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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em maio 12, 2008 às
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É a velha guerra (meio santa, meio suja) de sempre:

Condenar a Igreja Católica (e a própria crença em Deus, e no Novo Testamento) por um punhado de desvios pedófilos e corrupções paroquianas é o mesmo que acusar a carne bovina pelos “estragos” decorrentes do prato-feito do boteco de esquina.

Em vão nutricionistas e religiosos se empenham em restabelecer a primordial diferença e argumentar em defesa do consumo da proteína animal e da isenção do credo católico: na Bolsa dos valores contemporâneos, naturebas, ecoterroristas e ateus em geral andam em alta.

* * *

Lembro-me de um velho amigo (sobrevivente melancólico do hippismo dos anos ’70) que costumava arrematar cada discurso seu contra algum desafeto com a proverbial sentença: “Também pudera: comendo toda aquela carne vermelha!”

Da mesma forma, os detratores costumam pintar a Idade Média (apogeu do catolicismo) como a Era do Obscurantismo e das Trevas – sem que façam o menor esforço para explicar como um “bando de fanáticos obscurantistas” conseguiu afinal produzir esses prodígios de beleza e inteligência que são o canto gregoriano, a obra de Santo Tomás de Aquino, a Divina Comédia e as catedrais góticas...

* * *

Mesmo dentro do âmbito específico das religiões, a guerra costuma ser desigual.

Quem não se lembra da reação tirânica e desproporcional dos muçulmanos por conta da publicação de algumas charges (irreverentes, como devem ser as charges) num jornal dinamarquês?

Quem não se lembra também da legião de intelequituais ocidentais que pularam ligeiros em defesa... dos islâmicos (?!!), acusando o(s) chargista(s) de blasfêmia?

* * *

E no entanto...

E no entanto, piadas, livros e exposições de artes plásticas contra o Cristianismo, o celibato religioso e a figura do papa Bento XVI se multiplicam por aí, tanto na blogosfera quanto nas rodinhas acadêmicas “esclarecidas” e “inteligentes”.

Ou seja: se você freqüenta igrejas católicas e churrascarias-rodízio, prepare-se para o duro combate, que está só começando: é tempo de ateísmos, sociologismos e cientificismos. E de muito farelo de trigo, é claro!

* * *

Argh!

* * *

(Vai um hambúrguer-com-fritas aí?)



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em maio 01, 2008 às
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Nunca fui muito receptivo à promessa maliciosa (feita sobretudo às crianças) de que “a leitura é uma coisa prazerosa” – variante exemplar da sentença genérica: “Só se deve fazer aquilo que nos dá prazer”.

Seguindo este mesmo critério "epicurista", não demorei a descobrir (ainda na adolescência) que há coisas bem mais prazerosas e agradáveis do que a leitura (cada um faça aqui a própria lista).

Desde então, continuei a ler, é claro, dedicando-me a leituras cada vez mais complexas e árduas. Por decisão própria, por imposição profissional, etc. – enfim, por motivos diversos (e aqui também cada um há de ter sua lista particular de razões).

* * *

Leio (ora muito, ora menos) porque gosto, mas também porque é necessário. E sempre agradeço por não ter sucumbido à armadilha infantil de “ler por prazer”.

Mas isso não quer dizer que, em algum momento, a leitura tenha chegado a ser um martírio ou castigo. Mesmo porque não existe A leitura: existem forma e mais formas de ler – e livros bastante diversos entre si, conforme o freguês.

* * *

Estas constatações (tão auto-evidentes para mim) devem passar a anos-luz do universo legislado pelo juiz Mário Azevedo Jambo, do Rio Grande do Norte.

Dias atrás, o excelentíssimo “condenou” três jovens hackers à dura missão de ler e resumir, a cada três meses, clássicos da Literatura brasileira – começando com Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

(Fez lembrar meus velhos tempos de ginásio, quando as professoras castigavam alunos indisciplinados obrigando-os a horas corridas de leitura na Biblioteca da escola...)

* * *

Não é fácil interpretar e julgar as intenções alheias. É igualmente difícil ignorar o conselho do santo teólogo francês que dizia que de boas intenções o inferno, etc. (vocês sabem o resto).

Mas é irresistível a tentação de decifrar o que se passava na cabeça do magistrado (não li a notícia) quando proferiu a sentença – que, a julgar pelo padrão intelectual dos condenados, é sem dúvida severíssima!

Pode-se, por exemplo (arriscando no escuro), atribuir ao provinciano juiz a intenção de ser cosmopolita e, decididamente, fashion: nada mais in, afinal, do que “investir em educação” e coisas parecidas.

* * *

Quanto à idéia de incentivar a leitura como forma de melhorar o mundo, sua “serventia” me faz lembrar a conhecida resposta do Duce às provocações de Hitler: “Não é difícil governar a Itália. É inútil”.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 15, 2008 às

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Quando a perenidade do livro era ainda um fator pouco questionado, o brujo argentino Jorge Luis Borges imaginou um livro com um número infinito de páginas, numeradas arbitrariamente; nenhuma delas poderia ser chamada de primeira ou de última, pois muitas páginas sempre se interporiam entre o miolo e a capa, brotando sem cessar.

(O próprio conteúdo, escrito em caracteres estranhos, também não seria muito confiável: afinal, ninguém seria capaz de localizar outra vez uma mesma frase ou figura...)

* * *

A este objeto extravagante, Borges chamou de “Livro de areia”, tema e título de um conto de 1975.

Para o escritor argentino, gestor de duas bibliotecas (a apócrifa Biblioteca de Babel, outra de suas "aberrações", e a real Biblioteca Nacional, de Buenos Aires), nada parecia representar melhor o horror da indefinição e instabilidade do mundo do que esse antilivro absurdo – que vem negar tudo aquilo que o livro vem simbolizando ao longo dos séculos: tradição, solidez, confiabilidade.

* * *

A metáfora da areia pareceu sob medida a Borges, por unir os aspectos mais visíveis da vida contemporânea, que é ao mesmo tempo fluida, pulverizada e inumerável, como um conjunto infinito de grãos.

* * *

Hoje as enquetes e mesas-redondas perguntam: até quando haverá livros? Mas a verdade é que (em matéria de tradição, solidez e confiabilidade) a pergunta deveria ser: até quando haverá leitores?



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 03, 2007 às

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Numa época em que a Literatura ainda não tinha deixado de ser o “diálogo socrático de nosso tempo” para se tornar (à maneira da guerra em Clausewitz) uma continuação da política por outros meios, Machado de Assis lançou alguns desafios estéticos que contrariavam as regras do jogo literário de seu tempo.

(Fazia isso de olho, certamente, no horizonte do Absoluto e do Infinito em que pretendeu inscrever sua obra -- sem suspeitar que o fantasma da incompreensão rondava o núcleo-duro de sua obra madura.)

Escrevendo romances a partir da fórmula folhetinesca da época, Machado tratou de introduzir também uma série de “novidades” que ultrapassavam estes limites.

A mais conhecida é, sem dúvida, a estrutura formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas a mais sofisticada se refere à estrutura narrativa de sua obra menos compreendida: Dom Casmurro.

Personagens adúlteras, inconstantes e infiéis sempre povoaram a literatura folhetinesca: Luísa de Eça de Queiroz, Anna Karenina, de Leon Tolstoi, e Ema Bovary, de Gustave Flaubert, são apenas algumas das mais famosas.

Ao inserir sua cigana de olhos de ressaca nesta galeria “fingidas e dissimuladas”, o gênio de Machado já havia superado a receita-de-bolo do folhetim de jornal: embora partisse dessa mesma fórmula consagrada, já tinha outros planos estéticos em mente para seu Dom Casmurro.

Um dos principais sinais desta mudança se refere ao foco narrativo: ao colocar o discurso do livro na voz de Bento Santiago – o real protagonista do livro – Machado priva o leitor daquela visão onisciente (permitida pelo uso da terceira pessoa verbal) que costuma desnudar todos os personagens de um livro, desvendando-os até os mínimos detalhes.

Sabendo o que se passa na cabeça de Luísa, acompanhando, junto com o narrador sabe-tudo, o leitor de O primo Basílio não tem dúvidas quanto à infidelidade da moça. Mecanismos semelhantes desvendam os segredos das adúlteras de Tolstoi e Flaubert, e os de tantos outros.

Se Machado não faz isso em Dom Casmurro, certamente não é por nenhuma insuficiência narrativa ou limitação de talento: ele simplesmente já está tratando de outras coisas.

Em outras palavras: o adultério de Capitu é apenas mais um elemento que integra a questão maior do livro – a angústia de Bento Santiago por não conseguir confiar nas pessoas (que já abordei num post recente).

O resto é silêncio – ou pior: muita conversa fiada.

(Também especialmente dedicado à simpática turma da PUC-RJ.)
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 27, 2007 às

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Das impropriedades ditas e escritas em torno da obra de Machado de Assis (1839-1908), muitas (e talvez sejam as piores) tratam do embate entre Bentinho e Capitu, no imbatível romance Dom Casmurro.

Na média, tais opiniões costumam acusar Machado de não ser conclusivo quanto à infidelidade de Capitu. Mas muitos vão ao extremo de criticar no autor a própria insinuação do adultério – que considerariam uma... “acusação machista e injusta”!

(Deus do céu!)

Embora falsa, a celeuma tem se mostrado fértil, interminável – com direito até a umas inusitadas “memórias póstumas”, que a pretexto de dialogar com o texto machadiano só fazem rebaixar o debate a um nível desanimadoramente baixo.

Como a tolice humana não tem mesmo fronteiras, a controvérsia chegou aos Estados Unidos, onde a ensaísta protofeminista Helen Caldwell (1904-1987) escreveu The Brazilian Othello of Machado de Assis, defendendo... a inocência de Capitu!

(“Tanto barulho por nada”, diria outro gigante. Para uma controvérsia inexistente, até que história foi longe demais...)

Ao fazerem da inocência presumida de Capitu um item obrigatório da agenda de nossas Letras, todos estes críticos, mestres e leitores estão apenas confundindo realidade e ficção, à maneira esquizóide dos fãs de telenovelas. Mas o que admira e consterna, de fato, é a suspeita de que as pessoas parecem estar perdendo, definitivamente, a capacidade de leitura – vale dizer, de compreensão.

(E a compreensão, no entanto, esteve e permanece todo o tempo ali, na letra de Machado, ao alcance de todos...)

Toda esta cortina de fogos de artifício não deixa muita gente enxergar um ponto óbvio e (hélas!) essencial: é Bento Santiago – e não Capitu – o real protagonista de Dom Casmurro. Da mesma forma, temos, como corolário, que a impossibilidade de confiar (e não o mero ciúme conjugal) constitui todo o inferno do protagonista.

Isso não impede que, graças à genialidade de Machado, este mesmo e incrédulo Bentinho consiga estabelecer com o leitor o pacto essencial da ficção (a suspensão da incredulidade) e o romance flua e aconteça.

Certamente, o assunto renderia monografias, dissertações de mestrado e teses de doutoramento, além de um bom punhado de artigos em suplementos literários – ainda mais agora que se aproxima o centenário de morte de Machado.

Mas eu prefiro “ir mais longe” e sugerir aos interessados uma ousadia muito maior: debruçar-se sobre o texto de Dom Casmurro, e usufruir do benefício insubstituível de sua leitura sem intermediários.

Quem se habilita?


(*Dedicado especialmente a uma simpática turma do curso de Letras da PUC-RJ.)



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 25, 2007 às

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O capitalismo no Brasil é tão episódico e eventual que, quando ele acontece, vira logo notícia e dá muito que falar.

A disputa entre as operadoras de telefonia celular, por exemplo: procedimento rotineiro em qualquer economia madura, chega a gerar matérias extensas, com direito a suítes e artigos analíticos.

É só ver também (outro exemplo) a forma “crítica”, quase acusatória, com que as manchetes de sites e publicações impressas costumam noticiar o lucro anual de determinada empresa – não muito diferente do tom com que se denunciam os grandes "escândalos”.

Para essa turma, (de)formada pela ótica da sociologia anticapitalista, o lucro é sempre escandaloso, e não a missão (obrigatória, afinal) de todo empreendimento econômico digno deste nome.

(Ainda me lembro de ter lido, tempos atrás, a “pérola” de um colunista denunciando que, em determinada feira-livre, uma barraca vendia o pepino 50 % mais caro do que a barraca ao lado. E ele ainda arrematava, brincando, mas com ares de sábio: “É o pepino da inflação de volta!” – desconhecendo completamente que o verdadeiro pepino, no caso, era sua ignorância a respeito das leis elementares da livre concorrência, este sistema “escandaloso” em que cada um vende seus produtos pelo preço que quiser, arcando com o ônus desta decisão.)

A razão de tudo isso, no fundo, é bem simples – quer dizer, é clara, mas bem grave e “complicada”. Formados segundo o credo re-vo-lu-cio-ná-rio, nossa imprensa e nossos intelequituais ignoram as regras e engrenagens do sistema capitalista – quer dizer, do mundo real, não dos tais “outros mundos possíveis”.

Em terra de capitalismo tão precário e mal praticado, o mercado editorial não poderia sair incólume – e um dos sintomas recentes deste drama é a questão do preço fixo do livro: não têm faltado editores e livreiros apontando a “injustiça criminosa” das grandes editoras e redes de livrarias que conseguem vender com desconto seus produtos (no caso, livros).

Seria o equivalente a achar absurdo que um supermercado consiga vender seus produtos (no caso, ovos, arroz e feijão) mais baratos do que a quitanda da esquina. Segundo esta ótica (sempre deformada), justiça seria sinônimo de "tabelamento". E tabelamento, caro leitor, todos nós sabemos aonde leva: escassez de oferta, mercado negro, etc.

As “sociedades justas”, por sinal (os tais “outros mundos possíveis”), costumam mesmo ser assim: mundos com poucos ovos, arroz e feijão escassos, carne quase nenhuma. E, em geral, bem poucos livros.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 25, 2007 às

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O anedotário consolidado ao longo dos anos atribui a Machado de Assis algumas lendárias namoradas de juventude – em geral, moças ligadas ao meio teatral, que ele freqüentava como crítico.

De efetivamente confirmado, no entanto, conhece-se apenas o atribulado namoro com a portuguesa Carolina Augusta – não aceito, a princípio, pelo irmão mais velho e tutor, o prosaico escritor Faustino Xavier.

(Daí a conclusão de alguns biógrafos, de que Carolina teria sido a única mulher com quem Machado manteve relações sexuais, ao longo da vida.)

* * *

A perda precoce da mãe e de uma irmã caçula talvez esteja por trás dessa proverbial dificuldade amorosa. Mas claro que isso pode ser também mero cacoete psicanalítico.

Pautados, por sinal, justamente em tais superstições inauguradas pelo Doutor Freud, muitos críticos costumam ver nesse detalhe a matriz das impressionantes criaturas femininas de Machado: Flora, Mariana, D. Paula e a mais fascinante de todas, Sofia (de Quincas Borba), cujo busto surgia das ancas como uma grande braçada de flores sai de dentro de um vaso.

* * *

Não faltam “especialistas” para dizer (e outros ainda hão de repetir) que Machado sublimou na Literatura a frustração amorosa a que sua timidez o condenou.

Quanto a mim, prefiro a tese – mais generosa – de que, além de temer a intimidade invasora, tão típica do casamento, o Bruxo desconfiava de que o amor roubaria o tempo e a atenção que ele preferiria concentrar nos projetos artísticos.

Ars longa, vita brevis...

Se jamais pressentiu em Carolina a chama candente das lendárias coristas e atrizes de sua juventude, Machado ao menos reconheceu nela a companheira capaz de lhe serenizar o espírito, para o exercício pleno de sua grande Arte.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 14, 2007 às

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Tal como o luxuoso inseto do poema A mosca azul, dissecado por um pária do Oriente, a ponto de não resistir e se desmanchar, a obra de Machado de Assis também tem sido vítima constante daqueles que, pouco sábios, não se contentam com a visão fantástica e sutil de seu universo literário.

Incomodados pela grandeza daquilo que é inegavelmente grande, não são poucos os críticos e leitores que se apressam em reduzir Machado à sua própria e acanhada dimensão. Dissecam-no a tal ponto, e com tal arte, como se fosse possível, assim, neutralizar seu poder encantatório.

* * *

Passado o espanto inicial desse espetáculo de grandeza que é, por exemplo, Memórias póstumas de Brás Cubas, tais leitores (e o que são críticos, além de leitores ressentidos?) se arrogam direitos de investigar a causa (como se “causa” houvesse) do magnífico mistério: “Mas como, diabos, ele conseguiu escrever assim?!”. E tome... crítica literária!

(Nem sempre a pergunta pressupõe admiração: tantas e tantas vezes, transpira a pura inveja.)

* * *

Mereceria mais respeito e sobretudo melhor sorte pós-mortem esse talento único que salvou nossas letras de ser apenas um punhado de tropicais tiradas verbais de província.

Ainda bem que – ao contrário da mosca azul do conhecido poema – o Bruxo tem fôlego e brilho para resistir a todos os inseticidas.

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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 05, 2007 às

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No famoso "Discurso Preliminar" da presunçosa Encyclopédie, livro emblemático do espírito cientificista moderno, Diderot e d’Alembert pareciam transbordar de esperança quanto ao futuro da ciência e sua missão de recuperação ética da humanidade.

Hoje, menos de três séculos depois, o aparato tecnológico banalizado em confortos cotidianos não deixa dúvidas: a ciência venceu. Falta apenas conferir se o homem, por conta disso, tornou-se moralmente melhor.

* * *

Se olharmos pelo viés da Literatura – a prima pobre da ilustre família do pensamento contemporâneo, tão dominado pela “objetividade científica” –, as coisas não parecem ter progredido tanto assim.

Basta lembrar que o principal legado das Ciências ao continente das Letras foi o Realismo, que impôs como norma estética a tarefa de mimetizar a realidade com objetividade e rigor de cientista.

O resultado é o que já se conhece: o escritor foi rebaixado de seu papel de criador de mundos possíveis ao de modesto e fiel observador da sociedade.

* * *

Pior: longe de ter moralizado o homem, a ciência só conseguiu desmoralizar um punhado de figuras e metáforas que sustentavam sua imaginação.

Uma dessas metáforas foi, sem dúvida, a da úlcera.

Desbancada no início da década de 1980, graças à descoberta da bactéria Helicobacter pylori, a úlcera sempre se destacou na história humana como a imagem por excelência da somatização do espírito que sofre. Na Literatura, sua presença sempre teve um eficiente rendimento dramático, de elevado conteúdo moral.

* * *

Os exemplos são muitos: do obstinado Napoleão Bonaparte (indiscutível personagem de carne e osso, transformado em matéria literária nas páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi) até os tipos mais conflituosos de Nelson Rodrigues – para quem a úlcera era uma prova dolorosamente concreta da presença residual de caráter e dignidade, mesmo nos canalhas mais consumados.

O potencial dramático da úlcera para a Literatura é tão marcante que mesmo um personagem simples como o detetive Mattos (do romance Agosto, de Rubem Fonseca) acaba ganhando alguma densidade justamente por causa da ferida que acalenta no estômago.

De resto, o próprio Nelson Rodrigues adorava repetir que não existe ética sem insônia, e muito menos sem... úlcera.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 28, 2007 às

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Ninguém saberia dizer se foi intencional ou não – mas o fato é que Franz Kafka (1883-1924) acabou se transfigurando numa lenda mais densa e mais sedutora do que sua vida banal, feita de noivados desastrosos e de trabalho burocrático e tedioso numa companhia semi-estatal de seguros.

Faz parte da lenda dizer que a estranheza protocolar de fábulas como A metamorfose, O processo e O castelo (núcleo consagrado da obra de Kafka) é o equivalente literário dessa existência melancólica e se nutre, em horror e melancolia, na triste figura do escritor. É como se a solidão de Gregor Samsa e as desventuras de Joseph K. e do agrimensor K. traduzissem aspectos psicológicos e até biográficos do autor.

É desse costume de não fazer distinção entre vida e obra – tão ao gosto dos românticos – que nasceu boa parte de uma fortuna crítica tão extensa quanto equivocada. Nasceu também o adjetivo “kafkiano”, usualmente empregado para descrever certas situações sombrias e de difícil compreensão.

Um desacerto em dose dupla. No primeiro caso, trata-se de tentar reduzir as narrativas de Kafka a uma crítica da mediocracia crescente da modernidade – como se a grandeza de sua arte não tivesse superado a precariedade de sua biografia. No segundo, de associar injustamente as loucuras e disparates do mundo ao nome do pobre tcheco: apesar dos problemas e angústias, ele foi um homem generoso e afável, em quem a lucidez do espírito compensava todas as limitações objetivas.

Kafka não era kafkiano.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 21, 2007 às

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Maneirismos vocabulares e “excessos” de coloquialismo à parte, a verdade saltita diante de nossos olhos: não se pode destacar nenhuma conquista de ordem sintática, semântica ou estética trazida pela internet.

Tudo que se utiliza aqui na rede já estava presente na ferramenta primordial: a linguagem humana.

Simples assim: desde os proverbiais “primórdios” de sua aventura na Terra, o homem sempre contou com uma avançadíssima tecnologia: a linguagem.

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Diante disso, desconfio que ficam sem sentido todas essas discussões esdrúxulas a respeito de uma eventual especificidade estilística da internet e da “superação do texto tradicional por uma nova forma de escrita”...

Mas nem sempre uma evidência tão simples tem se mostrado consensual. Com sua inesgotável capacidade de apostar em irrelevâncias, alguns estudiosos contemporâneos têm se dedicado a construir verdadeiras teorias anunciando uma nova forma de pensar, supostamente inaugurada com o advento da internet.

O ensaísta francês Pierre Lévy, por exemplo – certamente, um dos maiores defensores de uma suposta “inteligência coletiva”.

* * *

Notório por suas especulações sobre o impacto da informática no comportamento humano, Lévy sugere que, entre todas as variantes de “tecnologias da inteligência”, a informática seria aquela que oferece os “ambientes e ferramentas mais favoráveis à construção de uma inteligência coletiva”.

E isso, diz ele, passaria pelo processo de produção cooperativa de textos.

* * *

(A discussão só não é exatamente irrelevante, devido às eventuais – mas perigossímas! – conseqüências políticas que pode acabar nascendo
dos incansáveis discursos em defesa da internet.)

* * *

Em tempo: alinho-me, incondicional, entre os ardorosos defensores da rede – acima de tudo, por conta da sua grande novidade: não ter um núcleo central gerador e não ser administrada praticamente por ninguém.

Mas a verdade é que também não podemos perder de vista que a internet é “apenas” um formidável conjunto de redes de computadores interligadas, que utilizam a mesma tecnologia para enviar e receber informações.

O resto fica por conta do indivíduo. Nonada. É o que digo, se for. Existe é homem humano. Travessia.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 20, 2007 às

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Quando a retórica feminista ainda amamentava seus filhotes (o ano: 1960), a ensaísta norte-americana Helen Caldwell (1904-1987) publicou The Brazilian Othello of Machado de Assis – um opúsculo que lhe garantiria, durante as décadas seguintes, aplausos e elogios dos professores e críticos de um país chamado Brasil.

Além de ser um dos primeiros trabalhos internacionais dedicados a Machado, o livro trazia uma extravagância-bônus: uma defesa inédita de Capitu (a vilã de Dom Casmurro), inocentando-a da acusação de adultério que lhe faz o narrador Bento Santiago.

* * *

Foi o suficiente para que o livro tivesse o efeito de um petardo junto à nossa crítica literária. Desde então – sempre mais elogiado e citado do que lido – o livro de Mrs. Caldwell passou a integrar a bibliografia de qualquer candidato a conhecedor da obra de Machado de Assis.

Na verdade, Caldwell desperdiça tempo e talento para, simplesmente, confundir vida e literatura (à maneira típica dos poetas românticos), defendendo uma figura de ficção como se fosse de carne e osso.

* * *

Mas o problema mais grave – e que ainda hoje escapa a muita gente – é que Dom Casmurro é muito mais do que um romance sobre “o adultério” ou “o ciúme”, e não tem em Capitu sua protagonista.

Composto de capítulos curtos, recheado de pequenas cenas e incidentes, à maneira de um belo poema dramático, Dom Casmurro alude, na verdade, à traição à pureza da infância e à poesia da vida. E é isso que faz dele um livro imortal.

* * *

E o resto?

Bem, o fato é que, desde então, a inocência presumida de Capitu se tornou um item obrigatório. E a literatura e a verdade cederam lugar, mais uma vez, à patologia sociológica.

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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 15, 2007 às

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Numa de suas últimas entrevistas, concedida a um jornal europeu pouco antes de morrer, Jorge Luís Borges foi surpreendentemente implacável com seu passado – e sobretudo, com suas primeiras aventuras nas letras.

* * *

Confessou, por exemplo, que na juventude evitava sempre dizer “a Lua”, procurando sempre um adjetivo – ou um epíteto – para o satélite da Terra. O “jovem Borges” jamais diria – de jeito nenhum! – “Fulano de Tal abriu a porta e saiu”. Não: a ação banal teria de ser escrita de maneira extravagante.

“Quando um escritor é jovem” – lamentou-se Borges na entrevista –, “tenta de algum modo esconder o que é óbvio e tolo sob uma ornamentação barroca, por trás de palavras de escritores do século 17”.

* * *

Segundo Borges, só com o amadurecimento e a passagem dos anos o escritor compreende que as idéias devem ter uma expressão clara e precisa, de modo a criar as emoções e atmosferas desejadas na mente do leitor. Para ele, um escritor sempre começa complicado demais, só para mostrar aos leitores que “decorou um dicionário de sinônimos”.

* * *

Não foi à toa que, na maturidade, Borges tratava de evitar em seus textos todas as palavras que parecessem deslocadas – fossem termos clássicos espanhóis ou gírias das favelas de Buenos Aires.

Escrever uma palavra rude, estranha ou arcaica (dizia ele) serve apenas para distrair a atenção do leitor. E concluía: “As pessoas devem ler um texto fluentemente, mesmo que ele trate de metafísica ou filosofia”.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 14, 2007 às

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Uma das ilusões modernas, no campo da linguagem, é a de que o uso precede a norma. Esta seria apenas uma cristalização (para alguns, uma “castração”) do potencial criativo e comunicativo da linguagem oral.

Mas a linguagem humana (já falamos aqui) é muito mais do que um meio de comunicação: constitui, desde a origem, uma ferramenta formal, que nada tem de “natural” ou “espontânea”.

* * *

Nesse sentido, pode-se afirmar, sem exagero, que a escrita depende de normas, assim como a língua é constituída, no essencial, por sua norma culta.

Na verdade, a linguagem humana (articulada e formalizada numa gramática e amparada num conjunto de regras morais) é a coisa menos natural do mundo.

* * *

Certamente, não é pecado nenhum que a Literatura combine aspectos formais e informais da linguagem, tirando deles os efeitos mais criativos ou, pelo menos, mais adequados a cada situação.

Mas nunca será demais repetir: acreditar e apostar numa origem mais nobre para a linguagem (do formal para o informal, e não ao contrário) pode fazer toda a diferença.

* * *

Significa, para a escrita, um investimento em conteúdos mais consistentes, em estruturas mais ricas e mais consolidadas, num fraseado mais bonito e sublime. Retornando a essas origens, a arte da escrita não regride – pelo contrário: avança.

(Mais sobre o assunto? Leia em Não perca a prosa.)



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 10, 2007 às

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Para se chegar a entender a genialidade do argentino Jorge Luis Borges, será preciso enfrentar uma série de obstáculos.

* * *

O primeiro – talvez o mais tentador – é o do exotismo. Borges foi um desses raros autores latino-americanos clássicos (o outro é o nosso Machado de Assis) que ajudaram a salvar nossas literaturas de serem apenas um punhado de folclóricas tiradas tropicais, cheias de bananeiras e milagres à García Márquez.

Mas também é verdade que Borges povoou sua obra de metáforas que igualmente parecem apelar para a mitificação e o espanto: labirintos, espelhos, tigres e adagas, misturados a um punhado de lendas nórdicas e a reflexões metafísicas sobre o tempo e a coragem... O leitor desatento corre o risco de ficar encantado por essa exuberância de fachada, deixando escapar aspectos mais ricos de uma obra sem dúvida fascinante.

* * *

O segundo obstáculo a ser superado é a confusão recorrente entre autor e obra – que no caso de Borges constitui a espinha dorsal do mito. A forma de apreensão de sua obra em geral depende da capacidade do leitor para fazer esta diferença. Porque Borges, sem dúvida, elaborou em detalhes uma personagem que o substituía em público: o outro Borges.

Cego como um Homero ou um John Milton, tímido como um Schopenhauer, obsessivo como um Flaubert e às vezes mordaz como um Oscar Wilde, o fato é que ele soube tirar proveito desse alter ego, de que se ocupa a maioria dos livros a seu respeito.

* * *

O terceiro obstáculo é a tentação do esteticismo: é um erro incluir a obra de Borges na imensa galeria de criadores bem intencionados, mas simplesmente frívolos e vazios. Os contos, poemas e ensaios de Borges estão longe – e muito! – de exercitarem um estilo sem conteúdo.

Em tempo: negar-se à idolatria e à adoração de Jorge Luis Borges não significa contestar seu valor, ou questionar seu prestígio. Pelo contrário: só assim o elemento diferencial de sua obra de Borges – que atrai milhares de leitores em todo o mundo – pode afinal saltar aos olhos daqueles que saibam efetivamente, e simplesmente... ver.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Para emergir do caos originário, numa época em que ação e pensamento não iam muito além da satisfação de suas necessidades mais imediatas, os homens foram aos poucos formalizando sua linguagem.

A certa altura de sua trajetória, a simples comunicação já não lhes era suficiente: para se diferenciarem dos cachorros e abelhas, por exemplo, desenvolveram uma linguagem nominal, ou formal, capaz de nomear os objetos, as pessoas, os lugares e as situações – e, sobretudo, oferecendo-lhe recursos para formalizar o relacionamento entre os próprios homens, nos termos de um compromisso moral.

É uma pena que os estudiosos do assunto não ressaltem ou valorizem essa origem mais nobre da linguagem humana, preferindo a versão vulgar de que a palavra foi, a princípio, coloquial para só depois (e aos poucos) ir-se constituindo em forma convencional.

Uma exceção especial nesse universo teórico desanimador é o filósofo alemão Eugen Rosenstock-Huessy. Para ele, o maior defeito desses estudos reside na indistinção teórica entre a linguagem meramente informativa e fática (que é, de certa forma, comum a muitas outras espécies animais) e aquela que tem a força “das tragédias e dos grandes juramentos”.

Observando as crianças para tentar explicar a origem da linguagem dos adultos, diz Huessy, eles parecem ignorar a verdade óbvia de que a criança não explica o homem – mas, pelo contrário, o adulto tem chances de explicar a criança.
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 08, 2007 às

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Muitas línguas possuem estruturas léxicas e sintáticas diferentes – diferenças, em geral, ligadas a variações no ambiente físico e cultural em que cada língua surgiu e se desenvolveu.

Tamanha diversidade é mais um fator que enriquece a aventura humana sobre a Terra – sendo que esta Babel não impede o diálogo entre os povos ou a existência de valores e idéias universais.

* * *

Mas nem todos têm esta visão positiva e otimista.

Muitos vêem nesta diversidade uma espécie de barreira intransponível, capaz de “trancafiar” o espírito humano nos limites de seu idioma. Para esta corrente, chamada de determinismo lingüístico, o pensamento está sempre limitado às categorias e estruturas permitidas pela língua.

O determinismo lingüístico encontra defensores teóricos em várias partes do mundo, como os lingüistas norte-americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, o filósofo alemão Ludwig Wittgenstein e o psicanalista francês Jacques Lacan.

Todos eles acreditam que as diferenças entre as línguas se refletem nas idéias de seus falantes. Diferenças à parte, todos defendem a tese de que ninguém pode “pensar” fora dos parâmetros que cada idioma estabelece.

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O que todos estes autores esquecem é que, se fosse assim, só os russos poderiam compreender e admirar Dostoievski – e a grandeza de um Shakespeare, por exemplo, estaria para sempre vetada a leitores que desconhecessem o idioma inglês.

Mais, até: além de negarem as virtudes da tradução (uma prática eficiente e consagrada), todos esses pensadores parecem ignorar que homem tem também um gênio não verbal, uma grandeza que se expressa através de outras linguagens – como a pintura, a música e a matemática.

(Graças a Deus!...)



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 06, 2007 às

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Dentre os vilões que a Literatura nos legou, poucos encheram tanto a minha infância de medo quanto os terríveis cobradores de impostos dos contos de Andersen e dos irmãos Grimm e dos filmes das velhas matinês.

Com espadas, lanças e muita crueldade, invadiam as aldeias e terras de pobres camponeses para lhes arrancar – em nome do rei – suas poucas moedas e às vezes até o último grão de toda uma colheita esforçada.

A sociologia garante que o tempo dos reis tiranos já passou – e que a História pós-Revolução Francesa é marcada pelo crescimento irreversível da liberdade do cidadão, graças ao advento do Estado moderno.

Mas é justamente este Estado que municia seus acólitos com poderes e recursos tecnológicos que lhes permite invadir contas bancárias, grampear telefones, rastrear páginas na internet e confiscar documentos e bens pessoais – coisas inimagináveis àqueles cruéis soberanos, cheios de más intenções mas de limitados recursos.

É este mesmo Estado, em suma, que iguala (quer dizer, nivela por baixo) o gangster Al Capone e o cineasta Ingmar Bergman – cujas biografias, tão díspares, têm em comum o fato de terem sido presos por... sonegação de impostos!
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 03, 2007 às

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Desde que o mundo é mundo, cópias e plágios são comuns no reino das idéias. Já a preocupação em proteger a autoria e os direitos do autor é uma conquista bem mais recente.

Para não ir muito longe: dizem que Shakespeare tomava “emprestado” das lendas e livros da época para escrever seus dramas, comédias e tragédias – a ponto de os especialistas garantirem que nenhum dos enredos de suas 37 peças é rigorosamente seu.

* * *

Mas as leis existem justamente para contrabalançar e punir os erros dos homens. Aos poucos, foi sendo desenvolvida uma legislação protetora da propriedade intelectual, que ganhou corpo mais definido desde o início do século 18, na Inglaterra.

As novas regras cuidaram de garantir, ao autor de uma obra literária ou de uma invenção tecnológica, os ganhos pecuniários decorrentes de sua divulgação – mas sobretudo permitiram que os méritos intelectuais da autoria coubessem a quem de direito. Traziam também, é claro, a contrapartida de uma responsabilidade: os eventuais danos a outrem provocados por sua criação, passaram a ser imputados também ao autor.

A César o que é de César: tudo isso representou um inegável salto civilizatório.

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Foi neste patamar de consolidação desses direitos (morais e patrimoniais) que a internet entrou em cena. E, junto com sua liberdade inédita e seu alcance antes impensável, trouxe de volta o velho problema dos plágios e roubos de autoria.

Incluir a rede na legislação sobre propriedade intelectual se tornou então uma questão urgente – de uma urgência tanto maior quando se vê nascer e tomar grandes proporções um movimento que atenta justamente contra esses direitos individuais hoje inquestionáveis.

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Esses inimigos da ciberliberdade atendem por diferentes nomes. Um dos mais notórios é, sem dúvida, o copyleft.

Posto em prática pela primeira vez com o projeto Free Software Foundation, liderado por Richard Stallman, o copyleft se propunha, a princípio, liberar a cópia de softwares, e redistribuí-los para os usuários da rede. Mas aos poucos ele vem se tornando também a bandeira da velha pirataria de sempre, disposta a avançar sobre o alheio.

Como dizia meu sábio avô: “E ainda chamam tudo isso de progresso!”

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(Claro, claro: tem a atual “farra dos blogues" – essa pescaria aleatória na rede de que todos nós participamos. Mas isso já rende assunto para um outro post...)
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 02, 2007 às

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Quase três décadas depois de sua morte, a memória de Otto Maria Carpeaux (1900-1978), um dos grandes expoentes de nossa cultura, continua a merecer entre nós a mais estranha das modalidades de homenagem: o silêncio.

Sobre o silêncio, San Juan de La Cruz disse um dia, numa definição comovente, que ele é um dos nomes de Deus. Mas no ruidoso panorama brasileiro, onde a cultura cada vez mais se confunde com o show business, a ausência de uma fortuna crítica, de estudos regulares ou mesmo de “herdeiros” de Carpeaux deve significar alguma coisa (de ruim, é claro).

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Não tendo sido propriamente um teórico, mas sem se limitar à erudição estéril de uma “enciclopédia ambulante”, Carpeaux era na verdade um rigoroso crítico e historiador de arte, filiado a uma determinada tradição teórica em que se cruzam os nomes dos alemães Wilhelm Dilthey e Max Weber e do italiano Benedetto Croce.

Trocando em miúdos, poderíamos dizer que seu principal instrumental era o método compreensivo de Dilthey, base de sua “ciência do espírito” (Geisteswissenschaft), corrente bem diferente das ciências humanas e sociais da escola francesa. Para Dilthey, o importante era compreender (mais do que explicar) os fenômenos humanos e sociais, buscando-se para isso não as causas, mas a intenção e o sentido subjacentes a eles.

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Em sua aplicação do método compreensivo de Dilthey, no entanto, Carpeaux procurou levar também em conta as restrições feitas por Weber: o estudo das sociedades e da História não pode se restringir a compreender, mas deve procurar investigar conjuntamente a causa e o sentido oculto de cada acontecimento.

Tanto na História da Literatura quanto nos ensaios e artigos, encontramos então em Carpeaux uma preocupação com referências sociológicas – a nações, classes sociais ou grupos de opinião.

Sua análise tende a considerar cada obra como expressão de determinada corrente de opinião e sentimento, mas sem deixar de incorporar um elemento essencial da filosofia croceana: a irredutibilidade de toda obra de arte.

Para Carpeaux (via Croce), nenhuma arte se esgota ou se limita à corrente ou classe social que a produziu.

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Mesmo num resumo apressado como este, não há como negar a complexidade e a sofisticação do pensamento de Carpeaux, que durante algum tempo transformou o jornalismo cultural brasileiro em coisa séria.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 01, 2007 às

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Nesta comédia de erros chamada Brasil, não há dúvida de que um dos erros maiores é a confusão entre usos e efeitos da palavra democracia (ah, quantos equívocos em seu nome!) em esferas tão diferentes quanto, por exemplo, a política e a vida do espírito – onde a Arte brota e floresce.

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Uma das tragédias de nosso tempo é que se use o verbo democratizar à revelia dessas diferenças.

Ele pode significar, por exemplo: permitir que as pessoas afinal tenham acesso à literatura dos grandes autores, passando a incorporar às suas vidas essa imensurável grandeza.

Mas também serve – hélas! – para difundir a tese populista de que os grandes autores são no fundo inacessíveis aos “excluídos”, devendo-se substituí-los urgentemente por similares mais “fáceis”.

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Tudo somado, o resultado do imbróglio não poderia ser outro, a não ser a ascensão do homem-massa – que hoje atinge seu apogeu, mas da qual Ortega y Gasset já falava em meados da década de 1920, no clássico A rebelião das massas.

Ao promover uma descrição comparativa do "homem nobre" e do "homem vulgar", o filósofo espanhol nos legou um verdadeiro diagnóstico da degradação intelectual e moral da sociedade de massas moderna.

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Consciente do caráter explosivo de suas análises, Ortega tomou a precaução de advertir que este seu conceito-chave não era uma apologia da desigualdade social, nem podia ser reduzida a uma classificação econômico-social.

Sua distinção entre elite e massas era de natureza moral, inspirando-se na doutrina hindu do dharma e do karma. Segundo Ortega, o “homem-massa” pode se encontrar nas famílias ricas, ao passo que o “nobre” muitas vezes nasce e cresce entre os mais pobres.

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Preguiçoso e arrogante, o “homem-massa” se empenha em impor sua ignorância como padrão exclusivo de julgamento e referência.

A ele interessa que os grandes autores, e seus “livros difíceis”, sejam democraticamente substituídos por uma nova geração de autores-massa, que não ofendam sua (falta de) inteligência.
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em julho 31, 2007 às

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Nunca me canso de repetir esta história exemplar:

Uma noite, numa festa em casa de amigos, discutia-se a escalada da pornografia na internet, e a urgência de se estabelecer “políticas públicas de controle”. Claro que, por questão de princípio, manifestei-me totalmente contra a interferência absurda interferência do Estado em assunto de âmbito particular.

Argumentei que não é justo que as pessoas de bem sejam vigiadas, por causa de “uma meia-dúzia de tarados”. Impacientaram-se comigo, não foram poucos os que me perguntaram, com desdém:

“Mas o que você quer dizer com pessoas de bem? Não acha isso muito vago?...”

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O comentário parece dizer muito sobre nossa época, marcada por altos índices de tecnologia e baixíssimos níveis de consciência moral.

Décadas atrás, quem ousaria demonstrar todo esse espanto diante de uma expressão tão simples, tão clara e tão essencial: “pessoas de bem”?

Hoje, graças à influência diuturna das famigeradas ciências sociais, as pessoas se acostumaram a encarar a moral (essência das pessoas de bem) como um suspeitíssimo “sintoma ideológico”, e a liberdade individual como uma circunstância sujeita, não a padrões de responsabilidade e autodisciplina, mas a vigilâncias e regulamentações públicas.

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Mesmo sem ter um núcleo central gerador, não sendo administrada por ninguém (e sendo apenas um formidável conjunto de redes de computadores interligadas, que utilizam a mesma tecnologia para enviar e receber informações), nem assim a internet escapa dos inimigos das pessoas de bem e da liberdade.

Segundo a agência Reuters, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) apresentou estudos denunciando a censura crescente à rede em países como Cazaquistão e na Geórgia, e "apontou para conclusões semelhantes com respeito a países como China, Irã, Sudão e Belarus".


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A liberdade sempre teve (graças a Deus!) grandes admiradores. Mas também conta com uma vasta legião de inimigos. De Platão a Karl Marx, do Iluminismo a Durkheim, muitos pensadores se dedicaram a imaginar a sociedade perfeita, com base na fórmula obsessiva: o sacrifício da esfera individual, em nome de um suposto bem-estar coletivo.

Hoje essa luta estende seus tentáculos até a web, ameaçando transformá-la numa nova trincheira. Logo ela, que nasceu sob o signo da liberdade e da mais completa desregulamentação.

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Em geral, modelos de “gestão” (leia-se: de censura) são muito mais nocivos do que a qualquer pornografia – à qual, aliás, só tem acesso quem quer.

Para dar conta de tantos inimigos, a liberdade conta apenas com um guardião: o exército-de-um-homem-só de cada pessoa de bem. Só ela
pode ajudar a defender a liberdade – a sua e a do próximo.

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O resto é silêncio – ou conversa-fiada de festa.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em julho 28, 2007 às

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Mais terrível ainda do que renegar o passado em nome da mudança (pretensão das vanguardas artísticas) é o empenho de nossos contemporâneos em reescrevê-lo. O socialismo volta a cena, apontando para um horizonte de esperanças... como se nada houvesse acontecido!

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Desde que Nietzsche, delirante e romântico, tratou de passar uma borracha na realidade – “Não há fatos, só interpretações”, diz seu célebre aforismo –, o que não falta é gente tentando distorcer o acontecido em favor do apenas desejado.

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Essa cruzada voluntarista, mais do que um brinquedo perigoso nas mãos de historiadores, pesquisadores, políticos e demais aprendizes de revolucionários, já invadiu também o terreno da Literatura, que por sinal sempre prescindiu dos fatos.

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É só conferir nas livrarias: cada vez mais, as questões metafísicas e estéticas que sempre tiveram na arte seu habitat ideal vão cedendo terreno ao imediatismo das “questões político-sociais”. Nossa Literatura põe a máscara do denuncismo naturalista e os escritores vão se tornando intelectuais preguiçosos, ressentidos e “colecionadores de injustiças”.

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Cada vez se produzem mais panfletos e menos obras literárias. E, a pretexto de se “dar voz aos excluídos”, eleva-se à condição de Literatura o discurso de rappers e funkeiros, malandros e contraventores da periferia das grandes cidades.

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O território antes livre da criação literária ganha assim uma geografia delimitada – quer dizer, limitada –, enquanto a Arte vai virando literalmente um caso de polícia.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em julho 26, 2007 às

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No início dos anos 70, num pré-vestibular no velho centro do Rio de Janeiro, entrei em contato imediato e explícito com o Mal. Eu tinha uns 16 anos, e os “anos de chumbo” não deviam ser assim tão pesados a ponto de impedir que as aulas de História (do Brasil e Geral) daquele curso preparatório ficassem a cargo de três doutrinadores marxistas, de cujos nomes “no quiero acordarme”.

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Com aquele trio maligno, aprendi então que o mundo era movido pela luta de classes; que todas as atitudes e idéias humanas eram determinadas (“em última instância”) pela infra-estrutura econômica; que Deus (e as religiões) eram uma invenção ideológica para manipular as massas; que a grande herança filosófica do Ocidente (com a qual eu mal havia entrado em contato no segundo grau ou através de umas poucas leituras autodidatas) não tinha feito mais do que interpretar o mundo de diversas maneiras. O importante era "transformá-lo"!

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Uma observação nostálgica dessa natureza, velha de três décadas, não parece muito apropriada ao espírito de atualidade de um blog. Mas elas são inevitáveis, quando leio certos comentários como este (link livre).

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É a História se repetindo – não como farsa – mas como uma tragédia dissimulada. Pois o que era uma ousada exceção naquele tempo – aula de “materialismo histórico”, ou “ciência da História” (triste eufemismo) ministrada num ou noutro cursinho de pré-vestibular – tornou-se hoje a regra gloriosa.

Vitória das trevas, fim do indivíduo.

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Tenho pena dessa garotada. E me lembro das palavras de Goethe, que há alguns anos usei como epígrafe num livro:

“Agradeço a Deus por não ser jovem, num mundo tão inteiramente liquidado”.



Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em julho 25, 2007 às

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De todos os equívocos do Iluminismo, talvez o mais grave tenha sido o de esconder sob o manto transparente de sua novidade a nudez da mais antiga violência contra o indivíduo: a reforma da sociedade, dessa vez com o aval “irrefutável” da ciência. No famoso "Discurso Preliminar" da Encyclopédie, nos idos de 1759, Diderot e d’Alembert pregavam a esperança no pensamento científico, com sua missão de recuperação da humanidade. Falando em nome do Homem, maiúsculo e universal, o discurso dos philosophes iluministas acabou por desencadear a mais brutal investida contra a consciência individual: a ascensão das massas, o império despótico do Coletivo a que hoje assistimos, apavorados.

Coube ao romance – que já teve que ser tantas coisas – funcionar durante algum tempo como importante espaço de resistência do indivíduo, contra esses ataques. Espécie de laboratório imaginário da experiência humana, ou equivalente moderno dos diálogos socráticos, o gênero narrativo ganhou especial relevância depois da formidável peripécia filosófica de Hegel, que transformou a História em sujeito de si mesma e condenou o indivíduo a ser mera abstração, face à "realidade absoluta" do Estado. Mas, tragicamente, parece que ele não saiu ileso das experiências formais do início do século 20 – que, à maneira hegeliana, acabaram por fazer do "romance sobre o próprio romance" o modelo supremo da ficção.

Pelos frutos, conhecereis a árvore. A herança social mais sinistra da Revolução Francesa – fruto político do Iluminismo – foi, como se sabe, o pesadelo comunista, responsável pelo enorme ranço igualitarista que permeia a vida atual, anos e anos depois de derrubado a Cortina de Ferro vergonhosa.

Com o romance, não aconteceu melhor. Sob o pretexto de que lhe atribuíam uma “nobre missão”, roubava-se a ele o direito de continuar sendo o gerador de um conhecimento único, irredutível a qualquer outro discurso. Hoje, salvo um punhado modesto de honrosas exceções, o que se vê circulando em texto impresso e encadernado é uma literatura desfibrada, ambígua, acanhadamente alegórica ou descaradamente engajada.

Ou é mentira, Terta?
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Arquivado em: artigo — postado por Antonio Fernando Borges em às

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Vou mexer em casa de abelhas, coisa que não fazia desde a infância remota. Mas, se me ponho a tocar em matéria perigosa, não é por malícia ou prazer, mas por me sentir “picado” (metaforicamente, é verdade) pela indignação.

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De fato, é duro permanecer impassível enquanto se assiste ao sagrado chamamento – “Deixai vir a mim as criancinhas” – ser transformado em ardilosa cantilena, porque não ecoa mais dos Evangelhos, e sim de um coro de vozes públicas vorazmente interessado na formação de nossas crianças e jovens. O problema é justamente constatar: que tipo de “formação”?!

Já faz tempo que as crianças e os jovens são mais e mais atraídos pelas promessas fáceis de uma cidadania feita só de direitos e exigências, para serem supostamente atendidas por um mundo inteiro posto a seus pés. Rigores escolares são afrouxados, a autoridade familiar é destronada em nome da supremacia do grupo – e do conjunto hierarquizado de valores morais, sociais e artísticos que constituíam a Ordem indispensável, sobrou o quê? Só estilhaços.

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Os maus frutos dessa seara daninha começam a se multiplicar por todos os lados: são bailarinos pobres da Rocinha, batedores de lata miseráveis de Vigário Geral, ou grafiteiros carentes do Pelourinho – todos absurdamente convencidos, por juízes da infância e por milionárias ONGs internacionais, de que seu trabalho vale tanto quanto o de Balanchine, Beethoven e Leonardo da Vinci. Debruçar-se sobre o estudo da verdadeira Arte para afinal aprender? Nem pensar! Trabalhar, para o auto-sustento ou para auxílio da família? É crime!, ou pelo menos assim prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.

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Em 1932, no hoje clássico Admirável mundo novo, Aldous Huxley prenunciava com horror o advento de uma Nova Sociedade marcada pela fabricação in vitro de bebês geneticamente calculados, e pelo adestramento ideológico-comportamental de crianças e jovens afastados fisica e emocionalmente de suas famílias. O escritor só errou – generoso e britânico que era – ao projetar essa realidade para dali a sete séculos...

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Estamos longe da realidade da velha fábula, que exaltava as virtudes das trabalhadeiras formigas, alertando contra a inconseqüência do canto frívolo das cigarras. E mais longe ainda da realidade propriamente dita: se as cigarras de La Fontaine ao menos se empenhavam no aprendizado exímio do canto, os “insetos” da sinistra fábula atual contentam-se em autoproclamar seus duvidosos dotes artísticos, tratando de atacar com fúria quem ouse contrariá-los.

(Pensando bem: trata-se menos de cigarras do que abelhas – mas de algumas espécies menos nobres que a entomologia localiza no interior da África, que são mais venenosas na inversa proporção do escasso mel que produzem.)

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Não olhe agora, leitor, mas logo esses enxames estarão por toda parte, e não apenas nos sinais fechados – onde travestidos em pífios malabaristas já substituem os antigos e esforçados lavadores de pára-brisa. Ual! Melhor começar a se proteger das ferroadas.
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