]

Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em junho 08, 2008 às
Camisa%20de%20Forca.jpg

...ou, melhor dizendo, a "mais recente loucura de Martim Vasques da Cunha" é, para quem não sabe, o lançamento de Dicta & Contradicta , caso raro de uma revista brasileira sobre filosofia, literatura, idéias e negócios do espírito que não é feita por intelequituais -- mas por adultos dispostos a tratar os leitores também como adultos.

Editada pelo Instituto de Formação e Educação, sob a batuta de jovens de fibra como Henrique Elfes, Joel Pinheiro da Fonseca, Rodrigo Duarte Garcia e Martim Vasques da Cunha, Dicta & Contradita é um acontecimento de peso, na contramão da indigência reinante no Brasil-País-de-Todos.

Para não acharem que estou exagerando: você conhece outra revista, editada no Brasil, que trate de Ortega y Gasset, Hayek ou Samuel Johsonn, em textos assinados por Mendo Castro Henriques, Roger Kimball e Luiz Felipe Pondé? Um pequeno milagre -- que traz ainda a transcrição da última aula do poeta Bruno Tolentino.

Nosso bravo portal também está presente neste "milagre", com um conto inédito de Antonio Fernando Borges, um artigo do Paulo Ricardo sobre os filmes de Max Ophüls e um texto de humor do grande Ruy Goiaba.

11019830.jpg

Quem estiver em São Paulo não deve perder o lançamento de Dicta & Contradicta, nesta terça-feira, dia 10 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

E para aqueles que acham que a a vida-do-espírito no Brasil é uma causa para sempre perdida, faço minhas as palavras de Thomas Payne, que o Gordo Alegre adorava repetir: "As causas perdidas são as únicas pelas quais vale a pena lutar".




Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em maio 28, 2008 às
obesidade_botero_img001%20-%202.gif

Nem o conservadorismo nem o excesso de peso são suficientes para que eu me considere um Chesterton. Ninguém é perfeito... Mas vai que ajudam?



Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em maio 19, 2008 às
436115786_71e61e79d1_m.jpg


Todas as vezes em que tento a desistência, pensando (por antecipação) que a Literatura vai acabar em breve e que o famigerado "gosto popular" vai tomar conta de tudo, como um grande esgoto universal, lembro-me das palavras de meu querido amigo Ivo Barroso, poeta e tradutor finíssimo, sinalizando que nem tudo afinal está perdido:

"Cachorro só come osso porque não dão carne pra ele!"

(Grande Ivo! Que os anjos digam: "Amém!")

((E agora que não têm mais desculpas, mãos à obra, seus preguiçosos!))



Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em maio 13, 2008 às
Socrates.jpg

Só mesmo numa cidade com nome de santo (e um santo dos mais corajosos), eu haveria de ter direito a este "milagre": falar para uma turma informada, inteligente, interessada.

Pelo menos foi com essa impressão que encerrei a primeira jornada sabatina do curso A Arte do Romance, que tenho a alegria de poder ministrar no Departamento de Humanidades do IICS - Instituto Internacional de Ciências Sociais, em São Paulo.

As intervenções do pessoal (tímido ainda) não foram muitas, mas foram invariavelmente procedentes: críticas lúcidas ao mito esquerdista Saramago, o superestimado escritor; reflexões sobre a idéia de originalidade, esta superstição inconveniente e moderna; citações de autores consistentes (meus caríssimos Ortega y Gasset e Chesterton entre eles).

Poder falar o que quero (e devo) falar, para pessoas interessadas em ouvir: eis uma pequena dádiva da vida. Renovei minha ração imprescindível de esperança.

Sábado (doce rotina!) tem mais.

São Paulo Apóstolo.jpg



Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em maio 12, 2008 às
Beethoven-clock.jpg


A surdez (anunciada) não me assusta: desde cedo, preferi sempre o silêncio...



Arquivado em: pequenos milagres — postado por Antonio Fernando Borges em março 27, 2008 às
7877788_e0916b510e.jpg

Aconteceu há algum tempo, mas só anteontem meu amigo me contou a pequena parábola.

Naqueles dias, ele andava sempre de cabeça baixa, catando os frutos amargos de uma temporada difícil. Pior do que o saldo bancário (à beira do vermelho) eram a fuga dos clientes e a falta de horizontes para sua empresa modesta. Ladeira abaixo, e sem freio: assim meu amigo definia a própria situação, sua humana condição naqueles dias.

Era exatamente assim (cabisbaixo, depressivo) que ele caminhava naquela manhã de domingo. E, graças à cabeça baixa, pôde ver à sua esquerda, num cantinho esquecido da calçada, a cena clássica da jovem pedinte, com a proverbial criança no colo, à espera da atenção e da misericórdia dos que passavam.

(Em outros tempos, a cena o teria irritado – pela poluição urbana, pela chantagem emocional... Mas, do jeito que ia, como sentir raiva de alguém tão parecido com ele?)

Quando passou pela moça, e a encarou, teve a primeira surpresa do dia, ao perceber a diferença nos olhos: eram mansos, sem a arrogância ressentida da maioria dos pedintes de rua. E pareciam (e certamente estavam) menos assustados do que os dele.

A segunda surpresa: a moça olhou para ele, mas nada pediu. Talvez por vê-lo triste, o fato é que abriu um sorriso tímido. Não apelou para o sentimentalismo habitual. Nem mesmo estendeu a mão.

Meu pobre amigo (cabisbaixo, triste), sentindo-se ali tão pobre e desamparado quanto ela, parou, tirou do bolso um punhado magro de moedas e notas miúdas e estendeu para a moça. Justificou-se, comovido:

“Desculpe se é pouco, irmã. Mas as coisas andam muito difíceis para mim também. Fique com Deus!”

Já ia se afastando quando ouviu a jovem falar, numa voz firme, agradecida e mais confiante do que a dele:

“Vai melhorar, senhor! Se Deus quiser. Tenha fé!”

O comentário generoso o pegou se surpresa: meu amigo não sabia o que fazer. Ficar? Conversar com a moça? Tentar “ajudá-la” de algum modo?

(Ela, de algum modo, já o estava ajudando!)

Não conseguiu fazer nada. Sorriu e se afastou. Mas sentiu uma pequena alegria, uma esperança gotejando dentro dele, ainda que bem miúda.

(Uma vontade, ainda que vaga, de não desistir.)

Por isso, não achou coincidência que, nas semanas seguintes, sua situação dramática começasse a mudar. Os pedidos e encomendas foram aparecendo: era a clientela voltando.

Meu amigo se lembrou, imediatamente, da jovem pedinte. Tornou a passar (e não poucas vezes) pelo mesmo local – mas nunca mais a encontrou ali, nem nas redondezas.

Até hoje se lembra dela. Mesmo sem crer em milagres, ele sabe que a vida é cheia de pequenos sinais, e que é preciso saber decifrá-los. E agradecer.