário para vir pedir aos leitores fiéis... "um minuto de silêncio".
Hoje, celebra-se um ano da morte de Bruno Tolentino -- sem dúvida (embora alguém sempre duvide!) um dos maiores poetas de língua portuguesa.
E, para um grande poeta, não se pode pedir mais do que silêncio -- e um par de aspas, é claro.
Para relembrar algum trecho inesquecível de seu legado, mas sobretudo para impedir que os tolos de cara alegre se animem a falar em seu nome:
"Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída.,
pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas."
(Tudo bem: o poema é manjado -- mas meu luto não está nem aí para a originalidade. E agora silêncio, um minuto ou mais, pelo Bruno e -- ai! -- por cada um de nós...)




Comentários
Falta um z no sétimo verso. Abraços.
Ooops! Já corrigi: obrigado, meu caro / AFB
Enviado por: Rafael | junho 27, 2008 02:45 PM
Bruno Tolentino era realmente um dos maiores poetas da língua portuguesa e disse: "não basta saber o que é bom, mas por que é bom". E a gente sabe por que ele é bom, não é? Luto também por aqui. Um beijo
Enviado por: marie toruvel | junho 27, 2008 03:43 PM
Que bom que o minuto de silêncio trouxe você de volta à escrita, camarada. :) E Tolentino merece, ça va sans dire. Abração.
Enviado por: Ruy | junho 27, 2008 08:44 PM
Parabéns por "Agostinho", caro Antônio. Depois daquele conto, qualquer silêncio, mesmo que involuntário,é justificável.
*
Mais que um minuto de silêncio, farei muitos minutos de silêncio por Bruno "Talentino"_ Saint-John Perse, Nobel de Literatura, Yves Bonnefoy e Giuseppe Ungaretti apelidaram-no de "Talentino", em fina ironia, porque Bruno era arrogante, conta-nos o jornalista Hugo Studart na melhor reportagem já feita sobre Tolentino; (Revista República, Ano I, número 4,Fevereiro de 1997. Páginas 74-80)_ para reler alguns poucos poemas que tenho dele.
*
A supracitada matéria é fechada com os versos do esgotado e jamais reposto no mercado "As Horas de Katharina":
Adeus, poesia
Adeus, solidão.
Dou-vos uma fria
carícia de mão,
a mão leve, esguia,
hesitante e tão
cheia de emoção,
que é quase harmonia,
quase paz, meu trêmulo,
meu último adeus...
Tocai-os, os meus
dedos, os meus remos
soltos, mas deixemo-los,
demo-los a Deus.
Enviado por: Carlos Eduardo | junho 27, 2008 10:50 PM
Que você não nos dê tantos silêncios, Antônio.:-)
Adorei a escolha do poema em homenagem ao Bruno Tolentino.
Um minuto de silêncio.
Abraços
Enviado por: Carla Cristina | junho 28, 2008 12:21 PM
Obrigado, gente! Dá vontade de voltar logo...a escrever
Enviado por: Antonio Fernando Borges | junho 28, 2008 08:16 PM