]

Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 29, 2008 às

2001_460.jpg

Em toda esta discussão em torno da liberação de pesquisas com células-tronco (quase toda ela apoiada em tolices e sofismas primários), o que mais me espanta é a idéia (positivista) de que a razão (científica) ajuda a combater o "obscurantismo" das religiões.

Sem ânimo, tempo nem bagagem para mergulhar a fundo no debate (o que, aliás, também não vem sendo feito nem pela imprensa nem pelos dotôres do Supremo), limito-me a transcrever as palavras geniais do médico psiquiatra judeu austríaco Viktor Frankl, a respeito da (ir)responsabilidade dos cientistas:

"Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidaneck, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de filósofos e cientistas niilistas -- entre os quais se contavam e se contam alguns pensadores anglo-saxões laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem uns quantos povos inferiores: tudo isso não é senão raciocínio lógico e conseqüente."

Frankl era judeu, como Marx, Freud e outros tantos intelequituais que contribuíram para a construção deste pesadelo. Mas, ao contrário de seus patrícios, ele se manteve fiel justamente à tradição religiosa judaica, uma das fontes preciosas (e nada obscurantista) de sua busca do sentido da vida.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 25, 2008 às
0306dm.jpg

O fato de que o antropólogo Guillermo León Sáenzá, a.k.a. Alfonso Cano, irá assumir o comando das famigeradas Farcs, com a morte do no.1 Tirofijo, mostra bem a função e o caráter das ciências "humanas" no mundo contemporâneo: destruir a ordem civilizacional acumulada ao longo de milênios pelo Ocidente.

Tudo isso, é claro, em nome de um "outro mundo possível".

Fiéis ao comando do barbudo alemão que cheirava a charuto, esses intelequituais não querem compreender o mundo: querem transformá-lo.

Deus que nos proteja!

Em tempo: a morte de todo homem me diminui (OK, não me esqueci!): afinal, sou parte do gênero humano. Mas, se a caçada e liqüidação de guerrilheiros-traficantes-seqüestradores tiver que ser o preço a ser pago para a restauração da paz e da justiça na Colômbia e na América, que assim seja! Amém.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 14, 2008 às
leonor_diosa_protectora.jpg

A vitória da democracia tem sido comemorada, mundo afora, toda vez que um mandatário fardado é deposto ou afastado. Regimes civis, conduzidos por governantes eleitos, seriam hoje maioria no mundo -- um indício (dizem os intelequituais) de que a Idade Contemporânea pode ser definida pelo aumento crescente das liberdades políticas, coletivas e pessoais.

Sério?!

Em face dos últimos acontecimentos, seria o caso de perguntar de onde essas pessoas tiram suas teorias esdrúxulas, e o que eles entendem, afinal, como liberdade?

(Liberdade = o "direito" de obedecer de bico calado?)

O titular deste blog (que não fuma) está de luto, ao ver a liberdade individual morrer mais um pouquinho...

É proibido fumar?! Então cabe a pergunta aos defensores da "liberdade de expressão": mas maconha pode?!!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 08, 2008 às
pensador2.jpg

Um amigo-leitor dos mais inocentes (desses cujos "desafios" afinal me ajudam a ir tocando o barco e o blog) pergunta-me por que bato tanto na tecla de que a propaganda política sistemática dos intelequituais provocou estragos criminosos na cabecinha das gerações mais jovens -- e pede que eu lhe "explique melhor".

Explico: ao longo das últimas décadas, professores de ensino médio, pré-vestibulares e Universidades não têm feito outra coisa além de ensinar a seus incautos alunos que: a luta de classes é o motor da História; a Economia explica tudo; o homem pensa e age de acordo com sua origem social; ricos são cruéis e gananciosos; pobres são puros, ingênuos e coitadinhos; os EUA são o demônio do mundo - e por aí vai.

* * *

Quem ainda não sabe que tem sido assim?

Todo mundo, é claro -- menos (ao que parece) meu amigo-leitor tolo ou inocente. Insatisfeito (incomodado?) com minha explicação, pede-me exemplos "concretos".

Basta-me um, que aconteceu durante uma Oficina Literária recente, ministrada no interior do RJ.

* * *

Depois da ler um punhado indigesto de esboços de enredos e personagens (empresários malvados e/ou madames cruéis que exploravam pobres funcionários e empregadas domésticas, argh!), sugeri à turma que fizesse o esforço sobre-humano de deixar de lado todo o lixo sociológico sedimentado ao longo dos anos.

("Não é fácil", arrisquei. "Mas também não é impossível.")

Pedi então que tentassem construir um personagem (Deus do céu!) cuja ação não fosse motivada por "razões de classe social ou de dinheiro" -- mesmo porque a maioria dos seres humanos normais não age assim. Como incentivo, arrisquei uma sugestão:

"Pensem, por exemplo, num homem muito rico, bom, generoso, ou seja, simplesmente um homem com muito dinheiro, mas que não liga para isso."

* * *

Todos se animaram e, na aula seguinte, os "personagens" criados se multiplicaram na minha mesa.

* * *

Mas quem desanimou, definitivamente, fui eu: tudo que aqueles brainwashed tinham conseguido, com pouquíssimas variações, foi:

Depois de ter cometido muitas crueldades na vida (gerar empregos e riqueza, incrementar a economia do país, essas "maldades"), um empresário se arrepende e resolve distribuir seu dinheiro entre os pobres!!

Juro! Pobre São Francisco de Assis...

* * *

(Como dizia aquele velho anúncio de conhaque: "Que dureza!")

* * *

Todo homem tem o dever sagrado da esperança. Por isso, tenho certeza de que a experiência paulista, que começa neste sábado (dia 10), será bem diferente.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em maio 05, 2008 às
tien.gif
“Maio de 68 nos impôs o relativismo moral e intelectual. Os herdeiros de maio de 68 impuseram a idéia de que tudo se equivalia, que não havia diferença alguma entre o Bem e o Mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o belo e o feio”.

Nicolas Sarkozy, durante a campanha, prometendo aos franceses virar a triste página de maio de 68.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em abril 25, 2008 às
empty-chair5.jpg

Amigos e leitores fiéis têm me cobrado com razão: venho postando pouco, nos últimos tempos.

A vida além da blogosfera tem andado atarefada e cansativa, cheia de solicitações e compromissos. Mas seria injusto atribuir apenas à falta de tempo esses períodos de ausência.

Escrever é uma forma de agir - e no fundo minha atuação nesta página vem sendo para mim uma forma estimulante de luta.

Mas isso, às vezes, também cansa: principalmente quando se acredita que as palavras devem corresponder aos fatos e às coisas, de modo a produzirem esta coisa imprescindível chamada verdade dos fatos.

Acontece que, lá fora (aqui fora), no chamado mundo real, o divórcio entre as palavras e as coisas tem sido a tônica.

Principalmente aqui, na Botocúndia, onde bandidos são tratados como heróis ou vítimas (da polícia, das circunstâncias...) e onde, num momento em que alardeia a falta de alimentos, o governo expulsa produtores agrícolas (cf. Roraima) para entregar as terras, de mão beijada, a ONGs mal intencionadas e índios preguiçosos.

(Tudo isso, é claro, sempre em nome de "um outro mundo possível".)

Em suma, um país onde os adultos não protegem (pelo contrário: até matam) os próprios filhotes.

(Nem vou fazer os links: todo mundo sabe do que estou falando.)

Chego a pensar que o poeta-farmacêutico de Itabira tinha lá sua dose de razão: lutar com palavras é a luta mais vã...

Entretanto, eu luto: porque sei que é preciso viver, escrever - enfim, lutar.

Semana que vem, recomeço.

(Enquanto isso, aproveitem para visitar as outras páginas deste Condomínio: tem muitas coisas boas, muitas palavras exatas, que ajudam a gente a não desanimar.)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em abril 19, 2008 às


gaiola.jpg

Nossa (imprevista e temporária) saída do ar deve ter levado muita gente a comemorar antes da hora: "Até que enfim, calaram a voz desses conservadores!".

Pelo menos foi assim que reagiu meu ex-amigo mais esquerdopata, desses que insistem no hábito insalubre de me telefonar para destilar seus piores enxofres. Ontem à noite, não foi diferente:

"Até que enfim, hein", atirou-me ao ouvido, sem dizer sequer boa-noite.

"?!"

"Mas também, meu caro, vocês já estavam abusando... "

"??!!"

"E eu espero que não pare por aí. Tem os direitistas da Veja, e um punhado de outros por aí que..."

Como sabem meus amigos e até alguns leitores, sou imprudente o suficiente para ficar desperdiçando pérolas nobres com os piores suínos - e lá ia eu entabulando nova discussão com meu velho ex-amigo, quando fui salvo pela mulher, chamando-me para jantar.

Resumi então o caso em meia dúzia de palavras, para decepção e revolta do pascácio, que desligou às pressas.

O jantar estava excelente.

Com o portal de volta, só resta mostrar a língua para esses tolos e fazer coro com meu chapa Ruy Goiaba: "Oi nóis aqui 'traveis"



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em abril 15, 2008 às

a-clockwork-orange-alex-at-the-korova-milk-bar.jpg

Estava demorando... Mas ontem finalmente aconteceu:

Os delinqüentes-com-carteira-de-estudante que ocupam (e emporcalham ainda mais) a reitoria da UnB mostraram sua verdadeira cara mal-intencionada.

Sob a capa da probidade e da moralização, o lobo igualitário preparava a hora de atacar. E atacou: agora os vagabundos querem que seus votos passem a ter o mesmo peso do dos professores.

(Por sinal, isso não faria muita diferença: no fim das contas, os bárbaros já invadiram Roma. Não é de hoje que o baixo-clero tomou conta do país, da ralé sindical e estudantil aos mais altos escalões.)

O novo reitor, anunciado nesta terça-feira, tem tudo para enterrar de vez o que restava de dignidade e legitimidade naquela instituição de ensino. Mesmo interino, parece que terá tempo e disposição para fazer besteira: em sua primeira declaração, já anunciou que veio para conciliar.

(O que, na linguagem do Brasil-País-de-Todos, significa: vai abrir as pernas para a canalha.)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 25, 2008 às
ambulancia-~-SCM_154.jpg

De todos os pesadelos que marcaram o século 20, o automóvel perde apenas – em número de vítimas – para o coletivismo.

Nem Hitler nem Pinochet (figurinhas-fáceis na pauta dos indignados da hora) levaram seu flagelo tão longe. No entanto, nem a “máquina letal” nem a construção da “sociedade perfeita” costumam ser tratadas com o mesmo rigor crítico...

A explicação parece clara: nos dois casos, há um anonimato que se esconde atrás da idéia confortável de engrenagem, nutrindo-se dela. Como se forças eletromecânicas e sociais pudessem agir por vontade própria, sem qualquer interferência da ação intencional dos homens.

Intelequituais acreditam em cada coisa! Condenam o "consumo"; exaltam as "forças da História".

Pior: desprezam a lógica e as estatísticas, quando elas desmentem seus “preceitos morais”.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 14, 2008 às
3.jpg

Idéias têm conseqüências: as palavras certeiras do grande educador Richard Weaver sempre me impressionaram, desde o início da minha aventura de leitor, pela gravidade de seu chamamento à responsabilidade moral. Pena que pouca gente dê alguma atenção a isso.

Pergunte, por exemplo, a qualquer psicanalista se ele tem consciência de que as teorias de seu guru estão na origem dessa grande compulsão erótica que sacode a civilização ocidental, com uma série de encrencas que vão desde o envolvimento de homens públicos com o baixo-clero do sexo até a disseminação de doenças fatais como a Aids.

Da mesma forma, faça o teste com algum sociólogo de plantão: até que ponto ele concorda que a defesa sociológica (e marxista, em particular) dos proverbiais “excluídos” é responsável pela escalada da arrogância entre os pobres e – pior! – pelo aumento da criminalidade no Brasil?

Provavelmente, tanto um quanto o outro vão fazer uma cara de espanto ou indignação e exagerar no gestual (franzindo a testa, tensionando os músculos ou arregalando os olhos) para afinal responder com um vago: “Mas que absurdo!”

Parece que nossos intelequituais (e não apenas os psicanalistas ou sociólogos de plantão) acreditam que o “outro mundo possível” que sempre apregoaram nada tem a ver com este cenário de terror que eles estão ajudando a construir sobre as ruínas do Ocidente civilizado. E que, apesar de terem as mãos sujas de sangue, mantêm ainda o coração tão branco quanto o de Lady Macbeth.

Idéias têm conseqüências: ali nascem, afinal, as matrizes de crenças e comportamentos que, aos poucos, vão sendo espalhadas pelo mundo (que nossos intelequituais preferem chamar de sociedade).

Por trás do mendigo que estende a mão com fingida humildade ou da vizinha insinuante que sorri com a boca em forma de isca – ah, são muitas décadas de sociologia e psicanálise que nos contemplam!

Os bárbaros invadiram a cidade. A turma da "geral" comanda o espetáculo. Mas nossos intelequituais (que não acreditam na Bíblia) lavam as mãos. Como Pôncio Pilatos...



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 06, 2008 às
cidade.jpg

(Acontece sempre, toda vez que volto de uma livraria...)

A literatura brasileira contemporânea (carente de boa sintaxe, boa-fé e às vezes até de bons modos) carece acima de tudo de grandeza.

Não é preciso mais do que puxar pela memória, ou fazer uma busca rápida na estante mais próxima: entre os romances recentes, que protagonistas poderiam ser caracterizados como... heróis?

* * *

(Falo de heróis no sentido clássico: criaturas míticas, exemplares – pessoas capazes de sacrifício e da busca de redenção, em nome de um conjunto de valores elevados, postos acima do egoísmo e da vaidade. Que minhas palavras soem antiquadas é mais um sintoma dessa carência essencial de heroísmo.)

* * *

Nem estou cobrando que todo escritor venha a tratar destes tipos excepcionais e elevados que chamamos, justamente, de heróis. Mas onde estão (pelo menos!) aqueles seres humanos à “moda antiga”, capazes de enfrentar com grandeza os desafios e conflitos que, mesmo na vidinha mais comum, estão sempre nos obrigando a contrapor e harmonizar o sensível e o inteligível, a alma e o corpo, o espírito e a matéria, o bem e o mal...?

Hoje, se querem um monumento, basta olhar em volta:

Quase sempre, os protagonistas de nossa literatura atual são criaturas simplórias,violentas, ressentidas, seres invejosos e miúdos atrás de alguma vantagem material ou mesmo da simples e pura vingança.

Com as honrosas exceções de sempre, são fracassados, vagabundos, miúdos e maliciosos – numa palavra, “excluídos”, para usar o termo-chave do vitimismo vigente.

* * *

Quem não se lembra? Além de divertir, a ficção sempre operou como uma espécie de “laboratório das emoções humanas”.

Hoje, tudo isso parece perdido – tendo cedido lugar a um mesquinho papel de propaganda de alguma bandeira esfarrapada: socialismo, liberação sexual e outras cartas marcadas do mesmo baralho "viciado".

(Façam suas apostas, senhores! Como se diz na Bahia; não lhe custa nada, só lhe custa a vida!)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em março 04, 2008 às
chaves2ey.jpg


Este blogue não costuma fazer proselitismo político. Mas acata com bons olhos a sugestão do jornalista Reinaldo Azevedo, em seu corajoso blogue:

Envie o seu protesto ao Itamaraty contra a posição do governo brasileiro em face da agressão de que é vítima o povo colombiano. Envie os e-mails para os seguintes departamentos:

- Assessoria de Imprensa do Gabinete do ministro Celso Amorim
imprensa@mre.gov.br
- DEA - Divisão da Organização dos Estados Americanos
dea@mre.gov.br
- DHS - Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais
dhs@mre.gov.br

Depois, envie uma cópia de seu protesto para a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Não é preciso mandar cópia a todos os membros. Basta que ela chegue ao senador Heráclito Fortes (DEM-PI), o presidente: heraclito.fortes@senador.gov.br

Não deixe que nos façam de palhaços!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 28, 2008 às
yay communism.jpg


Uma das passagens mais terríveis de 1984 (o doloroso romance-testamento de George Orwell) é, sem dúvida, a seqüência em que o inquisidor socialista O’Brien tortura o combalido protagonista Winston Smith.

Em meio ao flagelo (ao mesmo tempo físico, psicológico, moral), O’Brien pergunta a Winston se ele sabe por que o Partido se comporta daquela maneira implacável. E o pobre-diabo, num desesperado esforço de conciliação, insinua que é porque “vocês acham que isso é o melhor para nós”, ou algo do gênero (cito de cabeça, sorry!).

Risonho e sádico, o diabólico inquisidor aumenta a descarga, pisa no acelerador e atropela o que restava de auto-estima em Winston, chamando-o de imbecil e explicando o verdadeiro motivo: o poder pelo poder. Sempre foi esse o objetivo do “socialismo à inglesa” do livro (versão sintética do socialismo da vida real): o acúmulo incessante de poder.

Orwell entendia perfeitamente do riscado. Comunista arrependido (desconheço o grau de sinceridade), conheceu todo o inferno por dentro: contra o seu depoimento, ninguém poderá alegar que se trata de “calúnia do inimigo”. Orwell foi um camarada: quando fechou os olhos para morrer, em 1950, deve ter passado em revista muitos dos horrores que teve a oportunidade (sempre indigesta) de conferir.

Diante do prestígio de que as ideologias socialistas desfrutam até hoje – e apesar de tudo!! –, seria o caso de perguntar: será que essa meninada desfilando pelas ruas com a camiseta do “Che”, berrando que “um outro mundo é possível”, tem ainda algum resquício de inocência ou ingenuidade em seus espíritos?

Temo que não. Aliás, quase aposto que o que eles querem mesmo é trocar a mesada paterna por algum mensalão estatal, garantindo uma fatia deste bolo político que o assombroso O’Brien pinta em cores fortes e inconfundíveis (enfim, uma citação literal):

“Não haverá lealdade, a não ser lealdade ao partido. Não haverá amor, a não ser amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado. Não haverá arte, literatura ou ciência. Quando formos onipotentes, já não haverá mais necessidade de ciência. Não haverá distinção entre a beleza e a falta dela. Não haverá mais curiosidade, nem alegria no processo da vida. Todos os prazeres competitivos serão destruídos. Mas sempre – não se esqueça disso, Winston – sempre haverá a intoxicação do poder, sempre aumentando e sempre crescendo sutilmente. Sempre, a cada momento, haverá o tremor da vitória, a sensação de pisar num inimigo que já está sem esperança.”


metropolis4.jpg



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 09, 2008 às

cinema_edt_fem_01.jpg

Dizem (o que é bastante provável) que, quando o escritor e roteirista Frederic Raphael conheceu pessoalmente Marcelo Mastroianni, no fim dos anos 70, não resistiu à tentação de tirar uma dúvida que já o intrigava havia quase três anos.

Sentados (diz a história) num café ou restaurante de Roma, Raphael perguntou a Mastroianni se ele não tinha medo de que aquele recente papel de homossexual no filme Um dia muito especial (1977), de Ettore Scola, prejudicasse seu enorme prestígio entre as mulheres.

Consta (e aí, talvez, comece a lenda) que o ator italiano simplesmente deu de ombros e respondeu, com um muxoxo bem italiano: “Ah, cinema não é grande coisa...”.

* * *

O desdém do galã parece não ofender em nada a imagem dos milhões de profissionais que a indústria cinematográfica mobiliza em todo o mundo (Bolywood incluída): a maioria deles sabe, exatamente, o que está fazendo ali.

A idéia, em compensação, incomoda os intelequituais, que levam a sério demais o glamour do cinema: na contramão dos que assumem a atividade como trabalho ou como entretenimento, eles a encaram como um “discurso estético” e não se cansam de gerar reflequições a respeito.

Neste contexto, a anedota “mastroiânnica” serve como um excelente contrapeso (verdadeiro memento mori) para essas legiões de entusiasmados que acorrem às salas de cinema, ávidos para assistir às últimas adaptações de clássicos literários – No country for old men, dos irmãos Coen, por exemplo.

* * *

Buñuel costumava dizer que só os livros ruins podem render bons filmes – o que já diz muito sobre as limitações do cinema. Mas o comentário de Marcelo Mastroianni (perdoe-me, meu caro Paulo Ricardo) é definitivo: cinema não é mesmo lá essas coisas.

Se ando repetindo a frase do ator, como uma espécie de “mantra”, é na esperança de que ela amenize minha própria decepção diante do resultado final de Onde os fracos não têm vez (argh!).

* * *

Do romance original (na edição brasileira: Onde os velhos não têm vez), não sobrou sequer o título em português – para não ofender a terceira idade, o tradutor tirou uns fracotes do armário...

Pior: da instigante e seca aventura narrada pelo craque Cormac McCarthy, restou na tela uma perseguição caricata e inverossímil, embora caprichada em termos de fotografia, edição e outras bossas.

Infelizmente, um filme não é apenas visual: há que também dar conta de uma sintaxe e uma semântica – em suma, uma narrativa. E esta (essência, também, da literatura) acaba se perdendo na adaptação à tela.

Para quem (como eu) gosta dos filmes de Coen e dos livros de McCarthy, a experiência foi – numa palavra – decepcionante.

* * *

(Bem-feito! Quem mandou ter subestimado a frase do Mastroianni?...)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 01, 2008 às

hitler.jpg

A chegada do Carnaval é sempre (ao menos para mim) fator de melancolia, diante da escalada grotesca de uma alegria histérica (e cronometrada no calendário, no relógio) que os "humanos" chamam de folia-momesca.

(Evoé, Momo!)

Mas este Carnaval que começa traz uma dose extra de desânimo: a proibição imposta pelo nazismo extemporâneo da comunidade judaica do Rio de Janeiro, a respeito de determinado carro alegórico de determinada escola de samba (danem-se os detalhes!). Tudo por conta de uma juíza que autorizou uma censura injustificável!

Insisto: dane-se o Carnaval! Danem-se as escolas de samba! Mas iniciativas autoritárias como esta só ajudam a estragar a festa (mesmo chinfrim) de qualquer um...

Até quarta-feira!!!

(P.S.: Perdoem a rabugice do post -- mas me recuso a desperdiçar humor e fazer brincadeira com Censura!)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 23, 2008 às

510672745_09f77c4c23.jpg

É... acho que agora é o fim mesmo!

Maiores detalhes aqui, na nova trincheira política de Paulo Serran.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 20, 2008 às

peleegarrincha1963.jpg

E por falar em efemérides:

Há exatos 25 anos (em 20 de janeiro de 1983) morria no Rio de Janeiro o desafortunado Mané Garrincha, o jogador meia-bomba e fracassado que -- no País dos Ressentidos -- muita gente insiste em comparar ou contrapor ao genial e vitorioso Pelé.

Mesmo sem ter praticamente nenhum interesse por esportes (acho tediosa e inútil qualquer conversa sobre futebol), é impossível não perceber a enorme força simbólica do bate-bola para os nossos intelequituais, famosos por sua incapacidade (e sua preguiça) em matéria de filosofia ou alta-cultura.

Gente assim, incomodada com o sucesso dos outros, prefere glorificar os perdedores, tentando desesperadamente nos convencer de que -- no País dos Coitadinhos -- o infeliz anjo-das-pernas-tortas era "melhor" do que o atleta de Três Corações simplesmente porque, na verdade, era... pior, entendem?

Pelos frutos, conhecereis a árvore: quando apontam o dedo para as estrelas, nossos intelequituais enxergam apenas a pequenez da ponta do próprio dedo -- e isso, no Brasil, constitui toda uma... "filosofia".

Cartão vermelho para eles! (Quem vai ser o primeiro?)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 17, 2008 às

taxi_blue_p.jpg

Talvez o mundo não valha a pena (soletraria o poeta), mas é sempre um consolo desfrutar da sensação inconfundível que é saber que -- qualquer que seja a rodoviária de seja qual for a cidade aonde a literatura e o trabalho nos levarem -- sempre haverá ali um táxi à nossa espera.

Talvez nem valesse a pena comentar nada disso... Isto é, se o mundo fosse, no fim das contas, um lugar povoado por mais sensatez e menos relativismos morais. Mas, como o mundo talvez não valha tanto, então é o caso de contar o acontecido (e foi há bem pouco tempo).

Cheguei à rodoviária de C.... às dez e meia da noite -- e lá estava o táxi providencial do primeiro parágrafo. Ao volante, aguardava-me um jovem senhor solícito, empenhando-se na satisfação de conduzir seu passageiro-forasteiro ao melhor hotel da cidade (fator de orgulho e de progresso da região), onde eu me hospedaria.

Mas o momento mágico da noite ainda estava por vir (e veio!) na hora em que ele estacionou seu carro, solícito e britânico, no pátio interno do Hotel -- e, adiantando-se em apanhar minha mala e abrir a porta para mim, explicou-me sereno, apontando o taxímetro:

"O senhor me deve dois reais a menos do que o que está marcado. Empolgado pela conversa, acabei me distraindo e tomando um caminho mais longo. Não é justo que o senhor pague pelo meu erro. Aliás, por favor, me desculpe."

Um tanto perplexo pela cena inesperada, fiz ver ao jovem senhor que não havia problema: o papo tinha sido agradável também para mim -- e que, aliás, novato por ali, eu nem tinha percebido.

"Mas eu percebi, senhor, e já é o bastante. Sou um homem de Deus, e não posso me omitir diante disso. Aceite o seu troco, e as minhas desculpas."

Talvez valha a pena ressaltar (pelo bem do mundo) que o mais valioso e fantástico, em toda aquela cena, era a maneira tranqüila com que o jovem senhor falava, sem nenhuma pieguice ou retórica -- como alguém que dissesse apenas "Onze e meia" caso lhe tivessem perguntado as horas.

Talvez o mundo não valha o mundo (insistiria o poeta), mas é sempre um consolo poder saborear a certeza de que, num canto pacato do Brasil (pelas ruas de C....), circula um homem capaz de distinguir e defender as coisas que valem mais do que dois reais -- e que faz isso sem a arrogância dos castos, mas com a simplicidade de uma tranqüila rotina.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 14, 2008 às

image001.jpg

Um ex-vizinho niteroiense, desses que vivem nas sombras, acusa-me de ser "inconclusivo" em meu post recente sobre a esquizofrenia arrogante da filosofia moderna. Incapaz de acompanhar o que ele chama de minhas "abstrações", pede-me um exemplo concreto...

Dou-lhe um bem simples, mas bastante demonstrativo de como o assassinato da lógica promovido pela estrambótica teoria da causalidade de David Hume desobrigou a maioria das pessoas de... pensar!

* * *

O caso aconteceu recentemente comigo, durante mesa-redonda sobre Tradução Literária, na Casa de Espanha, no segundo sábado de dezembro (tantos detalhes concretos são para agradar meu ex-vizinho, fraco nas abstrações...).

A certa altura do debate, enquanto eu comentava a baixa qualidade de boa parte das traduções do espanhol que circulam no país, uma jovem me interrompeu para alertar:

"Também pudera! Do jeito como são mal pagas!"

* * *

Tentei mostrar à moça (parecia bem-intencionada) que nenhuma tradução é necessariamente ruim por ser mal paga -- mas por ser, justamente, mal feita! Em outras palavras, não havia uma relação de necessidade (i.e., de causalidade) entre o preço e a qualidade da tradução.

(E fiz questão de exemplificar: mesmo mal pago, um profissional consciente, maduro, generoso, costuma optar por realizar um bom trabalho.)

Impacientou-se comigo, acusando-me de ser insensível às "condições adversas de exercício da profissão".

* * *

Porca miséria! Precisaria dizer mais alguma coisa? Na verdade, o tipo de raciocínio da jovem aluna de tradução do espanhol vem se tornando o modelo (cada vez mais) recorrente do raciocínio no Brasil...

Hélas!

E depois nossos intelequituais ainda têm a cara-de-pau de investigar as "origens" de nossa miséria (material, mental, moral).

* * *

Bastaria lembrar, com o grande mestre conservador Richard Weaver: idéias têm conseqüências!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 10, 2008 às

laugh.gif

Que "vítimas do capitalismo selvagem" ou "excluídos" -- qual nada! Tudo que nossos intelequituais já não conseguem enxergar na "vulgaridade" do mundo real "inescrutável" está sintetizado nesta piada genial: imperdível!

Deleitem-se, sem preconceitos!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em às

filosofos2.gif

É impressionante a húbris (não há outra palavra) com que a filosofia moderna em geral e nossos intelequituais em particular se empenham em negar a existência soberana e independente da realidade – também conhecida como “vida real”, “mundo dos adultos”, etc.

Em seu desprezo pelos enunciados claros e pelo fraseado límpido, costumam se amparar nas idéias (sic) de um Derrida, um Baudrillard, um Deleuze -- que é, no fim das contas, onde a vista de cada um deles alcança.


* * *

A encrenca, no entanto, vem de muito mais longe – e, infelizmente, parece abranger praticamente todo o edifício da filosofia moderna.

Enraíza-se, por exemplo, em espíritos maliciosos (ou simplesmente confusos?) como René Descartes, cuja bravata maior foi colocar em dúvida a experiência direta dos cinco sentidos – ponto de honra para a filosofia clássica, em especial a do grande Estagirita, na aurora de nossa civilização.

E o que dizer do escocês David Hume (considerado um dos mais brilhantes representantes do empirismo britânico e do Iluminismo!), que questionou a idéia essencial de causalidade, afirmando que toda seqüência causal (outro ponto nodal da lógica aristotélica) acontece apenas na mente do sujeito pensante?!

* * *

E depois vieram Kant, Hegel e tutti quanti, a garantir que, no fim das contas, o mundo real é inacessível até mesmo para nossos esforçados intelequituais – quanto mais para os mortais comuns...

(E não me digam que estou simplificando demais as coisas: esta estrovenga é que já é simplista em si mesma!)

* * *

Não foi à toa que, meses atrás, durante uma Oficina literária que ministrei fora do Rio, ao mencionar o papel essencial da Poética de Aristóteles na arquitetura do romance, ouvi como resposta de uma jovem impetuosa, dedo erguido na minha direção:

“Com licença, professor! Que eu saiba, Aristóteles já foi superado há muito tempo...”

Como dizia o sábio Richard Weaver, idéias têm conseqüências.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 08, 2008 às

keira-knightley-at-the-pride-and-prejudice-gala.jpg


No site Ordem Livre (organização não-governamental em defesa de princípios essenciais como liberdade individual, mercado livre e governo limitado), está no ar meu artigo sobre os mecanismos viciosos da Lei Rouanet -- onde todos os "jogadores" sempre saem ganhando.

Vão lá conferir. Mas voltem sempre, ok?

(Ob.: A foto é dedicada aos que suspiraram pelo post anterior...)



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 03, 2008 às

road_modesto_lg.jpg

E agora, José?

A festa acabou, o bonde passou -- e o milagre não veio, mais uma vez. Veio apenas outro longo ano pela frente, com seus desafios, sonhos e humilhações. E todos nós, inevitavelmente, mais velhos.

Agora é trabalhar.

(Re)começar.

Etc.

Contrariando os hábitos locais, com suas preferências por balanços e despedidas, aproveito este espírito de (re)início para enviar meu abraço a todos os que vêm me acompanhando desde a estréia, e também aqueles que vierem a me acompanhar a partir de agora.

Um abraço bem especial a Astrids e artistas, a Lílians e líricos, aos Brunos e Bruninis, aos Enriques e Henriques, às Stellas e Stelas, todas cintilantes; às Carlas e Cristinas; e também para as Elisas e as Beths, Leonardos e Leopoldos, Pedros e Paulos, e para os Antonios e Fernandos como eu -- enfim, a todos os chamados "bons amigos", aos bosques que se chamam Solidão, aos bondes que sempre se chamaram Desejo e às mulheres e tangos chamados Conchita.

Feliz ano todo!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 21, 2007 às

012485garci_perez_de_camargo.jpg

“Aquele que não tiver espada, venda sua capa e compre uma.”

Evangelho de S. Lucas, capítulo 22, versículo 36.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 03, 2007 às

champagne_rubiablog.jpg

"Os males da democracia só podem ser corrigidos com mais democracia."

Alex de Tocqueville, o francês que pensava.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 28, 2007 às

detalhe_vitral_2.jpg

Dizem (o que não é improvável) que, à força de muitas pesquisas, os entomólogos chegaram à assombrosa conclusão de que os besouros não podem voar: pelas leis da “aerodinâmica”, a relação entre peso, tamanho das asas e comprimento do corpo do inseto impossibilitaria o vôo.

No entanto, desconhecedores felizes de tão espantosa descoberta, os besouros insistem em continuar voando livremente...

(Quem ainda não viu?)

* * *

A historinha (hoje bastante difundida na internet) me acompanha desde a adolescência – por conta de um professor de Biologia, a quem a "desobediência" dos besouros devia incomodar como uma ofensa pessoal.

Autoritário acima da média da época, era comum vê-lo brandir a régua de madeira e apontar para a janela do laboratório de ciências da escola, lamentando:

“O maior desafio da Ciência é que, lá fora, a Natureza ainda é incontrolável! Felizmente, aqui dentro, nós damos as ordens!”

Minha fuga para a Literatura (meu surto precoce de escritor) deve muito a este espanto juvenil: como alguém podia desprezar a experiência direta dos próprios sentidos em nome de certa “verdade científica” – no fim das contas, apenas uma ficção, e das mais arrogantes?

* * *

Fugi, eu dizia – ou melhor, fujo até hoje. Evito as discussões literárias mediadas por teorias estéticas perversas (porque abstratas): ao se colocarem como intermediários e intérpretes da Literatura, Estruturalistas, Formalistas & Cia. acabam decretando a incapacidade da "pobre coitada" de falar por si mesma – afastando o leitor da experiência imediata de ler sem lentes ou filtros.

Lamentavelmente, as ciências humanas e sociais (que assediam a Literatura) não são menos daninhas do que as ciências exatas, em matéria de presunção.

E o que é pior: nascida na cabeça instável dos homens, a Literatura é – por sua própria natureza – bem mais “controlável” do que o mundo real.

* * *

Todo cuidado é pouco. Afinal, besouros voam – e a Literatura está aí para ser lida sem “atravessadores”...



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 05, 2007 às

anima-prostituta.jpg

Os detratores do capitalismo cometem um erro indesculpável: julgar e condenar sem conhecimento de causa. Apressam-se em rotular de "capitalismo selvagem" mazelas brasileiras que padecem, justamente, da ausência de capitalismo.

(Traindo a verdade, mantêm-se no entanto fiel ao enunciado de seu Mestre alemão, para quem transformar o mundo é tarefa mais urgente do que conhecê-lo.)

* * *

Desconhecedores (in)felizes de qualquer transcendência, os detratores do capitalismo não vão além do que a visão vulgar lhes oferece.

Assim, não conseguem "enxergar" que, ao conjunto de regras econômicas de produção, distribuição, circulação e consumo da sociedade, corresponde um sistema complexo de valores lógicos e éticos -- e é sobre eles que se assenta nosso processo civilizatório.

As leis que regem o livre comércio são um ótimo exemplo disso, na medida em que operam atribuindo aos dois lados (vendedores e compradores) as responsabilidades de uma relação marcada pela isonomia.

Não satisfeitos em acusarem o livre mercado de injusto, os detratores do capitalismo fazem ainda pior: costumam atribuir pesos diferentes a um dos lados desta operação (vendedor ou comprador), sempre de acordo com os meandros turvos de sua moral “peculiar".

* * *

No terreno da contravenção (que os detratores do capitalismo costumam avaliar com especial tolerância), o fenômeno chega a atingir nuances curiosas. Afinal, de negar e transgredir as leis, os detratores do capitalismo entendem...

Para estes sempre surpreendentes senhores, a prostituição não pode ser vista como uma simples, ainda que espúria, relação comercial entre um comprador (o cliente, à procura de prazer) e um vendedor (a prostituta, negociando seu corpo em troca de determinada quantia de dinheiro): sua ótica específica vê a operação como a "exploração dos filhos da classe trabalhadora pela elite dominante", ou algum outro clichê equivalente.

Já em relação ao tráfico de drogas, os detratores do capitalismo refazem as contas à sua maneira e reivindicam para o comprador (o usuário) um julgamento leniente e paternalista, negado ao vendedor (o traficante). Liberdade para o primeiro, cadeia apenas para o segundo -- mas sem exagero, claro, já que o traficante também é, no fim das contas (quer dizer, das contas sinuosas dos detratores do capitalismo), uma vítima das circunstâncias.

* * *

Onde o capitalismo distribui responsabilidades, seus detratores agem embaralhando as cartas e trapaceando no jogo. Afinal, não sendo adultos para assumirem sua parcela no rateio das culpas, eles são também incapazes de conviver ou aprender com a frustração e a derrota.

Atacando e sabotando o capitalismo, estes peculiares senhores estão, na verdade, ajudando a destruir esta sofisticada combinação de regras econômicas e valores morais que é a civilização. A vida real. O mundo dos adultos.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 30, 2007 às

napoleon_delaroche.jpg


Este blogue não costuma abrir espaço para resenhas de livros, nem perde tempo com guerra ideológica.

Mas é impossível não registrar aqui (no "espaço-tempo" livre da blogosfera) o surpreendente sucesso do novo livro de Diogo Mainardi, que driblou poderosos blockbusters da não-ficção e emplacou nada menos do que um segundo lugar na lista dos mais vendidos da Veja -- e o primeiríssimo no Globo.

* * *

É um fato a ser comemorado em sentido estrito -- e lastimado, em sentido amplo.

Porque, se o fato representa a vitória da inteligência sobre a burrice, também significa que o próprio Mainardi estava certo -- ele que lamentou, mais de uma vez, que seu sucesso como articulista se devia ao interesse exagerado que a política desperta atualmente nas pessoas.

Pior ainda: significa que Napoleão Bonaparte estava monstruosamente certo.

* * *

Leitor aplicado de Maquiavel, Napoleão vaticinou que a politização seria o destino inevitável (irreversível) dos tempos modernos.

No futuro (praguejava o corso), os homens politizariam tudo, rejeitando e empurrando para segundo plano tudo aquilo que a civilização ocidental sempre colocou acima da política.

Todo o precioso conjunto de valores morais e culturais que sempre sustentaram a civilização sairia de cena e, em seu lugar, entraria o bárbaro espetáculo da disputa voraz por poderes e idéias.

* * *

(Trocando em miúdos: um tempo de pobreza do espírito, em proporções até então inéditas.)

* * *

Ao menos nisso, o derrotado Napoleão acertou: vivemos este tempo de pobreza. Política e ideologia encabeçam o rol de preferências -- inclusive, nas conversas baratas de estudantes ou no bate-bola em esquinas de subúrbios.

Literatura virou política. Futebol virou política. Até a política saiu... "politizada".

Eis, enfim, a nossa desconfortável condição: ficar olhando para as listas dos mais vendidos sem saber escolher entre o atacado e o varejo, para abrirmos afinal o champanhe ou vestirmos nossa melhor roupa de luto.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 28, 2007 às

dalimoustaches.jpg


"Conhecimento sem bom senso é loucura em dose dupla".

Baltasar Gracián, jesuíta e doutor em prudência.
--------



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 22, 2007 às

maxwell.jpg

Meus últimos posts têm sido vítimas de comentários agressivos que, em vez de discutir minhas idéias, procuram me ofender e destruir o clima pacífico e bem-humorado com que proponho as discussões por aqui.

Por isso venho avisar de novo a estes "piratas" que tentam tomar de assalto meu blog: recuso-me a publicar comentários ofensivos, ou que defendam bandidos como vítimas da sociedade; que façam qualquer tipo de apologia de ecoterroristas ou mesmo de assassinos como Che Guevara; ou então que procurem justificar a prática do aborto -- coisinhas "suaves" assim...

Não percam seu tempo: aqui vocês não têm vez!

E, antes que venham com a velha lenga-lenga de "que democracia é essa?", torno a repetir: sorry, mas aqui neste barraco mando eu!

Vão procurar sua turma! Xô!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 13, 2007 às

tropa-de-elite2.jpg

Quando a vulgaridade da sociologia ainda não tinha tomado conta de tudo, um dos maiores prazeres de qualquer garoto era ganhar um revólver de brinquedo – fosse Natal, aniversário ou Dia das Crianças.

Naquele tempo (quem ainda se lembra?), a cretinice da pedagogia politicamente-correta mal engatinhava. Brincar de bandido-e-mocinho era muito mais do que uma inesquecível brincadeira: por trás daquela violência aparente (no fim das contas, violência nenhuma), na verdade a meninada estava assimilando todo um conjunto de valores, que consolidavam o melhor de cada um de nós – nossa alma humana.

Revezando-se nos papéis, bandido e mocinho se enfrentavam para ajudar a lembrar, a cada manhã de folga, que o Bem era o Bem, e o Mal era o Mal. Sem negociação possível.

(Tudo isso - detalhe importante! - também reforçava em nós a certeza de que cresceríamos másculos, viris, sem fragilidades ou fricotes.)

Destruída esta base pedagógica inestimável, recolhidos os brinquedos “violentos” em nome de um relativismo moral ridiculamente pacifista, o resultado aí está – e quem tiver olhos de ver que veja: gerações de rapazes mimados, homens emasculados e confusos, que só conseguem reagir com medo e covardia à escalada crescente da bandidagem.

Por isso é um alívio – um sopro de frescor e de esperança! – ver a população acatar e aplaudir a lição trazida pelo filme Tropa de Elite, que anda lotando as salas de cinema em todo o país.

Nas entrelinhas das cenas de violência (que no fundo chocam apenas nossos intelequituais), a mensagem que passa é bem maior: desponta novamente no horizonte a idéia de que bandido é bandido, não uma vítima do capitalismo selvagem – e que as vítimas, na verdade, somos nós, os homens de bem. Isto não é ideologia: isto são fatos.

Iabadabadabaduuu! O mocinho está de volta à cena. Até que enfim!



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 09, 2007 às

model-noche-c375.jpg



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 27, 2007 às

null

“Nada mata mais um homem do que fazê-lo representar um país.”

Se a advertência contundente do poeta surrealista André Breton fosse levada mais a sério, por certo haveria menos diplomatas e atletas dispostos a suar a camisa em bravatas internacionais.

Em compensação, a Literatura também seria poupada de infinitas simplificações – principalmente do hábito detestável de reduzir autores e obras a uma importância sociológica datada.

Dessa sina, nem Shakespeare, Balzac ou Goethe escaparam, tendo sido tantas vezes apontados como “representantes fiéis” de Inglaterra, França e Alemanha.

Trata-se de um reducionismo tão violento que assusta constatar que alguns, numa contrapartida assombrosa, façam questão de assumir a tarefa de encarnar, se não um país, pelo menos sua época.

Que o diga esta pífia literatura brasileira (em minúsculas) praticada pelas novíssimas gerações. Sexo, miséria & rock’n’roll. Idiotas vaidosos escrevendo para seus pares, piscando o olho (ou batendo no peito, como quiserem) como se dissessem "somos homens de nosso tempo, frutos desta sociedade".

Apresentam-se como solução, sem saberem que são a parte pior do problema...



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 11, 2007 às

null

Contra essa conversa-mole (irritante, interminável) de "inclusão digital", não custa nada repetir uma velha e conhecida historinha:

Um homem que estava desempregado entra num concurso de uma empresa de computadores para ser faxineiro. O gerente de RH o entrevista, faz um teste (varrer o chão) e lhe diz:

- O emprego é seu. Dê-me seu e-mail e eu lhe enviarei a ficha pra preencher e a data e hora em que deverá se apresentar para o serviço.

O homem, desesperado, responde que não tem computador e muito menos e-mail.

O gerente então diz que lamenta, mas, se não tiver e-mail, ele virtualmente não 'existe' – e, como não 'existe', não pode assumir o trabalho.

O homem sai, desesperado, sem saber o que fazer. Tem apenas R$ 10,00 no bolso. Então, decide ir ao mercado e comprar uma caixa de 10 quilos de tomates. Bate de porta em porta vendendo os tomates a quilo, e, em menos de duas horas, consegue duplicar o capital.

O homem repete a operação mais três vezes e volta para casa com R$ 60,00. Chega à conclusão de que pode sobreviver dessa maneira e dedica-se a isso. Sai de casa cada dia mais cedo e volta cada dia mais tarde e assim triplica ou quadruplica o dinheiro a cada dia.

Pouco tempo depois, o homem compra uma perua, depois troca por um caminhão e pouco tempo depois chega a ter uma pequena frota de veículos para distribuição. Passados cinco anos, o homem é dono de uma das maiores distribuidoras de alimentos de sua cidade.

É então que ele, pensando no futuro da sua família, decide comprar um seguro de vida.

Chama um corretor, acerta um plano e quando a conversa acaba, o corretor lhe pede o e-mail para enviar a proposta.

O homem revela então que não tem e-mail. (Nunca teve.)

Curioso, o corretor comenta:

- Puxa vida! O senhor não tem e-mail e chegou a fazer fortuna. Imagine o que você seria se tivesse e-mail...

O homem pensa e responde:

- Eu seria faxineiro de uma firma de computadores...



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 03, 2007 às

null

Nada tenho, em princípio, contra as ciências. Mas não posso deixar de constatar (e lamentar) que hoje as pesquisas científicas pareçam caminhar, cada vez mais, na contramão da demandas espirituais do ser humano.

Um aspecto impressionante, neste processo, é a forma como a maioria dos cientistas se empenha em desautorizar, como “discursos pré-iluministas”, as dimensões mais fundamentais de nossas vidas: a metafísica, a religião e a Ética (não essa "ética" de que falam os políticos).

(Com a bênção - oops! - das ciências, eles garantem que os condicionamentos biológicos, as necessidades orgânicas e as condições sócio-econômicas explicam perfeitamente as manifestações culturais, institucionais ou psíquicas da humanidade.)

Este olhar desrespeitoso de superioridade é inimigo dos valores acumulados pela tradição – e que hoje os baluartes das ciências exatas e sociais se apressam em empurrar para fora de cena.



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 27, 2007 às

null
Gottfried Leibniz (1647-1716), filósofo e matemático alemão, vaticinou um dia, para espanto de seus pessimistas colegas de ofício, que o homem vive no “melhor dos mundos possíveis”.

Parecia a expressão de um otimismo descabido – mas, na verdade, era a síntese madura de uma reflexão realista: no fim das contas, o sábio Leibniz estava apenas lembrando, aos contemporâneos e ao futuro, que o nosso era o único mundo efetivamente concreto – e isso, em comparação com as utopias e os devaneios heréticos, já fazia dele o melhor de todos.

Mas este “realismo filosófico” estava com os dias contados. Nos séculos seguintes, a vida em sociedade conheceu a era das revoluções e das utopias socialistas, cada uma delas dispostas a provar (não importava a que custo) as chances de um “outro mundo possível”.

Os resultados são estes que todo mundo conhece. Mas (diante dos problemas reais que ninguém ignora) fica sempre a tentação de perguntar: não teria sido melhor se o planeta tivesse trilhado o caminho realista e sereno de um Leibniz?...
--------



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 26, 2007 às

null

Adélia (do teutônico Adal): que é nobre.
--------



Arquivado em: curto e grosso — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 24, 2007 às

null
A matéria-prima da ficção é – e sempre foi – a emoção, ou melhor: o conjunto das emoções e valores humanos.

Mas todo escritor tem que tomar cuidado para não ficar preso ao mito da necessidade de viver “aventuras e emoções fortes” antes de começar a escrever para valer.

Livros sérios de psicologia demonstram: aos cinco anos de idade, o ser humano já experimentou quase tudo aquilo de que irá precisar como escritor – amor, dor, ódio, sensação de perda, tédio, culpa, tristeza, medo da morte, etc.

Nunca será demais repetir: é pelo estudo e pelo treinamento técnico que o escritor aprende a escrever – e não, necessariamente, escalando montanhas, dando a volta ao mundo ou mergulhando em intensas paixões, para depois “ter o que contar”.

(Para saber mais, clique aqui. E também aqui.)