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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 24, 2008 às
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Alguém pode me explicar o que está acontecendo com o blogue português O Insurgente?

Tudo indica que Portugal está em chamas! Eu, hein?!

Bem que tinham me avisado que o mundo não ia acabar pelo fogo, mas numa grande onda vermelha!!

Melhor ir botando as barbas de molho...

(Eu disse "barbas"? Sorry, foi mal...)



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 19, 2008 às
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Não conheço nenhuma pessoa normal que tenha lido e gostado dos romances de Alain Robbe-Grillet, falecido na noite do último domingo. Aliás, não conheço nenhuma pessoa normal que tenha sequer lido seus livros, todos dedicados a negar os princípios mais elementares da sintaxe e (sobretudo) da lógica, em nome da arrogância demiúrgica de estar inventando... um "Novo Romance".

Claro que, aqui e no exterior, escritores (e aprendizes de) já se debruçaram sobre a obra em questão -- e muitos até se deixaram influenciar por ela. Mas estes não contam. Escritores, afinal, não são pessoas "normais"...

A aridez da literatura de Robbe-Grillet & Cia. faz tanto mal à literatura quanto o concretismo à poesia e Samuel Beckett ao teatro. São obras que não abrem novas possibilidades, mas anunciam o impasse e o fim-da-linha.

(Para ter uma boa idéia desse "estrago", basta ler os romances do argentino Julio Cortázar, depois que ele se exilou na França: Rayuela, 62-Modelo para armar e Libro de Manuel -- todos escritos sob o impacto de "Papa" Robbe-Grillet.)

Descanse em paz, é claro... Mas, por favor: nada de fabricarem outro gênio post-mortem. O silêncio, muitas vezes, é a melhor crítica literária.



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 13, 2008 às

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Meu querido amigo Bruno Garschagen, mistura fina de gentleman e jornalista, anda fazendo muita falta por aqui.

Auto-exilado em Lisboa, onde cursa o mestrado de ciência política na Universidade Católica, ele se tornou um claro exemplo daquilo que o Brasil-País-de-Todos tem a oferecer a quem deseja realmente estudar e aprender – e não simplesmente comprar a prestações um diploma de dotô.

A saída, no caso, tem sido uma só: o aeroporto internacional mais próximo.

A saudade de Bruno, que é constante, tornou-se mais aguda por estes dias. Ao me ouvir criticar, numa roda de amigos, o lamentável estado intelectual de nossas universidades, um rapaz simpático, amigo da anfitriã (nada de nomes!), se ofereceu para mudar minha opinião – para ele, “injusta e genérica demais".

Tentei declinar de tamanha "honraria" – mas, dias depois, eu recebia a maçaroca por e-mail: uma monografia de fim de curso, numa cadeira de Letras. Inacreditável! E, segundo informações, ele é um dos melhores alunos de sua Universidade. Se estivesse por aqui, meu caro Bruno me ajudaria a dar boas risadas.

Para poupar o leitor, reproduzo apenas o trecho final:


"Esse trabalho se propôs a estudar a peça Fim de Partida, de Samuel Beckett, a partir de uma perspectiva do corpo, descobrindo-o como um corpo indefinido em si mesmo, pelo mundo, pela linguagem e pela história.

O autor do trabalho reconhece que uma figura importantíssima de reconhecimento desses corpos ficou esquecida: o leitor e o espectador. Como únicos espelhos possíveis do mundo de Fim de Partida, cabe aos leitores (e aos futuros leitores) não encerrar esses corpos em uma lógica exata e em uma leitura fechada. Este trabalho tentou dar a sua contribuição nesse sentido.

Também cabe aos leitores não reconhecer esses corpos como ridículos ou risíveis, pois não é de outro mundo que Beckett está falando, senão este aqui. E, se os personagens e o mundo de Beckett são naturalmente debilitados, pior ainda seria este mundo, o qual na plenitude de suas capacidades e potencialidades insiste em se autodebilitar, se autocorroer e se autodestruir.”

Ual! Pensando bem: quando é que sai o próximo avião para Lisboa?



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em janeiro 27, 2008 às

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Que Casa do Saber, que nada!

Para quem mora em São Paulo ou tem condições de ir até lá, a pedida cultural (no sentido pleno, não no de mero “entretenimento”) é investir na Programação 2008 do Departamento de Humanidades do IICS – o Instituto Internacional de Ciências Sociais, na capital paulista.

A missão pedagógica do Instituto é formar pessoas capazes de dialogar com os grandes mestres de todas as épocas e de todas as culturas, em uma abertura intelectual baseada no sólido conhecimento da realidade e dos valores individuais.

Sob a coordenação de Martim Vasques da Cunha, a proposta do departamento – inspirada no Platão de A República – é discutir, não temas comuns, “mas o modo de levar uma vida justa".

Alguma coisa está começando a mudar no Brasil -- e você pode participar desta mudança, além de ficar navegando na Internet.

Vale a pena conferir – aqui – a programação completa de cursos, palestras e seminários para 2008.



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 13, 2007 às

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A defesa intransigente e implacável da liberdade (que este escriba assina embaixo) acaba de ganhar um reforço de peso, com o lançamento do site OrdemLivre.

Trata-se de uma organização não-governamental sem qualquer vínculo partidário, fundada sobre os princípios de liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado. Tudo isso com a chancela do Cato Institute -- quem não sabe, vá até lá para descobrir...

Vão conferir, urgente! Mas voltem sempre, ok?



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em dezembro 08, 2007 às

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Leitores assíduos e fiéis sabem que este site não costuma publicar resenhas sobre lançamentos literários, preferindo um diálogo mais proveitoso com os clássicos. Mas nada impede que ele, volta e meia, abra exceção para divulgar alguma novidade editorial -- principalmente quando esta novidade se propõe dialogar com os clássicos.

Numa época em que a idéia de intimidade vai perdendo espaço para o coletivismo forçado das cidades modernas, e em que já se põe em cheque o próprio conceito de livro (mais do que o objeto em si), A Intimidade e os Livros, de J. Ernesto Ceschim, ajuda a renovar todas as coisas, ao menos em matéria de Literatura.

Dizer que se trata de um "livro borgeano" corre o risco de inserir o livro e seu autor numa galeria de imitadores e discípulos -- na qual eu mesmo costumo ser atirado, tantas e tantas vezes. Preferível dizer que o livro de J. Ernesto Ceschim ajuda a Literatura a avançar, na medida em que oferece, a leitores e escritores, um conjunto riquíssimo de reflexões sobre a arte de contar e ler histórias.

(E -- o que é mais importante -- reflete sobre a ficção no único território propício: a própria ficção.)

Identidades falsas, imposturas, segredos e labirintos: tudo isso está presente em A Intimidade e os Livros -- mas o bom Leitor sabe que não deve perder tempo demais com isso e há de avançar pelos desafios prazerosos deste livro concebido, justamente, para os mais legítimos e bem-intencionados leitores.

A única dúvida: ainda haverá disso no mundo?



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 25, 2007 às

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Literatura e futebol nunca deram boa liga no Brasil, nem renderam ao menos o equivalente a uma simples linha-de-passe.

Na verdade, os livros de ficção brasileira que tratam do esporte não dariam para encher muitas prateleiras da mais modesta estante. No país do futebol, nossas letras (com as exceções de praxe) parecem ignorar o assunto.

Claro que, em nenhum nos dois terrenos, nunca faltaram craques entre nós: Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector, de um lado; Pelé, Garrincha e Romário, de outro.

Mesmo assim, a regra tem sido clara: na relação promíscua entre cultura elevada e cultura popular que domina a cena cultural brasileira (e que já nos rendeu, entre outras coisas, a Bossa Nova), o bate-bola acabou ficando de fora.

(Falo da regra para enfatizar as exceções - e uma delas pode ser lida aqui.)
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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 24, 2007 às

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A crítica literária (que hoje, praticamente, inexiste) costuma ser acusada de invejosa e destruidora de talentos. "Quem tem talento faz literatura, quem não tem faz crítica", costumam dizer os ressentidos - quer dizer, os criticados.

Costuma-se também dizer que uma crítica "mais forte" pode destruir uma carreira, e até uma vida... Imagine o estrago que as palavras abaixo teriam produzido na vida de qualquer desses "coitadinhos" nossos contemporâneos.

Não foram proferidas por nenhum "invejoso" de plantão, mas pelo grande crítico Sílvio Romero, sergipano de boa cepa. E, graças a Deus!, do outro lado do balcão, na "alça de mira", estava ninguém menos do que Machado de Assis, que não "morreu" nem desistiu diante de palavras tão pouco... "airosas" - e quase todas proferidas enquanto Machado vivia e escrevia!

Com vocês, este confronto de titãs:


"Homenzinho sem crenças.”

“Lamuriento, burilador de frases banais.”

“O mais pernicioso enganador.”

“Sereia matreira.”

“Uma dessas criaturas infelizes, pouco ajudadas pela natureza.”

“Não tem, por circunstâncias da juventude, educação científica.”

“Teve bastante habilidade, bastante jeito, para não tomar partido no debate.”

“Quanto às idéias, não segue nenhuma, porque não as compreende.”

“Bolorento pastel literário.”

“Sem idéias, sem vistas, lantejoulado de pequeninas frases, ensebadas fitas para efeito.”

“Completamente chato, inteiramente nulo. O estilo é detestável (...), mudo ou completamente gago.”


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(Como diria meu sábio avô: "E ainda dizem que o mundo evolui!")



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 17, 2007 às

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Nunca fui grande admirador do cinema de Antonioni, de quem "tolero" apenas Blow-up e algumas seqüências de determinados filmes. Mas, lendo hoje na Folha de S. Paulo o artigo do diretor Martin Scorcese (de quem sou fã de carteirinha e crachá), resolvi dar a um e a outro o benefício da dúvida: vou visitar a locadora mais próxima para rever algumas coisas do cineasta italiano... (O texto é longo, mas vale a transcrição e a leitura.)

Antonioni desvendou mistérios da alma e libertou o cinema

Com filmes como "A Aventura", de 1960, diretor italiano morto há duas semanas abriu novas possibilidades para a arte

MARTIN SCORSESE
DO "NEW YORK TIMES"

1961. Muito tempo atrás. Quase 50 anos. Mas a sensação de assistir a ""A Aventura" (1960) pela primeira vez ainda está comigo, como se tivesse sido ontem.
Onde foi que assisti ao filme?
Foi no Art Theater, na Eighth Street? Ou no cine Beekman?
Não me recordo, mas me lembro, sim, do choque elétrico que me percorreu quando ouvi o tema musical que abre o filme -sombrio, staccato, dedilhado com cordas, tão simples e nítido, como as cornetas que anunciam o próximo tercio durante uma tourada. E então, o filme.
Um cruzeiro mediterrâneo, sol brilhante, imagens em preto e branco em tela larga, diferentes de qualquer coisa que eu já vira antes -compostas com tanta precisão, acentuando e expressando o quê? Um tipo muito estranho de desconforto. Os personagens eram ricos, belos de uma maneira, mas, poder-se-ia dizer, espiritualmente repulsivos.
Quem eram para mim? Quem eu seria, para eles?
Eles chegam a uma ilha. Separam-se, espalham-se, tomam sol, discutem. De repente, a mulher representada por Lea Massari, que parece ser a heroína, desaparece. Das vidas dos outros personagens e do próprio filme. Outro grande diretor fez quase a mesma coisa mais ou menos nessa época, num filme bem diferente. Mas, enquanto Hitchcock nos mostrou o que aconteceu com Janet Leigh em "Psicose", Michelangelo Antonioni nunca explicou o que foi feito de Anna (Massari). Ela se afogou? Caiu do penhasco? Fugiu de seus amigos e começou uma vida nova? Nunca ficamos sabendo.
Em lugar disso, a atenção do filme desloca-se para sua amiga Claudia (Monica Vitti) e seu namorado Sandro (Gabriele Ferzetti). Eles começam a procurar por Anna, e o filme se torna uma espécie de história de detetive. Mas logo nossa atenção é desviada da mecânica da busca, pela câmera e pela maneira como ela se movimenta.
Nunca se sabe para onde ela irá, quem ou o que seguirá. A atenção dos personagens se desvia da mesma maneira: para a luz, o calor, a sensação de lugar. E, depois, em direção um do outro.
Então o filme se torna uma história de amor. Mas também isso se dissolve. Antonioni nos faz tomar consciência de algo inteiramente estranho e incômodo, algo nunca antes visto no cinema. Seus personagens flutuam pela vida, de um impulso a outro, e tudo acaba se revelando um pretexto: a busca é um pretexto para estarem juntos, e estarem juntos é um pretexto de outra espécie, algo que molda suas vidas e confere a elas uma espécie de sentido.

O ritmo do mundo

Quanto mais via "A Aventura" -e voltei ao filme muitas vezes-, mais me dava conta de que a linguagem visual de Antonioni nos mantinha focados no ritmo do mundo: os ritmos visuais da luz e da escuridão, das formas arquitetônicas, das pessoas como figuras numa paisagem que sempre parecia assustadoramente vasta.
Enquanto quase todos os outros filmes que eu já vira chegavam a um clímax e uma resolução, "A Aventura" fazia o oposto. Faltava aos personagens a vontade ou a capacidade da verdadeira autoconsciência. Eles tinham apenas o que se fazia passar por autoconsciência, ocultando uma inconstância e letargia que eram ao mesmo tempo infantis e muito reais. E na cena final, tão desolada, tão eloquente, Antonioni se deu conta de algo extraordinário: a dor e o mistério de estar vivo.
"A Aventura" me causou um dos choques mais profundos que já vivi no cinema, maior do que com "Acossado" (1960) ou "Hiroshima, Meu Amor" (1959) -de dois outros grandes mestres modernos, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, ambos ainda vivos e trabalhando. Ou "A Doce Vida" (1960). Na época, havia as pessoas que gostavam do filme de Fellini e as que gostavam de "A Aventura". Eu sabia que estava do lado de Antonioni nessa divisão, mas, se você me perguntasse na época, não sei se teria conseguido explicar por quê. Eu amava os filmes de Fellini e admirava "A Doce Vida", mas me sentia desafiado por "A Aventura". O filme de Fellini me comoveu e me entreteve, mas o de Antonioni mudou minha percepção do cinema e do mundo, fazendo ambos parecerem não ter limites.
As pessoas com as quais Antonioni tratava eram mais ou menos tão estranhas à minha própria vida quanto seria possível ser. Ao final, porém, isso pareceu não ter importância. Fiquei hipnotizado por "A Aventura" e pelos filmes subseqüentes de Antonioni, e era o fato de eles não chegarem a uma resolução em algum senso convencional que sempre me atraía de volta. Eles propunham mistérios -ou o grande mistério de quem somos, o que somos, para nós mesmos, uns para os outros, para o tempo. Seria possível dizer que Antonioni olhava diretamente para os mistérios da alma.

Possibilidades

Antonioni parecia abrir possibilidades a cada novo filme. Os últimos sete minutos de "O Eclipse" (1962), o terceiro filme de uma trilogia informal que começou com "A Aventura" (o do meio foi "A Noite", 1961), eram ainda mais assustadores e eloqüentes que os momentos finais do filme anterior. Alain Delon e Monica Vitti marcam um encontro ao qual nenhum dos dois comparece. Começamos a ver coisas -as linhas de uma faixa de pedestres, um pedaço de madeira boiando num barril- e percebemos que estamos vendo os lugares pelos quais eles passaram, vazios de sua presença. Pouco a pouco Antonioni nos coloca cara a cara com o tempo e o espaço. E eles nos encaram de volta. Foi assustador e libertador. De repente as possibilidades do cinema se tornaram ilimitadas.
Todos nós testemunhamos milagres nos filmes de Antonioni -os que vieram depois de "A Aventura" e seu trabalho extraordinário anterior a esse filme, coisas como "A Dama sem Camélias" (1953), "As Amigas" (1955), "O Grito" (1957) e "Crimes da Alma" (1950), que fui descobrir mais tarde. Tantas maravilhas -as paisagens pintadas (literalmente, muito antes dos efeitos computadorizados) de "Deserto Vermelho" (1964) e "Blow-up -Depois Daquele Beijo" (1966) e a história da investigação fotográfica desse último filme, que acabou conduzindo as coisas para cada vez mais longe da verdade; o final assombroso de "Zabriskie Point" (1970), tão desancado quando saiu, na qual a heroína imagina uma explosão que leva os destroços do mundo ocidental a caírem em cascata pela tela, em câmera superlenta e cores vívidas; e a notável tomada final de "O Passageiro" (1975), na qual a câmera se desloca lentamente para fora da janela e para um pátio, distanciando-se do drama do personagem de Jack Nicholson e mergulhando no drama maior do vento, do calor, da luz, do mundo, que se desenrola no tempo.
Meu caminho se cruzou com o de Antonioni em várias ocasiões ao longo dos anos. Uma vez passamos o Dia de Ação de Graças juntos, após um período difícil em minha vida, e me esforcei ao máximo para lhe dizer o quanto significava para mim tê-lo conosco. Mais tarde, depois de ele ter sofrido um derrame e perdido a capacidade de falar, tentei ajudá-lo a fazer decolar seu projeto "The Crew" -um roteiro maravilhoso escrito com seu colaborador frequente Mark Peploe, diferente de qualquer outra coisa que ele já fizera antes. Lamento que isso não chegou a acontecer.
Mas foram suas imagens as que conheci, muito melhor do que conheci Antonioni, o homem. Imagens que continuam a me assombrar e inspirar. A ampliar meu entendimento do que é estar vivo no mundo.



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 16, 2007 às

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Certa amiga, rebelde por natureza e desinformada por estilo, tentou me explicar um dia seu desinteresse por Machado de Assis. Não era “questão de gosto”, garantia-me a moça: “É que eu detesto unanimidades!”

É a ela, portanto, que dedico esta “antologia de impropérios” contra Machado – que nem em sua época foi isso que costumam chamar de uma... “unanimidade”:

Do padre José Severiano Resende: “Aborígene do Cosme Velho.” “Literatura exígua, mirrada, mofina.” “Natureza mole e tépida, sem fibra, sem nervo, sem entusiasmo, sem ideal.” “Prototipia emasculada e inerte do corriqueiro, em poligamia branca com todas as realidades imbecis e inexpressivas da vida.”

Do escritor e filólogo João Ribeiro:
“Ele foi dura e rigidamente indiferente às nossas grandes agitações como as da guerra, da Abolição e da República.”
“Machado não tugiu nem mugiu. Não foi abolicionista nem escravocrata. Nem era monarquista nem republicano. Sempre ausente nesse tumulto, habitava Sirius.”

Do escritor Luís Murat:
“Há ali uma hiena encarcerada e amordaçada.”
“A alma se lhe estreita em uma contração epiléptica de espasmos.”
“Humorismo malfazejo e hipócrita.”
“Odeiem-no, porque ele é mau!”
“Sua pena destila fel e veneno.”
“Frio cinzelador de paixões ridículas.”
“Sua diretriz era a do inferno.”

Do escritor e acadêmico Graça Aranha:
“Sentimento de satisfeita subordinação aos despotismos.”
“Amava as tiranias em reconhecimento à segurança que lhe davam.”
“Mistificação satânica.”

Do poeta Cruz e Sousa:
“Machado de Assis, assaz,
Machado de assaz, Assis;
Oh! Zebra escrita com giz,
Pega na pena e faz ‘zás’,
Sai-lhe o Borba por um triz,
Plagiário do Gil Blás...”

(CONTINUA EM BREVE...)

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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 08, 2007 às

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Mais uma crônica imperdível do escritor português J. P. Coutinho. Hoje, na Folha:

"Não existem homossexuais

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?
A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?
Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.
Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.
Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.
Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra."



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 04, 2007 às

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A leitura é um dos últimos vícios solitários e, nesta era dos intermináveis apelos visuais, um bravo exercício de resistência.

Se escritores como Jorge Luis Borges e Machado de Assis foram leitores rigorosos e compulsivos – enquanto aventureiros como Artur Rimbaud não fizeram mais do que divagar sobre o que “viviam e sentiam” – não dá para fugir: a superioridade artística dos primeiros é um forte indício de que a leitura ainda faz toda a diferença.

* * *

Muita gente reclama da falta de condições ideais de concentração e silêncio para “ler em paz”. Talvez não saibam, por exemplo, que até o século IX a maioria das pessoas lia movendo os lábios, como as crianças, e escandalosamente em voz alta.

Embora os letrados não fossem muitos, os locais públicos de leitura na Idade Média, como as universidades e bibliotecas, eram um verdadeiro pandemônio, com dezenas de pessoas repetindo (para si mesmo ou para terceiros) as palavras escritas nos códices e rolos – os livros da época.

* * *

Longe de ser apenas um mau costume, a leitura em voz alta era, até certo ponto, imprescindível para a própria compreensão dos textos, que não dispunham de recursos hoje corriqueiros como os sinais de pontuação e os acentos. Na verdade, ainda não havia sequer a divisão em parágrafos...

Se hoje se diz que as pessoas lêem mal, imagine, caro leitor, naquela época.

* * *

O aprimoramento gráfico da escrita e a disseminação do livro como objeto cotidiano não trouxeram apenas um pouco de silêncio ao meio ambiente: garantiu mais concentração e, conseqüentemente, maior capacidade de entendimento e aprendizado.

Aos poucos, o hábito da leitura foi-se tornando aquilo que Santo Agostinho um dia definiu como “a interrupção temporária e corajosa de toda a ligação com o mundo”. Para o ilustre filho de Santa Mônica, abrir um livro era, acima de tudo, recolher-se.

Aos poucos, ler foi se tornando fundamental para a individualização das pessoas, em contraponto ao reboliço de antes. A leitura silenciosa foi, sem dúvida, um grande salto civilizatório.

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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 02, 2007 às

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Enquanto a mídia perde (ou ganha?) tempo se preocupando com bagatelas e nonadas, prefere fazer silêncio a respeito de acontecimentos editoriais efetivamente relevantes.

Entre eles, destaque total para o lançamento de uma edição brasileira de La trahison des clercs (A traição dos intelectuais), do filósofo francês Julien Benda (1867-1956). Lançado em 1927, o livro é um libelo imprescindível contra a adesão dos intelectuais às paixões políticas, em detrimento de seus verdadeiros compromissos com os valores superiores - como a verdade, a razão e a justiça.


Confiram a data original: o livro chega ao Brasil nada menos do que com 50 anos de atraso. Mesmo assim, não poderia ser mais oportuno e atual. Um instrumento de reflexão do calibre de um La rebelión de las masas, de Ortega y Gasset, que teve melhor sorte entre nós. Ponto para a novíssima editora paulista Peixoto Neto, que tomou para si a empreitada.

Lidos em conjunto, Ortega e Benda ajudam a compreender por que nossos intelectuais fazem algazarra por nada, enquanto sintomaticamente silenciam diante do essencial.
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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em agosto 01, 2007 às

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Quando um escritor que eu admiro escreve sobre outro que também figura entre os meus preferidos, não vejo outro jeito a não ser pedir as "devidas licenças" para transcrever o encontro, ocorrido na Folha de S. Paulo de hoje.

Com vocês, o português J.P.Coutinho escrevendo sobre o inglês Ian McEwan:

Morrer na praia

"Na Praia", de Ian McEwan, é a história de um duplo suicídio, que só o orgulho e a vergonha podem explicar


UNS ANOS atrás, George Steiner passou por Lisboa e, meio a sério, meio a brincar, informou o auditório que Shakespeare, se fosse vivo, estaria a escrever telenovelas. Os críticos locais riram da provocação, mas a frase não era provocatória: a tragédia é prerrogativa de tempos aristocráticos.
Na era democrática, onde diferenças de classe não desempenham papel fulcral, a tragédia acabou. Ou, se preferirem, emigrou para dentro de quatro paredes: para o íntimo mais íntimo de famílias anônimas ou de anônimos amantes, que se encontram e confrontam em dramas pessoais. Ingmar Bergman, morto esta semana, filmou como poucos esses momentos de intimidade, em que a tragédia é reduzida a palavras, gestos e rostos de famílias ou casais.
Bergman é um caso. Ian McEwan é outro. Falo de "Na Praia" (Companhia das Letras), a última novela de McEwan e uma pequena obra-prima da ficção contemporânea. A história, como as melhores histórias de Turgenev, é de assustadora banalidade: Edward e Florence amam-se, casam e, virgens como vieram ao mundo, jantam na noite nupcial. Cenário: um hotel na costa inglesa de Dorset. Ano: 1962. Não é por acaso: Philip Larkin dizia que o sexo começou em 63. Larkin falava da "revolução sexual" que transformaria o medo e a ignorância de Edward e Florence em relíquias pré-históricas.
Mas o ano, repito, é 1962. Edward teme a primeira noite por temer que ela termine demasiado rápido. O medo de Florence é de natureza diferente: Florence teme a mera possibilidade de a noite começar. O sexo é um animal estranho, como alguém diria. Para Florence, um animal estranho e visceral.
O que acontece no quarto seria motivo, hoje, para um riso envergonhado entre dois amantes. Mas não para Florence e Edward. E não para a Inglaterra de 62. O que acontece ganha os contornos de uma tragédia clássica, a que a ignorância de ambos confere um peso sepulcral.
McEwan é magistral na descrição do ato, ou no fracasso do ato, emprestando aos escritores vindouros a lição maior: quando se escreve sobre sexo, nunca se escreve sobre sexo. Mas a alma da novela está no confronto dos dois nas areias da praia. Estive em Dorset duas ou três vezes e, relendo o diálogo dos esposos depois do fracasso, não conheço cenário melhor para a mais funesta das despedidas românticas. Existe em Dorset a brisa gelada que normalmente acompanha os suicidas.
Suicidas? Precisamente. "Na Praia" não é, ao contrário do que seria de esperar em McEwan, uma história macabra sobre os abismos do desejo e do sexo. O sexo não passa de um pretexto. "Na Praia" é a história de um duplo e espiritual suicídio, que só o orgulho e a vergonha podem explicar.
Porque as tragédias, as tragédias de hoje, já não se fazem com famílias aristocráticas que convidam a atos desesperados e radicais. As tragédias, as tragédias de hoje, acontecem em silêncio, em privado. E, mais do que histórias de ação, elas são retratos de inação: acontecem quando nada se faz e os amantes se afastam, como num poema de Auden, cada qual em direção ao seu próprio erro."



Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em julho 31, 2007 às

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Leia n'O Indivíduo por que "debate público" é coisa que não existe - nem no Brasil, onde tudo é possível.
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Arquivado em: ler para crer — postado por Antonio Fernando Borges em julho 28, 2007 às

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Mais um sinal dos tempos? Pois não:

O melhor livro de crônicas do Brasil nos últimos tempos foi escrito e editado em Portugal.

Trata-se de Avenida Paulista, do jornalista e escritor português João Pereira Coutinho, reunindo os textos que ele publica regularmente na Folha de S. Paulo.

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Um pouco de tudo, em textos curtos e divinamente certeiros. Não dá para perder. Você vai chorar de inveja e repetir a já velha pergunta: "Cadê nossos grandes cronistas de antanho?!".
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