Em vez de ‘era uma vez…’: o final (ou quase um início?)

Último
Entre um gole e outro, Tomás Ortega, no salão da Confeitaria Colombo, prosseguia:
– Passei por uma longa e confusa convalescença numa clínica particular em Santo Antônio do Pinhal, para onde me levaram, e durante este tempo, que se estendeu por quatro meses, este ‘novo homem’ foi ocupando os espaços que antes pertenciam ao moço que tinha sofrido o acidente. Parece sobrenatural e absurdo? Sem dúvida, mas não se esqueça de acrescentar: parece divino, também.
“Sei que pessoas abusam da expressão, mas não é sempre que o milagre de ‘nascer de novo’ acontece com um de nós. Pois é: aconteceu comigo, e eu soube tirar proveito dessa lição. Instalei-me definitivamente em seu país, troquei São Paulo pelo Rio de Janeiro, e o espanhol original pelo português. Em pouco tempo, consegui um novo nome e uma nova identidade.
“Não me pergunte os detalhes, mas posso lhe garantir que me tornei uma pessoa mais sensata, mais gentil e acima de tudo mais justa do que o atrapalhado Tomás Ortega. Uma pessoa que se sente ainda melhor, agora que o acaso me deu a chance de agradecer a você. Por isso repito: você salvou minha vida. O agradecimento pode soar estranho, mas é verdadeiro. Muito obrigado."
O homem continuou falando, mas àquela altura eu já estava mergulhado numa confusão de sentimentos que me fez passar a noite em claro, e que continua doendo até agora. Era (que estou dizendo: é ainda) um coquetel explosivo de alívio, revolta e incerteza: alívio de descobrir que não tinha provocado a morte de ninguém; revolta por ter carregado uma culpa inútil por mais de vinte anos; e, acima de tudo, incerteza diante do que fazer com a notícia, que ainda não consegui definir (e não consigo ainda) se era boa ou ruim.
Enquanto o homem falava (e eu não sabia, nem sei, seu novo nome), eu ia refazendo as contas, cujas parcelas mais importantes eram minha carreira de músico arruinada, o trabalho forçado como jornalista e a culpa, vaga e insensata, de ter ajudado a matar alguém.
Tudo somado – e “noves fora” – restará para sempre a pergunta: para quem eu vou mandar a conta por toda essa trapalhada?
O homem sentado à minha frente no salão da Colombo – e cujo novo nome jamais saberei – continuava falando sem parar, num processo por certo bem parecido com o meu, de ajuste de contas. Mas, àquela altura, eu já não o escutava. Pior: eu já não tinha certeza se queria – ou conseguiria – ouvir o resto da estória. E para quê, se a estória tinha novamente chegado ao fim, vinte anos depois?
O homem falava, falava e falava – e só interrompeu a tagarelice quando eu pedi licença para ir ao banheiro. Mas não fui a banheiro nenhum, é claro: levantei-me, dei a volta no salão, entrei na cozinha e saí pela porta dos fundos, que dava para a rua lateral. E, para não correr o risco de esbarrar em mais alguém, tratei de pegar um táxi, corri para casa e passei a noite em claro, deitado, olhando para o teto.
* * *
Diante dos últimos acontecimentos, minha vizinha velha e traiçoeira – a solteirona egoísta que eu chamei de inspiração, lá no início – deve ter se mudado definitivamente de prédio, de bairro e até de cidade.
Por isso, em vez do “era uma vez...”, o máximo que consegui escrever foi este desabafo longo e apressado, em que nem sei se você vai acreditar. Mas não deixa de ser engraçado que, no fim das contas, o máximo que me ocorra por enquanto é lamentar que eu já não seja um “artista sonhador”, um jovem de talento, um menino-prodígio capaz de extrair, de toda essa comédia de erros, a estória que você me pediu...
* * * F I M * * *












