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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em abril 10, 2008 às
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Nos anos de juventude, comendo o pão amargo amassado por uma dupla de autores alemães ressentidos e mal-intencionados, nós - os valentes Camaradas - queríamos transformar o mundo à nossa imagem e semelhança. Tudo, sempre, em nome de um suposto... "amor à Humanidade".

Mas éramos (sem saber) incapazes de amar o próximo, no sentido mais simples e verdadeiro da palavra. Entre as proverbiais boas intenções e nossos gestos mesquinhos, espraiava-se o infinito.

Uma cena típica bastaria para ilustrar tamanho descompasso.

Era verão, era a tarde de um sábado ensolarado. Eram os intragáveis anos '70.

Saíamos em grupo da Faculdade, depois de duas horas extracurriculares de leituras marxistas - daquelas que acirram os ânimos dos jovens contra a sociedade em geral e contra a própria família (burguesa!) em particular. No caminho até o ponto de ônibus, cruzamos com dois pedintes, com as mãos estendidas e a cara de fome.

Todos nós passamos por eles de cabeça erguida, com a empáfia de quem conhecia a solução para aquelas "injustiças do capitalismo".

Todos, menos eu. Com o que ainda me restava do sentimento cristão, aprendido na infância, comovi-me subitamente com a cena: pus a mão no bolso e "sacrifiquei" parte do dinheiro reservado para os próximos lanches na cantina do Instituto de Comunicação - e estendi as poucas notas aos mendigos.

Parados alguns passos mais adiante, meus Companheiros me observavam com severidade. E aquele que se fazia de (e até se sentia) nosso Líder, adiantou-se em condenar meu "desvio burguês":

"É assim que você quer ajudar a transformar o mundo, companheiro? Retardando o conflito de classes através dessas atenuantes pequeno-burguesas".

Como um criminoso apanhado em flagrante, ainda esbocei uma reação honesta:

"Eles estavam com fome."

Mas o outro, implacável:

"Como se isso fosse uma justificativa! Será que você ainda não aprendeu que não se trata de casos individuais? Pessoas não contam; pessoas não existem, meu caro. O que existem são as classes sociais!"

Acompanhei o grupo em silêncio, até nosso destino imediato: o ponto de ônibus. Mas todos tinham os olhos sonhadores para o futuro distante: o "paraíso socialista".

(Durante alguns dias, meus companheiros continuaram me olhando desconfiados, sendo que nosso Líder ainda me recomendou algumas "leituras extras", para ajudar a curar meus "desvios de classe".)

A passagem dos anos me afastou desse Reino de Trevas - embora o pesadelo do "outro mundo possível" se encontre parcialmente instalado entre nós.

Dias atrás, no entanto, cruzei com meu ex-Líder, numa rua do Centro. Protegido por uma pilastra (ele não me viu), flagrei-o no instante exato em que negava esmola, atenção e piedade a um morador-de-rua. Espantou-o com um gesto de desdém - e seguiu em frente.

Amar a Humanidade é fácil, dizia Graham Greene, difícil é amar o próximo.

Pelo visto, meu ex-Líder continua acreditando que os homens de carne-e-osso são apenas uma abstração inoperante, ao passo que abstrações aberrantes como "excluídos" e "classes sociais" constituem a única realidade possível.



Arquivado em: oops! , pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em abril 08, 2008 às
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Depois de ter transformado a filosofia política numa espécie grotesca de "manual de guerrilha", Maquiavel passou à História como o suposto pensador-de-uma-frase-só: os fins justificam os meios!

(Um axioma que, para nossos intelequituais e políticos, constitui todo o receituário ético.)

É com base na suposta (em verdade, nenhuma!) força moral dessa frase que os baderneiros com carteira de estudante tentam legitimar sua autoritária ocupação da Universidade de Brasília.

Pela lógica "maquiavélica", o objetivo justo (expulsar do cargo o corrupto reitor Timothy Mulholland) garantiria a validade de seus atos tão pouco democráticos. Pouco importa, para eles, que a ordem constituída seja violada. Os fins, afinal, justificam os meios.

Mas, se a causa inicial é legítima, a tática de guerrilha utilizada não é. De forma alguma! Mas, no Brasil-um-País-de-Todos, os fins justificam os meios.

E nossos políticos e educadores justificam, por sua vez, os baderneiros. Ontem, o senador Cristovam Buarque, que acumula os dois "cargos", ocupou a tribuna do Senado para denunciar a violência e a ameaça à democracia representada... pela Polícia Federal, que tem o dever de cumprir a lei, expulsando os invasores da UnB!

Na baderna moral da educação (e da sociedade) brasileira, meninos mimados e arrogantes viram heróis. E a educação (ajudada pela má-consciência do senador-professor-doutor Buarque) vai atingindo, definitivamente, a Idade da Pedra.



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em março 19, 2008 às
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Nos pesadelos em que minha infância tantas vezes ardeu, havia monstros indizíveis, paisagens absurdas, desejos que não ousavam dizer seu nome. Mas certamente nenhum desses sonhos maus causava maior pavor do que a cena, assustadora e recorrente, da “síndrome da igualdade progressiva”.

Era assim: em sua versão mais banal (se é que a banalidade habita os sonhos), eu me via sentado à mesa de jantar, junto com a família. Mas aqueles estranhos não eram meus parentes: pareciam visitas desconhecidas se divertindo numa sala que se abrisse pouco.

Mas nem era essa a parte mais sombria dos sonhos: o pior começava quando afinal serviam o jantar e, à medida que davam as primeiras e gulosas garfadas, aqueles meus supostos parentes iam ficando absurdamente iguais entre si.

Todos passavam – horror! horror! – a ter o mesmo rosto.

Não era nenhum rosto especialmente monstruoso. Na verdade, demorei algum tempo até perceber que o que de fato me assustava era aquela crescente semelhança facial, aquele igualitarismo opressor que transformava a variedade de expressões numa única e mesma caraça inexpressiva.

Desde então, passei a olhar com desconfiança para todos os que apregoassem a igualdade como sinal de graça ou de justiça. Pela vida afora, em face desses “justiceiros”, lembrava-me sempre da minha assombrosa “síndrome” e sua “igualdade progressiva”.

(Certamente, um nome assim tão pomposo não brotou da idéia de um guri assustado, em nenhuma daquelas manhãs em que despertava encharcado de suor, sem entender ainda como a matéria de um sonho podia parecer tão real.)

Mas seria exagero dizer que, por conta dessa desconfiança, mostrei-me sempre arredio ao consenso humano e às multidões. Fui, inevitavelmente, jovem como qualquer um. E, quanto mais juvenil, mais horrivelmente gregário e coletivo é o ser humano.

Hoje, olhando a tendência igualitarista do mundo, já não sei se estou definitivamente sonhando ou se meus pesadelos viraram matéria-corrente, em plena luz do dia.



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 29, 2008 às
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Desde criança – e já na primeira ida a um circo – mostrou que não tinha medo da beleza violenta dos felinos, da ousadia voadora dos trapezistas ou da careta de determinados palhaços.

O que ela temia (desde criança) era o poder aparentemente irrestrito dos mágicos: objetos e pessoas flutuando, desaparecendo e ressurgindo em outro canto da cena; mulheres serradas ao meio, levitações – tudo aquilo assustava a menina, por mais que o pai a acalmasse: “É só um truque!”

Cresceu com este medo, que na verdade se cristalizou em crença materialista: na verdade, ela detestava tudo que lhe lembrasse a hipótese de uma dimensão sobrenatural. Para ela, a vida tinha que ser só o que saltasse aos olhos – a visível e irremediável matéria.

Não teve Papai Noel nos Natais, e a primeira-comunhão foi um sacrifício imposto pelos pais, sem qualquer epifania. Para sua segurança “mental” (recusava-se a dizer “espiritual”), criou para si mesma um mundo afastado de qualquer sinal do divino e do sagrado.

Por isso (enfatizava: “só por isso!), adorou O código Da Vinci e apoiava todas as crenças gnósticas de sua época. E, para reforçar sua fé na matéria, tornou-se cada vez mais pontual, empreendedora, infalível.

Um dia (mais exatamente, em 17 de julho do ano passado), a pontualidade falhou: ficou presa num engarrafamento em Porto Alegre, onde tinha passado uma semana a trabalho. Chegou atrasada ao aeroporto e perdeu o avião que (algumas horas depois) explodiria em Congonhas.

Numa surpreendente reação de raiva (e não de alívio!), gastou horas irritantes refazendo trajetos e remarcando passagem – incapaz de se dar conta do pequeno milagre, da explícita Graça recebida.

Só ontem pela manhã vim a saber de tudo isso – quando ela (velha amiga de Faculdade) me ligou assustada, incomodada, sem jeito. Tinha lido o horóscopo do jornal e ele aconselhava a não andar de avião naquele dia.

Pela primeira vez (admitiu, prendendo o choro) ela levou a coisa a sério, e sentiu medo. Tive vontade de rir e, afinal, espetá-la: “Você?! Lendo horóscopo?! E acreditando?!” Mas, acima de tudo, tive pena da moça: havia jogado fora todas as chances de crer no divino, no sobrenatural e no sagrado – ou que outros nomes tenha.

Agora, sem Deus à vista (seria irremediável?), estava começando a acreditar desesperadamente em "qualquer coisa"...


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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 28, 2008 às
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Quando os cabelos do moço começaram a ficar bem compridos e as roupas coloridas e desalinhadas demais, a irmã caçula logo pressentiu que, cedo ou tarde, a porta da rua se abriria para ele, sem bilhete de volta.

E então, como se estranhasse ou condenasse tamanha ânsia de liberdade e independência, vivia decantando para o irmão, com poucas variantes, sua filosofia de menina:

“Se você quer ir atrás da liberdade, vai conseguir só liberdade, e mais nada.”

Na época, o moço achava graça da força com que ela parecia defender o aconchego de um lar, a família e todo o resto – mas não fez empenho em ouvir: fez as malas.

Os anos voaram, é claro – como autênticas pombas parnasianas que passam ligeiras, num leva-e-traz de lições, vitórias, fracassos, decepções, alegrias, e todo o resto. Mas, das lições aprendidas a "toque de porrete", uma das mais importantes que adquiriu negava o conselho prematuro da irmã caçula: mesmo que não consiga ser (para alguns, para muitos) mais importante até do que a comida, a Liberdade se tornou para ele um bem difícil de se negociar.

(Com o tempo, aprendeu também que ninguém precisa abandonar a família para ser livre. Pelo contrário: só ela parece capaz de garantir um nicho de liberdade contra o Estado, o mais frio dos monstros.)

Já o vôo da irmã caçula tomou, desde cedo, outros rumos. Intelequitual, com diploma de dotôra na França, ela nem precisou fazer força para adaptar seu “medo da liberdade” aos novos tempos. Hoje, se alguém ao seu redor ainda persiste em algum ponto inegociável (a falta de liberdade em Cuba e no socialismo, por exemplo), ela refuta, com cinismo crescente:

“Depende do que você entende como liberdade, meu caro!”.

Só na semana passada, ele a ouviu dizer tamanho absurdo três (três!) vezes. Então conseguiu entender, para sempre, que a menina dos anos ’70 não falava em defesa da família, do aconchego do lar e todo o resto: era, desde então (medonhamente, precocemente), uma liberticida... Um ovo a mais, da velha e proverbial serpente.

Na terceira vez em que ela repetiu a frase insensata, ele ainda ensaiou argumentar, quis fazer ver à irmã que liberdade qualquer passarinho entende o que é - e não só as pombas parnasianas... Etc. Etc.

Mas desistiu: à sua volta, tudo havia se tornado um pesadelo, e talvez fosse tarde demais para tentar acordar.

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Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 18, 2008 às

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Entrou na lanchonete mais próxima e fez o pedido habitual, a que seu estômago já estava acostumado:

"Por favor, um sanduíche de salaminho com queijo prato no pão francês. Com muita manteiga!"

Não tinha reparado ainda na bela moça sentada na outra ponta do curto balcão, bebericando de canudinho um suco esverdeado. O primeiro sinal perceptível da existência dela foi a voz, acusatória:

"Você não deveria comer estas coisas assim logo de manhã!"

Olhou para ela, com justificado espanto - mas preferiu se manter neutro, calado, para não atiçar o inimigo. Mas o inimigo insistia:

"Aliás, você não deveria comer estas coisas nunca!", e a voz, enfática, até parecia grifar o advérbio.

A bela conseguiu (bingo!) deixá-lo irritado, e ele enfim reagiu:

"Desculpe-me, mas não não me lembro de ter contratado seus serviços de nutricionista..."

Já meio esverdeada, como seu suco, ela olhou em volta, à procura de aliados:

"Viram só? A gente tenta ajudar e é tratada assim..."

Ele retomou a estratégia inicial de neutralidade, concentrando-se no sanduíche que tinha acabado de chegar. Mas, assim que deu a primeira mordida no ansiado banquete, a bela reiniciou o ataque:

"Por acaso você sabe quantas pessoas morrem todo ano de câncer ou de enfarte? E tudo por causa da comida?!"

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Foi demais! Ele perdeu a paciência, largou o sanduíche e se virou, pronto para a guerra:

"Não sei, não. E você: sabe?!"

Mas ficou apavorado com o que viu: a bela tinha ficado completamente verde, da cor do suco que tinha acabado de beber!

Então, deu um grito.

Acordou assustado, suando, incomodado com um barulho insistente: era o telefone.

Atendeu, ainda bocejando. Era sua irmã mais nova, dotôra em Ciências Sociais, que tinha o hábito insalubre de ligar sempre pela manhã, para provocá-lo. Dessa vez, não foi diferente:

"E então? Satisfeito com a vitória do seu filme fascista e preconceituoso?"

(Referia-se, claro, à performance de Tropa de Elite em Berlim....)

Disposto a evitar o cisma familiar, ele conciliou:

"Fascista eu sei que você acha... Mas... preconceituoso?!

Ela confirmou:

"Claro! Revi o filme ontem à noite, no DVD. É extremamente preconceituoso com os traficantes de droga. Ou você esqueceu como ele retrata o Baiano? Como se fosse um bandido! Chega a ser ofensivo!"

Assustado, ele se despediu às pressas da irmã, desligou o telefone e fechou os olhos, tentando dormir de novo.

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Àquela altura, a moça verde do pesadelo já não lhe parecia tão indigesta...



Arquivado em: pesadelos — postado por Antonio Fernando Borges em fevereiro 15, 2008 às
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Foi chamado de traidor pelo amigo, que devorava uma pizza diante dele, na mesa da lanchonete. A presença de uma terceira pessoa, testemunhando a cena em silêncio, tornou a situação ainda mais humilhante.

Traidor?! Ele?! A acusação lhe parecia insólita, descabida. Simplesmente, havia abandonado suas posições esquerdistas, dogmas e doenças juvenis, em troca do amadurecimento e da dor de aprender que o mundo não é o laboratório onde experimentamos nossas idéias.

Havia mudado de opinião, simplesmente. Mas nunca havia traído pessoas.

Achou melhor não discutir – e até preferiu relevar o “detalhe” de que o amigo que ali o acusava comungava com suas idéias atuais.

Será que o outro estaria falando em nome de alguma “coerência”, supostamente uma virtude maior? E os serial killers, que são a “coerência" em pessoa?...

Mas preferiu não brigar. Apenas sorriu, olhou o relógio e alegou algum compromisso. Cumprimentou os outros dois e saiu.

Sabia que estava levando um inferno com ele – e que o amigo era quem tinha acabado de acender a caldeira.

Atordoado, distraído, atravessou a avenida quase sem reparar no carro veloz...

O carro freou a tempo. Mas ele mal pôde se desculpar pela imprudência: quando pôs a cabeça para fora da janela, o motorista pronunciou uma única palavra (a mesma, acusatória):

"Traidor!"

Então deu um grito. A mulher o sacudiu, assustada - e ele finalmente acordou, suando...