Tudo por Tão Pouco
,Perdidos o bule e a paciência, Ela parece outra por trás do balcão do velho salão de chá. Sabe que existem fregueses discretos, que por certo dispensam ser incomodados por comentários inconvenientes a respeito do tempo, da natureza dos erros, do sentido do mundo. Tudo que querem é um pouco de silêncio, café duplo com creme e alguns torrões possíveis de açúcar.
Mas Ela sabe também que há outros com quem de nada valerá ter cuidado. São os mais difíceis: sofrem com a falta definitiva do sol, são raros e exigentes, e inconfundivelmente tristes. É fácil reconhecê-los, pelo cigarro meio acesso no canto da boca e pelo sobretudo cáqui, quase um uniforme. Não chego portanto a me sentir disfarçado, de sobretudo, cigarro e sentado na mesa mais afastada do balcão, próximo à entrada e saída, longe das mesas lotadas por essa gente tola, sobrevivente dos tempos de desordem. Tudo apenas para que Ela tenha o máximo de trabalho quando vier me servir pessoalmente, como faz com todos os clientes difíceis.

Posso vê-La anotar com surpresa meu pedido, raro para os tempos que correm. Chá completo, legítimo e inglês, com creme espesso e biscoitos amanteigados de cacau. E, sobretudo, no fino bule de prata que integra a tradição indispensável da Casa: quem nele beber chá quente, diz a lenda publicitária nutrida pelos antigos donos, estará mais perto da Verdade e da Causa Certa — e a salvo, portanto, dos tribunais do Partido. Não creio em lendas, claro, mas tive outros motivos para fazer sumir o maldito bule. Um, sobretudo: fazê-La sofrer.
Já sem o bule e quase sem paciência, Ela retorna à minha mesa e inicia seu teatro amargo de explicações, pontuadas por "são tempos difíceis" e "o senhor sabe como andam as coisas". Claro que sei, e até já havia ensaiado de cabeça cada minuto da cena, ainda na presença do Mestre. E a reação me sai irretocável, e sua soberba e recém comprada casa de chá acaba reduzida a uma simplória espelunca freqüentada por vermes e desertores, que o meu indicador direito vai apontando, como detestáveis exemplos. A voz rascante, pouco disfarçada, trabalha para amplificar n’Ela a tensão. Porque é preciso que Ela "se vá" (um eufemismo do Mestre) sem nenhuma chance de repouso.
É preciso ser duro, mas sobretudo ser rápido, nesses tempos difíceis. Quando o Mestre decidiu que destino Ela teria, e que caberia a mim (logo a mim!) completá-lo, exigiu com sua firmeza tão típica que a ação fosse rápida, exata, inadiável: hoje, agora. Amanhã talvez já saiam jornais, mas ainda há uma longa faxina a promover para dar um pouco de ordem aos acontecimentos, à pouca luz de um sol que quase já não brilha há muitos meses. Tem que ser hoje, agora, senão os dias de sobretudo e cigarros também acabarão. O método de execução não varia: que o castigo seja para a vítima como um extremo cansaço, como o esgotamento que nasce de uma jornada estúpida de trabalho. São palavras e idéias do Mestre, mas poderiam ser minhas. Mas nunca iria tão longe, em crueldade e ironia: escolher logo a mim, para tamanho desconcerto.

Sem o bule, e já com pouquíssima paciência, Ela começa a pressentir que o equilíbrio que quase supôs possível está para se partir. Mas não sabe (é tola demais, sei que não sabe) da tragédia iminente. Parece outra, a cada vez que se distancia e retorna, ou some e reaparece por trás do balcão central, mas não há dúvida: é Ela, que pouco mudou nesses anos. A mesma dificuldade antiga de controlar o pânico, a fraqueza, enquanto procura o lendário bule, que um ganancioso Gómez da cozinha se encarregou de fazer sumir desde ontem, a um comando meu. Ferida em seu orgulho maior — a eficiência burguesa — ela parece outra, como uma fêmea comum em frangalhos, potranca ferida a suspirar por alguma eutanásia.
Mas há também simetria e requintes nas exigências do Mestre. Quer que tudo se passe de algum modo belo e notável, sem prosaísmo, de um jeito em que haja menos sangue que metáforas, como nos nossos clássicos. Por isso recrutou a mim, logo a mim, para vir romancear as horas finais Daquela que já não merece manchar, com sua existência, a sombra de tantos mortos. Detrás do balcão, já não parece apenas mudada: é mesmo outra, tão diferente dos tempos em que guerreamos do mesmo lado, antes que se transformasse em mais uma inimiga. Hoje é incapaz de perceber que tudo está por tão pouco. No que vier a sair amanhã nos jornais (se houver jornais, amanhã) há de faltar por certo o melhor: o romantismo da cena, seus olhos de assombro, seu medo. Será um texto sóbrio, didático, como há de convir para todo o sempre.
Passado tanto tempo, em lados tão opostos, é difícil lembrar-se de quem por fim arrastou o outro para suas armadilhas de idéias. Só lembro que nas horas de acasalamento, nas folgas entre as lutas, Ela era no fundo a mesma doce aristocrata que nunca mudaria, tentando polir meus gestos de guerreiro rude e apressado. E para que esse luxo, eu dizia, se estávamos ali (e estou aqui até hoje) para que o luxo justamente acabasse. Hoje os tempos ficaram mais difíceis, e chove sempre, e o alimento é escasso e suado.

Que outro momento seria mais adequadamente literário, como exigiu o Mestre? É agora: Ela se aproxima lenta e nervosa, trazendo pessoalmente a bandeja como uma linda trabalhadora qualquer. Sei que o chá virá ralo num bule plebeu, e os biscoitos serão poucos, e o creme precário e rançoso. Já estava previsto, não pela lenda, mas no estilo do Mestre. Ela continua se aproximando, sem nenhuma chance de descanso: tensíssima. Como merecem ser as castigadas, como quer o Partido, como mandam os nossos clássicos. Por que demorar-me mais no disparo único, cercado de metáforas? Olá, digo então, e forço a mesma voz antiga. Sei que passaram anos, envelheci — mas quem muda tanto, afinal, em tempos difíceis?
Ainda posso vê-La parada, com a bandeja na mão, para sempre sem atitude. Um único tiro, e tudo afinal desaba, numa mistura de corpo, caco, ruínas, bandeja. O resto é sair andando, sem pressa e sem piedade, como também está determinado pelo Mestre que comanda o nosso mundo sem saídas. Mas que acharia ele ao me ver distraído no trânsito vago, pelas ruas quase desertas, lamentando a certeza de que tudo esteja sempre por tão pouco? Amanhã talvez já não saiam os jornais, nem jamais alguém voltará a fazer biscoitos amanteigados de cacau como Ela, tão ótimos...
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