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Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 08, 2008 às

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Tenho grandes amigos entre os pequenos editores brasileiros -- e a estes bravos companheiros devo, sobretudo, algumas das histórias que vêm livrando este blog da falta de assunto.

Se insisto em publicar o episódio, sob o risco de tamanho cataclisma afetivo (perder um amigo!), não há de ser pelo prazer da controvérsia ou da discórdia. É apenas para tornar pública a trágica situação de muitos escritores.

Todas as histórias infelizes se parecem. Esta é mais uma delas -- e acho que quem a provocou já não se sentirá tão "meu amigo" depois deste post.

Hélas! Ossos do ofício...

Aconteceu anteontem, pela manhã – e de forma semelhante às outras histórias com editores amigos: o telefone tocou e (depois dos salamaleques e elogios de praxe) o jovem e (até então) querido editor fez a proposta indecorosa: queria que eu lesse três (nada menos do que três!) originais de romances inéditos que ele pretende publicar este ano.

E, antes que eu ensaiasse qualquer reação:

“Mas, por favor, Borges, nem pense em dinheiro, como se fosse um trabalho...”

Tentei explicar ao moço que aquilo era um trabalho, e dos mais árduos. Mas ele não me deixou completar e atirou novamente:

“São jovens autores, Borges. Precisam de uma força, e você não pode negar. É quase um dever cívico.”

Deu então a pior de suas risadas, deixando claro que nem ele acreditava naquela demagogia cívica. Em seguida, alegando estar muito ocupado para “ficar perdendo tempo com detalhes”, despediu-se:

“Agora é tarde para reclamar, Borges: dei seu telefone para os garotos. A parceria já começou. Tchau!”

Claro que passei as duas últimas noites praticamente em claro, pensando na tragédia iminente que espreitava meu ano, desde os primeiros dias...

Três (nada menos do que três!) aspirantes a escritores tinham meu telefone (E o endereço? Teriam também) e deviam estar no meu encalço. Como vampiros sedentos! Zumbis justiceiros!

Atrasadíssimo nos clássicos, vejo a pilha de livros que esperam por mim, amontoados na mesa de canto da sala. Folheio alguns deles, sem conseguir me concentrar.

Cada vez que o telefone toca, é um sobressalto. Temo pelo pior.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 20, 2007 às

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Se Deus está nos detalhes (assim devia pensar Benedito), quem garante que o Diabo não esteja usando a mesma tática -- pelo menos aqueles pequeninos demônios que vão minando as bases deste mundo com a única intenção de torná-lo ainda pior?...

Esta parecia ser toda a teologia do moço. Desprovido de maiores recursos filosóficos, incapaz de uma visão mais abrangente, ia pondo a culpa de cada dificuldade na bobagem ou tolice mais próxima, sem a mínima sombra ou vislumbre de uma epifania.

* * *

(Isso podia fazer de sua vida um pequeno inferno, mas certamente o salvava de ser um grande paranóico...)

* * *

Eu o conhecia de vista, depois de ter cruzado com ele algumas vezes, em bares da moda ou na casa de amigos comuns. Mas logo ele me chamou a atenção, por inevitável contraste: suas "explicações" podiam ser restritas, mas pelo menos vinham desprovidas daquela arrogância com que, à minha volta, nossos amigos intelequituais iam decifrando o mundo.

Seu senso comum, enfim, valia mais do que marxismos e psicanálises inteiros -- coisa que, admito, não chega a constituir nenhuma proeza.

Desde a semana passada, no entanto, o moço Benedito se tornou involuntariamente meu "herói".

* * *


Éramos uma mesa de oito. Conversávamos num restaurante da orla, quando o assunto se impôs, como um hábito esnobe: a decadência cultural do país.

Foi como uma bomba previsível, mas de efeito imediato. Todos os "vilões da hora" foram convocados para o paredón: a indústria cultural, a mercantilização do homem, o neoliberalismo, a sociedade de consumo, o autoritarismo falocrata do branco heterossexual e até os dois mandatos do presidente-sigla (FHC)...

Eu já estava a ponto de pagar minha despesa em separado e alegar algum compromisso urgente, quando ouvi, impondo-se aos poucos, discreta mas firme, a voz de Benedito, o sábio simplório:

"O problema é o mundo andar de cabeça para baixo. Tudo está meio trocado, como naquele livro de Monteiro Lobato." (Acho que se referia à Reforma da natureza...)

Todos os intelequituais de plantão riram de sua bibliografia modesta. Só eu parecia interessado em ouvi-lo a sério. E ele, felizmente, não se acanhou:

"Vocês não leram um dia desses a entrevista com a tal mulher que ganhou um prêmio com sua tese de doutorado sobre a novela brasileira? Não cansam de ver aquela atriz enaltecendo a arte e o pensamento da periferia? E os manifestos de intelequituais, contra isso ou aquilo? Tem sempre um sambista ou cantor de MPB assinando!"

* * *

Sorriram, ou pior, riram dele, acusando-o de ignorante e elitista. Mas o moço Benedito parecia seguro do que dizia:

"Mas o pior foi aquele antropólogo, que escreve sobre samba e funk. Semana passada, depois de dizer numa entrevista que andava muito cansado de suas exaustivas pesquisas sobre o hip-hop, anunciou que vai tirar uns dias de descanso... e ler um pouco de Literatura! 'Alguns romances clássicos', foi o que ele disse."

E, antes que algum intelequitual à sua volta assumisse a palavra para crucificá-lo (como acabaram fazendo), Benedito arrematou:

"Com a música barata virando tema filosófico e a Literatura servindo de entretenimento... vocês ainda perguntam onde está a decadência?"

* * *

(Bingo!)

* * *

Todos olharam com desdém para o pobre Benedito -- com seus tiros de pouco alcance, mas quase sempre certeiros.

Também olhei para o moço: uma pequena chama, de natureza vagamente divina, parecia enfeitar seu rosto simples. E então, encarando os demais, comecei a rir, incontrolável.

Estou rindo até agora.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 17, 2007 às

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Um amigo querido, sócio de uma pequena editora de obras didáticas (acalmem-se: não vou citar nomes), ligou-me na sexta-feira, animado com sua idéia mais recente, que ele considerava genial:

"Um manual de leitura, Borges! Um livro que ensine as técnicas essenciais e mais eficientes para se ler com o máximo de proveito!"

Contra-argumentei com o óbvio: o clássico livro de Mortimer Adler sobre a arte de ler. Mas ele não arrefeceu:

"Aquilo é filosofia, Borges, reflexão teórica. Estou pensando num guia prático -- uma espécie de passo-a-passo que ajude ao leitor, em matéria de concentração, disciplina, entendimento. Uma coisa bem mais trivial -- e eu acho que é você quem pode escrever este livro!"

* * *

(Uma dúvida metafísica: por que, quando se trata de trivialidade, pensam logo em mim?)

* * *

Aflito com o silêncio que fiz, meu amigo editor insistiu, do outro lado da linha:

"Então, Borges, não acha que é um livro possível?"

Respondi, como se tivesse passado a vida pensando no assunto:

"Não sei se é possível ou não. Mas sei que, sem dúvida, ele é inútil!"

"???!!"

"Repare bem: alguém que já tenha a capacidade elementar de concentração, disciplina e entendimento para ler o seu guia... convenhamos, não vai precisar lê-lo, concorda?"

E, antes que ele arriscasse uma frase:

"Agora pense o contrário: alguém que não tenha estas três capacidades... não vai conseguir ler seu livro para aprender. Viu só que paradoxo? Um labirinto borgeano. Vai ver, foi por isso que você pensou em mim."

Impacientou-se comigo. E então, como alguém que se lembrasse de um compromisso urgente, encerrou a ligação:

"Pelo menos pense na proposta, poxa!"

Fiquei de pensar.

* * *

(Na verdade, estou pensando no assunto até agora.)

* * *

Talvez eu tenha exagerado chamando a proposta de absurda. Mas o fato é que, em matéria de absurdo, não pude evitar a idéia (essa, sim, absurda) de um mundo de anoréxicos que precisasse de um manual de incentivo à comida...

Será que estamos chegando a este ponto, no hábito da leitura?

Mais até: a leitura estará deixando de ser um hábito?

Há quem diga que ela está se tornando um vício solitário e – acima de tudo – um exercício de resistência.

Sou obrigado a concordar. Afinal, essa atividade silenciosa e meditativa, pautada na "interrupção temporária e corajosa de qualquer ligação com o mundo" (Santo Agostinho) talvez seja hoje um dos últimos refúgios da consciência individual.

* * *

Desde a manobra maliciosa de Hegel (que elegeu a História como Sujeito do mundo e condenou os sujeitos concretos a serem meras abstrações filosóficas), não faltam teorias negando voz e realidade ao homem.

Num ambiente assim, quase apocalíptico, só mesmo o leitor – o indivíduo que lê – ainda sobrevive, a duras penas, como figura de museu.

Numa época em que a apologia da coletivização abrange do socialismo retrô ao ciberespaço high-tech via Internet, só a leitura pode preservar a individualidade irredutível do ser humano.

* * *

Meu amigo editor não está errado: talvez seja apenas otimista demais, acreditando que ainda é possível reverter esse quadro.

Quanto a mim, em vez de ficar discutindo a forma que o livro terá no futuro (ou se será superado pelo computador), penso que nossa dúvida metafísica deveria ser: até quando existirão leitores?

(Mas, no momento, minha dúvida metafísica é outra: como dizer a meu amigo editor que não pretendo escrever esse livro?)



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 13, 2007 às

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De uma coisa não me acusem: eu bem que tentei! Fiz de tudo para evitar voltar ao assunto.

Eliminei comentários provocativos (alguns corajosamente anônimos...), desconversei quando tentaram puxar conversa na rua – e até deixei o site de molho, para não cair na tentação de trazer de novo à baila o malfadado tema da traição de Capitu, que abordei em dois posts já não tão recentes.

Tudo em vão, como pude constatar ontem à noite (e como chovia!), quando minha amiga mais bonita me ligou, com a arrogância sedutora de sempre, para me dar a notícia:

“Parece que seus comentários sobre a pobre Capitu andaram incomodando mais gente, além das coitadas das adúlteras!”

* * *

Antes mesmo que eu começasse a especular sobre outro segmento da cadeia alimentar (além das mulheres) que fosse se importar com aquelas tolices, a bela se antecipou:

“Meu psicanalista disse que você não entendeu nada sobre Dom Casmurro. Aliás, passamos duas sessões discutindo o assunto...”

“Ual! Até imagino... Mas, por favor!, pelo menos me poupe desse constrangimento...”

“Por que poupar você – se ele não me poupou?”

(Analisandos costumam ser assim: retaliativos...)

* * *

Foram inúteis, enfim, todos os meus pedidos. E, como a curiosidade e as boas maneiras estavam de braços dos em meu espírito, não consegui desligar o telefone e me obriguei a ouvir o que ela assim resumiu:

Seu terapeuta (de cujo nome prefiro nem me lembrar) faz uma interpretação pouco usual, que foge taxativamente ao lugar-comum da “pobre mulher adúltera”. Não quer dizer que seja sensata. Pelo contrário...

Optando pelo caminho tortuoso de reinterpretar o “triângulo amoroso” do romance, o extravagante freudiano sugere nada menos do que... uma inusitada pulsão homossexual de Bentinho, projetada em Escobar mas sublimada através de Capitu!

Trocando em míseros miúdos: no fundo, Bentinho amava mesmo era Escobar – mas recalcava este amor-que-não-ousa-dizer-seu-nome transformando-o em... inveja e amor ressentido pela antiga companheira de infância!

(Convenhamos: até mesmo a extravagância necessita de limites!)

* * *

Além de me irritar com aquela ridícula perda de tempo (ficar interpretando personagens de ficção como seres reais, criando-lhes uma vida além-romance!), fiquei chocado ao ver que a psicanálise insistia no velho erro de Freud: reduzir o essencial da problemática humana à questão sexual.

Deus do céu, quanta vulgaridade!

(Dom Casmurro é vítima constante dessa simplificação, sendo lido – e “interpretado” – como uma “tragédia da traição e do adultério”.)

* * *

Tive vontade de perguntar à minha amiga (apesar de tudo, a mais bonita de todas), que parecia se divertir do outro lado da linha: “Alto lá! Será que a psicanálise não tem mais o que fazer, além de chafurdar nessas miudezas eróticas?” Aliás, cheguei até a perguntar – mas ela retrucou com um comentário malicioso:

“Ah, sim, Borges! Ele mandou um recado: se você quiser, pode marcar uma consulta para conversar sobre seus problemas sexuais – que ele considera gravíssimos... Aliás, ele disse que qualquer hora ele mesmo telefona. Dei seu número para ele. Bye!”

Nem precisa dizer que não consegui dormir direito a noite passada – e que hoje mesmo dei início ao processo para trocar o número do meu telefone, o que deve acontecer nos próximos dias.

* * *

Enquanto isso, toda vez que o telefone toca, sinto um arrepio sintomático na espinha. Com um divã à espreita, todo cuidado é pouco... Essa gente é capaz de tudo!



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 25, 2007 às

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Minha amiga mais paulista (embora já não more por lá) ligou-me bem cedo, um dia, trêmula com a novidade:

"Eu o encontrei, Borges. Quando menos esperava, eu o encontrei. Tudo misterioso, coisa do acaso, como eu prefiro."

Contou-me, então: estava escolhendo livros num sebo da Cidade Velha quando o reconheceu (pela foto no site): ele mesmo!, ali, em pessoa! Seu blogueiro favorito. O autor daqueles textos exatos, tão cheios de informação e de estilo. Um modelo a seguir (repetiu três vezes), que ela ao menos tentaria seguir, assim que se animasse a entrar na grande festa virtual.

* * *

"Lá estava ele, Borges, fuçando as bandejas de ofertas, com seus olhos de lince -- mais triste do que na foto do blog, é verdade. Mas fotos são só fotos, não é mesmo? E ele era ele, para quê exigir mais?"

Nem pensou duas vezes: tentou imediatamente a abordagem.

* * *

Mas quem reconhece seu ídolo quando o encontra ao acaso, sem máscara? Do moço risonho e de olhar inteligente da foto do blog, havia muito pouco ali, na figura tímida, assustada e enfermiça que fuçava no meio da poeira com olhos gulosos e infantis.

"Quanta decepção, Borges! A tal de blogosfera é feita de miragens..."

E assim, de exagero em exagero, minha amiga mais paulista foi contando a prosa meio esquiva que teve com o moço.

"O conteúdo é ótimo, Borges. Mas a voz, a entonação e o sotaque... Quanta tolice! Um bolha!"

Rindo de sua própria gíria demodê, mandou-me um beijo e um até breve -- e então desligou.

* * *

Conhecedor do blog do rapaz (que tem estilo e idéias), pude avaliar a decepção da bela: por trás de textos tão enxutos, tão certeiros, tão cheios de informação (que pareciam atingir em cheio o ponto exato de equilíbrio entre a opinião e a beleza) "só poderia caber uma pessoa interessante e feliz, Borges".

(Cheguei a sentir pena de sua frivolidade, sempre otimista.)

Por conta do episódio, tornei-me um visitante assíduo (diário, admito) do blog -- que tinha ainda o atrativo de seu enorme vigor, com uma pletora diária de textos novos, sempre originais e inteligentes.

* * *

Até que, de repente, ele parou: passou da enxurrada ao silêncio.


* * *

Dias, semanas... três meses. Misteriosamente, sem aviso, o moço não postava uma linha sequer.

Para quem já estivesse "viciado" (como acontece com os blogs), restava o consolo de reler os textos antigos, aos bocados, já com a suspeita nostálgica de que a brincadeira, por ali, tinha acabado.

Conjecturas (todas depressivas) foram inevitáveis: doença grave, dor de amor ou suicídio? Minha amiga mais paulista (que nunca mais me ligou...) tinha ainda mais razões do que eu para pensar parecido.

* * *

Mas... bem-aventurados aqueles que aceitam o mistério, e afinal o esclarecem. Fui um desses.

* * *

Jantando em família, anteontem, numa pizzaria da moda, eu já nem pensava no assunto. Mas bastou olhar em volta, à procura do garçom e... Bingo! Lá estava ele: o moço do blog perfeito, desta vez "interessante" e sorrindo, como na foto. Ou melhor: mais simpático, e até mais charmoso.

A bela moça a seu lado (eram dois casais na mesa) parecia íntima, e -- quem sabe -- apaixonada.

Para não perder a viagem, fiquei observando de longe, e quando ele se dirigiu ao banheiro não resisti: fui atrás. No meio do caminho, abordei-o e (para surpresa do moço) saí rasgando elogios, citando trechos inteiros -- e, por fim, perguntei: "E então? Não vai escrever mais?"

Com uma displicência espontânea, que não tinha nada de afetado, o moço me agradeceu e então me explicou: "aquela fase tinha passado". Andara muito infeliz, sarando feridas amorosas, condenado à solidão, distante dos amigos. O jeito foi se atirar de peito aberto no blog, postando ali todas as frustrações e cicatrizes. "Ficou bacana, admito. Mas como doeu!"

* * *

Agora, não: tinha feito as pazes com o mundo, voltava à vida (e apontou na direção de sua mesa, onde a moça linda o aguardava), sentia-se outro.

* * *

Por que prendê-lo mais? Deixei que se afastasse, simpático e inteligente -- mais até do que a foto. Ainda arrisquei a pergunta, inútil: e o blog?

Ele virou-se e sorriu, mas não fez mais do que sacudir os ombros, informal, como se dissesse:

"Quem sabe?"



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 15, 2007 às

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A cena foi rápida, quase irreal -- e poderia ter acontecido em qualquer lugar do país, onde a arrogância e as trevas já tenham invadido a alma de nossos meninos.

Por conta do acaso, aconteceu uns dez dias atrás, numa lanchonete de esquina, aqui perto de casa. E então, também por conta do acaso, eu a testemunhei.

* * *

O moço e a moça (embora alguma coisa que não vinha do tempo pesasse sobre eles) comiam sanduíches e tomavam refrigerantes numa ponta do balcão.

Conversavam num tom mais ou menos solene, como se repassassem funestas lições recém-absorvidas: Hugo Chávez, os males da democracia burguesa, o aquecimento global, o capitalismo selvagem e tudo o mais que pudesse fazer dois jovens tolos se zangarem.

Assistindo a certa distância, eu ainda me decidia entre a repulsa e a piedade ("Perdoai-os! Eles não sabem o que fazem...") quando o improvisado tribunal bolivariano foi interrompido bruscamente: no outro extremo do balcão, uma discussão que nada tinha de ideológica falou -- literalmente -- mais alto.

* * *

Um senhor de boa parência e olhar cínico (o dono da lanchonete) enxotava com os olhos e as palavras um mulato mal vestido, mas de olhar igualmente malandro.

(Nesta terra, afinal, a esperteza é matéria bem distribuída entre as classes.)

Discutiam (foi o que deduzi) sobre o pagamento de algumas caixas de legumes e frutas que o malandro pobre tinha fornecido ao escroque rico. Divergiam em torno de uma cifra ínfima: cinco reais.

Venceu o malandro mais velho, com PhD e alvará, que expulsou o fornecedor mal-vestido da lanchonete, com cinco reais a menos do que ele se achava merecedor.

* * *

Atento àquela fabulazinha barata, sem moral digna de um Esopo, já tinha me esquecido dos jovens salvadores do mundo que comiam na outra ponta do balcão.

"A conta, por favor!"-- disse o moço bolivariano. E, com um gesto, notificou à companheira-de-milícia que aquela despesa era com ele.

Mas (eu deveria ter desconfiado...) havia mais (quer dizer: menos) do que gentileza na atitude do moço, que estendeu apressadamente algumas notas sobre o balcão e ficou encarando, ostensivo, enquanto o velho dono da lanchonete as contava.

"Desculpe-me, jovem, mas você se enganou: estão faltando cinco reais!"

E o moço, arrogante, convicto, como quem praticasse afinal a justiça:

"Não houve engano algum, meu velho. São os cinco reais que o senhor deixou de entregar àquele trabalhador. Estou apenas reparando uma injustiça!"

* * *

Olhei-o, irresistivelmente. Ele parecia não se dar conta de que estava agindo (no máximo) como um ladrão-roubando-outro-ladrão. Ao contrário: fez um gesto estudado para a moça e os dois foram se afastando, quase marciais.

Ele ainda se voltou uma vez e arriscou um remate:

"Isso é para o senhor aprender!" -- e, como um autêntico "justiceiro de birosca", afastou-se, arrastando a moça (menos convicta) pelo braço.

Por dentro, devia ir tramando outros pequenos golpes que contrabalançassem seu miserável orçamento de estudante.

Mas, por fora, o semblante se empenhava em retratar um moço romântico, sonhando com um "outro mundo possível".



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em novembro 12, 2007 às

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Dentre as ações corporais da misericórdia, Miguel (o santo Miguel Rodríguez) obedecia à risca o preceito principal: dar de comer a quem tem fome.

Católico fiel, comerciante próspero e generoso, mandava distribuir todas as noites os excedentes de comida de seu restaurante entre os moradores de rua das redondezas. Desafiando as leis que proibiam (e ameaçavam punir) esta ação piedosa, Miguel não dava ouvidos nem ao conselho dos fregueses cativos, nem às preocupações da mulher: “Contrario a lei dos homens, sigo fiel à de Deus.” E prosseguia.

* * *

Não havia, em geral, nenhum sinal de gratidão, na expressão dos humildes – nem ele contava com isso. Leitor de Dostoievski, sabia que já ia longe o tempo em que os humildes tinham humildade. Hoje (sabia o santo Miguel) o demônio da arrogância é quem distribui as cartas e, sempre que pode, esconde um coringa na manga.

O que Miguel Rodríguez não sabia é que, na manga encardida de um dos moradores de rua da região, uma carta sinistra escondida aguardava a hora de virar o jogo.

Era véspera de Natal.

Não haveria “sobras” ou “excessos” naquela tarde. Miguel mandou preparar uma comida especial, para ser especialmente distribuída entre os moradores de rua da região – a mesma comida que ele e sua família iriam comer à noite. Sua mulher rezou, intuindo o pior. Mas Miguel dormiu sereno, como todas as noites.

* * *

Mas o demônio que fustiga a carne dos miseráveis não dorme nunca.

No dia 27 de dezembro (ainda não eram onze horas), um oficial de justiça o aguardava na porta do restaurante com a acusação sumaríssima: um dos moradores de rua da região, por sinal o mais velho de todos (Miguel por acaso o conhecia: era o mais arrogante de todos) tinha dado entrada no Hospital, com suspeitas de intoxicação alimentar.

Mesmo sem provas conclusivas, uma entidade não governamental que “cuidava dos interesses” dos moradores de rua daquela região estava entrando com uma queixa-crime contra Miguel, pela irresponsabilidade de servir restos estragados de comida àqueles “pobres coitados”.

* * *

Em vão, Miguel tentou explicar que não se tratava de sobras: era a mesma comida que ele e sua família tiveram à mesa, na noite de Natal. Quis saber mais sobre o estado de saúde da “vítima” (como o arrogante morador de rua estava sendo tratado), ofereceu-se para visitá-lo. A resposta do oficial de justiça veio cheia de evasivas, e temperada de novas ameaças.

(Aquela tinha sido uma notificação informal: assim que o recesso natalino terminasse, ele receberia a intimação oficial.)

* * *

Naquela mesma tarde, Miguel recebeu a visita de uma nutricionista e dois sociólogos, “responsáveis pelos interesses dos moradores de rua daquela região”. Compreendeu, enfim, o mecanismo diabólico daquela operação: chantagem. Queriam uma “quantia razoável e justa” em troca da retirada da queixa.

Miguel ficou de pensar. Mas, desta vez, cedeu aos apelos da mulher – não à chantagem monstruosa. Que o enfrentassem na justiça, foi seu último recado aos onguistas.

Isso aconteceu no Natal do ano passado, e o caso ainda se arrasta nos tribunais. O morador de rua, o mais velho e arrogante, retornou às ruas, e às vezes passeava diante do restaurante, desafiador. A nutricionista e os dois sociólogos tornaram a visitá-lo, em busca de um “acordo que fossem bom para as duas partes”.

* * *

Quase nada mudou na rotina de Miguel, ou na sua misericórdia – a não ser pela presença infalível dos dois oficiais que, toda noite, aguardam na porta dos fundos de seu restaurante, burocráticos, orgulhosos. Sua missão (que eles parecem cumprir com um brilho prazeroso nos olhos) é se certificarem de que os funcionários de Miguel vão jogar no lixo os “excedentes” de comida não comercializados naquela noite.

Mas, para o santo Miguel, eles são o lembrete vivo (o memento mais triste) de que, nos dias e noites que correm, dar de comer a quem tem fome é um crime previsto na lei dos homens. Ou melhor: na lei das ONGs. O que, diga-se de passagem, hoje é quase a mesma coisa...



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 20, 2007 às

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Se houvesse mais justiça, mais sensatez e menos igualitarismos no mundo, é claro que tudo estaria acontecendo de outra forma. Eu (um simples humano) teria sido tratado com mais respeito e mais consideração do que, por exemplo, a velha amendoeira condenada que há meses ameaça tombar sobre os transeuntes, na esquina da minha rua.

Infelizmente, nestes tempos de relativismo moral, eu não teria tido mesmo muitas chances diante daquele vegetal vetusto – cercado por belas moçoilas devotas, naquela manhã de quarta-feira.


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De mãos dadas, obedientes e decididas, parecia que as garotas estavam brincando de roda em torno da árvore-anciã. Mas o olhar de má-fé da maioria delas dava conta de que a inocência da infância já deveria estar longe...

Em coro, elas iam repetindo as palavras de ordem de algum Manual nefasto da nova tirania ecológica, com seu rosário de mentiras convenientes: salvem o planeta, respeitem as árvores, chega de opressão dos humanos...

(Fosse outro o mundo, e outros os tempos, o espetáculo interessaria apenas a antropólogos desocupados ou a algum psiquiatra de plantão. Mas a pajelança das meninas já atraía gente demais para aquela hora matinal. E a maioria, pelo visto, apoiava o ritual insensato.)

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Atrasado para meu compromisso, imaginei que seria fácil atravessar a cena despercebido – eu era, afinal, apenas mais um ser humano. Mas minha vizinha de andar me reconheceu e, com voz de ultimato, soltou-se da roda e veio até mim. Cobrou minha participação de morador da rua e habitante do planeta.

(Pensando melhor: desde que ficou sabendo que eu era escritor, um "consumidor de árvores", a moça passou a me olhar diferente.)

Com o semblante sempre em riste, o dedo acusatório apontado em várias direções, a bela me informou: elas estavam ali para evitar uma tragédia. Aliás, "a pior de todas": o corte da velha amendoeira pela Prefeitura!

“Os malditos homens da serra elétrica vão chegar a qualquer momento. Você vai permitir que façam isso?”

As muito feias que me perdoem – mas nem aquelas lindas ambientalistas conseguiram evitar que eu aplaudisse: até que enfim, tomavam alguma medida contra aquele tronco apodrecido que a qualquer momento poderia cair sobre a cabeça das pessoas. "Seres humanos", argumentei... Nossos irmãos, nossos semelhantes...

Em vão.

“O que são meras pessoas, diante da dignidade e grandeza de uma árvore centenária?!”

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Àquela altura, o atirei-o-pau-no-gato já tinha sido interrompido, e todas aquelas beldades se acercavam de sua líder (minha vizinha de andar), que parecia estar sendo ameaçada por um monstro: eu. Um macho opressor, capaz de argumentar ainda em favor da superioridade de humanos sobre os vegetais oprimidos.

“Você não tem sentimentos? Nenhuma religiosidade? Não acredita em nenhum deus?”

Tratei de explicar que acreditava, não “num deus”, mas em Deus – e até caprichei nos gestos, para realçar a maiúscula. E ainda acrescentei: “Que eu saiba, Deus não nasce em árvores!...”

Mas tanto o humor quanto os argumentos razoáveis só costumam funcionar com seres racionais – e, sobretudo, bem-humorados. Tive que me afastar dali às pressas, debaixo de uma vaia das mais vexaminosas.

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(E como doeu! Foi duro, Deus do céu!, sentir na pele o desprezo de moças tão bonitas...)

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Passei o resto do dia às voltas com assuntos profissionais, editores e livros – estes objetos nefastos, responsáveis pelo abate de tantas árvores...

Quando voltei para casa, à noite, o susto: a amendoeira ainda estava lá! E continua lá, até agora.

Dormi mal naquela noite (praticamente, não dormi), e ainda não tive coragem de perguntar a um vizinho ou ao porteiro por que “os homens da serra elétrica” não cumpriram sua louvável missão.

Ainda não recuperei a calma, e agora só saio de casa com o coração sobressaltado. Olho para os lados, quando atravesso a rua. Suo frio nas mãos. Temo pelo pior.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 17, 2007 às

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A quantidade (incomum) de comentários à minha recente crônica sobre a banalidade do amor pode ser indício do sucesso crescente deste blogue – mas diz muito, também, sobre o ressentimento e a tolice das mulheres.

Todas femininas e essencialmente agressivas (com raras exceções, impublicáveis), as mensagens me cobram explicações e – pasmem! – pedidos de desculpas.

De um lado, exigem que eu justifique por que o amor não deveria ser banal, como de fato é; de outro, impõem que eu me desculpe com as mulheres (que teriam sido denegridas no meu texto), em especial com a bela caloteira brasiliense, de quem pintei um retrato nada lisonjeiro, a ponto de ter ofendido sua honra... Deus do céu!

* * *

Tamanha tagarelice me lembra aquelas (hoje vetustas) feministas dos anos 60, que vociferavam contra Machado de Assis por ele ter tratado uma personagem adúltera (Capitu) como... adúltera!

Sem querer confundir ficção e realidade, arrisco dizer que as situações se parecem: tanto Capitu quanto a vilã de Brasília tiveram seus erros descritos e moralmente criticados por Machado e por mim. Só isso.

* * *

Alegar “ofensa à honra” de quem não demonstra possuir tal virtude é um procedimento típico destes tempos de relativismo moral e correção política.

Pensando melhor, creio que dá para entender a grita vulgar dessa gente: quem não é adulto o bastante para assumir suas próprias culpas (como a Capitu, em Machado, e a bela caloteira, em Brasília) talvez não esteja mesmo à altura de receber um castigo...



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 15, 2007 às

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Entre as “formas do inferno” que costumo listar com certa (ir)regularidade, um amigo de Brasília me pede que inclua “amar e desejar, mas não querer” – que é hoje seu inferno particular.

Pede-me um pouco mais, o moço: quer que eu aproveite seu drama pessoal em alguma obra futura, convicto de que sua história de amor mereceria um belo romance.

Por solidariedade masculina, não soube dizer ao moço, na hora, que sua tragédia de amor já tinha sido escrita, e não-sei-quantas vezes...

* * *

Todo amante infeliz pode até admitir o absurdo de seu sofrimento – mas nunca sua banalidade.

Com meu amigo de Brasília, não aconteceu diferente. Sua história há de render, no máximo, um parágrafo de prosa piedosa.

Conheceu a moça (jornalista, como ele) numa feira de negócios. Paixão à primeira vista e, ao menos em tese, recíproca: ela lhe repetia “Eu te amo” com a freqüência com que se diz “Bom Dia” aos vizinhos.

A bela (mandou-me a foto: linda mesmo) amou-o durante três meses e oito mil reais – quantia que conseguiu extrair em pequenos empréstimos. E, após o início banal, veio o desenlace ainda mais prosaico: rompeu com ele inesperadamente, alegando preferir “ficar sozinha”...

* * *

(Mas logo seria vista circulando com outros – incautos, apaixonados e casados como ele.)

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Não devolveu o dinheiro emprestado, chegando ao ponto de se fazer de ofendida diante da cobrança. Acusou-o de “abusar de sua confiança”; pediu que nunca mais a procurasse; vira-lhe o rosto, até hoje, quando o encontra em alguma eventual superquadra.

É esta história prosaica que ele imagina digna de alguma Literatura. Pior: da minha Literatura...

Ferido como ele está, ainda não encontrei um jeito suave de lhe dizer que o amor banal dos humanos é como a pobreza material: não rende um romance que preste – a não ser, claro, nas mãos de um Dostoievski, alguém capaz de dar alguma transcendência ao tema.

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Há dias não tenho notícias deste querido sofredor de Brasília.

Mas não vou ficar surpreso se, no próximo telefonema ou e-mail, vier a me dizer que resolveu não engolir o desaforo e contratou um advogado ou detetive para reaver, ao menos, o dinheiro perdido.

Quem sabe me diga, inclusive, que a ameaçou e a agrediu. E até (mais previsível ainda) que conseguiu finalmente esquecê-la – mas que é ela, agora, quem corre atrás dele, implorando por uma segunda chance.

Todas as histórias de amor se parecem. Talvez por se esquecerem disso, existam tanto amantes ruins. E romancistas piores ainda.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em outubro 10, 2007 às

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Um amigo que trabalha num grande grupo editorial (não vou dizer o nome) telefonou-me dias atrás, querendo contratar meus serviços para coordenar uma coleção literária. Perguntou-me quanto eu cobraria – mas, ao ouvir a cifra sugerida, reagiu incomodado:

“Vem cá... mas este é o preço do mercado?”

“Não: este é o meu preço.”

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Do outro lado da linha, meu amigo (tudo parecia indicar) tinha ficado assustado, dissimuladamente inquieto. Depois de um rápido silêncio, argumentou que tinha realizado uma sondagem de preços e “lamentava me dizer” mas... meu orçamento não condizia com o chamado “preço de mercado” – na verdade, estava um tanto acima. Ele ainda ironizou:

“Logo você, que vive defendendo este tal de mercado...”

Em vão tentei explicar que o mercado de que eu sempre falava era (simplesmente) um conceito, uma idéia - enfim, um “lugar teórico”, onde a oferta e a procura de qualquer produto ou serviço se encontram e as transações acontecem, com qualidades e faixas de preços diferenciadas. E que, justamente por isso, não existia este tal “preço de mercado”.

“Preço, neste caso, é coisa de tabela, sindicato, corporação – e não de mercado”, arrematei.

Impacientou-se comigo; reclamou que eu vivia complicando as coisas, e que aquilo tornava a negociação bem mais difícil. Ainda desconcertado, encerrou a ligação prometendo me dar um retorno.

(Que, aliás, ainda não deu...)

* * *

Fiquei pensando no desconcerto do moço: ao contrário da acusação que me fez, era ele quem estava complicando as coisas, com seu desconhecimento das regras mínimas do funcionamento disso que se costuma chamar (com indisfarçado desdém) de mercado – e que, na verdade, é apenas o equivalente econômico da idéia essencial de liberdade.

(Nem é à toa, pensei, que o fracasso essencial de toda ditadura é sempre – imediatamente – econômico.)

Nos últimos tempos, cada vez mais envolvido com livros e editoras, a cantilena que mais tenho ouvido bate sempre numa tecla: a da “incipiência e fragilidade do nosso mercado editorial”...

Mas a verdade me parece ainda mais grave: pensando na reação recente de meu amigo, só posso concluir (não sem calafrio e desconforto) que incipiente e frágil é o próprio capitalismo, tão mal instaurado entre nós.

(Tão atacado... Tão denunciado... Tão inexistente!)



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 23, 2007 às

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Aprende-se muito, o essencial, em família, disse-me um dia um amigo português.

Sábias palavras do gajo!

Tive a oportunidade de ler alguns textos, cruzar vários dados, a respeito da crise do ensino superior no Brasil. Mas foi, justamente, em família que alcancei mensurar o tamanho da encrenca. É bem verdade que precisei gastar “um tempinho” para vislumbrar todo o quadro – mas quem tem pressa, quando se trata da revelação da verdade?

* * *

Como filho-do-meio, espremido na estrutura familiar entre a irmã primogênita e a caçula, acompanhei de perto os ritos de transmissão de brinquedos, roupas, livros, sapatos que a passagem dos anos e o orçamento doméstico impunham entre as duas.

No início, eram brinquedos e roupas – ainda em bom estado, mas não mais adequadas à idade e ao tamanho da irmã mais velha. Cabia à mais nova reaproveitá-los, com a resignação e a humildade cristãs necessárias.

Só não imaginei que veria isso acontecer com idéias.

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Foi assim: em 1970, aluna do segundo grau numa escola pública, minha irmã mais velha conheceu as idéias do francês Edgar Morin, intelectual meia-boca que naqueles anos ensaiava algum sucesso com suas idéias simplórias sobre “cultura de massa no século 20”.

A banalidade do ensaio não pareceu fazer grandes estragos na cabeça de minha irmã: no fim das contas, diluía-se na massa de informações didáticas das matérias regulamentares – estas, sim, mais relevantes.

Corte. Passagem de tempo.

Trinta e cinco anos depois (ano de 2005), eis que a caçulinha se dedica à conclusão de um doutorado, na área de Humanidades.

Não acompanhei a fase de estudos e redação – mas não pude escapar de estar presente ao doloroso ritual de defesa de sua tese, de cujo teor (sinceramente) já nem me lembro.

Lembro-me apenas (para flor do meu espanto!) que lá estavam de novo em discussão, no diálogo entre a virtual doutoranda e os doutores da banca, as idéias do mesmo velho e meia-boca... Edgar Morin! E pude enfim confirmar (eu que me recusava a incluí-lo nas minhas leituras): pareceu-me mais tolo e banal do que nunca!

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Se queres um monumento, olha em volta:

Em pouco mais de três décadas, uma referência bibliográfica secundarista havia se tornado (no Brasil, talvez no mundo) leitura essencial para um estágio supostamente elevado de estudos, como o doutoramento!!! E minha irmã caçula, fiel aos costumes da infância, tinha herdado aquela bagatela...

Maiores informações sobre a derrocada do ensino no Brasil podem ser lidas em grandes autores e até nos jornais diários (e, mais recentemente, aqui). Mas certamente o caro leitor há de encontrar dentro da família os exemplos mais essenciais e gritantes.

Aprende-se muito (às vezes o essencial) em família!
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Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 18, 2007 às

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Passei uma boa parte de 2006 viajando, ora a trabalho, ora a contragosto. Dormia em hotéis, almoçava e jantava em restaurantes impessoais – exercia, enfim, à risca, o essencial da provisória condição humana: estar de passagem.

Toda manhã, lá estava eu repetindo o ritual do desjejum: sempre a mesma mesa, os mesmos frios e pães... o mesmo gosto de nada. E lá estava também o maitre, com a mesma simpatia profissional, acompanhando atento os mínimos gestos de cada hóspede.

E isso abrangia, é claro, o sinal-da-cruz discreto e contrito com que eu iniciava a primeira refeição.

Só percebi a vigilância no dia em que ele me abordou à beira da mesa (era jovem, orgulhoso, dogmático), sem conter o sorriso fingido e a dúvida sincera:

“Perdão: algum problema com a comida, sr. Borges?”

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Não havia “problemas com a comida” – a não ser, é claro, a sem-gracice insolúvel e impessoal que reina nos hotéis (desde a decoração do quarto até o cardápio). Por isso demorei a entender a pergunta, e em vez de resposta só consegui pôr em ação a minha melhor máscara de espanto.

Orgulhoso, dogmático, o moço tratou então de se explicar. Mas isso não facilitou as coisas:

“Perdão, sr. Borges, mas é que venho reparando no seu hábito de benzer-se antes de começar a comer. Como se a nossa comida representasse um sacrifício diário. Daí a preocupação, o senhor entende...”

Na verdade, eu mal conseguia entender tudo aquilo – mas tratei de despreocupá-lo. Como católico assumido e praticante (expliquei), costumava benzer-me e agradecer cada refeição que a graça de Deus me concedia.

Ele me interrompeu, inquieto:

“Ah, o senhor está brincando comigo, não está?”

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Como eu não estava brincando (custou, mas consegui convencê-lo), o moço assumiu então um ar mais sério, e quase ameaçador:

“O senhor há de entender, sr. Borges, que estas coisas já não são usuais... em pleno século 21! Não é à toa que nossos outros hóspedes (a maioria, acredite) têm vindo se queixar...”

“???!!!”

“Bem... é que a sua carolice as ofende. Este é um hotel para executivos, empresários, gente contemporânea e dinâmica. E as pequenas superstições incomodam, acredite...”

Claro que eu não conseguia acreditar naquilo que a voz (cada vez mais jovem, mais orgulhosa, mais dogmática) queria anunciar: os novos tempos sem Deus. Um tempo em que mal se permite aos cristãos uma existência privada, e menos ainda (nunca!) o direito de se manifestarem em público.

Fazer o quê? Mudar de hotel?

Pela janela à minha frente, eu via a cidade lá fora – e a sombra do ateísmo indescritível, tempestuosa, pairava (como uma nuvem mecânica) sobre ela.

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Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 02, 2007 às

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A cena, vagamente irreal, aconteceu comigo.

Depois da terceira rodada (eles álcool, eu café), a conversa derrapou para o terreno favorito do casal de amigos com quem eu dividia a mesa e a tarde: a vida acadêmica.

Ambos professores, ambos pedantemente doutorados, eram (ambos, também) irremediavelmente monótonos: ao primeiro descuido do próximo, lá vinham eles com a cantilena de sempre, a respeito da “superioridade da cultura universitária”.

Ela (doutora em História) insistia: “Você precisa fazer um mestrado, um doutorado. Com toda a sua inteligência e cultura...” Ele (doutor em Humanidades) limitava-se a reforçar, bom-moço: “Ela tem razão, Antonio.”


* * *

Em vão eu lembrava ao casal minha condição de autodidata, minha indisciplina visceral para as lides escolares e – motivo dos motivos – a inutilidade de diplomas e “pós-diplomas” para alguém que (era meu caso) não tinha planos de dar aulas, nem de seguir carreira... acadêmica.

Impacientaram-se comigo, como no verso de Pessoa. (Nunca se pode ter razão diante de duas sumidades diplomadas...) E, o que foi pior, contra-atacaram:

“Só que um diploma, Antonio, ao menos legitimaria todo esse conhecimento que você acumulou...”, vaticinou ela. E ele, bom-marido e bom-moço, não fez por menos: “De que adianta ter lido tanto, saber tanto, se você não tiver um diploma?”


* * *

Embora parecessem (e fossem!) absurdos, aqueles comentários não me causaram estranheza, mas uma incômoda familiaridade:

“Onde, meu Deus, eu já li esta cena?”

Bingo! A memória – que pouco falha – também não tardou dessa vez. Logo no primeiro capítulo do seu angustiante Policarpo Quaresma, Lima Barreto se referia a um certo Doutor Segadas, clínico das vizinhanças, que não admitia que Policarpo tivesse tantos livros em casa. E argumentava: “Se não era formado, para quê?”


* * *

É sempre assim: a gente afrouxa a vigilância e lá vem ela (a vida) imitando a Outra (a Arte)... O douto casal, que dividia a mesa e a tarde comigo, repetia o julgamento do invejoso Segadas: no país dos diplomados, eu estava invadindo seara alheia, como um posseiro sem lei.

As palavras me faltaram... o desânimo raptou meus argumentos...

Pedi mais um café.



Arquivado em: dois dedos de crônica — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 19, 2007 às

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Tudo encarnava um suave clichê literário. O jantar corria bem, o restaurante era ótimo – e o sorriso no rosto da linda moça à minha frente simplesmente... prometia. Até que alguém, na alvoroçada mesa ao lado, berrou um comentário infame contra o papa Bento XVI. E todos (na alvoroçada mesa ao lado) deram uma gargalhada.

Então, num contágio que muitos acham inevitável, a linda moça à minha frente (minha companhia promissora) sorriu também. Mais até: quase gargalhou. E, como eu não gargalhasse nem risse, em pouco tempo ela se fez séria e disparou:

“Puxa, você não tem humor?”

* * *

A noite acabou ali – e não por uma questão de humor, mas de fé. Ou melhor: de ausência de fé. Foi inútil eu tentar explicar que (como cristão) me sentia incomodado com o ateísmo crescente e cada vez mais grosseiro das pessoas ao meu redor – já tinham tomado de assalto a mesa ao lado da nossa! Eu me sentia, literalmente, sitiado. E a pergunta seguinte da linda moça foi o tiro de “clemência”:

“Não me diga que você... acredita em Deus?! Com a sua inteligência?!...”

Para evitar o atrito e a guerra-santa, constatamos, de comum acordo, que a noite e as minhas “chances promissoras” terminavam ali. Deixei-a, de táxi, na porta de casa – e o boa-noite de praxe trazia a certeza de que nunca mais nos veríamos.

* * *

No e-mail que ela me mandou, uns três dias depois, vinha um quase-pedido de desculpas: a crença “irracional” num Deus – e logo no “pior de todos”, o cristão! – tornava incompatível o amor e até o “sexo ocasional”.

Tentei evitar o melodrama de praxe, mas não pude deixar de pensar em como seria para mim, a partir dali, “o mundo sem ela”... mas logo a idéia cedeu lugar a outra: como seria o mundo dela (e o de cada um daquelas que ocupavam a alvoroçada mesa ao lado) sem a idéia de Deus?