“Do sentimento trágico da vida”

Tenho grandes amigos entre os pequenos editores brasileiros -- e a estes bravos companheiros devo, sobretudo, algumas das histórias que vêm livrando este blog da falta de assunto.
Se insisto em publicar o episódio, sob o risco de tamanho cataclisma afetivo (perder um amigo!), não há de ser pelo prazer da controvérsia ou da discórdia. É apenas para tornar pública a trágica situação de muitos escritores.
Todas as histórias infelizes se parecem. Esta é mais uma delas -- e acho que quem a provocou já não se sentirá tão "meu amigo" depois deste post.
Hélas! Ossos do ofício...
Aconteceu anteontem, pela manhã – e de forma semelhante às outras histórias com editores amigos: o telefone tocou e (depois dos salamaleques e elogios de praxe) o jovem e (até então) querido editor fez a proposta indecorosa: queria que eu lesse três (nada menos do que três!) originais de romances inéditos que ele pretende publicar este ano.
E, antes que eu ensaiasse qualquer reação:
“Mas, por favor, Borges, nem pense em dinheiro, como se fosse um trabalho...”
Tentei explicar ao moço que aquilo era um trabalho, e dos mais árduos. Mas ele não me deixou completar e atirou novamente:
“São jovens autores, Borges. Precisam de uma força, e você não pode negar. É quase um dever cívico.”
Deu então a pior de suas risadas, deixando claro que nem ele acreditava naquela demagogia cívica. Em seguida, alegando estar muito ocupado para “ficar perdendo tempo com detalhes”, despediu-se:
“Agora é tarde para reclamar, Borges: dei seu telefone para os garotos. A parceria já começou. Tchau!”
Claro que passei as duas últimas noites praticamente em claro, pensando na tragédia iminente que espreitava meu ano, desde os primeiros dias...
Três (nada menos do que três!) aspirantes a escritores tinham meu telefone (E o endereço? Teriam também) e deviam estar no meu encalço. Como vampiros sedentos! Zumbis justiceiros!
Atrasadíssimo nos clássicos, vejo a pilha de livros que esperam por mim, amontoados na mesa de canto da sala. Folheio alguns deles, sem conseguir me concentrar.
Cada vez que o telefone toca, é um sobressalto. Temo pelo pior.





















