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Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em março 20, 2008 às
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Perdidos o bule e a paciência, Ela parece outra por trás do balcão do velho salão de chá. Sabe que existem fregueses discretos, que por certo dispensam ser incomodados por comentários inconvenientes a respeito do tempo, da natureza dos erros, do sentido do mundo. Tudo que querem é um pouco de silêncio, café duplo com creme e alguns torrões possíveis de açúcar.

Mas Ela sabe também que há outros com quem de nada valerá ter cuidado. São os mais difíceis: sofrem com a falta definitiva do sol, são raros e exigentes, e inconfundivelmente tristes. É fácil reconhecê-los, pelo cigarro meio acesso no canto da boca e pelo sobretudo cáqui, quase um uniforme. Não chego portanto a me sentir disfarçado, de sobretudo, cigarro e sentado na mesa mais afastada do balcão, próximo à entrada e saída, longe das mesas lotadas por essa gente tola, sobrevivente dos tempos de desordem. Tudo apenas para que Ela tenha o máximo de trabalho quando vier me servir pessoalmente, como faz com todos os clientes difíceis.

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Posso vê-La anotar com surpresa meu pedido, raro para os tempos que correm. Chá completo, legítimo e inglês, com creme espesso e biscoitos amanteigados de cacau. E, sobretudo, no fino bule de prata que integra a tradição indispensável da Casa: quem nele beber chá quente, diz a lenda publicitária nutrida pelos antigos donos, estará mais perto da Verdade e da Causa Certa — e a salvo, portanto, dos tribunais do Partido. Não creio em lendas, claro, mas tive outros motivos para fazer sumir o maldito bule. Um, sobretudo: fazê-La sofrer.

Já sem o bule e quase sem paciência, Ela retorna à minha mesa e inicia seu teatro amargo de explicações, pontuadas por "são tempos difíceis" e "o senhor sabe como andam as coisas". Claro que sei, e até já havia ensaiado de cabeça cada minuto da cena, ainda na presença do Mestre. E a reação me sai irretocável, e sua soberba e recém comprada casa de chá acaba reduzida a uma simplória espelunca freqüentada por vermes e desertores, que o meu indicador direito vai apontando, como detestáveis exemplos. A voz rascante, pouco disfarçada, trabalha para amplificar n’Ela a tensão. Porque é preciso que Ela "se vá" (um eufemismo do Mestre) sem nenhuma chance de repouso.

É preciso ser duro, mas sobretudo ser rápido, nesses tempos difíceis. Quando o Mestre decidiu que destino Ela teria, e que caberia a mim (logo a mim!) completá-lo, exigiu com sua firmeza tão típica que a ação fosse rápida, exata, inadiável: hoje, agora. Amanhã talvez já saiam jornais, mas ainda há uma longa faxina a promover para dar um pouco de ordem aos acontecimentos, à pouca luz de um sol que quase já não brilha há muitos meses. Tem que ser hoje, agora, senão os dias de sobretudo e cigarros também acabarão. O método de execução não varia: que o castigo seja para a vítima como um extremo cansaço, como o esgotamento que nasce de uma jornada estúpida de trabalho. São palavras e idéias do Mestre, mas poderiam ser minhas. Mas nunca iria tão longe, em crueldade e ironia: escolher logo a mim, para tamanho desconcerto.

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Sem o bule, e já com pouquíssima paciência, Ela começa a pressentir que o equilíbrio que quase supôs possível está para se partir. Mas não sabe (é tola demais, sei que não sabe) da tragédia iminente. Parece outra, a cada vez que se distancia e retorna, ou some e reaparece por trás do balcão central, mas não há dúvida: é Ela, que pouco mudou nesses anos. A mesma dificuldade antiga de controlar o pânico, a fraqueza, enquanto procura o lendário bule, que um ganancioso Gómez da cozinha se encarregou de fazer sumir desde ontem, a um comando meu. Ferida em seu orgulho maior — a eficiência burguesa — ela parece outra, como uma fêmea comum em frangalhos, potranca ferida a suspirar por alguma eutanásia.

Mas há também simetria e requintes nas exigências do Mestre. Quer que tudo se passe de algum modo belo e notável, sem prosaísmo, de um jeito em que haja menos sangue que metáforas, como nos nossos clássicos. Por isso recrutou a mim, logo a mim, para vir romancear as horas finais Daquela que já não merece manchar, com sua existência, a sombra de tantos mortos. Detrás do balcão, já não parece apenas mudada: é mesmo outra, tão diferente dos tempos em que guerreamos do mesmo lado, antes que se transformasse em mais uma inimiga. Hoje é incapaz de perceber que tudo está por tão pouco. No que vier a sair amanhã nos jornais (se houver jornais, amanhã) há de faltar por certo o melhor: o romantismo da cena, seus olhos de assombro, seu medo. Será um texto sóbrio, didático, como há de convir para todo o sempre.

Passado tanto tempo, em lados tão opostos, é difícil lembrar-se de quem por fim arrastou o outro para suas armadilhas de idéias. Só lembro que nas horas de acasalamento, nas folgas entre as lutas, Ela era no fundo a mesma doce aristocrata que nunca mudaria, tentando polir meus gestos de guerreiro rude e apressado. E para que esse luxo, eu dizia, se estávamos ali (e estou aqui até hoje) para que o luxo justamente acabasse. Hoje os tempos ficaram mais difíceis, e chove sempre, e o alimento é escasso e suado.

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Que outro momento seria mais adequadamente literário, como exigiu o Mestre? É agora: Ela se aproxima lenta e nervosa, trazendo pessoalmente a bandeja como uma linda trabalhadora qualquer. Sei que o chá virá ralo num bule plebeu, e os biscoitos serão poucos, e o creme precário e rançoso. Já estava previsto, não pela lenda, mas no estilo do Mestre. Ela continua se aproximando, sem nenhuma chance de descanso: tensíssima. Como merecem ser as castigadas, como quer o Partido, como mandam os nossos clássicos. Por que demorar-me mais no disparo único, cercado de metáforas? Olá, digo então, e forço a mesma voz antiga. Sei que passaram anos, envelheci — mas quem muda tanto, afinal, em tempos difíceis?

Ainda posso vê-La parada, com a bandeja na mão, para sempre sem atitude. Um único tiro, e tudo afinal desaba, numa mistura de corpo, caco, ruínas, bandeja. O resto é sair andando, sem pressa e sem piedade, como também está determinado pelo Mestre que comanda o nosso mundo sem saídas. Mas que acharia ele ao me ver distraído no trânsito vago, pelas ruas quase desertas, lamentando a certeza de que tudo esteja sempre por tão pouco? Amanhã talvez já não saiam os jornais, nem jamais alguém voltará a fazer biscoitos amanteigados de cacau como Ela, tão ótimos...

(Para ler mais contos do autor, clique aqui.)



Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 05, 2007 às

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Dizem que ninguém foge ao destino, porque ele sempre bate à nossa porta – mas juro que nem pensava nisso naquela manhã chuvosa de sábado, quando fui atender a campainha da porta e vi pela frente aquele homem magro, de terno surrado e encharcado, sorrindo para mim, em meio ao aguaceiro.

Ele parecia faminto, e acima de tudo cansado, velho de séculos: alguma coisa além do terno já desbotado e dos cabelos completamente brancos denunciava sua ruína. Impressionado com seu estado, convidei-o a entrar e repartir comigo o café da manhã, que eu ainda não tinha tomado.

Enquanto devorava três panquecas, duas baguetes e meio pote de geléia de morango (acompanhado de muito café-com-leite), o estranho e voraz visitante contou-me que vendia sapatos masculinos importados (e apontou a mala molhada que descansava no saguão) e conseguia sustentar a família oferecendo seu produto de porta em porta, nos bairros de classe média alta como o meu. Num país de funcionários públicos e economia acanhada, não havia muitas alternativas para homens de sua idade, justificou-se.

Comovido com sua história, cheguei a elogiar seu empenho, sua dignidade de ancião, e até me dispus a comprar dois ou três pares de seu produto, antes mesmo que ele os tirasse da mala para me mostrar. Foi quando a expressão de seu rosto mudou – e ele então me pareceu outro homem, na verdade mais velho e ainda mais cansado do que o primeiro:

“Tem certeza de que está mesmo interessado em comprar meus sapatos?”, ele me perguntou sustentando no ar a caixa retangular de papelão, sem abrir. “O senhor me acolheu tão bem em sua casa que vai ser impossível, para mim, insistir nesta farsa...”

Convidei-o então a se sentar comigo no sofá mais confortável da sala de estar, e deixei que falasse. E ele falou:

“Sou capaz de enganar o demônio, mas nunca faria isso com um moço gentil e generoso que me deu acolhida, como o senhor.”

Fez uma brevíssima pausa e prosseguiu:

“Na verdade, meu jovem, eu não vendo sapatos – e, se permitir que eu conte minha história terrível, logo irá entender. Sou biólogo, ou pelo menos pretendi ser um dia. Alguém com uma inteligência imerecida e uma vaidade sem limites, que pensava poder brincar de Deus, manipulando a vida humana. Cometi o pecado imperdoável de achar que o ser humano era uma criação imperfeita, e pretendi que poderia melhorá-lo...

“Numa época em que experiências assim eram coisa de ficção científica, ousei fazer de meu laboratório de pesquisas a sucursal do Inferno. Não pretendo cansá-lo com detalhes: digo-lhe apenas que nossas experiências envolviam o código genético humano, aqueles famosos 23 pares de cromossomos (o senhor deve ter ouvido falar, nas aulas de biologia do ginásio), onde está contida toda a informação para a construção e funcionamento do organismo humano. Já dá para imaginar minha ousadia, não é?

“Foram anos de pesquisas em surdina, interferindo como um demiurgo na estrutura em dupla hélice do DNA, manipulando cada uma de suas bases. Enfim, sem detalhes técnicos... Para ser breve, posso lhe garantir que a sandice logo envolveu também a manipulação de espermatozóides e óvulos... Deus do céu! Tenho até vergonha de me lembrar, mas sei que a memória é um castigo implacável que vai me seguir até o fim.

“Em resumo, meu caro: depois de anos de experiências malditas naquele laboratório de trevas, criei (ou julguei ter criado) a matriz aperfeiçoada do Homem, a ponte para o Super-Homem – como queria aquele pensador alemão delirante, devorado pela sífilis. Um Homem novo, superior, mais inteligente e provavelmente destinado a grandezas inéditas... Não era pouco, convenhamos, para um pesquisador como eu, sempre rejeitado pelas Academias de Ciência do país.”

Percebendo minha indisfarçável impaciência, o homem procurou ser ainda mais sintético:

“Que destino dar àquela descoberta? Como eu tinha que ser rápido, contei com a conivência de um ginecologista amigo, acostumado ao uso de hipnose nas consultas e exames de suas clientes mais difíceis. O senhor já deve ter imaginado: consegui inocular nada menos do que dez mulheres casadas, com a dezena de ‘matrizes avançadas’ que consegui produzir, antes que a suspeita (nunca a certeza!) dos decanos da universidade levasse à destruição de meu laboratório e à minha sumária demissão.

"Nunca se soube, oficialmente, quem afinal invadiu meu gabinete na calada da noite e em questão de hora, incendiou minhas anotações, minhas pesquisas, minhas matrizes ainda embrionárias, meus sonhos, minha arrogância... O fato é que, da noite para o dia, vi-me privado de tudo – menos da curiosidade obstinada de tentar acompanhar o destino das minhas Novas Criaturas.

“Pois ali começou também meu castigo! Nove meses depois, lá estava eu tentando acompanhar, a distância, o nascimento de cada uma de minhas crias diabólicas. Mas não ousei ir além da terceira, depois de constatar toda a extensão do meu crime: por algum erro de cálculo, todas aquelas criaturinhas, aparentemente saudáveis, vinham ao mundo com o defeito aberrante de seis dedos em cada pé!

"Na época (já faz tanto tempo...), os jornais chegaram a noticiar a coincidência, mas não foram além de atribuir a alguma fatalidade divina ou a especulações em torno do uso de algum medicamento indevido durante a gravidez. Mas eu, que sabia a origem daquilo, não pude suportar a culpa sem tamanho – e literalmente enlouqueci. Saí pelas ruas aos gritos, avançando em todas as mulheres grávidas que encontrava no caminho. Pelo menos foi o que me contaram mais tarde os psiquiatras da Casa Verde, no dia em que finalmente pareci retornar à consciência. Tinham-se passado vinte anos!”

O velho engoliu em seco e continuou, ainda mais sintético:

“Nunca soube como reparar o meu erro. Sei, simplesmente, que hoje é tarde demais! Por isso, à falta de outra idéia, e sem coragem para qualquer iniciativa mais prática, saio todos os dias disfarçado de vendedor de sapatos, na esperança de encontrar afinal, diante de mim, um pé com seis dedos – um de meus filhinhos monstruosos. Confesso que não sei o que faria: ainda não consegui encontrar nenhum deles... Estou vendo sua expressão incrédula, e não posso culpá-lo por isso...”

Aproveitei seu silêncio e pedi licença para me retirar por um instante. Fui até meu quarto e, na segunda gaveta da cômoda, peguei o pequeno revólver até aquele dia ainda sem uso...

Eu não sabia no que acreditar de tudo aquilo. Sentado na beira da cama, sabia apenas que, se tirasse os tênis e as meias, iria ver mais uma vez (embora dessa vez com outros olhos) meus absurdos pés, cada um com seis dedos – fontes de meus complexos infantis, de minha vergonha de adolescente e de minha solidão de adulto.

Fiquei ali um bom tempo, alisando a arma, confrontando idéias de vingança, entendimento e perdão, sem saber ainda o que fazer...



Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 10, 2007 às

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Eu nunca guardei automóveis, nem exerci jamais nenhum desses ofícios que a caridade cristã costuma pagar com a gratidão esquiva da gorjeta. Sou um príncipe, a meu modo: dono das minhas horas de ócio aristocrata, senhor da insônia vulgar que dá à solidão noturna uns ares de sabedoria.

Da fina farinha do sossego, faço o pão simples (não sem caroços) com que rabisco, letra por letra, o livro de minhas turbulências pela terra. Ocioso em parte, orgulhoso em tempo integral, independente e comum: um príncipe, talvez, alguém que, por dever de ofício, entende algo de histórias. Alguém que, até então, pouco sabia a respeito de encomendas.

De onde vêm as histórias? Sei, desde longe, que o estilo é uma superstição a mais, nesse reino de tantas. Sei, também, que devo a um Borges (o argentino) grande parte daquilo que chamo de meu, nessa arte de seduzir leitores. Mas esta história, quem diria!, devo-a a um outro Borges, bem mais simples do que o escritor e, quem sabe, mais feliz do que eu.

Hoje é hábito fingir que histórias inventadas são, no fundo, reais. Mas esta que conto aqui é, de fato, real – ao menos, posso jurar que transcrevo aquilo que ouvi, da boca solene e inesperada de Zemiro Borges, o jovem guardador de automóveis.

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Zemiro! Seu jeito altivo de pária, como num livro de Kipling, dava-lhe uma nobreza que a mim sempre impressionou, e me manteve à distância. Não fosse a insônia, talvez nunca tivesse ousado invadir seu reino particular (que estou dizendo!), erguido a duas ou três esquinas de minha casa. Quis no entanto o Destino, esse Deus de muitos estilos, que eu cruzasse com ele, na madrugada mais quente, em que o calor e a ansiedade conspiravam contra meu descanso.

Desde que a editora do Suplemento Literário havia me encomendado um conto (inédito e – o mais terrível! – sobre um “tema qualquer”...) pus-me agitado e inquieto. O que sabia eu, afinal, sobre ficções de encomenda e com prazo marcado – eu que sou capaz de investir semanas em busca da mot juste? Condenado a não dormir, enfrentei a madrugada em busca de algum Café aberto – o que não é raro, no bairro – e então cruzei com Zemiro, sentado no banco da Praça como num trono. No ombro esquerdo, a mesma flanela encardida, que lhe caía sempre como um manto (que estou dizendo!). Na verdade, quase tropecei nele, por distração:

“O amigo parece que sofre...”

O comentário me trouxe de novo no chão, lançando-me à boca o sabor tão classe-média da culpa, por me permitir problemas fúteis de artista, ali, diante de alguém que parecia enfrentar carências incontornavelmente reais. Mas o olhar de Zemiro inspirava confidências – e, quando dei por mim, já lhe havia contado meus tormentos, a Literatura como uma danação, o conto de encomenda e o inferno particular da inspiração com data de validade.

“Sei pouco sobre Literatura, meu nobre amigo, embora minha vida pusesse render muitos livros” – assim ele começou sua fala, que seria longa. “Mas de encomenda e danação, disso, acredite, eu entendo. Se o amigo me pagar um café, talvez eu possa ajudar.”

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A majestade do pedido, quase uma ordem, quase sem soberba (que estou dizendo!), transformava aquela oferta, de súbita, em irrecusável. Um ponto qualquer, que nada tinha a ver com dinheiro ou aparência, fazia dele alguém muito acima do trivial. Superior, talvez. Irresistível. (Que estou dizendo!) Sei apenas que, em troca de café e companhia, o moço me contou sua história, com palavras e imagens que a mentira não saberia criar:

“Eu nunca guardei automóveis”, começou, “nem exerci jamais nenhum desses ofícios com que o demônio cristão castiga a humanidade. Sou um príncipe. Não acredita? Pois é, sempre fui, em parte senhor de minhas horas, dono até certo ponto de meu ócio, homem sem outro ofício. Um príncipe, amigo, mas não como qualquer homem possa ser – um nobre de si mesmo. Fui e sempre o serei, desde os tempos em que a luxúria de um velho nobre sem trono fez do destino de minha mãe o de uma criada grávida sem futuro. De mim, então, fez ainda pior: irmão bastardo do herdeiro real. Não me ofenda com esses olhos incrédulos: você sabe, eu sei, do que estou falando. Afinal, está tudo nos livros: tudo isso, desgraçadamente, hoje é História. Além do mais, está uma noite linda, tão propícia à verdade: por que eu iria desperdiçá-la em mentir?

“Passei a infância entre sonhos, luxo, pompas e lamúrias, numa cidade serrana que ainda azula no horizonte, mas de cujo nome já não quero me lembrar. Fui pequeno e sábio, como todo menino, indefinível e tolo como qualquer moço decente. Mas, sobretudo, vivi a ambigüidade daquela família (ai, a minha família!), e todas as loucuras que a força do sangue costuma sobrepor às regras e leis. Desprezado em parte pelos outros, eu era também parte deles, digno de inveja e respeito como irmão que era (e eu era, afinal) do herdeiro real, carne de sua carne.

“Nada é mais orgulhoso do que um rei ressentido e sem posto. Nada mais miserável do que um velho exilado que ainda se imagina rei. Como se os ventos indecifráveis da política pudessem trazer a velha monarquia de volta, eu via toda a família imperial (a minha família) arder na febre do rancor sem remédio, da vingança, da autopiedade. Dia após dia, testemunhei o velho Império – que nenhum de nós tinha chegado a conhecer – ser erguido e cair de novo republicanamente, a cada nova rodada de chá, no avarandado das tardes sem esperanças a que eu estava presente, em roupas comuns, mas fazendo as vezes de pajem. Chás, segredos, intrigas, croissants – e eu ali, mesmo sem que assumissem, como um pajem. Meu irmão, o príncipe herdeiro, tentava às vezes me salvar da humilhação, tratando-me como um igual: fazia de mim seu amigo, confidente, escravo pessoal – um irmão, enfim. Até que um dia me tornei, de fato, seu igual.

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“História, filosofias políticas – quem precisa delas? Aqueles que apregoam a igualdade não sabem do que falam: talvez suponham que a vida se faça em frases pensadas, letras de efeito, literaturas... Talvez o amigo também pense assim. Enganam-se, todos vocês: a vida é feita de números, e por isso é banal. É um mundo feito de contas, comparações, e não de palavras ao pé da letra, esses acidentes. Tudo são interesses que se dividem, riquezas que se subtraem, poderes que se multiplicam, enfim – que estou dizendo! Num mundo assim, de setas, gráficos, a igualdade não passa de uma aberração, uma fraqueza que só uns loucos, como os que andam por aí, ainda insistem em apregoar. Pode então entender todo o horror que vivi: eu era, de fato, igual a meu irmão, o príncipe.

“Não era uma semelhança física, coisa de gêmeos, espelhos: era ainda pior! Foi como uma revelação, foi predestinação e encantamento – que estou dizendo! Pode até parecer maravilhoso a você, amigo, mas nem a literatura há de encontrar qualquer maravilha no inferno. Não foi aos poucos, como nos destinos, que é o que acontece enquanto esperamos outra coisa. Foi pior, eu já disse. De repente eu me vi deixando de ser quem eu era, e o herdeiro real também, para nos transformarmos num só. As mesmas emoções, a mesma esperança – e também a mesma azia, a mesma coceira no nariz, a mesma aflição infantil no baixo ventre. Igualdade... para o inferno com ela!

“Lembro-me de quando começou – e como eu esqueceria? Não é difícil penetrar no drama: difícil é livrar-se dele. Bastaram, para nós dois, um dia cheio de nuvens, um descuido no escuro e um tombo: só isso. Nós dois (o herdeiro real e eu, seu pobre irmão) subíamos aos pulos a escada que levava à torre mais alta do palacete serrano. Nós dois quase moços, os dois ainda meninos... E então uma pedra solta, num degrau em falso, cedeu sob nossos pés e a vida se encarregou do resto: desmaio, arranhões, correria. Quando acordamos, eu e o herdeiro real já estávamos no inferno. Eu tinha deixado de ser eu mesmo, para me tornar parte de algo monstruoso, um demônio de rosto aritmético, formado por dois pobres garotos que cresciam e nem saberiam explicar tudo aquilo direito. Passamos a sentir as sensações do outro na própria carne, como se fôssemos um corpo só, se é que o amigo me entende. Cada um de nós a seu modo... que estou dizendo?! Perdemos até o direito de conjugar os verbos no plural. Já imaginou?

“Dá para imaginar? Dois corações batendo a mesma tecla, tornando cada emoção mais fraca, rarefeita. Telepatia? Hiperempatia? Que nome daríamos àquilo que poderia ter sido um encanto na infância unânime, mas que logo se revelou um castigo para nós, um destino mau – nosso fim? Às vezes era um simples arranhão, uma dor de ouvido. E tristezas, muitas e intermináveis. Mas crescemos, e um dia foram as paixões, e quando elas aconteceram, foi mesmo a ruína. Se toda aquela loucura tinha alguma lógica, na nossa aritmética de divisões, estranhas somas e perdas, teríamos então que amar as mesmas mulheres – juntos, ao mesmo tempo. Amamos, sim, mas sobretudo perdemos o sono e a esperança por conta daquele turbilhão de mistério e devaneio que se chamava Milena.

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“Era bela, instável, misteriosa, como um presente que deuses reservassem aos reis. E, por ser um manjar para príncipes, teria que caber ao meu irmão conhecê-la, se é que o nobre amigo me entende. A mim, coube o simples consolo de poder sentir ao mesmo tempo todo aquele prazer – mas desde quando o inferno pode ser um consolo? E foi ainda pior, quando fizeram a encomenda.

“Era num tempo em que os ventos da confusão republicana brincaram de colocar em votação o retorno do antigo regime. Tudo não passava de sonho, é claro, mas de que era feito aquele nosso pesadelo concreto, se não de matéria assim, tão incerta? A fome de vingança da família real (ai, da minha família!) estava então no auge, e o amor por Milena também. Na amargura das tardes no palacete, vi, ouvi e vivi coisas que nem a imaginação nem o dinheiro seriam capazes de reproduzir. Milena, que a todos encantava com sua presença, era também testemunha de tudo. Mas era mais do que isso, como eu logo viria a descobrir. Contas, acertos... conspirações. Um dia senti que o amor de meu irmão por ela... que estou dizendo?! Senti que o nosso amor por ela começava a se transformar numa vertigem confusa, temperada de desconfiança e rancor. Algo estava mudando, ou já tinha mudado. Meu príncipe-irmão, que nunca tinha partilhado as mulheres, já não partilhava comigo sequer suas idéias e projetos. Apenas aquela igualdade insustentável, aquelas malditas sensações!

“Tudo então foi se tornando um pesadelo ainda mais horrível. Da noite para o dia, quantos dias se passaram? Lembro-me apenas de que, a certa altura, a equação daquela realidade insana apontava para a eliminação... adivinhe de quem? Dela mesma: Milena, loucura e paixão de nós dois, monstros de uma alma só! Acusada de uma improvável traição, num cenário em que as intrigas eram a moeda mais corrente, Milena haveria de pagar por tudo que não chegou a haver (a volta ao poder, por exemplo). Decidiu-se também que quem devia de se encarregar daquela encomenda... era eu!

“Fiz muitos trabalhos indignos, fui servidor fiel de meu sangue. Mas eliminar Milena seria o mesmo que matar a mim, dividir ainda mais a pouca força que aquela existência partilhada consentia. Milena?! Não, nunca.

“O tempo ia passando, até que não pude mais adiar. Disposto a dar um fim diferente àquela mistura farsesca de igualdade, convenci Milena a aceitar minha cilada, quer dizer, uma simples carona. Era tarde, ventava. Tudo se arrastava e ao mesmo tempo corria – como nos pesadelos. Num ponto remoto da estrada, que eu mesmo já não saberia dizer onde fica, parei súbito o carro. E então resumi toda a história, como estou fazendo agora. Aconselhei Milena a se afastar, sumir para sempre, fugir... viver! Eu levaria o coração de um bicho de grande porte, se precisasse de provas. Mas nem precisei. Nunca mais vi Milena, que hoje talvez já não esteja viva – talvez nem nas minhas lembranças. Precisei, isso sim, de muita coragem para o acerto final, na equação. De um lado da fórmula, faltava ainda um cadáver; do outro, havia o imperdoável assassino. A maldita equivalência, lembra-se?, nesse reino de cifras e equações que é a vida. O matador era eu, claro, com meu destino de pajem. Mas nem eu mesmo sabia ainda ao certo que o morto viria a ser ele. Ele mesmo: o príncipe, o herdeiro real. Meu irmão.

"Foi também um jeito de aliviar, não seu rancor, que ainda sobrevive em mim, mas sua decepção e vergonha, de me ver fracassando pela primeira vez. Além disso, eu precisava voltar a ser um só: eu mesmo. Precisava voltar a ser ninguém. Um tiro discreto simplificou as contas. Nem tive que propriamente fugir, porque de certa forma eu também já estava morto. Hoje, posso estar aqui, e ser o que sou. Uma parte da equação monstruosa se extinguiu dentro de mim, com a morte dele. Mas o pouco que sobreviveu ainda faz de mim um príncipe, juro!, mesmo que sem paradeiro na terra. Ao menos, sou de novo um só. Senhor de mim, outra vez. Pelo menos, as contas estão encerradas. Tem um cigarro?”

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De onde vêm as histórias? E para onde elas vão, quando terminam? Zemiro Borges (que nunca guardou automóveis) enfim se calou, como quem desse a extravagante narrativa por encerrada. Imaginação? Cansaço? Talvez fosse apenas o avançado da hora... O fato é que preferi não comentar que eu não seria tolo ou inculto o bastante, a ponto de não saber que toda aquela prosa enfeitada, que ele dizia ser sua, era na verdade uma teia feita de outras tantas: uma abertura roubada de Fernando Pessoa, a saga romântica de dois gêmeos da Córsega, um artifício de Branca de Neve, uma mulher na vida de Kafka, uma frase de José de Alencar, um conto cinematográfico do americano Paul Auster... Para que cansar o leitor, com a lista extensa?

Mas eu também não seria (pensei naquela hora) tão vaidoso ou mesquinho para desencantar Zemiro, como um plebeu ingrato que rejeitasse a oferta de um príncipe. O moço permanecia impávido, à minha frente, em seu nobre silêncio. (Que estou dizendo?!) Não me senti nem mesmo no direito de reclamar: afinal, agora eu tinha uma história, que Zemiro – príncipe ou não – havia me dado um presente.

Pedimos mais dois cafés, bebidos dessa vez em silêncio. Algumas horas depois, antes de apagar a luz e dormir, eu voltaria a me perguntar: de onde vêm as histórias? Amanhã (quer dizer, no dia seguinte), eu teria muito trabalho. Tinha ganho uma história – e, com ela, a obrigação de escrevê-la.



Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 12, 2007 às

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Que fim levaram os espelhos e as espingardas?

Quer mesmo saber? Então imagine o leitor que está a bordo de uma daquelas velhas e glamourosas máquinas do tempo, engenhocas incríveis hoje tão fora de uso.

(O tempo: quem ainda se importa com ele? Isso era quando existia quem tentava cortar, em fatias apressadas e avessas, o falso chão que os grãos dos dias iam lentamente formando, pequenos e muitos, em aluvião. Dias, meses, séculos, em repetida poesia. Hoje, quem se importa?)

Não custa nada, leitor de boa vontade, você se imaginar voltando até o tempo em que cada homem era uma ilha sagrada, e o dinheiro ainda circulava de um modo anárquico como agora só circulam as idéias comuns e o vento poluído.

Pois houve um tempo assim, e nesse tempo um homem qualquer tentou achar no amor de uma bela mulher a salvação de seu mundo particular, sem saber que estava condenando a si mesmo e (ai de nós!) a todos nós também.

* * *

Chamava-se Xisto e pelo nome o leitor já imagina que se trata de alguém acostumado à espera e à paciência, sobretudo em questões alfabéticas. Pois vamos imaginá-lo, em sua época antiga, exercitando justamente a arte dramática de esperar.

Na esquina movimentada em que o imaginamos (havia ainda esquinas movimentadas naquele tempo), Xisto aguarda pela bela senhora que havia conhecido dias antes, e em cujo olhar as promessas de amor cresciam e se multiplicavam. Nenhuma delas se cumpriu, é verdade, mas isso só se saberia depois. O que importa para a nossa história é a postura de um homem apaixonado que espera.

Um homem que espera (dizia-se naquele tempo) está mais perto que os outros da iluminação e da verdade. Mas o fato é que o nosso Xisto, amante ardente e quase iluminado, teve um papel involuntário ao formular a teoria sinistra que aos poucos iria transformar sua vida e (ai de nós!) as nossas também.

* * *

Foi assim: ele olhava distraído a vitrine de uma grande loja, repleta de objetos inúteis, quando uma imagem estranha atraiu sua atenção desconcentrada. Essa imagem era a do seu próprio rosto, deformada pela ilusão inconveniente de alguns materiais, como a textura de uma roupa de lã e as folhas avermelhadas de uma árvore de outono, às suas costas.

Some-se ainda a pouca luz disponível no interior da vitrine, e pronto!: eis a inesperada tragédia. Xisto se viu ali, então, como passou a se imaginar que era: feio, estranho, insuportável até para si mesmo. Abominou então todos os espelhos, com sua vocação para a demonstração fria e sem réplicas, objetos horrendos capazes de destruir as ilusões de um homem.

(Chegou a desejar que a mulher não viesse – e nesse ponto acabou sendo atendido: ela não veio.)

A raiva de estar de frente para a verdade súbita que então supôs inquestionável – sua feiúra – fez brotar no moço a rima fácil, numa palavra só: loucura. Xisto investigou então o chão ao seu redor e não foi difícil avistar a pedra quase quadrada com que estilhaçou a vitrine, o primeiro de uma série de espelhos que destruiu naquela tarde.

Foi preso, é claro (havia ainda prisões, naquele tempo), e só a muito custo a guarda fardada conseguiu fazer com que parasse de maldizer, aos gritos, os espelhos e as espingardas.

A princípio, ninguém entendeu nada. Que relação poderia haver, afinal, entre objetos tão diferentes? O que teriam em comum um objeto que dispara e outro que reflete?

Difícil foi evitar que as palavras cifradas de Xisto ganhassem virassem um problema inesperado e desproporcional: aliás, ninguém evitou. Sem elas, seu gesto talvez nunca tivesse passado de uma demonstração rotineira de insanidade.

Mas hoje, no império do Coletivo, quem pode avaliar a força e o poder de um homem só, naquele tempo? Ninguém sabia a resposta – mas o mais trágico é que a procuraram.

* * *

Psicólogos, políticos, juízes, mestres em línguas eslavas, em gramáticas mortas, locutores esportivos, astros de cinema (também havia ainda cinema, é claro) debruçaram-se cinicamente sobre a falsa questão.

A resposta encontrada não poderia ser outra: uma falsa (e perigosa) resposta. Sobretudo ao concluir, por comparação, que espelhos eram armas letais, mais mortais do que as espingardas. Além de multiplicarem o número de seres vivos, atentavam contra a igualdade pretendida e (até ali) ainda não alcançada.

Nunca se soube ao certo o que aquilo significava mas, por precaução, aboliram-se os espelhos. Proibiu-se em definitivo sua fabricação, sua posse, e até a mais simples menção de qualquer superfície polida capaz de produzir reflexos renegados. Até as metáforas que usassem aquela palavra seriam abolidas da língua.

Foi o começo – só o começo – de uma coisa que dura até hoje, neste mundo opaco e sem armas. As espingardas, como sabe o leitor, também foram abolidas, pelo mesmo método implacável. E, com elas, todas as armas de fogo, as armas brancas, as armas em geral e até a palavra arma.

Por sinal, isso foi mesmo o mais grave: as palavras. Ou, mais exatamente: o pensamento. Foi ele a grande vítima, porque dele se tratava desde o início.

O leitor há de concordar: o segredo de uma boa teia está na qualidade dos fios. Um ponto fora de lugar pode botar tudo a perder. E foi o caso. Mesmo sem máquina do tempo, o leitor pode imaginar os estragos, usando apenas o método mais simples: olhando em volta.

Com seu raciocínio apressado e errôneo, o pobre Xisto – o feio, o enamorado – não fez mais do que introduzir um fio com defeito no pensamento elétrico do mundo. Quanto ao que aconteceu depois, foi apenas uma complexa cadeia de reações. Uma questão de tempo, como se dizia.

Para alguns, tudo não passou de acidente, do jogo neurótico de um homem apaixonado e sem visão. Mas há quem jure que o rompante de Xisto fazia parte de um plano complicado para mudar os rumos da História.

* * *

Verdade? Exagero? Lamento decepcioná-lo, leitor, mas não posso fingir que conheço a resposta. Nem posso fingir também que tenho outra vez diante de mim um velho e glamoroso espelho de cristal, e que esta jóia rara e proscrita devolve aos meus olhos a imagem fiel de um velho com uma espingarda na mão: eu mesmo.

Ainda que fosse verdade, que importaria? Um simples tiro que eu desse – ou mais de um, que importa – lembraria apenas que a igualdade venceu. Ou melhor: venceu a indiferença. E, num mundo assim, já não cabe a chance de se voltar a ser diferente, uma ilha sagrada, como os espelhos provavam.

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Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 03, 2007 às

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Digamos que eu sentisse raiva, frio, fome, e uma vontade férrea de sofrer, como os grandes penitentes. Digamos que eu não estava pronto para continuar a viver – mas (ai de mim!) estava a ponto de escrever um livro.

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Eram tempos difíceis para a escrita, tempos difíceis para o amor. Qualquer um que se lançasse de peito aberto sobre a brancura do papel, ou cedesse aos braços abertos da mais profunda beleza era um homem marcado.
Eram tempos difíceis, ninguém se engane – mas que hoje, em face de todas as coisas passadas, parecem só verdor e pastorinhas.

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A felicidade é uma massa viscosa, que logo se deteriora se não a tratamos com salmoura e baixas temperaturas.

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A Filosofia tem um balcão sujo, velho de décadas, que atrai todos os dias uma multidão de insetos, de bêbados e até alguns apressados e indiferentes, em busca de bebida, comida barata, alguma informação, ou simplesmente de cigarros.

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Mas de nada valeria tamanho zelo com as coisas alheias se não fosse em proveito de um valor maior, e a que nas locações do espírito chamamos em geral de sentido da vida, amor à verdade e adjacências.

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Todas estas páginas estão mortas. Mesmo que pulsem, ainda, alguém sempre notará, e dirá: estão mortas!

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Nele se via o menino virando velho, direto – sem passar pelo adulto.

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A tirania dos pobres sobre nós rouba-nos os restos de compaixão que poderíamos ter, e que representam, justo, aquilo que nos faz humanos.
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Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 01, 2007 às

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Só porque o amor não é um costume recente, nem uma exclusividade dos contemporâneos, ninguém conclua daí que a contribuição dos modernos a um hábito tão antigo seja nula, ou mereça figurar no capítulo dos desencontros, afinal tão em voga. Não, amável leitor – nem isso.

A rigor, não existe novidade em matéria amorosa. E, no entanto, sempre há nele algo de original e diverso, capaz de dar alento aos pessimistas e um pouco de humildade aos mais cínicos. Onde se pensa que acabou, apenas repousa; onde supostamente morreu, ei-lo que recomeça.

Se achas que divago, leitor, dou logo um exemplo – e sem precisar recorrer a páginas mais remotas de nenhuma História Universal das paixões. Por economia de esforços, posso citar um caso ocorrido aqui mesmo, apenas um pouco recuado no tempo. Mais exatamente, no tempo em que o Rio de Janeiro ainda era ainda a Corte, mas em matéria de amor não diferia muito.

A história começa no velho Cais Pharoux, que a República transformou em Praça XV de Novembro, e o tempo se encarregou de transformar em limo e esquecimento.

O ano não se sabe ao certo, mas há quem afirme que a cena ocorreu em 1871. Ponhamos, ao menos, que tenha sido em um sábado quente do insalubre verão fluminense.

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É de manhã. No meio da feira-livre de tipos que agita esse antigo trecho colonial, repara, leitor, naquele elegante casal que a passos firmes, mas sem nenhuma soberba, caminha até o ancoradouro, em meio a outros casais que também vão tomar a “barca de Petrópolis”.

Ela, mais velha do que ele, sem ser bonita, é no entanto simpática e atraente; ele, sutilmente mulato, disfarça a timidez e a feiúra com roupas impecáveis e a expressão vivaz e inteligente, barba-feita e pince-nez.

Dão-se os braços, mas não parecem serenos: trocam poucas frases, só as essenciais.

(Pela cerimônia dos gestos e a falta de fervor nos olhares, ninguém diria que são recém-casados – mas eu lhes digo que são, e há pouco mais de um ano.)

Instalam-se num banco ensolarado do convés, e suspiram discretamente quando a barca enfim dá partida. Se repararmos melhor, veremos que algo de grave preocupa nosso personagem, e nem seria exagero dizer que o atormenta. “Deveria ter lhe contado antes, mesmo que já casados”, ele pensa. “E se acontecer aqui, e justamente hoje?”

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Dizem que o mar, quando manso e sereno, é um convite à reflexão e ao devaneio. Talvez por isso a mulher, já não tão jovem – mas bastante atraente, mesmo sem ser bonita – aproveite o silêncio para mergulhar também em seu pequeno poço de tristezas: “Casada há um ano... e não sou feliz! Desconfio de que jamais venha a ser.”

Talvez fosse o caso de lançar mão, aqui, de abrir parênteses, ou lançar mão de algum truque de estilo – ponhamos, um flashback, para ajudar a aclarar os pontos ainda obscuros da história: a origem da angústia do jovem mulato, a melancolia da mulher.

Infelizmente, não teremos tempo, Pois já se percebe nela uma expressão de assombro, ao ver contrair-se o rosto oval e vivaz do jovem marido – para, logo em seguida, sua máscara de dor perder-se em ares de alheamento, perda de sentidos, embora ainda mantenha os olhos abertos.

Em vão ela tenta chamá-lo: ele parece estar longe...

Longe...

Cada vez mais longe...

E o que seus olhos estranhamente arregalados vêem agora talvez nem a pena do espanto nem a tinta da incredulidade conseguissem descrever, sem excessos de liberdade estilística. Descrevo-a eu, em todo caso, em atenção ao leitor.

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Se ele está apenas sonhando ou se alucina abertamente, não sabemos ainda. Mas o fato é que vê, ou pensa que vê, sua esposa – já encorpada e forte por natureza – crescer monstruosamente, mais e mais. Não, não num sentido figurado, mas absurdo e literal.

Depois de vê-la descolar-se do banco do convés, ele acompanha sua subida, até que ela se incorpore à proa da embarcação, como uma carranca assustadora.

O convés continua lotado, mas só ele parece notar o espetáculo. Agora, o homem se assusta: com a rapidez dos pesadelos, ele agora está diante do barco, e o observa de frente. O que equivale a dizer que ele só pode estar – e, para seu horror, de fato está – flutuando sobre as águas, à velha maneira do Evangelho.

De seu posto na proa, a mulher o encara com assombrosa firmeza. Seus olhos o prendem e arrastam, e já lhe parece impossível escapar daquele fluido misterioso, daquela uma força que o puxa para dentro. Talvez pela presença do mar à sua volta, ocorre-lhe a idéia de que aquela mulher enorme e fascinante – e que ao mesmo tempo é e não é a sua – tem olhos de ressaca, dotados da potência das vagas quando se retiram da praia, nos dias de tempestade.

– Quem és? O que queres de mim? – As palavras lhe saem da boca sem que ele as pronuncie, na mesma lógica medonha que mantém seu corpo flutuando sobre a lâmina d’água, sem encostar.
– Não me reconheces? – pergunta a mulher imensa, e a voz lhe soa tão clara quanto impressionante. – Talvez porque já não me ames! Pior: casaste comigo sem nunca me amar.

O homem ainda tenta falar – mas, dessa vez, nem as palavras involuntárias de antes lhe ocorrem. Como se obedecesse ao comando exclusivo dos olhos e ouvidos, ele apenas vê e escuta:

– Sou tua mulher e tua inimiga! Sonhaste em ser feliz a meu lado, mas de uma felicidade egoísta, feita de comodismo e quietude. Não pensaste em mim, em nenhum momento?!

E então, do mesmo modo brusco, bruto e inexplicável, ele se vê agarrado pelos cabelos e suspenso no ar, leve e indefeso. Examina então bem de perto aquele rosto enorme – que é de certa forma o de sua mulher, mas sem a suavidade e a simpatia costumeiras. Nota-lhe apenas – e se assusta – a expressão cruel de impassibilidade.

– Por que me encaras assim, pobre-diabo? Não é para mim que deves olhar, mas para teu próprio futuro!

Então, a um comando da mulher – que é e não é a sua – seus olhos se voltam para o convés, lá embaixo, onde até antes ele estava sentado. E, como a lógica já esteja mesmo abolida, ele vê a si mesmo sentado no banco, ao lado da mulher.

Parecem estar na mesma posição de antes, mas entre os dois se agita agora uma criança. É um pequeno garoto. Um filho, talvez.

(“Um filho?!”, pensa – e a idéia lhe soa apavorante, como tudo o mais na cena. Não apenas por ser irreal e fantástica, mas porque a paternidade nunca esteve de fato em seus planos.)

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Diante da cena apócrifa, ele se flagra pensando: no fim das contas, talvez não devesse sequer ter se casado. Além da intimidade invasora, típica do casamento, pesa-lhe o fato (sempre desconfiara disso) de que o amor rouba o tempo e a atenção que ele preferiria concentrar em seus próprios projetos.

– Que queres que eu veja? – ele pergunta afinal à mulher imensa, de voz clara e assombrosa.
– Coisas futuras, mortal! Coisas futuras!

Com uma pressa maior do que a do relâmpago, as tais “coisas futuras” começam a se desenrolar lá embaixo, no convés, fazendo de nosso personagem ao mesmo tempo protagonista e espectador incrédulo.

Primeiro, ele vê a si mesmo e à mulher avançando nos anos: vão envelhecendo aos saltos, em frações de segundos, enquanto o menino implausível cresce e ganha feições e trajes de adulto.

Mas, ao contrário de outros pais, que projetam nas crias a repetição ou prolongamento de sua própria história, ele repara que o rosto do filho – daquele que a cena insinua ser seu filho – está cada vez mais diferente de seu próprio rosto, e ao mesmo tempo progressivamente parecido com o rosto de alguém.

(Mas... com o rosto de quem?)

À incredulidade do início, vem então se somar uma sensação incômoda: serão seus olhos que o traem, ou a traidora seria afinal...?

Não chega a completar a pergunta, pois a resposta lhe vem da mesma forma rápida, quando nota que o filho suposto – tornado outra vez criança – lança um prolongado olhar na direção do homem sentado à sua frente. E eis que – outro salto brusco! – quando se dá conta, está de novo em sua própria pele, sentado no banco do convés, e que a imensa mulher-carranca voltou a ser apenas sua mulher.

Guiado pelo olhar infantil, ele observa o estranho, que lhe parece familiar – ou pior, estranhamente idêntico ao garoto. E assim, à medida que vai rapidamente crescendo de novo, como se os anos voltassem a transcorrer como segundos, o filho se parece mais e mais com esse estranho, até ao ponto em que, afinal igualados em idade, tornam-se o reflexo sinistro um do outro.

Nesse ponto, o medo e o cansaço triunfam sobre a curiosidade – e nosso pobre homem fecha os olhos e sente como se estivesse adormecendo...

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Na verdade, ele está acordando. Abre os olhos com cautela, temendo pelo que possa ver – mas agora se depara apenas com a figura franca e espantada da mulher (a sua mulher, simpática, atraente e a seu modo bonita), e também com o olhar curioso dos companheiros de viagem, que cercam com discrição o casal, e apenas observam.

Nosso homem sente um “medo difuso”, “um desconforto no estômago”, “boca amargosa”, “dores por todo o corpo”, “sonolência” – e será com essas palavras, por sinal, que ele mais tarde há de registrar o episódio infame em seu diário, consciente de haver passado por mais uma crise (das mais graves: gravíssima!) de seu “mal sem cura”, que nem para si mesmo jamais ousou chamar pelo nome, limitando-se a tratá-la como “aquelas coisas esquisitas”.

A mulher, que não tinha conhecimento desses males, e que nesse momento lhe acaricia a cabeça, ajuda-o a se sentar e lhe oferece com timidez e alguma cerimônia a dose necessária de tintura de La Royenne, que tinha encontrado no paletó do marido, enquanto ele delirava.

Com a elegância e o nó da gravata desfeitos, desnorteado como um adolescente que enfrentasse a primeira derrota em público, ele por fim encara a mulher com ternura e acanhamento, e constata – doce surpresa! – que ela lhe sorri.

E então, já não com a rapidez do relâmpago, mas com o máximo de agilidade moral permitida aos mortais do lado de cá do mistério, nosso homem conclui que, além da epilepsia de que sofre, sua definição de “coisas esquisitas” abrange também o amor, ou pelo menos o sentimento confuso que sente pela mulher.

– Tudo bem, Machadinho?
– Espero que sim, Carola. Já viste: precisamos conversar.
– Relaxa, agora: temos muito tempo pela frente! A vida toda, se quiseres.

Machadinho, ou antes, Machado de Assis – que a posteridade viria a aplaudir e respeitar ainda mais do que fizeram seus contemporâneos – olha afinal de frente para sua querida Carolina. De certa certa maneira, é como se a estivesse observando pela primeira vez.

(Se nela jamais pressentiu a chama candente das coristas e atrizes de sua juventude, reconhece agora a companheira capaz de lhe serenizar o espírito, para o exercício pleno da Literatura.)

A barca chega enfim a Mauá. Dali, nosso ilustre casal subirá a serra de trem, até Petrópolis – de onde retornarão, no dia seguinte, inevitavelmente transformados. Seria irresistível acompanhá-los em todo o passeio, saciando assim nossa vontade de aprender como se aplacam, afinal, os males da alma e se resolvem as pequenas tragicomédias humanas.

Mas vamos deixá-los sozinhos, leitor, já que têm tanto a assimilar em seus corações sensíveis e suas almas delicadas. Deixemos que enfrentem o drama em comum, e sobretudo os desafios inéditos do amor, que é sempre original e diverso.

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Numa página menos otimista, La Rochefoucauld dizia que só existe uma espécie de amor, mas são milhares as cópias. Desconhecedores dessa matriz ideal, Machado de Assis e Carolina descem da barca com suas respectivas versões, as melhores disponíveis.

Que fiquem a sós, portanto.

Ela, pronta para permitir que seu frágil amor se multiplique em mistério maternal, e se derrame sobre esse homem transfigurado no filho que – ela o soube, sempre – jamais haverão de ter. Ele, prestes a aprender a traduzir, em obras futuras, as idéias exóticas e as metáforas fortes que ali tiveram início.


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Arquivado em: ficção — postado por Antonio Fernando Borges em julho 27, 2007 às

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As portas do casarão batiam pela força do vento, ao fundo, e nunca nenhum de nós foi capaz de pensar: Elas batem por mim. Menos, ainda, de supor que um dia, afinal, elas seriam fechadas. O mundo era ainda um amontoado verde e confuso, feito de alguns alqueires de terra e muito trabalho duro. O trabalho era tudo. Até para o pai, que não precisava e (desde a morte da mãe) já nem tinha tanta saúde. Até ele, a seu modo, trabalhava duro, envolvido sempre com leituras, encontros, escritas.

Caminhando naquela manhã, entre Ralf e Lup, ao encontro do pai, eu não via ainda assim tão claro tudo isso. No fundo, não distinguia mais do que dois pontos, e nem tão exatos: o capim mal cortado, e a grande dúvida que nos cortava tanto ou mais do que o arame das cercas. Nossas roupas, simples e honestas, eram fruto da terra, lembrava sempre o pai, como eram da terra também o ensino e o alimento. Então, arrisquei ali, serão também da terra as nossas dúvidas?

É incrível lembrar que, mesmo com tantas coisas vivas ao redor, viver era então para nós pouco mais do que um punhado de palavras escrupulosamente estáticas, aprendidas, e com elas nossa infância fazia força para traduzir a realidade do mundo. Pouco acertávamos, claro, mas contávamos também com o auxílio generoso dos números. Graças a eles, sabíamos quase tudo, mas, acima de tudo, que éramos três (Ralf, Lup e eu), e que o par e o ímpar se alternavam sempre, naquela confusão de igualdades e diferenças de que o mundo era feito. Números trazem conforto, afinal. Conhecedor dos números, àquela altura, e de alguns fiapos de afeto, sentia-me então seguro de estar regularmente ali, de estarmos os três ali, sempre: Ralf, Lup e eu. E feliz, também, destilando a certeza de que pouco importaria a ordem em que outros nos enumerassem: fosse Lup, Ralf e eu, ou mesmo eu, Ralf e Lup, nada (quase nada) mudaria no nosso pequeno reino, hoje para sempre perdido.

Com as palavras, era diferente. Talvez agora, quando tudo no mundo se inclina para a indiferença e a igualdade, pareça mais fácil narrar o episódio – mas como custava, naquele tempo! Nomear o que nossa astúcia mirim precisava intuir, mais do que ver, foi sempre tarefa para deuses, não para garotos comuns. Exemplo? Aquela questão básica e sem fim a respeito da verdade.

A primeira vez que li a maldita palavra, aliás, foi apontando-a para o pai como um erro, impresso em garrafais na capa de um livro. Alguém pôs uma sílaba a mais no meio de 'verde', eu disse, conhecedor precoce das cores, senhor do verde ao redor, para receber então do pai a lição de que o sentimento ligado àquele nome valia muito mais do que o nome em si, e sua defesa pelos homens livres valia ainda mais do que o sentimento...

A Verdade é bela e perigosa, dizia o pai, acentuando a maiúscula, e então no meu Panteão particular, onde eu ia amontoando os seres de abstração que ele por dever me ensinava, ergui para o nome aprendido a mais bonita e sensual das estátuas. Nesse dia, a inocência se foi mais um pouco, em dose maior que a habitual, e sobretudo mais cedo, para os meus pequenos anos. Desde esse dia, a verdade vem sendo para mim, entre as virtudes maiores, a mais fêmea, com manhas e segredos. Desde esse dia, nunca mais fui o mesmo, em especial naquela manhã de vento, caminhando em busca do pai, rumo ao casarão.

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Ouvíamos as portas batendo e se aproximando de nós, embora a bem da sinistra (quer dizer, da Verdade) nós é que nos aproximávamos, mais e mais, do velho casarão. Ah, o tormento, naquele tempo como agora, de medir, azeitar e até maquiar as palavras – em nome dela, sempre, a palavra mais severa. Mas não pretendo impressionar ninguém fazendo crer que eu tinha, na época, tanta lucidez assim, e menos ainda que a tenho agora. Na época, tudo se passava entre alqueires de verde, puxões de orelha, suores noturnos, garranchos em cadernos pautados. Um casarão resistindo ao vento, e nós (Ralf, Lup e eu) tendo que resistir à tentação de fechar os olhos, mudar o sentido do mundo – numa palavra: mentir.

Que metro haverá de medir a distância entre a opinião e a mentira, entre a verdade e o fato? Certo é aquilo que coincide com a realidade, ou tudo nasce apenas da força de uma aspiração pessoal que se impõe, mais poderosa do que as outras? Não são perguntas de um trio de garotos, claro: são as de um homem que um dia (hoje) se lembraria delas, muitos anos mais tarde. Naquela manhã, em busca dos conselhos do pai, as dúvidas se resumiam a uma pergunta mal feita e a um fato gerado às custas de um jogo infantil, horas antes. Deitados no chão, os olhos atentos vasculhando as chances do céu, brincávamos de ver repetidas nas nuvens as formas simples que o mundo real produzia.

Hoje, qual de nós se arriscaria a dizer que o mundo é real? Naquelas manhãs de verde e azul, no entanto, o céu nos dava de presente a verdade quase exata de um cão, um carro de bois, dois perfis de mulher, um casal se abraçando. Ganhava o jogo aquele que, às custas de rapidez e da voz mais alta, apontasse primeiro um contorno preciso, visível aos olhos de todos. Mas um dia o brinquedo cedeu lugar ao pesadelo (quer dizer, a todo o resto) quando Lup apontou na matéria incerta lá no alto um carneiro que nem eu nem Ralf éramos capazes de enxergar.

Como não enxergam?!, indignava-se o caçula, e havia sincera verdade na voz: Como?! Vejam, ali. É um carneiro!! Deveria ser, ou por certo era, de fato. Mas o fato é que o ovino se negava a ser visto, ou talvez não estivéssemos investindo, dessa vez, o empenho de sempre. Brigamos, pela primeira vez naquele jogo, e a dúvida se fez desconfiança, na nossa imaginação inocente. O que era certo, afinal: aquilo que coincide com a realidade, ou o que nasce de um esforço pessoal mais forte do que o dos outros? Hoje, quando são outras as perguntas, e bem mais terríveis as respostas, sei que nada disso importa – mas naquela manhã a urgência da questão era o que nos movia, aflitos, na direção do casarão, cujas portas batiam e batiam, com a força do vento.

Havia um movimento inédito na sala da frente, e janelas e portas fechadas em excesso, mais do que as de costume. Vozes estranhas, masculinas, tentavam abafar a voz do pai, que falava como alguém que se defendia. Não era (hoje sei) para ficarmos sabendo, mas uma das portas laterais estava aberta e, por ela, pude ver aquilo.

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Era uma discussão incomum, parecida com a nossa, de pouco antes, só que sinistramente conduzida de outro modo. Nossos argumentos infantis ao menos tentavam ser racionais e sinceros, mas aqueles sete homens (de novo, a certeza dos números: eram sete) tratavam apenas de impor algo que todos apelidavam de Verdade, mas hoje sei que não passava de uma estátua mais falsa do que as deusas: a Opinião.

Era assim, ao menos, que o pai tentava nomear as coisas que o acuavam ali, no canto às escuras da sala, como um monstro de muitas garras e línguas maliciosas. Que importa essa tua resistência, Bert, se a verdade está conosco. Aceite: somos a maioria!, diziam os visitantes, de um modo maldoso e quase automático. A verdade confere com os fatos, gritava o pai, ela não é a mera soma de algumas opiniões. Nunca mais!, gritou alguém então, como um corvo, ou mais alto ainda, e acrescentou: Se tem sido assim, ou se foi assim algum dia, não vai ser mais, daqui pra frente.

Mas como é que vocês... Santo Deus!... A Verdade..., três vezes o pai tentou falar, com um pouco de filósofo e político, mas contra ele já se levantava a vontade violenta dos outros: A Verdade, Bert, é aquilo que expressa o desejo da maioria. Uma coisa mais prática e palpável, e quem sabe até mesmo mais justa. Só você insiste em não aceitar ainda, pobre Bert, e vai pagar caro por isso!

A certa altura, o medo pôde mais do que a curiosidade, e para continuar vivo (se é que alguém vive...) tratei de me distrair e, mesmo insistindo em olhar, tentei não entender profundamente a seqüência de gestos, que nem sei afinal quanto durou, mas lembro que incluiu o desconcerto do mundo, o sumiço do pai, além de uma busca imediata nas gavetas e a queima de papéis, muitos papéis, cadernos, documentos talvez, no fogo sempre aceso da lareira.

Tentei ainda aplacar meu desespero incerto, afastei Lup e Ralf, e fomos os três recuando para algum canto seguro e impossível. Então me lembrei de que tantas vezes o pai costumou animar a incerteza da nossa família dizendo que um dia, no fim dos tempos, a verdade seria afinal proclamada do alto dos telhados. Em vão. Estávamos, mais uma vez, no fim dos tempos, mas da chaminé da lareira, no alto do velho telhado, saía apenas a fumaça habitual, indiferente ao destino violento de umas tantas verdades queimadas.

Distraídos do Universo como sempre (numa palavra: mais felizes do que eu), Lup e Ralf pareciam não compreender direito o que se passava. Assim como não entenderam quando eu lhes disse, sem ânimo, com os olhos no céu e o indicador direito apontado na direção da fumaça: Lá se vão as velhas brincadeiras!, e até acrescentei: Lá se vai ela, a Verdade!...

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Metáfora triste, talvez, e concreta também, pelo menos ali: era Ela, afinal, era ela em pessoa. Uma Verdade àquela altura mais mulher do que nunca, perigosa e impudica, já sem a parte de cima da roupa, levada de vez pelo vento.