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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em setembro 01, 2007 às

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Último

Entre um gole e outro, Tomás Ortega, no salão da Confeitaria Colombo, prosseguia:

– Passei por uma longa e confusa convalescença numa clínica particular em Santo Antônio do Pinhal, para onde me levaram, e durante este tempo, que se estendeu por quatro meses, este ‘novo homem’ foi ocupando os espaços que antes pertenciam ao moço que tinha sofrido o acidente. Parece sobrenatural e absurdo? Sem dúvida, mas não se esqueça de acrescentar: parece divino, também.

“Sei que pessoas abusam da expressão, mas não é sempre que o milagre de ‘nascer de novo’ acontece com um de nós. Pois é: aconteceu comigo, e eu soube tirar proveito dessa lição. Instalei-me definitivamente em seu país, troquei São Paulo pelo Rio de Janeiro, e o espanhol original pelo português. Em pouco tempo, consegui um novo nome e uma nova identidade.

“Não me pergunte os detalhes, mas posso lhe garantir que me tornei uma pessoa mais sensata, mais gentil e acima de tudo mais justa do que o atrapalhado Tomás Ortega. Uma pessoa que se sente ainda melhor, agora que o acaso me deu a chance de agradecer a você. Por isso repito: você salvou minha vida. O agradecimento pode soar estranho, mas é verdadeiro. Muito obrigado."

O homem continuou falando, mas àquela altura eu já estava mergulhado numa confusão de sentimentos que me fez passar a noite em claro, e que continua doendo até agora. Era (que estou dizendo: é ainda) um coquetel explosivo de alívio, revolta e incerteza: alívio de descobrir que não tinha provocado a morte de ninguém; revolta por ter carregado uma culpa inútil por mais de vinte anos; e, acima de tudo, incerteza diante do que fazer com a notícia, que ainda não consegui definir (e não consigo ainda) se era boa ou ruim.

Enquanto o homem falava (e eu não sabia, nem sei, seu novo nome), eu ia refazendo as contas, cujas parcelas mais importantes eram minha carreira de músico arruinada, o trabalho forçado como jornalista e a culpa, vaga e insensata, de ter ajudado a matar alguém.

Tudo somado – e “noves fora” – restará para sempre a pergunta: para quem eu vou mandar a conta por toda essa trapalhada?

O homem sentado à minha frente no salão da Colombo – e cujo novo nome jamais saberei – continuava falando sem parar, num processo por certo bem parecido com o meu, de ajuste de contas. Mas, àquela altura, eu já não o escutava. Pior: eu já não tinha certeza se queria – ou conseguiria – ouvir o resto da estória. E para quê, se a estória tinha novamente chegado ao fim, vinte anos depois?

O homem falava, falava e falava – e só interrompeu a tagarelice quando eu pedi licença para ir ao banheiro. Mas não fui a banheiro nenhum, é claro: levantei-me, dei a volta no salão, entrei na cozinha e saí pela porta dos fundos, que dava para a rua lateral. E, para não correr o risco de esbarrar em mais alguém, tratei de pegar um táxi, corri para casa e passei a noite em claro, deitado, olhando para o teto.

* * *

Diante dos últimos acontecimentos, minha vizinha velha e traiçoeira – a solteirona egoísta que eu chamei de inspiração, lá no início – deve ter se mudado definitivamente de prédio, de bairro e até de cidade.

Por isso, em vez do “era uma vez...”, o máximo que consegui escrever foi este desabafo longo e apressado, em que nem sei se você vai acreditar. Mas não deixa de ser engraçado que, no fim das contas, o máximo que me ocorra por enquanto é lamentar que eu já não seja um “artista sonhador”, um jovem de talento, um menino-prodígio capaz de extrair, de toda essa comédia de erros, a estória que você me pediu...


* * * F I M * * *



Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 31, 2007 às

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Capítulo Sete

– Você... é aquele moço que salvou minha vida!

Ortega parecia surpreso e um pouco desconfortável em me reencontrar. Mas partiu dele o convite para tomarmos um café (eram quatro da tarde) na Confeitaria Colombo, a três quarteirões dali. Naquele ambiente, que balança entre a decadência e o luxo, escutei (atento e incrédulo) a história do moço, que já não era um moço, já não tinha sotaque espanhol e não se chamava mais Tomás Ortega.

Resumo de memória suas palavras, mas sei que a memória é eterna, como uma velha centenária ou um castigo implacável:

– É estranho que só agora aconteça este encontro, que ao longo dos anos eu fantasiei tantas vezes. Sabia que era quase impossível, embora ao mesmo tempo me parecesse inevitável, como em qualquer destino. Só não imaginava que fosse demorar tanto assim, e que viesse a acontecer logo agora, quando eu já estava resignado ao esquecimento.

“Agora a memória traz tudo de volta: o susto do acidente, a maravilha da queda em pleno céu, o mergulho sem fim naquela piscina de galhos, folhas e espinhos, a dor da perna partida, os braços arranhados, a incompetência de uma possível equipe de salvamento, o socorro que acabou se resumindo à ajuda de dois jovens alpinistas, que me levaram numa padiola improvisada até o povoado mais próximo.

“Tudo isso parece que aconteceu numa época tempo remota – uma época de raros computadores, telefonia precária e sem celulares, mas acima de tudo uma época em que eu ainda me chamava Tomás Ortega, um jovem argentino assustado com a própria sombra e que escondia isso à custa de uma simpatia eloqüente e do hábito de bancar o inofensivo turista.

“Naquele tempo, na verdade, eu estava fugindo de quase tudo, inclusive de uma voz dentro de mim que me intimava a retornar a Buenos Aires, para enfrentar minhas dívidas e um eventual castigo. Eu tinha entrado clandestino no Brasil, com um punhado de dólares no bolso e nenhuma perspectiva, a não ser aquela idéia teimosa de fuga.”

Entre um gole e outro, o homem prosseguia:

– Naquele dia, o dia da grande mudança, eu estava em Campos de Jordão por acaso, depois de ter tomado o ônibus errado em São Paulo, onde eu morava na época. Na verdade, eu queria ir para Campinas, já não me lembro por quê, mas na agitação daquela rodoviária enorme, e com medo de não consegui disfarçar o sotaque, apontei o nome da cidade no painel e estendi o dinheiro para a moça do guichê das passagens.

“Ela por certo entendeu errado e eu nem reparei, preocupado em não errar o número da plataforma. Foi assim, de erro em erro, que eu fui parar em Campos de Jordão – e, atordoado pelo engano, acabei arrastado pelo acaso para aquela estação de teleférico. Esta parte da estória você conhece: minha inquietação disfarçada em eloqüência, que você traduziu em ansiedade de subir até o topo e, num gesto de gentileza, cedeu sua vez, quem sabe para se livrar daquele moço agitado que insistia em puxar conversa, embora o vocabulário em português fosse pequeno e a tentativa de disfarçar o sotaque resultasse inútil.

“Quando a engrenagem cedeu e minha cadeira se desprendeu do cabo de aço, aquilo que sempre me pareceu um clichê dos piores romances se mostrou ali mais do que real: vi minha vida passar em resumo, exatamente assim, como num filme acelerado. Pensei: dessa, não escapo vivo. Pensei: se escapar, vou me tornar outra pessoa. Acabei escapando, como você pode ver, mas a pessoa que sobreviveu ao acidente já não se parecia tanto com o Tomás Ortega que tinha saído às pressas de Buenos Aires, afogado em dívidas e problemas...”

CONTINUA...
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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 30, 2007 às

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Capítulo Seis

Desanimado e confuso, sem ânimo de voltar para casa: nesse estado de espírito, vaguei pelas ruas do Centro, distraído e infeliz.

Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo, também andava por aquela mesma área e, à falta de um consolo maior, fez com que eu dobrasse determinada esquina mais desatento do que de costume, e esbarrasse em cheio num desconhecido – que, para meu espanto, não era tão desconhecido assim.

(Você não precisa acreditar, meu caro Editor – mas, se você preferir, acredite: era Ortega. Tomás Ortega. Em pessoa.)

Foi uma dessas malditas coincidências que a maioria dos mortais pensa serem exclusivas da literatura, quando na verdade elas acontecem apenas na vida real. O mal da literatura (alguém já disse) é que ela faz sentido demais, ao passo que a realidade nunca faz sentido.

Por conta disso, eu nunca poderia incluir numa estória – a estória que você me pediu, por exemplo – a cena absurda de meu reencontro com Ortega e a igualmente absurda explicação que ele me deu.

O rapaz já não era um rapaz: estava previsivelmente mais velho duas décadas, e mancava da perna direita – detalhe que despertou em mim uma culpa estranha, maior do que a de ter provocado sua morte, como se aquele defeito físico pudesse ser um fardo ainda mais pesado do que o de ter morrido.

Mas o mais absurdo de tudo – e que tornava tudo aquilo estranhamente mais real – é que ele tinha perdido qualquer vestígio de sotaque. Por sinal, foi a primeira coisa que eu notei, assim que ele tratou de quebrar o silêncio que se seguiu ao nosso encontrão.

E o que ele disse, por irreal que pareça, foi:

– Você... é aquele moço que salvou minha vida!

Deus do céu! Ele falou aquilo sem nenhuma ironia, sem vestígios de qualquer inflexão mais ferina. A frase soou tão sem nexo que cheguei a pensar: se aquele homem era realmente Ortega, a queda do teleférico tinha – no mínimo – danificado seu juízo.

Mas não: foi um homem lúcido e bem mais tranqüilo do que o jovem de vinte anos atrás (e que agora já não se chamava Tomás Ortega) quem me deu as devidas explicações, reencaixando as peças de uma charada que eu supunha resolvida em Campos de Jordão.


CONTINUA...



Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 29, 2007 às

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Capítulo Cinco

Tratei de esquecer (mas em vão) o nome, o rosto e até o sotaque de Tomás Ortega! Mas o esquecimento levou junto também a música e todo o resto.

Bloqueio psicológico: foi este o nome e a explicação que as pessoas encontraram para o meu inexplicável divórcio da carreira que estava ainda em ascensão.

Francamente! Passados mais de vinte anos, pouco importam as explicações e os nomes, ou mesmo a ordem dos fatores: tudo somado, o fato é que abandonei não apenas a música, mas também a cidade de São Paulo, e vim para o Rio de Janeiro, onde me haviam acenado com a chance de um emprego como redator num grande jornal.

Tirei o diploma da gaveta, fiz as malas, desisti de ser “artista”... e o resto da estória você conhece, porque fez e faz parte dela. Mesmo detestando o trabalho cinzento, e sobretudo a companhia ruidosa e prosaica de tantos “coleguinhas” insensíveis, acabei tomando gosto pelas palavras e até arrisquei alguns textos literários, ganhando aos poucos na redação a fama de literato e a alcunha levemente pejorativa de Poetinha.

Ao prosaísmo da imprensa, no entanto, nunca me adaptei – e, logo que pude, abandonei o ofício a tal ponto que passei os últimos anos (e não têm sido poucos) sem sequer ler jornais. Para escrever textos, discursos e monografias que outros assinam, já não careço de atualizações jornalísticas e assim fui passando muito bem, obrigado.

Agora, por certo, você vai entender por que eu não demonstrei grandes entusiasmos diante de seu convite para participar da Antologia de estórias que tivessem “alguma coisa a ver com jornalismo e jornal”, como você disse.

Mais do que um chamado à literatura, um “empurrãozinho na carreira de escritor” (como você também disse), aquilo era um amargo bilhete para uma viagem de volta ao passado. Mas, por alguma outra “inexplicável razão”, não consegui recusar – mais uma vez, o dedo do destino...

Resumo da ópera: folheando temerariamente o nosso antigo jornal, em busca do paradeiro de Dona Inspiração, deparei-me com a foto, e com aquela suspeita crucial de que Tomás Ortega afinal não tinha chegado a morrer no acidente – ou, no mínimo, teria um sósia ou um parente bem parecido com ele.

Fingir que não houve nada? Atribuir a semelhança ao cansaço ou a um resquício possível de culpa? Ir atrás de “explicações urgentes”, mesmo que com vinte anos de atraso? Não sei o que você faria, meu caro Editor. Sei o que eu fiz: apelando para antigos contatos na redação do jornal, localizei o repórter e o fotógrafo da matéria.

Minha esperança era que, entre o material não usado na edição final, houvesse outras fotos onde eu pudesse verificar, com mais clareza, se aquele era, ou não, o fantasma de Ortega em carne e osso.

Por sorte, as fotos existiam: ontem à tarde, sentado na mesa dos fundos do velho botequim que nossa geração chamava de Sucursal (controle a nostalgia: ninguém mais parece se lembrar deste apelido), explorei cada centímetro das duas ampliações que o fotógrafo da matéria me cedeu, meio desconfiado.

Pouco a pouco, uma certeza tomou conta de mim, junto com o cansaço: aquele era realmente o homem que eu tinha gentilmente condenado a morrer em meu lugar. Imagino que nenhum ser humano vá esquecer o rosto de alguém que acidentalmente matou.

Mas, na base dessa convicção, vinha instalada uma dúvida: para quê eu iria remexer num passado enterrado mais de vinte anos atrás? Afinal, se Ortega permanecia insepulto, minha carreira de músico já tinha – biblicamente – retornado ao pó.

Se esta fosse uma estória de mistério – como você devia estar esperando que eu escrevesse –, eu bem poderia dizer que decidi mergulhar nesse enigma para o decifrar antes que ele me devorasse. Pena que isto não seja literatura – ai de mim! –, mas a história de minha vida, ou pelo menos o que sobrou dela.

O máximo que posso dizer é que saí do bar desanimado e confuso, sem ânimo de voltar para casa. As imagens do acidente de Ortega (a cadeira do teleférico dando cambalhotas, o Bosque do Capivari engolindo seu corpo e os gritos e o choro dos outros passageiros, ao voltarem de marcha a ré para a estação) retornaram com uma nitidez que os últimos anos tinham cuidado de apagar.

CONTINUA...
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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 28, 2007 às

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Capítulo Quatro

Até que no quarto dia (era uma quinta-feira) uma mudança nunca inteiramente explicada na programação transferiu nossa apresentação para o horário da noite, deixando-nos com a tarde livre para descansar, ensaiar ou praticar esse lazer tedioso chamado turismo.

Meus companheiros de quarteto optaram por descansar na piscina aquecida do Hotel, mas eu – ai de mim! – preferi arriscar um passeio pela cidade e, vagando sem planos, cedi à tentação de “tirar os pés do chão”, como convidava o cartaz em frente ao Terminal Teleférico, que levava do Capivari ao topo do Morro do Elefante – “de onde o visitante poderá apreciar a cidade a 1.700 metros de altitude”.

Não é engraçado que eu ainda me lembre de tantas minúcias, depois de ter passado vinte anos tentando esquecer? Pois é: a memória também é uma vizinha velha e traiçoeira, comadre de “Dona Inspiração” – só que (ao contrário da outra) costuma tocar a campainha nas horas mais impróprias, e quase sempre sem ter sido convidada.

É “Dona Memória”, por certo, quem mantém a cena viva até hoje: a longa fila de turistas, a lentidão dos funcionários das bilheterias, a pequena multidão que ia se aglomerando na plataforma, um punhado de turistas ansiosos para se instalarem numa das cadeiras individuais e começar a subida.

Lembro-me (voltei a me lembrar) de tudo isso, mas me lembro principalmente da conversa que mantive com aquele rapaz de sotaque e sobrenome espanhóis que foi logo se apresentando: Tomás Ortega.

Parecia inquieto, talvez aflito para conhecer a cidade do alto do morro, porque tentou alterar várias vezes a ordem de subida. Pela ordem das senhas distribuídas, ele “ganharia sua cadeira” logo depois de mim – ou pelo menos foi o que prometeu o mal-humorado funcionário que tentava organizar aquele empurra-empurra.

Talvez imbuído pelo dever da hospitalidade, cedi minha vez ao agitado Ortega, que aceitou agradecido minha oferta simpática, mas efetivamente inútil: afinal, ele viria logo atrás. Na prática, trocamos apenas de cadeira, embora aquela mudança tenha sido fatal para Tomás Ortega.

Quando atingíamos a altura de uns quinhentos metros, passando por cima do Bosque dos Pinheirais do Capivari (foi o que os jornais de São Paulo disseram, no dia seguinte), aconteceu: meus olhos incrédulos viram a cadeira do jovem de sotaque e sobrenome espanhóis – e que, pela ordem natural, teria sido a minha cadeira – começar a se desprender do cabo de aço que ia conduzindo os turistas para o topo do Morro do Elefante, e despencar num abismo de árvores, lá embaixo. Quando o mecanismo que movimentava o cabo de aço finalmente parou e começou a dar marcha a ré, eu já estava de olhos fechados e agarrado à cadeira.

O acaso é um deus e um diabo ao mesmo tempo – mas é, de qualquer forma, a deliberação de alguma vontade insondável.

Minha gentileza fortuita, ao ceder a vez, tinha se transformado bruscamente em sentença de morte para o moço de sobrenome e sotaque espanhóis. O alívio de ter escapado do acidente não reduzia minha parcela de culpa em sua desgraça – que, apesar de involuntária, nem por isso era menos real. Saí dali às pressas, torcendo para não ser abordado por nenhuma autoridade ou repórter interessado no meu testemunho.

Quando cheguei ao hotel, tranquei-me no quarto e me atirei na cama, definitivamente confuso e deprimido.

Não contei nada a meus companheiros de quarteto. Mas fiz muito pior: não consegui tocar naquela noite, nem nas tardes que ainda faltavam para concluir a temporada.

Na verdade, não consegui tocar nunca mais: desconhecedores felizes daquele monstruoso sentimento de culpa que me instalou em mim, meus implacáveis companheiros de quarteto me voltaram as costas ali mesmo, a ponto de anunciarem que eu seria facilmente substituído, para as temporadas seguintes.

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Retornei a São Paulo sozinho, na noite seguinte, abrindo mão de minha parte nos cachês e reprimindo a curiosidade de conhecer os detalhes da tragédia que tinha arrastado aquele pobre-diabo em meu lugar. Passei duas semanas sem folhear jornais ou ligar a TV, para não cair na tentação de conhecer qualquer detalhe sobre o acidente.

Tratei de esquecer (mas em vão, é claro) o nome, o rosto e até o sotaque de Tomás Ortega!

CONTINUA...



Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 27, 2007 às

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Capítulo Três

Os gregos costumavam dizer (ou não foram eles?) que a música é a mais terrível das artes, porque é a única que nos atinge até de olhos fechados. O gosto pode variar, mas ninguém se livra da música, depois de capturado por ela.

Comigo, aconteceu na infância: eu assistia a um desenho animado sobre o Flautista de Hamelin (o tal que livrava a cidade dos ratos com o poder encantatório da música) e em pouco tempo o mais encantado era eu.

Claro que esse encantamento me ajudou a convencer a família a patrocinar para mim a melhor flauta Sky prateada e aulas quase diárias no Conservatório de São Paulo. Mas, como não existe o proverbial “almoço grátis”, paguei um preço alto por isso: ficou combinado que eu teria que fazer uma Faculdade, e ter um diploma de “profissão de gente”.

Mesmo sem paciência para qualquer estudo ou treinamento que não estivesse relacionado à música, engoli em seco e aceitei – e, quando a hora chegou, optei pela Faculdade de Comunicação, então recém-criada, e que eu intuía ser uma das mais fáceis. Não estava errado.

Fui péssimo aluno, é claro – embora não muito pior do que a média dos colegas, ou mesmo do que alguns professores. Na verdade, eu estava pouco me importando: só tinha cabeça para a música, e faltava com prazer àquelas aulas insuportáveis para cumprir a animada agenda de concertos do conjunto de câmara que eu integrava.

Quando afinal, e a duras penas, me formei jornalista, eu já podia ser considerado um músico profissional, ganhando o suficiente para pagar minhas contas e nutrir meus planos modestos de futuro. Para a família, no entanto, eu era apenas mais “um artista sonhador”, cidadão pouco útil à sociedade – por mais que meu velho pai adorasse exibir aos amigos a revista em que eu aparecia, ao lado de meus companheiros do quarteto, recebendo os elogios mais rasgados de algum crítico.

Engavetei o diploma, sem desconfiar de que ele viria a ser útil um dia, quando já fosse tarde demais para eu continuar sendo músico, depois de ter continuado imerecidamente vivo - enquanto um pobre-diabo morria em meu lugar!

Não fiz uma carreira musical das mais longas, mas descrevê-la aqui exigiria mais do que este bilhete – que, aliás, já está se alongando demais.

Ponhamos apenas, então, que eu tinha quase vencido como músico e que quando recebemos o convite para fazer uma série de cinco recitais no Festival de Inverno de Campos de Jordão, respirei fundo, olhei nos olhos meus companheiros de conjunto e vaticinei:

“Pronto! Agora vai acontecer!”

E aconteceu, mesmo – embora não exatamente do jeito como eu esperava.

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As três primeiras vesperais ocorreram sem transtornos – e também quase sem platéia. O público escasso podia atingir nossa bem-intencionada vaidade, mas não chegava a incomodar nosso saldo bancário: os régios cachês, subsidiados, não dependiam do resultado da bilheteria.

Em suma, tudo parecia sugerir um horizonte promissor para quatro jovens músicos que prescindiam do “aplauso dos incultos”. Até que, no quarto dia...

CONTINUA...
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Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 26, 2007 às

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Capítulo Dois

Ortega. Tomás Ortega. Você nunca me ouviu pronunciar este nome. Pudera: quando eu e você nos conhecemos, em meados dos oitenta, na redação do jornal, fazia menos de um ano que eu tinha chegado à cidade, trazendo na mala a culpa de estar vivo, enquanto um pobre-diabo tinha morrido em meu lugar.

Ou, pelo menos, era isso o que eu pensava que tinha acontecido durante naquela maldita temporada em Campos de Jordão, cerca de vinte anos atrás. E agora aquela foto recentíssima no jornal de anteontem trouxe tudo de volta. Menos, é claro, a chance de tocar flauta outra vez.

Eis outra coisa que você nunca chegou a saber a meu respeito: eu era músico – e, até um ano antes de me mudar para esta cidade, tinha feito carreira como flautista de um conjunto de câmara, com esforçado sucesso e algum reconhecimento da crítica. Um jovem de talento, o menino-prodígio dos metais que desde os 21 anos tinha aposentado o diploma inútil de Comunicação para se dedicar a uma profissão que, em termos de rendimentos, conseguia ser ainda mais precária do que a de jornalista.

No entanto, foi tocando em teatros, estúdios e festivais de inverno pelo continente a fora que eu consegui me afinar – literalmente – com um estado de espírito bastante parecido com a satisfação: um sentimento, por sinal, que jamais consegui sentir no trabalho estafante de “pentear” matérias de repórteres iletrados e lhes arranjar um título ao mesmo tempo atraente e discreto e, acima de tudo, que coubesse no espaço determinado tiranicamente pelo diagramador.

Para quem já tinha encantado platéias seletas, aquilo era a ante-sala do inferno, levando-me a desconfiar vagamente de que, no fundo, quem tinha morrido mesmo era eu.

Agora você há de entender, mas naquela época você estranhava meu comportamento, tão diferente da euforia dos coleguinhas em volta, que pareciam se dividir entre o sentido militaresco do dever e a vaidade de estar exercendo uma profissão afinal glamourosa. De sua velha mesa tão próxima à minha, você devia se perguntar, de vez em quando, o que diabos eu estaria fazendo ali?

Pelo menos foi essa a impressão que eu tive quando você me convidou para um cafezinho, no intervalo entre o primeiro e o segundo clichê. Objetivo e sem maiores rodeios, você me estendeu os braços abertos da amizade, e ganhou minha confiança, quando fez aquela pergunta que – mais do que uma pergunta – era uma diagnose completa:

– Como é que você agüenta esta loucura, se está na cara que você não gosta?

Depois você ficou em silêncio (lembra?) e parecia instantaneamente arrependido de não ter conseguido conter a curiosidade. Sua cara constrangida só encontrava equivalente na minha própria expressão angustiada, que eu não conseguia esconder, por motivos que você vai entender agora: eu suportava aquela loucura para fugir de uma loucura ainda maior que carregava comigo.

Mas, naquela época, eu não podia contar. E não que eu não confiasse em você: é que contar quase sempre significa lembrar – e tudo o que eu queria era esquecer o pesadelo, ainda tão recente.

Um pesadelo que demorei muito a esquecer, e que acabei esquecendo, mas que agora (quer dizer, desde anteontem) retornou pelo avesso.

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CONTINUA...



Arquivado em: folhetim — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 25, 2007 às

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Capítulo Um

Meu caro editor: a inspiração é mesmo uma velha vizinha traiçoeira: parece estar sempre por perto, mas nunca – na hora H – podemos contar com ela.

Bastou você me pedir que escrevesse uma estória para a sua Antologia e a megera fez as malas e partiu, no silêncio de uma tarde quente de dezembro – e agora, já final de janeiro, ainda não mandou notícias, deixando-me assim, desamparado, a ponto de andar cometendo os atos mais imprudentes. Ler jornais, por exemplo.

E olhe que a velha bruxa andou falando tão alto, ultimamente, que eu cheguei a pensar que fosse comigo. Pelo visto, não era: estava apenas remoendo sozinha suas mágoas e moedas, como qualquer solteirona egoísta.

Não: nem pense que eu vá ficar pegando carona e abusando de uma pobre metáfora como esta, para afinal simular uma estória e – em vez do tradicional “era uma vez...” – preencher folhas a fio com meus conflitos de autor. Seria um truque fácil demais e, moralmente, a saída mais cínica para não ter que dar explicações. Mas, como a sinceridade prescinde desses arranjos, não tenho nenhum pudor em confessar: os dias foram passando, passaram-se – e cadê a estória?

Cheguei a me aferrar à desculpa de que o tema não ajudava (“Alguma coisa a ver com jornalismo e jornal”, você me disse). Faz tempo, afinal, que abandonei o jornalismo, e da antiga militância em redações guardo apenas lembranças quase traumáticas daqueles plantões extenuantes, meio histéricos – e tudo para quê? Para forrar gaiolas de passarinhos no dia seguinte, ou embrulhar robalos na feira livre, dois dias depois.

Foi justamente para me afastar de vez deste sentimento de inutilidade que tomei a medida (absurda para muitos, decisiva para mim) de nunca mais ler jornais: afinal, além de inúteis, eles roubam nossas melhores horas de leitura e ainda sujam os dedos – sem falar no péssimo hábito de irem amarelando empilhados num canto bem visível da sala.

Graças a essa medida profilática, tratei de manter o espírito a salvo, mergulhado nos clássicos. Posso lhe dizer que deu certo – e lá se vão uns bons anos! –, enquanto durou. Quer dizer: até anteontem.

Está na moda o expediente de começar uma estória dizendo que tudo aconteceu por acaso, à revelia da vontade de quem conta. Avesso a qualquer espécie de modismo, não posso no entanto negar: tudo me aconteceu assim mesmo, por acaso, e foi à revelia de minha vontade que folheei aquele jornal e acabei dando de cara com a foto implacável.

A legenda, protocolar, não identificava ninguém – na verdade, era apenas um instantâneo banal, ilustrando matéria sobre o tumulto na venda de ingressos para o show do U2, na semana passada. Ele sequer estava na fila: simplesmente passava por ali, na hora em que o fotógrafo disparou. Mas, apesar de estar quase de perfil, e num segundo plano, e a passagem dos anos, na hora eu não tive dúvida: era ele.

Era Ortega.

Só o que escapava à rotina do jornalismo era o detalhe de que (até prova em contrário) Ortega está morto há mais de vinte anos, e que (até prova em contrário, também) eu tinha sido o agente de sua morte!

CONTINUA...
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