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Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em maio 06, 2008 às
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Por mais que o ombudsman do portal esteja distraído e meu superego também não esteja a postos, é na terceira pessoa do singular que eu me sinto mais à vontade para informar que, a partir do próximo sábado, dia 10, o escritor Antonio Fernando Borges estará em São Paulo, ministrando o curso A Arte do Romance - Como os grandes escritores olham para o mundo, promovido pelo Departamento de Humanidades do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

O curso vai ser uma introdução às técnicas de criação literária, focada no formato narrativo do romance - desafio matricial de todo verdadeiro escritor. Para iniciantes e iniciados na aventura da escrita, será uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre os processos e instrumentos essenciais da arte da escrita, a partir da análise de enredos e personagens exemplares.

Serão seis encontros, sempre aos sábados, em que serão abordados os elementos-chave da ficção romanesca: história, enredo, personagens, ritmo e foco narrativo, entre outros.

Para inscrições (ou para mais informações), clique aqui, rápido (as vagas são limitadas).

Corta! Encerrado o marketing, Antonio Fernando Borges reassume a primeira pessoa para confessar que será, para mim, uma oportunidade imperdível (na verdade, seis) de rever amigos - e, se Deus quiser, conhecer a legião paulistana deste Apostos.



Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em março 03, 2008 às
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“Sei muito pouco a respeito de abismos: desconheço, por exemplo, se eles eventualmente se atraem ou não, na razão direta das grandes catástrofes, ou coisa parecida...

Mas sei que é impossível não ceder à tentação de acreditar que as coisas tendem sempre a piorar quando já estão bem ruins.

Talvez isto não seja uma regra geral (certamente não é!), mas devo confessar que eu me sentia assim (indo de mal a pior) naqueles tempos em que sorrir para uma garçonete bonita, num restaurante barato, era o máximo que eu me permitia, em matéria de emoções.

(Mesmo cumprimentar o porteiro bonachão do meu prédio não ia além do protocolar e do automático.)

Só. Muito só.

Eu ia seco, vazio, descrente. Como um personagem estúpido, insípido e esdrúxulo de Beckett."

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre o clima de esterilidade e fim de linha que o universo de Beckett representa para a arte contemporânea. O trecho acima é mais um exemplo disso. A vítima, no caso, acabei sendo eu mesmo. O trecho acima pretendia ser o começo de um conto ou uma novela - mas empacou definitivamente quando ousei escrever o nome do famigerado autor do Godot...

Para não perder inteiramente a viagem, publico-o aqui como uma espécie de desafio ou gincana aos meus fiéis leitores: alguém se habilita a escrever uma... continuação?

O melhor texto terá direito a um brinde-surpresa.

Arregacem as mangas. Mãos à obra!



Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 30, 2007 às

Menino ainda, Machado de Assis percebeu a dimensão trágica do tempo – sua face voraz e inexorável.

O caráter irremediavelmente perecível das coisas: eis o “grande escândalo” com que o Bruxo (eterno ateu) se defrontou – e jamais conseguiu superar. A partir daí, a certeza da morte e a impossibilidade de “voltar atrás” se traduziram para ele num misto de fragilidade emocional e de responsabilidade moral sem precedentes.

De um lado, o sentimento de perda e as alfinetadas do arrependimento e da saudade; de outro, a consciência de que, por acontecerem uma única vez e em definitivo, os atos humanos adquirem uma dimensão e um peso difíceis de calcular: são irrevogáveis.

Da passagem de tantos e tantos momentos (transformados em horas, dias, semanas, meses, etc.), resta apenas a consciência humana, a uni-los como memória e aprendizado.

Em Machado, a consciência da passagem do tempo reforçou a consciência individual – nem é por acaso que seus romances e contos mais relevantes tenham sido escritos na primeira pessoa.

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(Leia mais sobre Machado, o tempo, etc. aqui.)



Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 20, 2007 às

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"Muitas são as tentativas de fazer do Cristianismo uma espécie de roupagem de uma verdade esotérica, de transformar a doutrina explícita em mero véu de uma doutrina implícita mais verdadeira; mas o próprio fato de o véu do templo de Jerusalém ter-se rasgado quando Cristo morreu já repele o uso destas categorias. Não há esoterismo cristão. Podem ter havido ordens com ritos próprios e secretos, mas nenhuma delas jamais pôde pensar-se mais cristã do que o resto da Igreja, ou detentora de algo mais puro."

Pedro Sette Câmara, com o brilho de sempre, imperdível.

(Vão até lá, ler o texto completo. Mas voltem, OK?)



Arquivado em: amostra grátis — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 18, 2007 às

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Duas coisas inspiram pouca confiança nas noites de autógrafos: os elogios ao autor e a bebida servida aos convidados. Se no caso de S*** a falsidade era inerente aos aplausos, não demorei muito a perceber que os organizadores capricharam na coerência: o vinho branco estava à altura do livro lançado, que era apenas mais uma variação em torno do mau gosto, vocação sincera e verdadeira de S***. Mas, justiça se faça: pelo menos o vinho estava na temperatura adequada, e a cargo de três esmerados garçons, desconhecedores felizes dos efeitos nefastos da má literatura.

Era, ainda assim, um vinho ácido, rascante, para paladares menos exigentes e estômagos pouco sensíveis. Não sei em qual dessas categorias me incluir, mas servi-me sem culpa de duas taças. Melhor a cirrose do que o tédio, muitos já disseram. Estava justamente apanhando a terceira dose na bandeja, depois de oferecer a Maria Inês, quando uma altiva senhora se aproximou do garçom. Condicionado aos detalhes da etiqueta, imediatamente estendi o copo à desconhecida, que sorriu sem agradecer. Parecia sedenta, ou no mínimo disposta a sofrer, pois antes mesmo que o garçom se afastasse levou a bebida à boca e sorveu um gole generoso, enquanto a outra mão segurava o livro recém-autografado, como uma jóia preciosa.

Aquela devia ser sua primeira dose, pois parecia não saber o que a aguardava. Mas logo descobriu, e reagiu com uma careta de repulsa, quase cuspindo o que ainda havia na boca. Não chegou a fazer isso, é claro: tratou de engolir com sacrifício e educação, e até parecia inclusive disposta a contornar o incidente com elegância. No entanto, fez bem pior: quando me aproximei para socorrê-la, a aparentemente sensata senhora me recebeu com uma expressão de rancor, acompanhada de palavras ainda mais descabidas. O tom de voz não era dos mais altos, mas o conteúdo me causou (e causa ainda, ao relembrar) medo, horror e espanto:

“Meu Deus! O senhor já provou deste vinho?”

“Perdão, senhora. Está falando comigo?”

Como o absurdo costuma se repetir, ela fez de novo a pergunta:

“O vinho que me ofereceu: por acaso o senhor já provou?”

Àquela altura, já havia bebido duas taças – por que iria mentir? Mas a reação da desconhecida superou o horror e o imprevisível:

“Então, como tem coragem de oferecê-lo a mim, impunemente?!”

O diálogo que travamos eu não teria coragem de incluir em nenhum dos oito livros com que, ao longo dos anos, procurei fazer frente aos caprichos da vocação nacional para o naturalismo. A cena a seguir é transcrição de algo real, embora mais terrível do que meus pesadelos:

“Como o senhor tem coragem de me servir um vinho desses?!”, repetiu várias vezes a implacável mulher, dando a sinistra impressão de que o tempo havia congelado.

“Sorry”, arrisquei em inglês, para o caso de precisar ganhar tempo: “Se não sou o dono da livraria e, menos ainda, o responsável pelo livro que está sendo lançado, como pode a senhora...”

Interrompeu-me, com a pressa daqueles que julgam terem a razão a seu lado:

“Todos aqui são adultos e vieram de livre e espontânea vontade”, ela prosseguia, para horror de meus ouvidos fatigados. “Como algum de nós poderia, então, querer se isentar de responsabilidade por qualquer dos detalhes do evento?!”

Xenófrates, o cético de Atenas, dizia que um grão de areia deslocado da ordem implacável do mundo seria suficiente para nos mergulhar no caos. Exageros helênicos à parte, o fato é que senti a estranha sensação do desastre à nossa espreita, vinda do fundo daquela noite fútil.

“Prezada senhora”, ainda arrisquei, “imagino que cada indivíduo...”

“Ora, o indivíduo!” — e seu tom era de escárnio evidente. “O indivíduo é uma ilusão! A culpa pela má qualidade deste vinho é de todos! Então, é sua também!” E atirou o restante do conteúdo do copo contra mim, enquanto se afastava.

Mais tarde, no táxi, depois de deixar Maria Inês em casa, senti o cheiro forte da bebida na manga do paletó ainda úmida. Tive, então, a oportunidade de concluir que as mágoas mais profundas também são como vinho branco na roupa: quase invisíveis, mas deixam um rastro desagradável no ar.

(Do romance Braz, Quincas & Cia., de 2002. Leia mais aqui.)